III Crônica: A surpresa

Era um dia como qualquer outro, e por isso mesmo Roberto resolveu fazer uma surpresa para o seu amor. Não era nenhuma data especial, nem havia algum motivo específico para ele ter essa vontade de fazer algo para a sua pessoa amada. O que existia nele era um amor enorme que, inexplicavelmente, borbulhava naquele dia. E, como era de se esperar, não lutou contra esse instinto amoroso que tanto lhe afetava.

Um pouco antes de chegar do jornal onde trabalhava, ele desceu do ônibus e caminhou até uma floricultura por perto. Adentrou e pediu ao vendedor um punhado de azaleias, pois sabia que seu amor adorava aquelas flores. Pagou, agradecendo aos seus orixás por ter a sorte de achar as plantas e, depois, ao vendedor. Saiu sorridente da loja, tomando agora o caminho de casa.

Dobrou algumas ruas e chegou à sua morada. Deu boa tarde ao porteiro e correu para pegar o elevador que quase fechava suas portas. Apertou no botão do décimo segundo andar e, com um sorriso singelo, aguardou enquanto olhava para as plantas, imaginando aquele sorriso tão lindo e sincero, como jamais vira em outra pessoa, e depois os olhos castanhos, bem escuros como a própria pele. Um suspiro foi o que restou do tempo de espera antes das portas se abrirem e ele sair, indo rapidamente até o apartamento.

Entrou e largou as coisas no sofá, com exceção das flores, que depositou no quarto, em cima do criado mudo, bem ao lado da foto do casal. Voltou à sala e depois se dirigiu à cozinha. Tinha em mente algumas coisas que poderia cozinhar, ou pelo menos tentar; mas faltavam certos ingredientes, o que não o desencorajou. Na base do improviso, colocou uma música no tocador de discos e partiu para as “tentativas”, como ele pensava consigo mesmo.

Começou a tocar “Here, there and everywhere”, dos Beatles, e então Roberto não se conteve. Deixou o macarrão quase queimar enquanto enxugava suas lágrimas de emoção só de pensar no nome da sua outra metade, que logo mais estaria chegando. E voltou aos seus pensamentos logo depois de tirar do fogão o resto da comida.

Passavam os minutos e a ansiedade aumentava. Agora, com a mesa já pronta, tratou de tomar um banho para ficar, enfim, no jeito certo. Demorou alguns minutos, pois a imagem dos dois não saía da sua cabeça, e fechou os olhos por quase cinco minutos, imaginando, lembrando, sonhando e amando em sua mente. Quando se deu conta, já havia se passado bem mais tempo do que deveria, e então se enxugou com as toalhas e correu para se vestir. Pegou uma roupa confortável e se banhou de perfumes, dos favoritos da sua outra metade.

Foi então esperar sentado, com duas taças de vinho já prontas para serem degustadas. As flores estavam sobre a mesa, em um vasinho que haviam comprado em uma viagem recente, e que significava muito para eles, bem mais do que tantas outras coisas que já compartilharam e que lhes lembravam de outros momentos.

De repente, o barulho de chaves vindo da porta acelerou seu coração. Depois, a porta se abriu e ele teve a visão que tanto esperava desde cedo, e que ansiava além do que conseguia compreender há tantas horas. Correu e tomou seu amor em seus braços, beijando-lhe a boca demoradamente e lhe apertando com força, já quase sufocando seu corpo cansado de um dia estressante e exaustivo de trabalho.

Mas todos os pensamentos que o amor de Roberto tinha até então sumiram quando viu a mesa, as velas, a comida e as flores, tudo feito em sua homenagem. Desta vez, não foi o jornalista que chorou, mas foi ele quem foi beijado e apertado loucamente. Quando pararam a demonstração de amor, partiram para a janta, que foi elogiada a noite toda, deixando Roberto, até certo ponto, sem graça. Mas antes beberam o vinho, mantendo o olhar um no outro durante todo o percurso do líquido pela boca até chegar ao destino final.

E depois, sem tanto pensar, foram para o quarto. Conversaram bastante durante a janta, mas naquele momento já não tinham pensamentos para as palavras. Disseram, por meio de gestos e carícias, o quanto amavam um ao outro, e se cansaram depois de quase duas horas da mais pura e sincera forma de amor.

Já deitados, cansados depois do amor e prontos para dormir, Roberto ficou com o peito para cima, de olhos fechados. Sentiu os cabelos curtos da sua outra metade tocarem-lhe, e acariciou sua cabeça. Sentiu o calor das mãos tocarem as suas, do seu corpo tocar o seu e do seu coração bater bem pertinho, chegando a fazer-lhe tremer bem de leve. Com um beijo na testa, Roberto ouviu a voz doce lhe dizer as simples e lindas palavras:

– Boa noite, Roberto. Eu te amo.

E ele simplesmente respondeu:

– Também te amo demais, Jorge. Boa noite.

E então os dois adormeceram abraçados, com seus sonhos e corpos entrelaçados.

Anúncios

Um comentário sobre “III Crônica: A surpresa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s