Mudar é preciso.

Não tenha medo, nunca, de mudar.

 

Não tenha medo de parar de ler um livro pela metade. Ninguém é obrigado a ler tudo até o fim. A história não cativa? O enredo te é chato? Tu não suportas mais a descrição enfadonha de tudo? Então pare. Feche as páginas, quase terminando, e pare de ler. Não se obrigue a continuar nesse conto, porque ninguém deveria ser obrigado a nada parecido. Procure um novo livro: ao invés de drama, pegue um romance. Ao invés de investigação policial, busque uma fantasia épica. Busque, até, um de autoajuda quando os livros de autores pseudo-cult te encherem o saco. Apenas mude.

Não tenha medo de mudar de estilo de se vestir. E daí que a calça apertada não dá mais em ti? O quê que tem se a saia rodada te deixa na dúvida? O que tem de mais se um cropped que antes tu amavas agora é mais uma peça sem uso? Não tem problema não gostar mais da mesma roupa da semana passada. Quê que tem? Troca: usa uma jaqueta listrada nova, tenta usar menos all star, procura uma nova cor ao invés de branco, azul claro e preto. Saia dessa pele antiga e busque um vestido novo.

O que tem se você escolheu errado esse curso ou profissão? Se você tinha chances e condições para isso, e ainda assim se sente estranho ali, qual o problema? Só porque todos ao seu redor e a tua família insistem com o papo chato de te comparar aos outros tu tens de aguentar todos os dias estudar algo que odeias? Tens de aguentar todo dia professores babacas, disciplinas inúteis e ladainha acadêmica?

Não sinta receio de abandonar algumas pessoas que te fazem mal. É difícil se separar de antigos amigos, namorados e conhecidos que te fazem ficar triste e te sugam a energia. A gente acaba se acostumando a eles; convive, divide vidas, experiências, afetos e confiança. Mas, às vezes, algo dá errado no caminho e tudo se perde. Então a gente percebe que precisa cortar laços, acabar com aquilo que os mantém ligados pra que a vida siga bem. Às vezes é preciso abandonar alguém que a gente até pode amar, mas que não nos ama de fato, para que a gente possa, enfim, amar outras coisas novamente.

Jamais sinta vergonha de errar. Todos erram e já erraram alguma vez na vida. Nós não somos diferentes: erraremos até não poder mais. Construiremos coisas ruins com os erros, mas também criaremos coisas maravilhosas com eles (eu, por exemplo, conheci o amor da minha vida num “erro”, que foi beber demais). A gente vai se acertando, remendando devagar os cortes e reconstruindo nós mesmos, porque algumas vezes estaremos totalmente destruídos. Mas sempre sobra um pedaço pra recomeçar, acreditem.

Nunca, em hipótese alguma, se recusem a amar. Se estiver apaixonado, declare-se. Se estiver com “crush” em alguém, vai lá e tenta. Se realmente é amor, então se jogue. Não “tenha cuidado” demais; não “vá devagar” demais. Não “desapegue” demais. Não “se faça de difícil” demais. Joguinhos não são legais, na real. São chatos e desnecessários. Porque eles te fazem perder as pessoas, te fazem se afastar e te fazem deixar de amar alguém.

O amor não foi feito (seja lá quem tenha o feito primeiro) para ser escondido, mascarado, dosado ou comprimido. Ele nasceu para ser livre, para voar e amar. O amor é sentimento forte demais para qualquer gaiola, e nada deve, jamais, deixa-lo longe daquele que o faz existir.

Diga às pessoas que tu amas que tu as ama. Diga aos teus pais; diga aos teus tios; diga aos teus avós; diga aos teus filhos; diga aos teus amigos; diga aos teus melhores amigos; diga aos teus irmãos de sangue; diga aos teus irmãos de vida. Diga a todos aqueles que te fazem sentir amor de alguma forma que os ama. Não tenha medo de amar, nunca.

 

Mudar é difícil. Dói, machuca e às vezes nos marca pra sempre. Mas, às vezes, é necessário. É preciso que os pássaros migrem para sobreviverem. É preciso que as estações mudem para o mundo continuar. É preciso mudar quando nada ali te faz bem. Mudar, de novo, nunca será fácil.

Mas mudar é preciso quando é a única opção.

Mude hoje.

Porque amanhã pode ser muito tarde para tudo isso.

Mas, acredite, se a mudança começar hoje, então, amanhã o dia pode nascer mais escuro. Então, do nada, depois de amanhã o sol brilha mais pra ti. E tu vais perceber que mudar era preciso.

Vais perceber que é mudando que a gente encontra a tão sonhada e confusa felicidade.

É isso.

Apenas (tudo) isso.

 

Abraços, amigos.

Feliz 2018 para todos nós.

Que o amor sempre esteja ao alcance de vocês.

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Sinceramente, eu te amo.

Sinceramente, eu te amo. Do fundo do peito, do fundo da alma e do fundo do fundo.

 

Não consigo esconder, nem que eu quisesse. Mas não quero: não me preocupo em esconder. Não existe motivo para isso, nem razão ou qualquer coisa parecida. Seria como tentar esconder o rabo do cachorro que balança quando seus olhos se alegram. Pra quê esconder? Meu amor por ti explode a cada vez que meu olhar mira o teu, mesmo quando teu olhar tá mais baixo ou distante. Meu amor procura o teu.

 

Existe gente que consegue esconder, é claro. Mas não sou assim, não. Não consigo nem medir sentimentos, oras. Já me disseram pra “não amar demais”, “não se envolver”, “não dizer ‘eu te amo’ logo no início”. Eu nunca ouvi esse povo.

 

Sempre deixei meus olhos falarem por mim. Sempre menti quando dizia a mim mesmo que não estava apaixonado ainda por ti. E perceba que digo esse “ainda” porque eu já sabia, por dentro e por fora, que em algum momento meu coração ia ser teu. E logo se tornou, porque mal tardou o primeiro mês e já era teu, inteiramente teu. Em nenhum momento eu consegui mentir pra alguém dizendo “eu não a amo”.

 

Hoje vejo que te vejo em tudo que vejo. Em todos os cantos dos meus momentos e dos meus dias. Eu pego um ônibus e me lembro de ti, quando pegava algumas horas para te ver no carro. Quando vou à praia me lembro de ti, porque a gente começou na areia e no mar. Quando toco violão eu me lembro de ti, porque já tô na terceira música feita pra ti (terminadas, claro). Quando eu me deito me lembro de ti, porque sempre sonho contigo. Até acordado eu sonho contigo, né?

 

Adquiri umas manias: fico te olhando dormir e roncar (pouquinho só). Escrevo bilhetes pra ti, mesmo tendo celulares, e deixo perto da cama quando tenho que sair cedo. Tento te desenhar de formas diferentes, mesmo não sabendo desenhar nada. Tento cozinhar, também, pra te alimentar quando estás mal. Te faço rir de tantas formas bobas e babacas diferentes, só pra tu rir mesmo de alguma coisa. Sorrio em cada palavra que escrevo sobre ti, ainda mais quando sei que não sabes que tô escrevendo pra ti. O que é quase sempre.

 

E se eu tenho que repetir palavras várias vezes, não é porque eu não saiba mais termos pra ti. É que eu me meio que me perco e fico sem jeito quando falo de ti. Claro que, se me perguntarem, posso escrever páginas e mais páginas à teu respeito, mas ainda assim é complicado escrever sobre ti. Porque quando penso em tudo que compõe tua pessoa, eu fico perplexo, fico nervoso e até procurando formas novas de te escrever.

 

Acontece que eu te amo. Eu, sinceramente, te amo. Muito mais do que eu achava que poderia amar. Muito mais do que eu achava que merecia. Muito, muito mais do que eu jamais amei a mim mesmo. E isso pode soar como nocivo, mas não posso evitar. Não penso mais em mim, penso em nós; em cada plano novo eu te coloco. Em cada plano antigo eu me culpo por não ter te posto nele antes.

 

E em cada instante meu eu te espero, seja estando longe ou perto de ti.

 

Eu sempre te espero.

 

Não sei porque nem para onde, mas eu te espero sempre.

 

Porque, sinceramente, eu te amo.

O amor que a gente cultiva.

Um dia, talvez, você vai se apaixonar por alguém. Provavelmente isso irá acontecer, porque eu nunca vi alguém que nunca tenha suspirado por outra pessoa. E também é provável que você ame alguém. Mas o amor não durará se você não o cultivar direito. O que seria cultivar? Justamente o que fazemos com as plantinhas: tomar o amor como uma semente e plantar na gente, e regá-lo com os nossos esforços.

 

O amor passará por provações diversas. Um dia pode haver uma briga, mas nada de mais também. Só que se não tivermos a paciência, humildade e falta de orgulho (sentimento de merda) essa briguinha pode se tornar rancor, que depois vira mágoa e, assim, uma possível perda. E quando chegamos ao ponto da perda, onde se perde costumes, carícias e até o mais simples “te amo”, tudo está perdido. E você perdeu seu amor.

 

É preciso ser companheiro, caminhar junto quando a estrada estiver cheia de pedras quentes e vidro quebrado. Haverá momentos em que os caminhos que vocês escolheram seguir, seja ele qual for, terá pedregulhos, obstáculos e cansaço para lhes parar. É difícil, às vezes, ter serenidade para seguir em frente. Mas, na maioria das vezes, quando há parceria e um amor confidente mesmo, então mesmo a mais dura pedra irá se quebrar perante os seus passos firmes.

 

Haverá dias de cansaço. Pode ser que o tempo seja ruim, que a chuva não pare de cair, que vocês se sintam tristes e sozinhos, mesmo um ao lado do outro. Podem se perguntar “estamos bem?”, ”o que está acontecendo?”, “o problema sou eu?”. E nada disso poderá ser respondido ao certo. O que acontece é que o sentimento persiste. Se for real e forte, ele permanece e segue junto, reerguendo os caminhos que caíram e pedaços que ficaram para trás.

 

E, claro, você pode errar. Pode magoar seu par, ferir, machucar e fazê-lo sofrer. Isso pode acontecer, é normal. E nesses casos é preciso voltar atrás e fechar os cortes, e limpar todas as lágrimas que a gente derrama. O amor sofre, a gente pode causar isso; mas a gente também pode sempre voltar atrás, sempre.

 

O amor se cultiva, se planta e se colhe. E se vive, sempre, em qualquer tempo que der. Sem esforço e dedicação, não há amor. Não há jamais amor.

 

Plantem amor, sempre, e nada além de um grande amor. Com todos os seus defeitos e lindas imperfeições.

 

Abraços.

XIX Crônica: Da janela do ônibus.

Depois de passar alguns dias na casa de um amigo, Haroldo pega o ônibus de manhã cedo de volta para o Rio de Janeiro. A viagem é tranquila, apenas um pouco longa. Ele senta-se quase sozinho no veículo e aproveita a vista das ruas numa bela manhã de domingo.

 

Da janela ele vê um filho acompanhando a mãe na feirinha. Ele carrega algumas frutas e vários legumes pra ela, que parece bem cansada e fraca. Ela dá ordens a ele, que obedece sem fazer muitas caretas. Batem boca uma hora, mas não brigam de fato. E no fim, já esperando pra entrar na van, ele dá um beijo e um abraço nela. Entram e partem.

 

Mais à frente enxerga homens sentados na frente de um bar, já fechado. Eles têm, entre si, um litrão de cerveja pela metade e uma cachaça. Eles tomam juntos a cerveja, que acaba rapidinho. Um deles puxa a outra bebida pra si, enche um copinho e oferece ao parceiro. Eles conversam muito, bebem, riem alto e se divertem. Apontam para qualquer direção enquanto falam de tudo. Um deles tenta levantar, mas cai. O outro ri. Eles se xingar e riem mais ainda.

 

Depois de algumas quadras, Haroldo vê um grupo de jovens, gente da idade dele praticamente, virados depois de alguma festa. Mal conseguiam caminhar direito, e a visão devia se confundir em meio ao álcool no sangue e à fumaça de cigarro que alguns deles fumavam. Um casal começou a se beijar, sendo deixados pra trás por alguns minutos pelos amigos. Vendo a brincadeira feita, os dois rapazes pararam e, de mãos dadas, continuaram a seguir o grupo.

 

Quando parou no sinal, Haroldo viu pela janela um rapaz andando apressado. Ele tinha consigo uma sacola transparente, a qual dava pra ver o que tinha dentro: chocolates e doces em geral. Nos olhos do rapaz, animados e nervosos, dava pra ver que ele estava com pressa. Ele sumiu e foi reaparecer alguns quarteirões à frente. Ele havia encontrado uma mulher. Eles se olhavam de uma forma apaixonante, rindo como bobos que deviam ser. E ser bobo, nesse caso, é a melhor coisa possível.

 

Ele entregou a ela a sacola. Se beijaram apaixonadamente, riram juntos e ficaram abraçados por alguns longos minutos. Haroldo não viu o que fizeram depois. O ônibus continuou seu caminho, e o casal continuou seu amor.

 

Viu então, em frente a um restaurante, um homem almoçando. Era cedo, mas ele já comia. Estava sozinho, apenas com seu prato. Seu rosto estava baixo, cansado e sereno. Ele comia como se não sentisse gosto, como se fosse apenas pra não morrer. Bebia água como se não tivesse nem o gosto de matar a cede. Não esboçava nenhuma emoção sequer.

 

Atravessou a ponte de volta para o Rio de Janeiro. Ali, pensou em tudo que viu. Sentiu saudades de várias coisas, e até sentiu os olhos ficarem marejados. O ônibus ainda estava meio vazio. O sol da manhã do domingo entrava pela sua janela, sem filtro ou perdão. Inundava seus olhos, fazendo-os brilhar ainda mais. E ele sentiu, dentro de si, tudo aquilo de novo. Saudades, tristeza, culpa e amor. Todos juntos. Como, em muitos casos, eles costumam andar.

 

Finalmente chegou ao seu destino. Desceu, viu sua casa e caminhou pra ela. Mas sem antes ver, do outro lado do quarteirão, uma senhora se despedindo de um senhor. Este entrava no ônibus. Ela ficava. Ambos sorriam. E Haroldo não segurou nem mais um segundo o choro.

 

 

O amor nem sempre é o suficiente.

O amor é o sentimento mais complicado que tem. Por isso escrevemos tanto sobre ele e ainda assim não se esgotam as palavras. É o sentimento mais complexo e bonito que existe. Onde há amor há felicidade. Mas também há dor. E não porque o amor seja ruim, mas porque, às vezes, ele encontra barreiras pra poder existir. E nessas horas percebemos que palavras como “reciprocidade” ou ideias de que o amor pode tudo não são tão fortes assim.

 

O amor pode cansar, porque ele é rotina, e não apenas bons momentos. Ele é compreensão, parceria e cuidado. A gente se importa com quem ama, e demonstra que estamos ali sempre pela pessoa. É claro que nem sempre poderemos estar pessoalmente, ou até fazer de tudo que gostaríamos. Às vezes nem sequer poderemos fazer a pessoa feliz naquele dia ou em tantos outros. A gente tenta, e tenta bastante, quando ama mesmo; e nem sempre conseguiremos fazer nosso parceiro feliz. Mas o amor tem dessas coisas. Ele não é perfeito.

 

O amor se constrói todos os dias. É difícil dizer que se ama alguém logo de cara. Acontece, claro, mas acho difícil. A gente o molda nos nossos pequenos atos e manias, e deixamos lembranças dele por aí, como fotos num álbum. A gente elege um bar favorito, onde mais costumamos ir; a gente lembra das comidas que o outro não gosta, pra, só de brincadeira, colocar aquela cebola debaixo do arroz que o outro tanto odeia; a gente decora os poemas e músicas favoritos um do outro, pra mandar pela internet ou marcar no Facebook. A gente aprende os medos, as manias e os sonhos de cada um, e também guarda as linhas e caminhos de ônibus e metrô pra chegar mais rápido na casa do outro. Isso tudo a gente faz devagar e sem perceber. Porque acabamos guardando as melhores coisas um do outro.

 

O amor faz a gente perder um pouco a vergonha. A gente se mete a cantar desafinado pro nosso amor, aprende a dançar (ou ao menos tenta), fazemos a barba, mudamos a cor das roupas, melhoramos a postura e até aceitamos escutar algumas músicas que achamos bem chatas (além de algumas que acabamos gostando e nos viciando). Então de repente você está usando aquela blusa que ganhou, toda colorida, mas nunca tinha tirado nem a etiqueta, porque o seu parceiro disse que você fica lindo nela. É claro: pra ela/ele sempre somos lindos, mesmo que às vezes sejamos, como diriam no Pará, um “estraga mãe” de tão feio.

 

Mas o amor também rima com dor. E ele pode nos fazer sofrer. Às vezes, é preciso entender que nem somente o amor ser recíproco o deixa imune de dor. Porque a vida é um conjunto de sentimentos e acontecimentos, e nem todos (na verdade, quase nenhum) podemos prever ou até mudar. As nossas vidas não dependem apenas de nós mesmos. Dizer que construímos nosso próprio destino e que o amor sempre pode tudo é lindo, mas não são verdades. A gente caminha por uma estrada escura e sem saber onde vai dar. Às vezes as curvas nos levam pra lugares lindos, mas outras também nos trazem tristeza.

 

Amar é saber a hora de deixar ir. Por um dia, por uma semana, por um mês, pra sempre ou pelo tempo que for preciso. Não é por não amar, mas por amar demais que muitas vezes precisamos deixar o outro ir. Pra onde ele vai? Pra outra pessoa? Pra outro lugar? Será que ele volta? A gente nunca sabe. A gente não tem como saber. A gente, que ama mesmo, apenas pode aceitar que nem sempre seremos a felicidade do outro naquele instante. Pode ser, por tantos motivos, que seja preciso se separar agora, pra que daqui a um tempo vocês voltem e possam tentar ser felizes de novo. O amor é dúvida também, e nem sempre certeza total.

 

Quanto tempo isso tem de durar? Quem sabe, né? Ninguém. Mas quando se ama, se espera. Não eternamente, nem por um dia só. Apenas se espera. Porque o amor faz a gente perder o tempo, a noção das coisas e a cabeça. Pra quem ama, estar longe um dia é o mesmo que estar longe um ano: a saudade começa quando pensamos em nos separar dos nossos amores. Seja por uma hora ou uma vida.

 

E, pra quem ama, se tiver de esperar um tempo que não pode ser medido, tudo bem: o amor espera. Machuca, dói, faz sofrer, chorar e querer desistir. Mas toda a dor parece ir embora quando o amor volta.

 

Às vezes o amor volta, às vezes não. Não dá pra saber. Ninguém pode garantir que nenhum amor sobreviverá a nada, seja a uma briguinha ou a uma separação de anos. Ambos podem durar, e ambos podem se desfazer. Mas em todos os casos o amor fica guardado pra depois, em lembranças boas e ruins, em dias bons e ruins, em manhãs de domingo, em noites de sábado e em tardes em tantos outros dias.

 

Isso não é fantasia ou sonho; é apenas o (in)perfeito amor.

 

O que, na prática, podem ser as mesmas coisas.

 

Abraços.

XVIII Crônica: Pelo telefone.

– Alô? – disse Jéssica, com voz fraca e desanimada.

– Oi, meu bem. Como tu estás? – respondeu Gabriel, com a voz travando, mas ainda assim alegre em ouvir a dela do outro lado do telefone.

 

Depois de uma pausa de alguns segundos bem longos, ela disse:

 

– Não.

– O que tu estás sentindo agora? – indagou Gustavo.

– Dor…de cabeça, no peito. Tô tonta também, com fome e – uma pausa rápida – com saudade.

– É…eu imagino. Queria estar aí contigo. Queria poder te ajudar mais, sabe? É uma merda isso de não ser capaz de fazer tudo sempre. E eu só começo a achar que isso é ruim agora, depois de te ver desse jeito. Eu quero ir aí hoje, posso?

– Não – disse Jéssica, querendo dizer “sim” – Os médicos não vão deixar. Eles mandaram o Pedro embora agora há pouco. Eles estão me deixando sozinha aqui. Não quero ficar sozinha…

– Amor, calma. Não estão te deixando sozinha. É um procedimento padrão, eu acho. Não concordo, mas infelizmente a gente precisa seguir isso, pelo menos agora. Sei, digo…imagino…que seja terrível a tua situação aí. Acredita em mim quando eu te falo que queria estar toda hora contigo. Porque eu queria.

 

Ela respirou fundo, dando pra ouvir bem o ar passando pelas narinas dela do outro lado da ligação, e disse:

 

– Por que você não vai embora? Eu tô te fazendo sofrer. Você merece algo melhor. Merece alguém saudável, alguém que consiga fazer as coisas direito, não uma louca que nem eu. Vai embora, Gabriel. Vai enquanto dá tempo. Você só vai sofrer comigo.

– Não vou embora nada, Jéssica. Nem adianta repetir isso pra mim várias vezes. Pode falar o que quiser, mas não existe isso de merecer. Eu te quero, só a ti. E não vai ser um contratempo desses que vai me assustar. Ora porra, se eu não te quisesse tanto eu não te escrevia toda hora alguma, mesmo aquelas que tu não leste ainda.

 

Ambos riram um pouco, o que foi bom pra quebrar a tensão. De alguma forma, ele sabia que ela estava sorrindo.

 

– Tá com o violão aí? – ela perguntou a ele, com a voz mais doce, mas ainda um pouco dolorida.

– Tô sim, meu bem. Queres ouvir alguma música?

– Quero. Toca a minha?

– Claro! Só pegar ele aqui.

 

Gabriel largou o telefone por um segundo, levantou rápido da cama, correu pro canto do quarto, retirou o violão da capa e pegou o celular de novo.

 

– Oi. Voltei.

– Oi.

– Posso tocar então?

– Pode.

 

De novo, ele sabia que ela estava sorrindo. Então começou a tocar.

 

Cada nota ali era ela, de alguma forma. Cada sequência, cada escala descendente, toda cadência perfeita, imperfeita, interrompida, de engano, todas as frases, membros de frase, elisões, modulações e fraseados eram ela. Toda ela. E durante a segunda parte, quando o tom ia para outro diferente, distante e maior, ele começou a sentir os olhos pesados, “marejados”, como ela dizia. Então a respiração ficou tensa e os suspiros de melancolia vieram logo sem nenhuma precaução.

 

Ele terminou de tocar com força e sentimento, tendo ela inteira na mente, sua imagem e cheiro. E depois perguntou se ela tinha gostado, se tinha ouvido bem e coisas assim. Ela respondeu:

 

– Você está chorando?

– Só um pouco, relaxa – respondeu a ela – Nada de mais.

– Por que você tá chorando, amor?

– Ah, tu sabes. Saudade dói pra caralho.

 

Ela ficou em silêncio. Agora, ela que começou a chorar. Sem prantos, só a respiração pesada e lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela disse:

 

– Lê pra mim?

– Leio sim, meu bem. O que tu queres? Algum conto? Poema?

– Qualquer coisa. Só tô com saudade de ti ouvir lendo pra mim.

– Tá bom, deixa eu pensar em algo aqui rapidinho.

 

Então ele escolheu um conto que havia escrito sobre eles. Sobre como se conheceram, há exato um mês e cinco dias. Ele leu, interpretando falas dos dois, de momentos que estavam embriagados (quase todo o conto), rindo, chorando, discutindo sobre tantas coisas ali naquelas palavras. Em determinado momento, Jéssica parou-o e disse:

 

– Desculpa, preciso tomar remédios agora. Posso te ligar depois?

– Claro, meu bem. Liga sim. Eu te espero.

 

Desligaram.

 

Minutos depois, ela ligou de novo, e ele retomou o conto.

 

Ao fim, ela, já suspirando de novo, disse sussurrando, como adorava fazer ao telefone:

 

– Eu te amo, Gabriel.

 

E ele, sem mais nada a dizer, apenas respondeu:

 

– Eu te amo, Jéssica. E não, antes que tu digas algo, eu não vou embora. Eu tô contigo, em qualquer situação. A gente vai passar por essa barra. Vamos sim. E a gente ainda vai pra Paraty nas férias, ainda vamos acampar naquela praia lá que eu não me lembro do nome em algum canto de Niterói, ainda vamos fazer guerra de cheddar, tu sujando a minha barba e eu o teu cabelo, vamos beber até rir de qualquer coisa besta, recitar tantas e tantas poesias, cantar desafinados, enfeitar o domingo, discutir Caetano e morrer de rir. Tudo isso juntos. Vamos?

 

– Vamos!

 

E a animação dela deu um pouco de esperança pro coração dele. Aquela esperança que nunca sumiu, mas que se escondeu muito bem naqueles dias tão tristes, tão pesados e tão doloridos para aqueles dois.

 

– Preciso resolver umas coisas aqui com os médicos, tá bom? Eles vão ter que aplicar alguns remédios, e antes eu preciso comer. Posso ligar pra você depois?

–Claro, meu bem – respondeu Gabriel, sorrindo. – Liga a qualquer hora. Tô te esperando. Tá bom?

– Tá bom. – ela respondeu, querendo ficar mais um pouco. – Te amo.

– Também te amo, meu bem.

 

E ela desligou.

 

E ele escreveu.

Se um escritor se apaixonar por você.

O fato é que se um escritor (a) se apaixonar por você eu lhe desejo sorte. Não por ser algo ruim ou bom, porque isso é relativo sempre. Mas porque, na maior parte das vezes, você vai precisar de sorte com ele (a). Isso porque o escritor(a) é uma pessoa estranha, antes de tudo.

 

É uma pessoa que está sempre te observando, captando todos os seus detalhes e manias, suas roupas favoritas, seus costumes tipo: jogar o cabelo pro lado quando está feliz ou roer as unhas demais. Ele (a) vai até “jogar na sua cara” o fato de saber de cor as suas manias, chegando ao ponto de adivinhar sua reação de forma bem inusitada e estranha. É alguém que gosta de gravar as coisas que fazem parte de você, porque assim ele (a) verá, quando outras pessoas fizerem o mesmo, você: mesmo que vocês possam estar longe um do outro. É a forma que ele (a) encontra para te ter na mente sempre que a saudade bater ou quando quiser se inspirar.

 

Você vai perceber que ele (a) pode ser bem esquecido de algumas coisas. Vai acabar se esquecendo das chaves, de levar dinheiro pra sair, dos compromissos que tinha marcado há três semanas e por aí vai. Mas você também vai perceber que ele (a) não vai se esquecer do seu filme favorito, do que você gosta de comer quando está de mal humor, da cor favorita com que você pinta as unhas, dos seus sonhos de viagem e das suas músicas favoritas. Vai citar o seu autor de livros favorito, mesmo que ele (a) sequer tenha lido um livro dele, só porque ele (a) sempre se lembra de ti. Vai ter certeza de que quando você quer ficar só, na verdade, você precisa dele. E ele irá. Vai saber de coisas que você mesmo não saberia, e vai te contar essas coisas sempre nos escritos dele.

 

Em geral, são seres bem sensíveis, por isso pode esperar declarações melosas e até meio bobas. Acostuma-se a receber poemas pelo celular, textos em pequenos pedaços de papel amassados e até cartas pelo correio (às vezes até com mais de uma página). É capaz de, numa saída de vocês, ele (a) puxar o celular ou um bloquinho de notas e escrever na hora um poema pra você. Ele (a) vai te comparar às coisas mais cafonas, mas bonitas até, que sempre vêm à mente: vai dizer que seus olhos brilham como estrelas, que seu sorriso é um caminho para quem anda perdido e que seu abraço é um poço de calor num inverno que nunca termina. Coisas do gênero. Vai colocar textos dentro dos seus livros, e ainda por cima escrever textos nas páginas dos livros. Vai te enviar várias coisas assim, a ponto de você se irritar ou ficar sem paciência para lê-los. Mas mal você sabe é que ele (a) tem muitos outros guardados e que nunca te manda.

 

Ele (a) dirá, sempre que possível, que te ama. Mas nem sempre vai ser com um simples “te amo”. Vai acabar inventando outras formas pra isso. Vai fazer isso te colocando nos textos dele, em todos um pouco. Nos contos, um dos personagens vai ter seu costume de bater muitas fotos, outro terá a cor do teu cabelo, um terceiro vai ter teu nome, assim como um quarto vai ter teu sobrenome. Talvez ele coloque teus medos em um, mas também encha outros com teu sorriso, teu jeito de andar e o perfume que ele (a) tanto adora em ti. Vai colocar um personagem usando a roupa com que ele (a) acha que você fica mais bonita (o). Vai esconder coisas que se referem a ti em tudo que ele escrever, porque você já faz parte de tudo isso que ele (a) escreve. Mas, além de tudo isso, ele (a) vai se render também ao simples (e sempre verdadeiro) “eu te amo”.

 

Ele (a) nem sempre te dirá o que sente, pois às vezes nem ele (a) mesmo (a) sabe bem explicar. Mas depois, assim que tudo passar, ele (a) vai escrever sobre isso. Vai pôr seus sentimentos ali, nus como um manequim sem roupas ou acessórios, e talvez você, assim, o entenda. Mas mesmo que não saiba dizer o que sente, ele (a) saberá dizer o que você sente. Vai notar, melhor do que a maioria, que o seu tom de voz mudou, que a sua maquiagem não está completa, que o seu olhar está perdido e que o seu suspiro está mais pesado. Vai sentir, mesmo de longe, que o seu coração está triste só pelo jeito que você diz “oi”. Ele (a) vai saber que não está tudo bem, e fará de tudo para que você sorria de novo, por odiar te ver assim e, claro, porque o seu sorriso é a maior inspiração para ele (a).

 

E é assim que o (a) escrito (a) vai te ver: como inspiração. Como a fonte inesgotável de sentimentos que ele (a) pega, como tinta, e joga no papel, onde vai desenhar tudo o que ele sente e pensa sobre você com as mais diversas palavras e expressões, que às vezes ninguém entende. Nem mesmo você às vezes entenderá. Mas saiba que é real, tudo aquilo.

 

Mas mesmo que você não se apaixone por ele (a), ou que o amor termine, ele (a) não vai te esquecer. A vida de vocês vai continuar, como sempre continua, mas ele (a) vai sempre guardar um parágrafo carinhoso no texto dentro dele sobre você. É como uma homenagem dele a tudo que você representou: toda a inspiração, todas as novidades e todas as palavras não ditas pela voz, mas pelas letras. Sempre terá um pedaço de você dentro dele.

 

O escritor é um mentiroso, sempre. Não há exceções. Ele (a) mentirá sobre tudo e sobre todos, até quando ele puder, e até mesmo quando não puder. Mas se um (a) escritor (a) se apaixonar de verdade por você, ele nunca vai mentir uma palavra sequer sobre você. Mesmo que ele tente, ele não vai conseguir.

 

Abraços.