Viver é sempre tentar errar menos

Há uma hora e pouco levantei da cama e corri para escrever.

 

Minha companheira, Jéssica, e meus bebês estão dormindo depois dois dias cheios de energia gasta. Mas eu não consigo dormir. Nem coloquei música alguma enquanto escrevo, coisa que sempre faço (sei lá, me ajuda nas ideias). Eu apenas não consigo dormir, e eu não sei por quê. Na verdade eu sei: é o último dia do ano e eu, desde o início do blog, escrevo, sem falta, um texto nessa data. E mesmo não tendo escrito nada nos últimos tempos praticamente, o impulso nesse dia fala mais alto. Enfim, cá estou.

 

O que esse ano me fez perceber, mais do que o resto, é que nós nunca, jamais, em nenhum momento das nossas vidas seremos perfeitos. E eu não falo desse clichê de “ninguém é perfeito”. Falo do fato de que nós não somos feitos para sermos aceitos. A vida é feita de erros: viver não é tentar ser bom, exatamente. Muito menos tentar acertar tudo o que fazemos ou queremos fazer. A vida se trata, em sua síntese, de tentarmos não errar demais no percurso. Não tropeçar tanto é melhor do que acertar demais. Acreditem, é sim.

 

Ser pai, por exemplo, é duro para caralho. Muito mais do que tocar caprichos, qualquer um, de Pagannini. Muito mais difícil do que passar no vestibular. E infinitamente mais difícil do que reler “O Senhor dos Anéis – A sociedade do Anel” por conta de intermináveis descrições e capítulos chatos. Coisas banais como essas e tantas outras mais importantes são ínfimas quando se compara a criar filhos. É dureza e trabalho árduo, e não te traz gratificação e muito menos é prazeroso na maior parte do tempo. O que eu quero dizer é que não estava nos meus planos.

 

E esse texto também fala disso: fazer planos é furada. Eu, todo ano, leio “Os mortos”, do Joyce, em algum ponto do dia. Provavelmente não o lerei amanhã. Estaria formado agora em dezembro, mas não pude terminar ainda. Quis perder peso pra poder jogar bola sem ter um ataque a cada cinco minutos correndo. Tentei ler todo concerto Elegíaco de Leo Brouwer para violão e orquestra, mas sequer terminei a parte um. Não consegui ver “Melancolia”, do Von Trier, nem “Barry Lyndon”, de Kubrick, ou rever “A Última Sessão de Cinema”; não consegui assistir “O Cheiro do Ralo”, nem as últimas temporadas de GoT. Não viajei pra Bragança com minha companheira. Não escrevi direito meu livro. Não amanheci para ver o sol nascer. Não escrevi tanto quanto queria. Não vi meu filho número três nascer. Não consegui fazer muita coisa que planejei para os meses desse ano.

 

A vida muda de forma tão constante que só a própria mudança é capaz de manter. Prever o amanhã já é suicídio para um perfeccionista, e impossível para todos nós. Não importa o que façamos, tudo pode dar muito errado (é sempre mais provável que dê merda mesmo). Escolher caminhos é, automaticamente, estar preparado (ou assim devíamos) para nos desviarmos da rota. É saber que nem sempre a trilha nos leva para a clareira, e que é necessário voltar à mata para achar um novo córrego, morro, caminho desconhecido para encontrarmos nosso destino esperado.

 

Mas e se o que esperávamos não era isso que queríamos afinal? O que fazer quando o resultado de algo é o “correto”, mas nos deixa vazios? O que pensar de nós mesmos quando fazer o que nos dizem ser certo, porque é o padrão ou algo assim, é deixar de fazer o que realmente queremos? E o que seremos nós quando percebermos que nada daquilo que sonhávamos ser é realmente o que somos? E pior: se somos o que sonhávamos ser e, ainda assim, somos vazio?

 

Não sei responder nada disso. Porque o vazio nos persegue sempre, e isso eu garanto. Poucos são momentos em que não me sinto isolado de tudo: no palco com meu violão, quando meus filhos riem e se alegram, quando escrevo algo que eu realmente gosto de escrever (raro), quando corro, quando estou deitado na cama ao lado do meu amor. Mas, ainda assim, sentir-me vazio não é incomum, muito menos nesses momentos também. Não há culpa nem nada do gênero, e sim o sentimento que, ao lado do amor, é o mais inerente ao ser humano, ao meu ver: o completo vazio.

 

Então é certo dizer que seremos vazios para o resto da vida? Não sei, espero que não. Mas é correto, sim, afirmar que o vazio sempre nos seguirá por toda nossa curta e fatídica existência. E eu digo que por não haver certeza de que seremos felizes ou tristes, se o amor vai nos salvar do vazio ou o contrário ocorrerá, devemos aproveitar.

 

Se nunca saberemos se vamos ser felizes com qualquer coisa, então tentemos fazer de tudo. Inclusive, se der, tentarmos ser felizes.

 

Não seremos perfeitos em nada, nunca. Mas podemos ser felizes nisso. Podemos tentar driblar, às vezes, a dor e o sofrimento diário com doses esporádicas de alegria, felicidade, prazer e, sempre, é claro, amor. Procurar manter esse caminho menos tortuoso possível (errar menos do que achamos que iremos errar) é muito melhor do que imaginamos. Não gosto de pensar em “tudo vai ficar bem no final”, porque nem sempre fica. Não me agrada o “tudo tem uma razão”, porque, no fundo, não tem mesmo. Odeio pensar que “o sofrimento é para um bem maior e para sermos felizes depois”. Acho baboseira.

 

Nada garante nada. Nem a dor. Nem o amor. Nada garante o sucesso ou o fracasso. Nada vai garantir que o pra sempre dure mais do que algumas horas de sexo louco e intenso num motel qualquer no centro do de qualquer cidade. Nada garante o contrário, porém. Se apegar a coisas que podem acabar não é errado, mas deve-se saber que a angústia vai vir em quase todos os casos. Estar consciente disso é melhor do que criar esperanças de uma flor nascer no meio de um deserto traiçoeiro. Pode nascer? Não sei. Mas acho que mais provável é um “não”.

 

O ano está acabando, e com ele algumas experiências. Vivemos coisas novas todos os dias, que começam e acabam. Pessoas se afastaram, outras vieram, algumas sumiram e outras morreram. Tiveram um ou dois, até três, que ficaram porque fizeram por merecer. Outras foram porque, também, fizeram sua parte para isso. As costas doem mais, a insônia virou amiga, a solidão foi embora por uns tempos (ela volta, mas não costuma mais ficar tanto por perto), a dor ainda fica e sempre vai ficar. O amor provou dia após dia que às vezes ele dura mesmo pra sempre. E algumas outras ele não resiste ao desespero, ao frio, a madrugada sem fim e principalmente ao silêncio. O amor viveu e, em outros casos, infelizmente, morreu.

 

Despedidas, arrependimentos, brigas, festas, ressacas, choros, medos, ponderação, choques, orgulho e inquietação. E pra quê tudo isso? Tem algum motivo de verdade pra tanta merda e tanta maravilha juntas? Não, não tem. É tudo acaso: sorte ou a falta dela. É isso que rege e sempre irá reger o universo todo, desde o seu princípio até o inevitável (eu acho) fim. O que nos resta, então? Aceitar que não seremos, como já disse, os melhores que podemos ser. Nem isso.

 

Mas podemos ser menos piores do que nossa pior versão.

 

E fazer alguém feliz. Que esse alguém seja outra pessoa ou nós mesmos, isso vai depender do acaso.

 

Viva o acaso.

 

Viva a dor.

 

E viva o amor.

 

Nada realmente tem um significado. E por isso a vida vale a pena ser vivida.

 

Apesar de tudo: das dores, do cansaço, da mágoa e da solidão. Vale a pena viver. Mais um dia, uma hora, duas, uma semana, um semestre, um minuto, um instante. Vale a pena sempre um a mais. De verdade: não parece, mas a vida pode ser boa. Assim como pode ser horrível ou só ruim. Mas, acreditem, eu juro, ela pode ser suportável. E além: ela pode ser boa.

 

Estou há duas horas escrevendo esse texto. Minha família ainda dorme; matei uma baratinha no canto da sala. Não ouvi nenhuma música. Não bebi água apesar dessa sede da porra. Estou com um pouco de sono, mas nem tanto quanto acho que deveria.

 

Abraços, amigos.

 

Feliz 2019.

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O ciclo vicioso das relações abusivas

Sair de um relacionamento abusivo é como se libertar da escravidão. Quem vive em uma relação tóxica nem sempre (e acrescento que quase nunca) sabe que está em uma. Prefere crer que o parceiro é incompreendido, e por isso quem está fora apenas veem as características ruins que eles possuem. Ou mesmo dizem que todo relacionamento tem brigas, então é normal que o companheiro grite, quebre coisas e até bata no calor do momento. Até chegamos a alegar que “não é porque ela não te dá bola quando você mais precisa, mas na verdade estava com outras pessoas”, ou mesmo quando “alguém te faz se separar de tudo e de todos para te sugar toda a tua energia” que essa pessoa é abusiva.

 

Isso é normal. Pessoas que passam por isso devem ser abraçadas, literalmente e nominalmente, e terem ajuda para seguir adiante. É um processo lento; muitas vezes doloroso, mas infinitamente necessário.

 

O problema é exatamente esse, porém. O que fazer quando sair de um relacionamento abusivo? Infelizmente, por mais incrível e, à primeira vista, revoltante que pareça é entrar em um novo relacionamento abusivo. Como assim?  Da seguinte forma:

 

Quando saímos de um relacionamento abusivo, a primeira coisa que se pensa é “liberdade”. O que muita gente julga como estar livre é poder sair e transar com quem quiser. O que não deixa de ser um de seus vários significados. Beber bastante, sair para festas diversas, ir para shows e bares, ficar entorpecido. É como muita gente encara a liberdade recém adquirida. Tudo isso não para ser livre, mas para esquecer o que passou. Mas nada disso realmente funciona na maioria das vezes para se superar esses traumas.

 

São nessas horas que nos sentimos mais solitários. Agora é como se tivéssemos expulsado de casa todos aqueles parentes chatos que nos fazem mal, com quem moramos por vários anos, mas estamos sozinhos desde então. E é difícil viver sozinho quando se acostumou com o contrário. Como arrumar a casa? Lavar a louça primeiro? Limpar o chão? Arrumar o quarto? Passar pano no banheiro?  Então a luz apaga, as lâmpadas quebram e você se vê sem luz alguma, num completo escuro, frio e silêncio.

 

Obviamente que ver toda essa zona é um veneno para os olhos, então é bom dar uma volta para respirar. Mas em todo lugar a gente fica triste; aí procuramos em tudo um preenchimento, algo que faça a gente se esquecer da pessoa que nos quebrou. Depois vêm os bares, festas e tudo aquilo que, no fundo, ajudam a nos tirar da casa bagunçada, dando leves momentos de felicidade, euforia, prazer e libertação.

 

Mas em algum momento temos de voltar para casa. Podemos acabar adiando essa volta, mas ela acontece, inevitavelmente. E quando ocorrem as crises parecem voltar mais fortes do que antes. Manchas, o cheiro, o lugar, os momentos voltam à tona e parece que a tristeza vai tomar conta de tudo que há ali. Parece que nada nunca mais vai dar certo. E então acabamos pensando se a culpa não era nossa, afinal de contas. Será que ele era mesmo tão violento ou eu que o provoquei não fazendo o que ele pediu? Será que ela era mesmo abusiva ou eu que pedia para ela ficar perto de mim enquanto ela queria sair? Será que ele era abusivo mesmo que tenha me chamado de louca só no calor do momento? Mas afinal de contas, será mesmo que era abusivo porque ela, sabendo que não me queria, me dava esperanças, usufruindo de todo o meu sentimento, ou eu que não entendia que ela me queria mesmo e só fazia isso pra apimentar as coisas?

 

Aí procuramos uma nova casa.

 

E encontramos um novo lar, com um novo companheiro. Que tem as mesmas características e antecedentes, mas que parece ter mudado. E tudo é lindo no início: ele nos entende, nos elogia, nos compra presentes, nos apresenta pra família e até diz que nos ama. Tudo parece ser perfeito. É como se, finalmente, tudo tivesse dado certo!

 

Mas tudo recomeça devagar. Os elogios viram brincadeiras de mal gosto; os presentes viram cobranças; a família fica de lado para ele sair sozinho; o amor parece que ficou só nas palavras quando são cobradas. A angústia volta, a incerteza, a solidão, a culpa, o desespero e o medo tomam conta de você, ao ponto que você pede para conversar, para pedir ajuda, para que seu companheiro te acalante. Só que o que você recebe são palavras como “mal resolvida”, “frescura”, “paranoica” e o clássico “louca”.

 

Então a nova casa parece exatamente como a antiga, e não faz mais sentido ficar ali. Você sai, destruída, cansado, exausta, desmotivado, ferida, desgostoso e triste. De novo. E você volta pra casa. Mas vai tentando sempre em outras casas, sempre tendo algo em comum com a sua, mas que acabam mal. E você se destrói um pouco mais novamente.

 

Tudo isso porque, no fundo, nós ainda não arrumamos a nossa casa. O chão tem manchas de gordura, a cama ainda cheira a suor, o banheiro ainda fede a cuecas sujas, as roupas ainda estão na lavanderia e nossos móveis estão fora do lugar. Não adianta querer morar em outro lugar se nós ainda não nos ajeitamos. Do contrário estaremos como em hotéis, albergues e pensões: apenas de passagem, nunca para ficar. E as dores aumentam a cada vez que precisamos sair de novo de uma casa, sabendo que a nossa não parece ser mais nossa; uma das piores dores do mundo é saber que não se pode voltar para casa.

Por isso que uma vez dentro de um relacionamento abusivo é tão complexo e penoso de não entrar em um novo. Fica entranhado que “merecemos” o sofrimento, que apenas seremos dignos daquele tipo de pessoa. Até temos esperança, sempre falha, de que alguém abusivo (famoso “embuste”, para os jovens) tem jeito; que temos que dar um jeito nele.

 

Ninguém teve ter a tarefa de ajeitar ninguém. Devemos sempre arrumar a nossa casa, e nunca a casa dos outros. É evidente que se aparecer alguém que queira te ajudar a limpar a sua bagunça, não deve ser levado como algo ruim. Pelo contrário: devemos abraçar sempre aqueles que estão dispostos a, sabendo de toda a zona, entrar pela porta da frente e pegar o esfregão e sair conosco limpando tudo. Esse tipo de pessoa que vale a pena manter ao nosso lado, sempre.

 

Quebrar o ciclo das relações é difícil. Muito, muito difícil mesmo. Leva tempo, dói, machuca bastante e nos torna frágeis durante certo tempo.

 

Mas quando quebrado percebe-se aquilo que é mais importante: morar sozinho em uma casa arrumada é bem melhor do que morar com alguém em uma bagunça interna grande.

 

Abraços.

O (falso) sentido das coisas

O valor de alguma coisa está única e exclusivamente entrelaçado com a nossa vontade de dar valor para tal.

 

Um dia desses conversava com alguns amigos sobre datas comemorativas. Disse que, como o passar dos anos, deixei de comemorar várias coisas. Não gosto do Natal, e soube disso no ano que passei o feriado sozinho num aconchegante quarto em Botafogo, no Rio de Janeiro. Comprei umas duas ou três latas de cerveja e um amendoim, e tomei enquanto assistia “A última sessão de cinema”, de McMurtry e Bogdanovich. Antes do fim, dormi e acordei tarde no dia seguinte. Foi um bom Natal nesse dia.

 

Não gosto também do Ano Novo. Dá uma sensação de falta esperança e há muita alegria espontânea, coisa que eu não acredito de fato. Embora sempre tenha passado esse dia com pessoas queridas, cansei de, após a festa, estar em casa agradecido por deitar e não precisar fazer mais nada. Queria apenas descansar na maioria das vezes; e não estar comemorando a passagem do ano e todas as coisas que as pessoas, em geral, acreditam e prometem que vão cumprir.

 

Nem meu aniversário, nem feriado de finados, nem nada do gênero. E eu disse isso aos meus amigos, completando dizendo que as cosias só significam algo quando queremos dar um significado para elas.

 

Não vejo sentido em comemorar nenhum feriado em geral, pois eles são apenas dias em que, algumas pessoas, estão liberadas de seus afazeres. Claro, há dias que possuem razões culturais, de resistência, religiosas e históricas para existirem. Mas, antes de tudo isso, houve o sentido que lhes foi dado.

 

Nada vale qualquer coisa se não lhe derem sentido. O dinheiro é um pedaço de papel feio e pequeno, que fede fácil e transporta muitos germes. As contas bancárias são códigos e programas de computador que geram dados abstratos vistos apenas em telas de aparelhos eletrônicos. Roupas são um monte de tecidos amontoados com tintas de diversas fontes que tem preços bem diferentes porque levam a marca “X” ao invés da marca genérica (bem mais barata e útil, sempre). A música é um monte de som organizado da forma que se quer. O teatro são pessoas fingindo ser outras. Escultura são materiais quebrados ou modelados para serem outrem. Pintura são cores ou a falta delas numa tela.

 

“Merda” é uma palavra como qualquer outra. Nem mais bonita que “por obséquio” (expressão pra encher linguiça) ou “pra mim fazer” (errado para questões formais, mas se dá pra entender, tudo bem).

 

O que faz esses exemplos serem mais do que apenas o que eu disse que eram é, exatamente, o sentido que existe neles.

 

O sentido das coisas vem, por exemplo, daquilo que vivemos e como entendemos essas vivências. Nossa forma de ver o mundo, de sentir suas nuances e de compreender o que acontece a nossa volta é tão diversificado que o sentido de muitas coisas também é. Ouvir Wagner pela Filarmônica de Berlim, ao vivo, pode ser uma experiência jamais comparável musicalmente. Mas pode ser a mesma coisa do que a escutar a mesma música no YouTube ou qualquer desses sites genéricos que tenham o mesmo conteúdo. Ver a Monalisa no Louvre pode significar estar diante da história da arte, de uma obra linda de um grande artista. Ou pode ser apenas um desenho sem muitas cores que, segundo pessoas que já foram e me falaram, fede um pouco.

 

Um sorriso após um “eu te amo” pode significar o mundo inteiro. Ou pode ser que não significa nada mesmo.

 

Nada tem valor se a gente não sente esse valor na gente. Eu sinto valor em muita coisa, mas sei que ele vem de tudo que já vivi antes e que continuo vivendo. Deixamos de dar valor para tantas coisas que antes eram inestimáveis, e isso de repente. Assim como passamos a adorar tantas coisas jamais imaginadas, que antes seriam triviais, vulgares e dignas de um memorável “tanto faz”. A vida é assim mesmo: cheia de momentos sem sabor que de repente são um vulcão de temperos mais diversos. E de instantes que prometiam serem aqueles os quais jamais esqueceríamos que se esqueceram de repente, tão de repente quanto o dia nasce depois de uma madrugada longa e sem graça.

 

Talvez algo mais importante, e não tão triste quanto se pode pensar, é o fato de que deveríamos viver sem dar valor a muitas coisas. Pelo menos, ter a noção de que nada tem sentido. A vida não tem um significado; o amor é um sentimento que se pode viver sem; ser rico não vai te deixar feliz; podemos morrer a qualquer instante; nunca conseguiremos provar muitas das coisas que sonhamos um dia; a fome pode nunca acabar no mundo. Mas devemos seguir. Devemos não valorizar algum dia em especial, mas todos aqueles que nos fazem bem: dias com os donos dos valores que nos fazem sentirmos elevados, como amigos, coisas, companheiros e momentos.

 

Por quê? Porque estamos vivos e viver é melhor do que morrer. Achar coisas que nos fazem feliz, que fazem a vida valer mais do que apenas sobreviver, e dar o valor a elas. Se isto parecer justo, então está tudo bem. “Encontre algo que você ame e deixe isso te matar”. Encontre as coisas que realmente te fazem querer existir e faça com que elas sempre existam dentro de ti. Coisas como o amor e a vontade de resistir às dores da vida deveriam durar para sempre, e seus valores (as coisas que as fazem ter sentido e, portanto, existirem) também. Mas nem sempre as coisas duram para sempre.

 

Então que os valores que damos as coisas que achamos valerem a pena durem o quanto puderem. E que isso seja por muito, muito tempo.

 

Abraços.

Mudar é preciso.

Não tenha medo, nunca, de mudar.

 

Não tenha medo de parar de ler um livro pela metade. Ninguém é obrigado a ler tudo até o fim. A história não cativa? O enredo te é chato? Tu não suportas mais a descrição enfadonha de tudo? Então pare. Feche as páginas, quase terminando, e pare de ler. Não se obrigue a continuar nesse conto, porque ninguém deveria ser obrigado a nada parecido. Procure um novo livro: ao invés de drama, pegue um romance. Ao invés de investigação policial, busque uma fantasia épica. Busque, até, um de autoajuda quando os livros de autores pseudo-cult te encherem o saco. Apenas mude.

Não tenha medo de mudar de estilo de se vestir. E daí que a calça apertada não dá mais em ti? O quê que tem se a saia rodada te deixa na dúvida? O que tem de mais se um cropped que antes tu amavas agora é mais uma peça sem uso? Não tem problema não gostar mais da mesma roupa da semana passada. Quê que tem? Troca: usa uma jaqueta listrada nova, tenta usar menos all star, procura uma nova cor ao invés de branco, azul claro e preto. Saia dessa pele antiga e busque um vestido novo.

O que tem se você escolheu errado esse curso ou profissão? Se você tinha chances e condições para isso, e ainda assim se sente estranho ali, qual o problema? Só porque todos ao seu redor e a tua família insistem com o papo chato de te comparar aos outros tu tens de aguentar todos os dias estudar algo que odeias? Tens de aguentar todo dia professores babacas, disciplinas inúteis e ladainha acadêmica?

Não sinta receio de abandonar algumas pessoas que te fazem mal. É difícil se separar de antigos amigos, namorados e conhecidos que te fazem ficar triste e te sugam a energia. A gente acaba se acostumando a eles; convive, divide vidas, experiências, afetos e confiança. Mas, às vezes, algo dá errado no caminho e tudo se perde. Então a gente percebe que precisa cortar laços, acabar com aquilo que os mantém ligados pra que a vida siga bem. Às vezes é preciso abandonar alguém que a gente até pode amar, mas que não nos ama de fato, para que a gente possa, enfim, amar outras coisas novamente.

Jamais sinta vergonha de errar. Todos erram e já erraram alguma vez na vida. Nós não somos diferentes: erraremos até não poder mais. Construiremos coisas ruins com os erros, mas também criaremos coisas maravilhosas com eles (eu, por exemplo, conheci o amor da minha vida num “erro”, que foi beber demais). A gente vai se acertando, remendando devagar os cortes e reconstruindo nós mesmos, porque algumas vezes estaremos totalmente destruídos. Mas sempre sobra um pedaço pra recomeçar, acreditem.

Nunca, em hipótese alguma, se recusem a amar. Se estiver apaixonado, declare-se. Se estiver com “crush” em alguém, vai lá e tenta. Se realmente é amor, então se jogue. Não “tenha cuidado” demais; não “vá devagar” demais. Não “desapegue” demais. Não “se faça de difícil” demais. Joguinhos não são legais, na real. São chatos e desnecessários. Porque eles te fazem perder as pessoas, te fazem se afastar e te fazem deixar de amar alguém.

O amor não foi feito (seja lá quem tenha o feito primeiro) para ser escondido, mascarado, dosado ou comprimido. Ele nasceu para ser livre, para voar e amar. O amor é sentimento forte demais para qualquer gaiola, e nada deve, jamais, deixa-lo longe daquele que o faz existir.

Diga às pessoas que tu amas que tu as ama. Diga aos teus pais; diga aos teus tios; diga aos teus avós; diga aos teus filhos; diga aos teus amigos; diga aos teus melhores amigos; diga aos teus irmãos de sangue; diga aos teus irmãos de vida. Diga a todos aqueles que te fazem sentir amor de alguma forma que os ama. Não tenha medo de amar, nunca.

 

Mudar é difícil. Dói, machuca e às vezes nos marca pra sempre. Mas, às vezes, é necessário. É preciso que os pássaros migrem para sobreviverem. É preciso que as estações mudem para o mundo continuar. É preciso mudar quando nada ali te faz bem. Mudar, de novo, nunca será fácil.

Mas mudar é preciso quando é a única opção.

Mude hoje.

Porque amanhã pode ser muito tarde para tudo isso.

Mas, acredite, se a mudança começar hoje, então, amanhã o dia pode nascer mais escuro. Então, do nada, depois de amanhã o sol brilha mais pra ti. E tu vais perceber que mudar era preciso.

Vais perceber que é mudando que a gente encontra a tão sonhada e confusa felicidade.

É isso.

Apenas (tudo) isso.

 

Abraços, amigos.

Feliz 2018 para todos nós.

Que o amor sempre esteja ao alcance de vocês.

Sinceramente, eu te amo.

Sinceramente, eu te amo. Do fundo do peito, do fundo da alma e do fundo do fundo.

 

Não consigo esconder, nem que eu quisesse. Mas não quero: não me preocupo em esconder. Não existe motivo para isso, nem razão ou qualquer coisa parecida. Seria como tentar esconder o rabo do cachorro que balança quando seus olhos se alegram. Pra quê esconder? Meu amor por ti explode a cada vez que meu olhar mira o teu, mesmo quando teu olhar tá mais baixo ou distante. Meu amor procura o teu.

 

Existe gente que consegue esconder, é claro. Mas não sou assim, não. Não consigo nem medir sentimentos, oras. Já me disseram pra “não amar demais”, “não se envolver”, “não dizer ‘eu te amo’ logo no início”. Eu nunca ouvi esse povo.

 

Sempre deixei meus olhos falarem por mim. Sempre menti quando dizia a mim mesmo que não estava apaixonado ainda por ti. E perceba que digo esse “ainda” porque eu já sabia, por dentro e por fora, que em algum momento meu coração ia ser teu. E logo se tornou, porque mal tardou o primeiro mês e já era teu, inteiramente teu. Em nenhum momento eu consegui mentir pra alguém dizendo “eu não a amo”.

 

Hoje vejo que te vejo em tudo que vejo. Em todos os cantos dos meus momentos e dos meus dias. Eu pego um ônibus e me lembro de ti, quando pegava algumas horas para te ver no carro. Quando vou à praia me lembro de ti, porque a gente começou na areia e no mar. Quando toco violão eu me lembro de ti, porque já tô na terceira música feita pra ti (terminadas, claro). Quando eu me deito me lembro de ti, porque sempre sonho contigo. Até acordado eu sonho contigo, né?

 

Adquiri umas manias: fico te olhando dormir e roncar (pouquinho só). Escrevo bilhetes pra ti, mesmo tendo celulares, e deixo perto da cama quando tenho que sair cedo. Tento te desenhar de formas diferentes, mesmo não sabendo desenhar nada. Tento cozinhar, também, pra te alimentar quando estás mal. Te faço rir de tantas formas bobas e babacas diferentes, só pra tu rir mesmo de alguma coisa. Sorrio em cada palavra que escrevo sobre ti, ainda mais quando sei que não sabes que tô escrevendo pra ti. O que é quase sempre.

 

E se eu tenho que repetir palavras várias vezes, não é porque eu não saiba mais termos pra ti. É que eu me meio que me perco e fico sem jeito quando falo de ti. Claro que, se me perguntarem, posso escrever páginas e mais páginas à teu respeito, mas ainda assim é complicado escrever sobre ti. Porque quando penso em tudo que compõe tua pessoa, eu fico perplexo, fico nervoso e até procurando formas novas de te escrever.

 

Acontece que eu te amo. Eu, sinceramente, te amo. Muito mais do que eu achava que poderia amar. Muito mais do que eu achava que merecia. Muito, muito mais do que eu jamais amei a mim mesmo. E isso pode soar como nocivo, mas não posso evitar. Não penso mais em mim, penso em nós; em cada plano novo eu te coloco. Em cada plano antigo eu me culpo por não ter te posto nele antes.

 

E em cada instante meu eu te espero, seja estando longe ou perto de ti.

 

Eu sempre te espero.

 

Não sei porque nem para onde, mas eu te espero sempre.

 

Porque, sinceramente, eu te amo.

O amor que a gente cultiva.

Um dia, talvez, você vai se apaixonar por alguém. Provavelmente isso irá acontecer, porque eu nunca vi alguém que nunca tenha suspirado por outra pessoa. E também é provável que você ame alguém. Mas o amor não durará se você não o cultivar direito. O que seria cultivar? Justamente o que fazemos com as plantinhas: tomar o amor como uma semente e plantar na gente, e regá-lo com os nossos esforços.

 

O amor passará por provações diversas. Um dia pode haver uma briga, mas nada de mais também. Só que se não tivermos a paciência, humildade e falta de orgulho (sentimento de merda) essa briguinha pode se tornar rancor, que depois vira mágoa e, assim, uma possível perda. E quando chegamos ao ponto da perda, onde se perde costumes, carícias e até o mais simples “te amo”, tudo está perdido. E você perdeu seu amor.

 

É preciso ser companheiro, caminhar junto quando a estrada estiver cheia de pedras quentes e vidro quebrado. Haverá momentos em que os caminhos que vocês escolheram seguir, seja ele qual for, terá pedregulhos, obstáculos e cansaço para lhes parar. É difícil, às vezes, ter serenidade para seguir em frente. Mas, na maioria das vezes, quando há parceria e um amor confidente mesmo, então mesmo a mais dura pedra irá se quebrar perante os seus passos firmes.

 

Haverá dias de cansaço. Pode ser que o tempo seja ruim, que a chuva não pare de cair, que vocês se sintam tristes e sozinhos, mesmo um ao lado do outro. Podem se perguntar “estamos bem?”, ”o que está acontecendo?”, “o problema sou eu?”. E nada disso poderá ser respondido ao certo. O que acontece é que o sentimento persiste. Se for real e forte, ele permanece e segue junto, reerguendo os caminhos que caíram e pedaços que ficaram para trás.

 

E, claro, você pode errar. Pode magoar seu par, ferir, machucar e fazê-lo sofrer. Isso pode acontecer, é normal. E nesses casos é preciso voltar atrás e fechar os cortes, e limpar todas as lágrimas que a gente derrama. O amor sofre, a gente pode causar isso; mas a gente também pode sempre voltar atrás, sempre.

 

O amor se cultiva, se planta e se colhe. E se vive, sempre, em qualquer tempo que der. Sem esforço e dedicação, não há amor. Não há jamais amor.

 

Plantem amor, sempre, e nada além de um grande amor. Com todos os seus defeitos e lindas imperfeições.

 

Abraços.

XIX Crônica: Da janela do ônibus.

Depois de passar alguns dias na casa de um amigo, Haroldo pega o ônibus de manhã cedo de volta para o Rio de Janeiro. A viagem é tranquila, apenas um pouco longa. Ele senta-se quase sozinho no veículo e aproveita a vista das ruas numa bela manhã de domingo.

 

Da janela ele vê um filho acompanhando a mãe na feirinha. Ele carrega algumas frutas e vários legumes pra ela, que parece bem cansada e fraca. Ela dá ordens a ele, que obedece sem fazer muitas caretas. Batem boca uma hora, mas não brigam de fato. E no fim, já esperando pra entrar na van, ele dá um beijo e um abraço nela. Entram e partem.

 

Mais à frente enxerga homens sentados na frente de um bar, já fechado. Eles têm, entre si, um litrão de cerveja pela metade e uma cachaça. Eles tomam juntos a cerveja, que acaba rapidinho. Um deles puxa a outra bebida pra si, enche um copinho e oferece ao parceiro. Eles conversam muito, bebem, riem alto e se divertem. Apontam para qualquer direção enquanto falam de tudo. Um deles tenta levantar, mas cai. O outro ri. Eles se xingar e riem mais ainda.

 

Depois de algumas quadras, Haroldo vê um grupo de jovens, gente da idade dele praticamente, virados depois de alguma festa. Mal conseguiam caminhar direito, e a visão devia se confundir em meio ao álcool no sangue e à fumaça de cigarro que alguns deles fumavam. Um casal começou a se beijar, sendo deixados pra trás por alguns minutos pelos amigos. Vendo a brincadeira feita, os dois rapazes pararam e, de mãos dadas, continuaram a seguir o grupo.

 

Quando parou no sinal, Haroldo viu pela janela um rapaz andando apressado. Ele tinha consigo uma sacola transparente, a qual dava pra ver o que tinha dentro: chocolates e doces em geral. Nos olhos do rapaz, animados e nervosos, dava pra ver que ele estava com pressa. Ele sumiu e foi reaparecer alguns quarteirões à frente. Ele havia encontrado uma mulher. Eles se olhavam de uma forma apaixonante, rindo como bobos que deviam ser. E ser bobo, nesse caso, é a melhor coisa possível.

 

Ele entregou a ela a sacola. Se beijaram apaixonadamente, riram juntos e ficaram abraçados por alguns longos minutos. Haroldo não viu o que fizeram depois. O ônibus continuou seu caminho, e o casal continuou seu amor.

 

Viu então, em frente a um restaurante, um homem almoçando. Era cedo, mas ele já comia. Estava sozinho, apenas com seu prato. Seu rosto estava baixo, cansado e sereno. Ele comia como se não sentisse gosto, como se fosse apenas pra não morrer. Bebia água como se não tivesse nem o gosto de matar a cede. Não esboçava nenhuma emoção sequer.

 

Atravessou a ponte de volta para o Rio de Janeiro. Ali, pensou em tudo que viu. Sentiu saudades de várias coisas, e até sentiu os olhos ficarem marejados. O ônibus ainda estava meio vazio. O sol da manhã do domingo entrava pela sua janela, sem filtro ou perdão. Inundava seus olhos, fazendo-os brilhar ainda mais. E ele sentiu, dentro de si, tudo aquilo de novo. Saudades, tristeza, culpa e amor. Todos juntos. Como, em muitos casos, eles costumam andar.

 

Finalmente chegou ao seu destino. Desceu, viu sua casa e caminhou pra ela. Mas sem antes ver, do outro lado do quarteirão, uma senhora se despedindo de um senhor. Este entrava no ônibus. Ela ficava. Ambos sorriam. E Haroldo não segurou nem mais um segundo o choro.