XIX Crônica: Da janela do ônibus.

Depois de passar alguns dias na casa de um amigo, Haroldo pega o ônibus de manhã cedo de volta para o Rio de Janeiro. A viagem é tranquila, apenas um pouco longa. Ele senta-se quase sozinho no veículo e aproveita a vista das ruas numa bela manhã de domingo.

 

Da janela ele vê um filho acompanhando a mãe na feirinha. Ele carrega algumas frutas e vários legumes pra ela, que parece bem cansada e fraca. Ela dá ordens a ele, que obedece sem fazer muitas caretas. Batem boca uma hora, mas não brigam de fato. E no fim, já esperando pra entrar na van, ele dá um beijo e um abraço nela. Entram e partem.

 

Mais à frente enxerga homens sentados na frente de um bar, já fechado. Eles têm, entre si, um litrão de cerveja pela metade e uma cachaça. Eles tomam juntos a cerveja, que acaba rapidinho. Um deles puxa a outra bebida pra si, enche um copinho e oferece ao parceiro. Eles conversam muito, bebem, riem alto e se divertem. Apontam para qualquer direção enquanto falam de tudo. Um deles tenta levantar, mas cai. O outro ri. Eles se xingar e riem mais ainda.

 

Depois de algumas quadras, Haroldo vê um grupo de jovens, gente da idade dele praticamente, virados depois de alguma festa. Mal conseguiam caminhar direito, e a visão devia se confundir em meio ao álcool no sangue e à fumaça de cigarro que alguns deles fumavam. Um casal começou a se beijar, sendo deixados pra trás por alguns minutos pelos amigos. Vendo a brincadeira feita, os dois rapazes pararam e, de mãos dadas, continuaram a seguir o grupo.

 

Quando parou no sinal, Haroldo viu pela janela um rapaz andando apressado. Ele tinha consigo uma sacola transparente, a qual dava pra ver o que tinha dentro: chocolates e doces em geral. Nos olhos do rapaz, animados e nervosos, dava pra ver que ele estava com pressa. Ele sumiu e foi reaparecer alguns quarteirões à frente. Ele havia encontrado uma mulher. Eles se olhavam de uma forma apaixonante, rindo como bobos que deviam ser. E ser bobo, nesse caso, é a melhor coisa possível.

 

Ele entregou a ela a sacola. Se beijaram apaixonadamente, riram juntos e ficaram abraçados por alguns longos minutos. Haroldo não viu o que fizeram depois. O ônibus continuou seu caminho, e o casal continuou seu amor.

 

Viu então, em frente a um restaurante, um homem almoçando. Era cedo, mas ele já comia. Estava sozinho, apenas com seu prato. Seu rosto estava baixo, cansado e sereno. Ele comia como se não sentisse gosto, como se fosse apenas pra não morrer. Bebia água como se não tivesse nem o gosto de matar a cede. Não esboçava nenhuma emoção sequer.

 

Atravessou a ponte de volta para o Rio de Janeiro. Ali, pensou em tudo que viu. Sentiu saudades de várias coisas, e até sentiu os olhos ficarem marejados. O ônibus ainda estava meio vazio. O sol da manhã do domingo entrava pela sua janela, sem filtro ou perdão. Inundava seus olhos, fazendo-os brilhar ainda mais. E ele sentiu, dentro de si, tudo aquilo de novo. Saudades, tristeza, culpa e amor. Todos juntos. Como, em muitos casos, eles costumam andar.

 

Finalmente chegou ao seu destino. Desceu, viu sua casa e caminhou pra ela. Mas sem antes ver, do outro lado do quarteirão, uma senhora se despedindo de um senhor. Este entrava no ônibus. Ela ficava. Ambos sorriam. E Haroldo não segurou nem mais um segundo o choro.

 

 

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O amor nem sempre é o suficiente.

O amor é o sentimento mais complicado que tem. Por isso escrevemos tanto sobre ele e ainda assim não se esgotam as palavras. É o sentimento mais complexo e bonito que existe. Onde há amor há felicidade. Mas também há dor. E não porque o amor seja ruim, mas porque, às vezes, ele encontra barreiras pra poder existir. E nessas horas percebemos que palavras como “reciprocidade” ou ideias de que o amor pode tudo não são tão fortes assim.

 

O amor pode cansar, porque ele é rotina, e não apenas bons momentos. Ele é compreensão, parceria e cuidado. A gente se importa com quem ama, e demonstra que estamos ali sempre pela pessoa. É claro que nem sempre poderemos estar pessoalmente, ou até fazer de tudo que gostaríamos. Às vezes nem sequer poderemos fazer a pessoa feliz naquele dia ou em tantos outros. A gente tenta, e tenta bastante, quando ama mesmo; e nem sempre conseguiremos fazer nosso parceiro feliz. Mas o amor tem dessas coisas. Ele não é perfeito.

 

O amor se constrói todos os dias. É difícil dizer que se ama alguém logo de cara. Acontece, claro, mas acho difícil. A gente o molda nos nossos pequenos atos e manias, e deixamos lembranças dele por aí, como fotos num álbum. A gente elege um bar favorito, onde mais costumamos ir; a gente lembra das comidas que o outro não gosta, pra, só de brincadeira, colocar aquela cebola debaixo do arroz que o outro tanto odeia; a gente decora os poemas e músicas favoritos um do outro, pra mandar pela internet ou marcar no Facebook. A gente aprende os medos, as manias e os sonhos de cada um, e também guarda as linhas e caminhos de ônibus e metrô pra chegar mais rápido na casa do outro. Isso tudo a gente faz devagar e sem perceber. Porque acabamos guardando as melhores coisas um do outro.

 

O amor faz a gente perder um pouco a vergonha. A gente se mete a cantar desafinado pro nosso amor, aprende a dançar (ou ao menos tenta), fazemos a barba, mudamos a cor das roupas, melhoramos a postura e até aceitamos escutar algumas músicas que achamos bem chatas (além de algumas que acabamos gostando e nos viciando). Então de repente você está usando aquela blusa que ganhou, toda colorida, mas nunca tinha tirado nem a etiqueta, porque o seu parceiro disse que você fica lindo nela. É claro: pra ela/ele sempre somos lindos, mesmo que às vezes sejamos, como diriam no Pará, um “estraga mãe” de tão feio.

 

Mas o amor também rima com dor. E ele pode nos fazer sofrer. Às vezes, é preciso entender que nem somente o amor ser recíproco o deixa imune de dor. Porque a vida é um conjunto de sentimentos e acontecimentos, e nem todos (na verdade, quase nenhum) podemos prever ou até mudar. As nossas vidas não dependem apenas de nós mesmos. Dizer que construímos nosso próprio destino e que o amor sempre pode tudo é lindo, mas não são verdades. A gente caminha por uma estrada escura e sem saber onde vai dar. Às vezes as curvas nos levam pra lugares lindos, mas outras também nos trazem tristeza.

 

Amar é saber a hora de deixar ir. Por um dia, por uma semana, por um mês, pra sempre ou pelo tempo que for preciso. Não é por não amar, mas por amar demais que muitas vezes precisamos deixar o outro ir. Pra onde ele vai? Pra outra pessoa? Pra outro lugar? Será que ele volta? A gente nunca sabe. A gente não tem como saber. A gente, que ama mesmo, apenas pode aceitar que nem sempre seremos a felicidade do outro naquele instante. Pode ser, por tantos motivos, que seja preciso se separar agora, pra que daqui a um tempo vocês voltem e possam tentar ser felizes de novo. O amor é dúvida também, e nem sempre certeza total.

 

Quanto tempo isso tem de durar? Quem sabe, né? Ninguém. Mas quando se ama, se espera. Não eternamente, nem por um dia só. Apenas se espera. Porque o amor faz a gente perder o tempo, a noção das coisas e a cabeça. Pra quem ama, estar longe um dia é o mesmo que estar longe um ano: a saudade começa quando pensamos em nos separar dos nossos amores. Seja por uma hora ou uma vida.

 

E, pra quem ama, se tiver de esperar um tempo que não pode ser medido, tudo bem: o amor espera. Machuca, dói, faz sofrer, chorar e querer desistir. Mas toda a dor parece ir embora quando o amor volta.

 

Às vezes o amor volta, às vezes não. Não dá pra saber. Ninguém pode garantir que nenhum amor sobreviverá a nada, seja a uma briguinha ou a uma separação de anos. Ambos podem durar, e ambos podem se desfazer. Mas em todos os casos o amor fica guardado pra depois, em lembranças boas e ruins, em dias bons e ruins, em manhãs de domingo, em noites de sábado e em tardes em tantos outros dias.

 

Isso não é fantasia ou sonho; é apenas o (in)perfeito amor.

 

O que, na prática, podem ser as mesmas coisas.

 

Abraços.

XVIII Crônica: Pelo telefone.

– Alô? – disse Jéssica, com voz fraca e desanimada.

– Oi, meu bem. Como tu estás? – respondeu Gabriel, com a voz travando, mas ainda assim alegre em ouvir a dela do outro lado do telefone.

 

Depois de uma pausa de alguns segundos bem longos, ela disse:

 

– Não.

– O que tu estás sentindo agora? – indagou Gustavo.

– Dor…de cabeça, no peito. Tô tonta também, com fome e – uma pausa rápida – com saudade.

– É…eu imagino. Queria estar aí contigo. Queria poder te ajudar mais, sabe? É uma merda isso de não ser capaz de fazer tudo sempre. E eu só começo a achar que isso é ruim agora, depois de te ver desse jeito. Eu quero ir aí hoje, posso?

– Não – disse Jéssica, querendo dizer “sim” – Os médicos não vão deixar. Eles mandaram o Pedro embora agora há pouco. Eles estão me deixando sozinha aqui. Não quero ficar sozinha…

– Amor, calma. Não estão te deixando sozinha. É um procedimento padrão, eu acho. Não concordo, mas infelizmente a gente precisa seguir isso, pelo menos agora. Sei, digo…imagino…que seja terrível a tua situação aí. Acredita em mim quando eu te falo que queria estar toda hora contigo. Porque eu queria.

 

Ela respirou fundo, dando pra ouvir bem o ar passando pelas narinas dela do outro lado da ligação, e disse:

 

– Por que você não vai embora? Eu tô te fazendo sofrer. Você merece algo melhor. Merece alguém saudável, alguém que consiga fazer as coisas direito, não uma louca que nem eu. Vai embora, Gabriel. Vai enquanto dá tempo. Você só vai sofrer comigo.

– Não vou embora nada, Jéssica. Nem adianta repetir isso pra mim várias vezes. Pode falar o que quiser, mas não existe isso de merecer. Eu te quero, só a ti. E não vai ser um contratempo desses que vai me assustar. Ora porra, se eu não te quisesse tanto eu não te escrevia toda hora alguma, mesmo aquelas que tu não leste ainda.

 

Ambos riram um pouco, o que foi bom pra quebrar a tensão. De alguma forma, ele sabia que ela estava sorrindo.

 

– Tá com o violão aí? – ela perguntou a ele, com a voz mais doce, mas ainda um pouco dolorida.

– Tô sim, meu bem. Queres ouvir alguma música?

– Quero. Toca a minha?

– Claro! Só pegar ele aqui.

 

Gabriel largou o telefone por um segundo, levantou rápido da cama, correu pro canto do quarto, retirou o violão da capa e pegou o celular de novo.

 

– Oi. Voltei.

– Oi.

– Posso tocar então?

– Pode.

 

De novo, ele sabia que ela estava sorrindo. Então começou a tocar.

 

Cada nota ali era ela, de alguma forma. Cada sequência, cada escala descendente, toda cadência perfeita, imperfeita, interrompida, de engano, todas as frases, membros de frase, elisões, modulações e fraseados eram ela. Toda ela. E durante a segunda parte, quando o tom ia para outro diferente, distante e maior, ele começou a sentir os olhos pesados, “marejados”, como ela dizia. Então a respiração ficou tensa e os suspiros de melancolia vieram logo sem nenhuma precaução.

 

Ele terminou de tocar com força e sentimento, tendo ela inteira na mente, sua imagem e cheiro. E depois perguntou se ela tinha gostado, se tinha ouvido bem e coisas assim. Ela respondeu:

 

– Você está chorando?

– Só um pouco, relaxa – respondeu a ela – Nada de mais.

– Por que você tá chorando, amor?

– Ah, tu sabes. Saudade dói pra caralho.

 

Ela ficou em silêncio. Agora, ela que começou a chorar. Sem prantos, só a respiração pesada e lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela disse:

 

– Lê pra mim?

– Leio sim, meu bem. O que tu queres? Algum conto? Poema?

– Qualquer coisa. Só tô com saudade de ti ouvir lendo pra mim.

– Tá bom, deixa eu pensar em algo aqui rapidinho.

 

Então ele escolheu um conto que havia escrito sobre eles. Sobre como se conheceram, há exato um mês e cinco dias. Ele leu, interpretando falas dos dois, de momentos que estavam embriagados (quase todo o conto), rindo, chorando, discutindo sobre tantas coisas ali naquelas palavras. Em determinado momento, Jéssica parou-o e disse:

 

– Desculpa, preciso tomar remédios agora. Posso te ligar depois?

– Claro, meu bem. Liga sim. Eu te espero.

 

Desligaram.

 

Minutos depois, ela ligou de novo, e ele retomou o conto.

 

Ao fim, ela, já suspirando de novo, disse sussurrando, como adorava fazer ao telefone:

 

– Eu te amo, Gabriel.

 

E ele, sem mais nada a dizer, apenas respondeu:

 

– Eu te amo, Jéssica. E não, antes que tu digas algo, eu não vou embora. Eu tô contigo, em qualquer situação. A gente vai passar por essa barra. Vamos sim. E a gente ainda vai pra Paraty nas férias, ainda vamos acampar naquela praia lá que eu não me lembro do nome em algum canto de Niterói, ainda vamos fazer guerra de cheddar, tu sujando a minha barba e eu o teu cabelo, vamos beber até rir de qualquer coisa besta, recitar tantas e tantas poesias, cantar desafinados, enfeitar o domingo, discutir Caetano e morrer de rir. Tudo isso juntos. Vamos?

 

– Vamos!

 

E a animação dela deu um pouco de esperança pro coração dele. Aquela esperança que nunca sumiu, mas que se escondeu muito bem naqueles dias tão tristes, tão pesados e tão doloridos para aqueles dois.

 

– Preciso resolver umas coisas aqui com os médicos, tá bom? Eles vão ter que aplicar alguns remédios, e antes eu preciso comer. Posso ligar pra você depois?

–Claro, meu bem – respondeu Gabriel, sorrindo. – Liga a qualquer hora. Tô te esperando. Tá bom?

– Tá bom. – ela respondeu, querendo ficar mais um pouco. – Te amo.

– Também te amo, meu bem.

 

E ela desligou.

 

E ele escreveu.

Se um escritor se apaixonar por você.

O fato é que se um escritor (a) se apaixonar por você eu lhe desejo sorte. Não por ser algo ruim ou bom, porque isso é relativo sempre. Mas porque, na maior parte das vezes, você vai precisar de sorte com ele (a). Isso porque o escritor(a) é uma pessoa estranha, antes de tudo.

 

É uma pessoa que está sempre te observando, captando todos os seus detalhes e manias, suas roupas favoritas, seus costumes tipo: jogar o cabelo pro lado quando está feliz ou roer as unhas demais. Ele (a) vai até “jogar na sua cara” o fato de saber de cor as suas manias, chegando ao ponto de adivinhar sua reação de forma bem inusitada e estranha. É alguém que gosta de gravar as coisas que fazem parte de você, porque assim ele (a) verá, quando outras pessoas fizerem o mesmo, você: mesmo que vocês possam estar longe um do outro. É a forma que ele (a) encontra para te ter na mente sempre que a saudade bater ou quando quiser se inspirar.

 

Você vai perceber que ele (a) pode ser bem esquecido de algumas coisas. Vai acabar se esquecendo das chaves, de levar dinheiro pra sair, dos compromissos que tinha marcado há três semanas e por aí vai. Mas você também vai perceber que ele (a) não vai se esquecer do seu filme favorito, do que você gosta de comer quando está de mal humor, da cor favorita com que você pinta as unhas, dos seus sonhos de viagem e das suas músicas favoritas. Vai citar o seu autor de livros favorito, mesmo que ele (a) sequer tenha lido um livro dele, só porque ele (a) sempre se lembra de ti. Vai ter certeza de que quando você quer ficar só, na verdade, você precisa dele. E ele irá. Vai saber de coisas que você mesmo não saberia, e vai te contar essas coisas sempre nos escritos dele.

 

Em geral, são seres bem sensíveis, por isso pode esperar declarações melosas e até meio bobas. Acostuma-se a receber poemas pelo celular, textos em pequenos pedaços de papel amassados e até cartas pelo correio (às vezes até com mais de uma página). É capaz de, numa saída de vocês, ele (a) puxar o celular ou um bloquinho de notas e escrever na hora um poema pra você. Ele (a) vai te comparar às coisas mais cafonas, mas bonitas até, que sempre vêm à mente: vai dizer que seus olhos brilham como estrelas, que seu sorriso é um caminho para quem anda perdido e que seu abraço é um poço de calor num inverno que nunca termina. Coisas do gênero. Vai colocar textos dentro dos seus livros, e ainda por cima escrever textos nas páginas dos livros. Vai te enviar várias coisas assim, a ponto de você se irritar ou ficar sem paciência para lê-los. Mas mal você sabe é que ele (a) tem muitos outros guardados e que nunca te manda.

 

Ele (a) dirá, sempre que possível, que te ama. Mas nem sempre vai ser com um simples “te amo”. Vai acabar inventando outras formas pra isso. Vai fazer isso te colocando nos textos dele, em todos um pouco. Nos contos, um dos personagens vai ter seu costume de bater muitas fotos, outro terá a cor do teu cabelo, um terceiro vai ter teu nome, assim como um quarto vai ter teu sobrenome. Talvez ele coloque teus medos em um, mas também encha outros com teu sorriso, teu jeito de andar e o perfume que ele (a) tanto adora em ti. Vai colocar um personagem usando a roupa com que ele (a) acha que você fica mais bonita (o). Vai esconder coisas que se referem a ti em tudo que ele escrever, porque você já faz parte de tudo isso que ele (a) escreve. Mas, além de tudo isso, ele (a) vai se render também ao simples (e sempre verdadeiro) “eu te amo”.

 

Ele (a) nem sempre te dirá o que sente, pois às vezes nem ele (a) mesmo (a) sabe bem explicar. Mas depois, assim que tudo passar, ele (a) vai escrever sobre isso. Vai pôr seus sentimentos ali, nus como um manequim sem roupas ou acessórios, e talvez você, assim, o entenda. Mas mesmo que não saiba dizer o que sente, ele (a) saberá dizer o que você sente. Vai notar, melhor do que a maioria, que o seu tom de voz mudou, que a sua maquiagem não está completa, que o seu olhar está perdido e que o seu suspiro está mais pesado. Vai sentir, mesmo de longe, que o seu coração está triste só pelo jeito que você diz “oi”. Ele (a) vai saber que não está tudo bem, e fará de tudo para que você sorria de novo, por odiar te ver assim e, claro, porque o seu sorriso é a maior inspiração para ele (a).

 

E é assim que o (a) escrito (a) vai te ver: como inspiração. Como a fonte inesgotável de sentimentos que ele (a) pega, como tinta, e joga no papel, onde vai desenhar tudo o que ele sente e pensa sobre você com as mais diversas palavras e expressões, que às vezes ninguém entende. Nem mesmo você às vezes entenderá. Mas saiba que é real, tudo aquilo.

 

Mas mesmo que você não se apaixone por ele (a), ou que o amor termine, ele (a) não vai te esquecer. A vida de vocês vai continuar, como sempre continua, mas ele (a) vai sempre guardar um parágrafo carinhoso no texto dentro dele sobre você. É como uma homenagem dele a tudo que você representou: toda a inspiração, todas as novidades e todas as palavras não ditas pela voz, mas pelas letras. Sempre terá um pedaço de você dentro dele.

 

O escritor é um mentiroso, sempre. Não há exceções. Ele (a) mentirá sobre tudo e sobre todos, até quando ele puder, e até mesmo quando não puder. Mas se um (a) escritor (a) se apaixonar de verdade por você, ele nunca vai mentir uma palavra sequer sobre você. Mesmo que ele tente, ele não vai conseguir.

 

Abraços.

Nem sempre somos tão felizes.

Há pessoas que conseguem, sim, ser felizes na maior parte do tempo. Pessoas alto astral, sorridentes, que encontram ânimo pra acordar e pensar “hoje o dia vai ser bom” ou coisas assim. Pessoas que conseguem lidar bem com sentimentos, na medida do possível, além de terem sempre a capacidade de “querer ser feliz” e, com isso, conseguirem. Mas nem todo mundo é assim. Nem todos conseguem direito.

 

Porque felicidade, pra essas últimas pessoas, é uma construção sem planejamento. É quase que uma questão de pura sorte. Seria tão bom, tão mais simples e muito mais gratificante acordar sempre radiante ou, ao menos, querer estar radiante. Mas acontece que, na maior parte do tempo, acordar pode já se tornar por si só um fardo. Não por preguiça ou por noite mal dormida; mas porque dentro do peito a bagunça é tão grande que a cabeça nem o resto do corpo funcionam direito. Então ficar ali deitado parece mais fácil (e, para estas pessoas, realmente é).

 

Ah, seria maravilhoso, imagino, poder ler algo como “se valorize”, “tenha mais positividade”, “não seja pessimista” ou “ter amor próprio é a melhor forma de ser feliz” e conseguir internalizar isso tudo. Mas às vezes esse tipo de coisa parece apenas um conjunto de palavras vazias e meio banais. Não entra na cabeça sempre que é só a gente querer ficar bem que tudo vai melhorar. De fato, talvez o início do processo seja isso: perceber que estamos infelizes e tentar mudar. Mas o “tentar mudar” é mais difícil pra alguns. É difícil mesmo. Simplesmente querer não resolve muita coisa. É como imaginar que um dia as coisas melhoram porque tem de melhorar. As coisas nunca “tendem” a melhorar; são somas de ocasiões, sorte, azar, oportunidades, ajuda, paciência e perseverança. Principalmente para pessoas que não são “felizes por natureza” (se é que isso existe mesmo)

 

Forçar a felicidade pode ser que funcione para algumas pessoas, mas para outras não. Tentar gostar do trabalho chato, tentar gostar de uma pessoa, tentar acreditar que o universo vai nos trazer coisas boas não ajuda. Talvez pela crença de que nada acontece porque tem de acontecer, e sim pelo acaso, as coisas sejam mais simples: nada tem de ser bom ou ruim, não importa o quanto você queira que as coisas sejam boas, por exemplo. As coisas simplesmente são daquela forma, assim como algumas pessoas simplesmente são desse jeito.

 

É claro que se relacionar com pessoas de bem com a vida, sempre bem pra cima, que dão aquele “bom dia” sorridente em plena segunda feira de manhã cedo é mais prazeroso. Eu mesmo convivo com pessoas assim. Acontece que nem todos são dessa forma. Nem todo mundo consegue.

 

Ter um amigo, se apaixonar ou ser pai/filho de alguém que seja mais “triste” ou não tão absurdamente alegre sempre pode ser cansativo. Afinal, pessoas assim tendem a ser bastante sentimentais, e lidar com sentimentos próprios nem sempre é fácil, mas ter de lidar com sentimentos dos outros é sempre mais complicado, acredito. Às vezes a vontade é que a pessoa que gostamos mesmo fique bem, que resista ao baixo astral e que sorria logo, mas nem sempre podemos fazer alguma coisa que não seja ouvir e apoiar (que são coisas extremamente difíceis, mesmo não parecendo).

 

Felicidade, ao meu ver, é algo que se constrói bem devagar. Não se deve ter pressa, porque a felicidade que vem com muita facilidade é, na verdade, frágil. E quando vier a primeira porrada ela se destrói, e depois fica ainda mais difícil de se reconstruir. A felicidade não pode estar em alguém ou alguma coisa, pois não controlamos o tempo que alguém vai ficar conosco ou quanto tempo alguma coisa pode durar. Uma pessoa pode nos abandonar por inúmeras ocasiões: pela morte, pela distância física, pelos problemas de relacionamento e pelo próprio tempo. Assim como objetos também quebram, desgastam e perdem utilidade. A felicidade não pode estar em coisas assim.

 

Talvez o segredo seja aprender a conviver com essas situações chatas. Talvez não, quem sabe? Talvez seja apenas um equilíbrio certo entre a tristeza e a alegria, para que não afundemos na dor nem fiquemos iludidos demais com a euforia. Por isso (pra mim) não é possível estar feliz do nada, porque nada que realmente dura se forma do nada. Nenhuma árvore de nasceu do nada; é preciso tempo e cautela, e um pouco de esperança, mesmo para os mais pessimistas.

 

A vida não é uma certeza, nada que faz parte dela é. Não nascemos para sermos felizes, mas também não nascemos para sermos tristes. Nem a felicidade, e muito menos a tristeza são certezas na vida. Isso não é uma visão pessimista; longe disso. É apenas uma visão de que nada é predestinado e nada tem de ser exatamente como queremos. Aceitar isso pode ser algo bom, ou até mesmo um fardo, mas isso depende de como enxergamos a vida e que sentido damos a ela.

 

Abraços.

Nenhuma grande perda a gente supera fácil.

Não adianta seguir fórmulas. Não adianta buscar por respostas. Não há muito o que se fazer na maioria das vezes que algo que a gente gosta não faz mais parte de nós. E esse algo pode ser tanta coisa que mal sabemos, às vezes, por onde começar. Mas é fato que, em todos os casos, só uma coisa é verdadeira: se o sentimento de perda for real, então a dor é tão real quanto, e apenas (infelizmente apenas) o tempo faz a dor passar um pouco.

 

Acontece que somos acumuladores de sentimentos. Somos seres que nos relacionamos porque precisamos ou porque, ocasionalmente, aconteceu. Podemos conhecer tantas pessoas todos os dias sem querer: na escola, na fila do supermercado, caminhando na praia, numa festa, em uma viagem, num show, na academia. Passamos, esbarramos, nos encontramos e damos bom dia pra muitas pessoas sempre. Às vezes, por sorte ou acaso (que são, nesse ponto, a mesma coisa), acabamos conhecendo alguém especial pra gente.

 

Pode ser um novo amigo, um novo companheiro de caminhadas ou uma pessoa por quem nos apaixonamos naquele instante. As relações se formam sem aviso e crescem como árvores alegres. Quando percebemos já estamos cheios de flores, folhas e frutos dessas plantas, infestando nosso corpo e nos tornando uma verdadeira floresta de sentimentos bons. Os ruins, em geral, conseguimos podar bem, nos afastando daquilo que não queremos por perto de nós.

 

O problema é quando existe algo que nos faz mal, mas não queremos deixar ir. No caso, quando se faz necessária uma despedida, por assim dizer.

 

Casos como quando é hora de dizer “até logo”, sendo que essa pequena despedida não tem data para um reencontro. Cortar uma dessas árvores que, muitas vezes, já têm raízes fortes e profundas na gente dói muito. Dói como se estivéssemos mesmo cortando uma parte de nós, como um braço, uma perna ou uma parte do coração. E a dor de cortar um sentimento é enorme, que dificilmente se compara a algo físico, pois algumas feridas no corpo cicatrizam com remédios; mas essas da alma nenhum remédio conserta de verdade.

 

Os sentimentos entranham na gente. Fazem na gente sua casa, seu refúgio e seu recanto de paz. Mas às vezes a vida os obriga a saírem de dentro de nós. Então, de repente, sem nenhum maldito aviso ou carta de despacho, eles vão embora.

 

Você já não encontra com o mesmo amigo no futebol de domingo, mas sim outra pessoa, alguém com quem você não tem mais a mesma intimidade e a mesma parceria. Você já não tem mais que sair de manhã pra passear com seu cachorro, porque ele já estava velhinho demais quando partiu. Você não vê mais o seu amor do outro lado da cama, pois ele foi embora faz algumas semanas, após brigas e desgastes, e sobraram fotos de vocês pelo quarto e nas mídias do celular. Você não pode mais mandar mensagens para alguém porque, pelo bem de ambos, é melhor assim. É uma forma dos dois ficarem bem, mesmo isso parecendo irracional.

 

Às vezes é preciso ir embora querendo ficar. E isso é uma das maiores idiotices e, ao mesmo tempo, verdades que existem na vida.

 

Vamos perdendo tantas coisas durante nossos dias que às vezes desistir parece ser mais fácil. Pra quê plantar novos sentimentos se logo eles morrem e ficamos tristes? É o que muita gente pensa. Muita gente mesmo. Mas não plantar nada é pior. Viver num campo sem árvores, num jardim vazio, é bem pior mesmo. Por isso estamos sempre nos recompondo, mesmo não querendo. Vamos encontrando novos amigos, novas rotinas e novos amores, plantando novamente em novos espaços. Mas nunca nos espaços deixados por quem perdemos.

 

Isso porque é impossível substituir alguém que realmente amamos algum dia, seja a pessoa que for. Não se cura a dor de um amor com outro, pois nenhum amor é igual. São pessoas distintas, momentos e sentimentos diferentes. Nós nos acostumamos a falta, a ausência e a breve solidão. Com o tempo a ferida cicatriza, depois de tanto latejar, e então fica a marca ali no nosso corpo, como uma tatuagem que deu errado. Somos, no fim, um retalho de coisas de deram certo e coisas que deram errado, e nunca apenas um dos dois. Carregamos conosco um amor que acabou, um que espera pra nascer e um que já nasceu.

 

E não é fácil, nem nunca vai ser, se acostumar a alguma grande perda. Leva tempo. Depende de quanto espaço a pessoa tinha dentro de nós, mas isso a gente não controla. Porque tem gente que entra dizendo que vai ficar só um minuto e fica uma vida toda, mesmo depois de ir embora. Diz que só quer um fio de cabelo pra morar, mas mora num pedaço bem maior. Se acostumar a viver, pagar as contas, estudar, comer, rir e continuar a se levantar da cama todos os dias sem aquilo que estava aqui dentro, ocupando esse enorme espaço é muito, muito difícil.

 

Então não adianta se culpar por perder. Nem sempre temos culpa, e menos vezes ainda teremos chance de tentar reparar o que aconteceu. O que se pode fazer é aceitar que as coisas aconteceram e que, apesar de tudo, estamos vivos. E que, com o tempo, a ferida não dói mais tanto, e a cicatriz se torna uma marca como qualquer outra, sem sentir nada ali ou incomodar mais.

 

Abraços.

O medo de amar.

Ontem conversava com uma amigona e ela me falava de uma decepção amorosa que teve. Ela comentou que no início foi bom, mas logo foi cansando, complicando, vindo brigas e outras coisas típicas de qualquer situação parecida. Coisas que acontecem, infelizmente, com todos nós em algum momento. Então ela disse, da mesma forma que já me repetiu várias vezes passadas: “não quero mais me apaixonar”.

 

Não sei se pra ela não é dessa forma, mas eu acho essa frase muito pesada. Afinal, por quê? O que leva uma pessoa a não querer gostar de outra? De sentir frio na barriga, as tais borboletas no estômago, o suor nas mãos e a vontade de ficar olhando no perfil de alguma rede social as fotos da pessoa? Enfim, o que a leva a não querer se apaixonar? O puro medo, eu acho. E não menosprezo isso, mas me deixa triste ver que tanta gente, desde sempre, pensando dessa forma. É basicamente evitar a possibilidade de ser feliz pelo medo de dar errado.

 

“Mas se apaixonar só dá problema, porque a gente sempre sai magoado no fim. Melhor não arriscar mesmo”. Se fosse dessa forma, não devíamos sair de casa, pois podemos ser assaltados em qualquer lugar; não deveríamos tentar passar num vestibular, porque podemos ficar reprovados. Não devíamos atravessar a rua, porque podemos ser atropelados. Não devíamos tentar ser felizes porque podemos falhar e ficar tristes no caminho. Não devíamos viver, porque no fim todos morremos. E nada disso faz sentido, não? É claro que não. Porque não existe isso de “sempre vai dar errado” em nada, muito menos no amor. Não há nenhuma certeza absoluta quando se fala de amor. Agora, se negar a algo que pode te fazer bem só pelo medo de dar errado é falhar sem tentar.

 

Eu compreendo que muitas vezes não dá certo. Eu sei disso. Muitas vezes iremos nos decepcionar, perceber que a pessoa não é o que pensávamos, que ela não compartilha tanta coisa conosco como imaginávamos, que nos primeiros encontros é gentil, doce e carinhosa, mas depois se mostra grossa, distante e ruim conosco. Muitas vezes iremos amar muito alguém, mas ela pode apenas gostar da gente. Isso tudo é possível. Mas o contrário também, e isso já deveria bastar. O que acontece é que o que mais parece marcar as pessoas é a parte ruim de um relacionamento (como término, brigas, traições, coisas do gênero) quando ele também teve seus momentos alegres e incríveis, sendo curto ou não.

 

Então o que ocorre é haver inúmeras pessoas por aí se recusando a tentar pelo pavor de dar errado. Relacionamentos rasos, frases do tipo “não quero me envolver” e “não quero me apaixonar” ou “odeio o amor” e gente que corta qualquer tipo de relação que possa se tornar algo mais sério. Pessoas desistindo do amor muito antes dele sequer acontecer, abortando esse sentimento. Tudo, em geral, porque não conseguiram superar um último término ou um coração partido. Permanecendo, dessa forma, presas a elas mesmas com medo de serem felizes (e talvez tristes de novo).

 
Não é fácil superar alguém que a gente realmente amou. Leva tempo. Às vezes muito, outras vezes nem tanto e em alguns casos muito mais do que todos nós gostaríamos. Porque não é como se o amor acabasse ou morresse. Não é como se fosse um pedaço de papel que podemos rasgar e jogar fora e esquecer. Acho que a gente se acostuma a ausência, entende que as coisas aconteceram como aconteceram e que nem sempre podemos mudar isso. A gente entende que toda relação, por mais bonita que seja, pode terminar. Mas sempre deixamos algo bom daquela pessoa dentro de nós. Sempre sobra um pouco do amor que tínhamos por ela, seja em forma de admiração ou algo parecido com a gente.

 

Não julgo quem demora a superar um término, muito menos quem tenta evitar qualquer coisa nova por medo. Mas esse último caso me deixa triste, porque o arrependimento vai viver dentro do peito de quem pensa assim. Não é que precisamos de alguém sempre pra sermos felizes. Não é verdade, pois muitas vezes estaremos sozinhos. Isso não é fardo, mas sim um fato da vida: nós podemos estar sozinhos, sem ninguém para amar ou nenhum amor dentro de nós naquele momento. E ainda assim podemos ser felizes só com nós mesmos. Mas cortar a raiz do sentimento antes do amor florescer de novo mata qualquer chance de um novo jardim.

 

Amar e sofrer por amor ainda é melhor do que não sofrer por amar nunca mais. Pois o simples fato de não amar outra vez já é, por si só, um sofrimento que mal se pode aguentar.

 
Abraços.