I Crônica: O dono do bar

Por volta das seis da tarde, um boteco qualquer em Copacabana já está cheio. Há muitos homens ali, e nenhuma mulher. Todos já com quarenta anos adiante, enchendo seus copos com bebidas cada vez mais baratas. Conversam entre si sobre tantas coisas que não saberiam enumerar ao fim da noite. Um deles, porém, se sente menos alegre do que os demais. O dono do local, que a cada cinco minutos enche novos copos limpos e sujos.

Ele escuta, como todo dono de estabelecimentos do tipo, as mais diversas histórias. A maioria delas gira em torno de futebol e mulheres, e em ambos os casos, majoritariamente, há desgraças envolvidas. Um time de um dos porres perdeu por azar, ou culpa do juiz, e não faltam insultos para servirem de adjetivos ao suposto culpado do resultado. A mulher de outro não lhe largava, ficava lhe importunando dia e noite, fazendo com o que ele passasse cada vez mais tempo fora de casa, na companhia de seus amigos e, digamos, outras companhias menos cristãs, como é dito pelo próprio autor das reclamações, que é respondido com risadas dos companheiros de copo. E o dono ouve tudo.
Ao fim da noite, saberá tantas coisas que terão de ficar com ele, pois todos esquecerão o que disseram antes de irem dormir embriagados.

O tempo vai passando, mais pessoas chegam, outras vão embora, e mais histórias chegam aos ouvidos inchados do anfitrião, como ele é apelidado pelos homens que frequentam o local. Horas passaram, e chega o momento de fechar o boteco. Há uma singela despedida entre os homens, que agora retornam aos seus lares, para os braços de suas mulheres, ou, para alguns, apenas para o conforto de suas camas. O dono do bar, porém, os olha pensativo. Pensa em suas vidas ruins, nas tristezas, nas mentiras, nos boatos, nos sentimentos e em tudo que ouviu naquelas horas intermináveis. Entretanto, apensar da repulsa, o que ele sente é inveja, pois aqueles homens, diferentemente dele, conseguiam se sentir felizes por alguns instantes. Nem que fosse por meio de um pouco de bebida, eles conseguiam. Era, na cabeça dele, a única mentira que ele contaria com prazer a si mesmo.

Pouco antes de fechar o local, ele se senta no balcão, pega um copo sujo, joga uma água rapidamente, e o deposita duas doses de uísque barato. Olha aquele líquido avermelhado, meio rubro, e vê as histórias que ouviu hoje, e se sente pior ainda. Sozinho, apenas com o som dos carros lá fora e do farfalhar de folhas das várias árvores do bairro, ele toma um gole sem gelo daquela bebida amarga que rasga tudo que encosta dentro dele. A sensação é boa, mas o homem sabe que é falsa. Ele reflete sobre qualquer coisa enquanto espera o momento de tomar o resto de uma só vez, para assim poder sair dali e começar, da mesma forma que os outros homens, seu caminho solitário para casa.

Olha o copo, fitando o seu singelo reflexo distorcido nele, imaginando se aquilo vale realmente a pena, ou se era só uma tentativa fracassada de parar de sentir pena de si mesmo. No fim, ele releva, pois sabe que, no fim, é da natureza humana se sentir assim, e buscar se confundir mentalmente, julgando ser a forma ideal de se esquecer dos problemas que assolam cada esquina, cada olhar, cada pensamento e cada palavra que as pessoas escutam, pensam, olham e veem. Toma em sua mão o copo, o ergue sozinho e sente o líquido tocar-lhe os lábios e descer pelo caminho já conhecido. Tosse duas vezes e depois, já cansado, abandona o copo ali no balcão, ainda com o cheiro de álcool emanando, e fecha a porta do local. Sem olhar para trás, ele caminha pelas ruas escuras, sentindo o vento frio lhe guiar e seu pensamento lhe acalantar.

*

P.S.: esse texto faz parte de uma categoria do blog que se chama “Crônicas”. Nela irei postar histórias curtas, semi reais, abordando o cotidiano do Rio de Janeiro, sob um olhar muito mais focado nos sentimentos que estão latejando nas pessoas que vivem nessa cidade. “O dono do bar” foi o primeiro, e conta uma situação extremamente comum do bairro de Copacabana (e da cidade como um todo). É claro que, por não serem totalmente verídicos, os episódios retratados aqui são mais metáforas do que crônicas propriamente ditas. Mas, mesmo que sendo por meio de uma visão mais pessoal, acredito que muitos vão entender o que está escrito aí em cima, e perceber que muito se pode tirar de um simples olhar curioso e irreverente (sim, eu gostei dessa frase).

Abraços.

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