Mês: outubro 2015

V Crônica: O velho da janela.

Da janela de seu pequeno, porém arrumado, apartamento em Copacabana, Januário observa a rua. São quase dezesseis horas, ou seja, já há mais de três que ele, um senhor de quase setenta anos, almoçou. Agora é o momento em que ele para, acende seu cigarro, acompanhado de um café preto sem açúcar, tenta se colocar em paz consigo mesmo. Todos os dias ele fica quase duas horas sentado ali, vendo o movimento das pessoas e dos carros enquanto sente a sua já cansada respiração lhe adentrar e depois abandonar o corpo.

Vive sozinho há quase uma década e meia naquele aconchegante lugar que chama de casa. Bem verdade, porém, que esse estado solitário em que se encontra foi praticamente fora imposto sobre si sem que fosse, de fato, sua vontade. Não gostava de pensar sobre isso, pois sempre sem enchia de uma nostalgia que não apreciava sentir. Era raro para ele voltar às lembranças por vontade própria, pois já lhe era suficientemente incômodo as recordações involuntárias.

Januário costumava escrever, mas infelizmente acabou perdendo esse hábito com o tempo. Durante anos se manteve conectado aos velhos amigos que estavam distantes por meio de rabiscos em papéis velhos e sob uma caligrafia que nunca fora das melhores. Entretanto, as correspondências foram se esvaindo com o passar dos verões, e por motivos diversos. “Alguns amigos nos deixam no decorrer da nossa existência. Os companheiros de guerra morrem, e os de bebida, em sua maioria, nos esquecem. Faz parte da vida, eu suponho.” ele escrevera certa vez a um antigo amigo que estava naquele momento nos seus últimos instantes de vida. Januário soube que ele morrera dias depois.

Atualmente ele já fala pouco com a família. Do que restou, no caso. Os filhos, três ao todo, se foram para suas vidas em locais distantes, com amores que eles mesmos escolheram. Tinha apenas um neto, filho de sua filha mais velha, mas que via menos do que já tivera a oportunidade de conversar com o mesmo. Tinha muito amor pelo Pequeno, como ele o chamava; entretanto, apenas a vontade e o carinho que possuía não eram suficientes para trazer aquela criança maravilhosa para perto de si.

Um cigarro se acabou, mas ele logo trata de acender outro. O gosto do tabaco é ruim, e sempre foi; porém, ele já nem sentia mais tanto a diferença. No fundo, ainda mantinha o costume, pois era uma forma que ele sempre tivera de estar tranquilo consigo mesmo. Muito embora tenha começado com amigos e dividido grandiosos momentos na sua mocidade e até os tempos mais recentes acompanhados de uma fumaça carregada de nicotina. Tinha aquele falso discurso moralista de que fumar fazia mal a saúde e por isso não recomendava a ninguém. No fim, se alguém lhe pedia, ele jamais recusava. Uma pena que ninguém nunca mais lhe pediu nada, nem sequer um pequeno trago.

Assim que termina o café, sai da janela e adentra o recinto. Troca de roupa, coloca suas sandálias e se propõe a sair de casa. Ao chegar à porta, porém, fica receoso. A mão chega a tremer só de encostar na maçaneta, então ele muda de ideia e resolve se manter em casa. Senta-se no sofá, liga a televisão e permanece prostrado ali mesmo. Não é por medo, e sim por remorso. Há tanto que não tem mais o costume de caminhar, sair sem motivos, ou simplesmente espairecer, que Januário prefere ficar recluso no seu pequeno mundinho solitário.

Sem se entreter com o que a programação daquele canal aberto nojento lhe proporciona, ele desliga o televisor. Ao desliga-lo, lembra que na noite anterior estava lendo um livro e que agora seria uma boa hora para continuar. Caminho até o seu quarto e logo vai em direção da estante de livros. Ao lado do tal livro estava um exemplar de “Dublinenses”, de Joyce. Logo sentiu uma pontada no coração ao vê-lo, pois se lembrou da sua esposa.

Deixou de lado o livro que ia ler e tirou da estante a obra do irlandês. Folheando aqueles vários contos que davam vida à suas memórias, ele parou em uma parte que lhe era bem conhecida. Um trecho que usou em uma das suas primeiras cartas de amor, justamente endereçada para aquela que viria a ser a mãe de seus filhos e seu último e mais duradouro amor. Leu em voz alta: “Por que razão as palavras me parecem tão tristes e frias? Será porque não existe palavra bastante suave para ser teu nome?” e em seguida chorou. Estava agora a lembrar de tantas coisas que já não queria, que lhe faziam mais mal do que bem, e que lhe levavam de volta a uma época que era feliz, mas que não tinha mais esperanças de viver momentos parecidos; e isso o entristecia.

Perdeu então a vontade de ler. Deixou ali mesmo ambos os livros e retirou-se do quarto. Voltou à janela e acendeu mais um cigarro. Sua mente não lhe deixava em paz. Tossiu uma vez, depois outra, mas não abandonou o fumo. Sentia-se mais sozinho agora, mais apreensivo e mais sem motivos para nada. Seus olhos já não estavam mais tão carregados, porém ardiam, e ele não conseguia fecha-los.

De repente, o interfone tocou. Era o porteiro, dizendo que havia uma encomenda para ele. Januário perguntou se ele podia subir com ela, como geralmente fazia. O porteiro disse que sim e logo subiu. Tocou a campainha, a porta abriu, eles se cumprimentaram e a correspondência foi entregue. Era uma carta de uma amiga que não via havia anos e para quem não escrevia há tempos também. Uma amiga que sentia a falta, assim como de outros, pois se lembrava daqueles anos de felicidade que não deixavam sua memória por nada. Nunca mais ouviu nada dela, nem sabia onde vivia, e agora ela estava li, nas suas mãos frias e cansadas.

Sentou-se junto à janela novamente, abriu o envelope avermelhado e leu a carta. A cada linha ele sentia mais aperto dentro de si, e conseguia ouvir a voz dela em todas as sílabas ali redigidas. No final, ela escreveu:

“Tente não sumir para sempre, certo? Ainda há alguns anos pela frente antes de morrer. Não seja apressado, seu ‘velho safado’.
Com amor,
Aquela ‘menina’ (ainda lembra-se desse apelido, não?)”.

Outra vez, Januário chorou. Entretanto, dessa vez, o choro foi mais doce. Guardou a carta com cuidado no envelope. Arrumou um papel qualquer, uma caneta e uma cadeira. Sentou-se e começou a redigir uma resposta. Deixou vacilar um sorriso adocicado quando uma gota escorreu do seu olho, atravessou o rosto enrugado, tocou a boca e depois caiu sobre o papel.

Solidão, doce solidão.

É quase errado, eu acho, dizer que a solidão pode ser algo bom. Tudo bem, o “certo” e o “errado” são termos extremamente imprecisos, ainda mais se tratando de um estado de espírito. Mas percebi, depois de um tempo, que, assim como outros sentimentos e sensações, tipo o amor e a alegria, a solidão é algo necessário àquelas pessoas que precisam de paz interior.

Entendam: não me refiro ao momento em que estamos tristes e recorremos apenas ao isolamento para tentar esperar que a melhora chegue do nada. Na minha opinião, isso não funciona. Se há alguém para quem possamos recorrer, então que seja feito, pois ninguém deve se dar ao luxo de sofrer, por qualquer que seja o motivo, sozinho. A tal solidão que falo aqui é aquela que devemos buscar quando sentirmos que precisamos nos sentir bem com nós mesmos, em que precisamos refletir. É aquele instante que nos mostrará realmente o que somos e o que precisamos (ou queremos) ser.

Quando estamos a sós com nós mesmos adquirimos a capacidade de nos ouvir. Conversar consigo mesmo é difícil, sem falar que causa uma má impressão em quem está de fora, nos deixando com uma marca de tristeza, melancolia, depreciação, enfim, todas essas coisas ruins. Mas, na verdade, o que se faz é exatamente o contrário: tentar se buscar dentro de si, pois já não conseguimos nos achar em outro lugar. É fácil perder a si mesmo nas ruas e caminhos alheios aos nossos, nos quais nos metemos, às vezes, sem querer e por pessoas que não fariam a mesma coisa por nós.

Estar consigo mesmo é bom para os pensamentos. De verdade. Já ouvi muita gente falando coisas como “não gosto de pensar na vida porque assim eu fico triste”. Bem, eu já acho que ignorar o que nos deixa triste é a pior forma de deixar de se sentir assim, pois quando esses pensamentos ruins voltarem estaremos indefesos e perdidos, recorrendo (de forma errada) à solidão, achando que esperar passar a “bad” é um bom remédio. É importante pensar na vida, pois senão estaremos apenas cumprindo uma rotina que, muitas vezes, já está sendo seguida no automático. Provavelmente, nesses instantes de pensamento mais aprofundado, iremos encontrar muito mais defeitos em nós mesmos do que qualquer outra coisa, mas isso é bom. Deixa mais claro o que devemos mudar, hábitos a parar e, inclusive, pessoas que precisamos esquecer.

A todo o momento, mesmo sem saber, estamos buscando respostas para perguntas dignas de um livro do Camus como “será que fiz o certo?”, “estou fazendo as escolhas adequadas?”, “qual o meu dever aqui?”, “devo ir para aquele ‘happy hour’ mesmo sabendo que amanhã tem prova na universidade?” e por aí vai. Querendo ou não, somos um poço de existencialismo cada vez mais profundo e, muitas vezes, chato. Claro, refiro-me as pessoas que não se renderam ao comodismo que a vida costuma nos empurrar goela abaixo por meio da rotina incansável e estressante composta de deveres que, infelizmente, não estariam nem nos nossos mais indesejáveis sonhos, mas que acabamos tendo que cumprir.

A solidão é, de certa forma, escapismo; e eu não falo isso como algo ruim. Por sinal, certa vez, sozinho, me indaguei exatamente nesse ponto: “quem disse que escapismo é algo ruim?”. Então, tive um daqueles momentos pseudo-filosóficos em que a gente pensa em tudo e, no fim, mal chega a uma única conclusão. Mas eu cheguei a uma; não precisamente naquele dia, e sim nos que se seguiram, acompanhados desses momentos de pensamento livre e solitário. Essa tal conclusão é essa que digo aqui nesse texto: a solidão pode ser uma salvação para as mentes cheias e beirando a loucura, mas apenas se a loucura não dominar a solidão na qual estamos nos colocando.

E outra coisa: há muito que se fazer sozinho que é mais prazeroso do que com muitas pessoas. Ler aquele livro que dissemos que iriamos começar semana passada, mas não começamos; ouvir música com os fones ligados até o talo; tocar violão (ok, sou suspeito); escrever e por aí vai. Por sinal, o isolamento me trouxe o ótimo costume de escrever cartas, mesmo já tendo formas bem mais práticas e eficientes (e baratas) de se mandar uma mensagem para alguém que não esteja na mesma cidade. Escrever carta é mais legal, fazer o que?

Isolar-se por algumas horas, minutos ou até segundos pode fazer um bem para a alma maior do que qualquer conselho de amigos. E às vezes nem é preciso declarar a partida momentânea para ninguém. Deixar que se note a necessidade de fechar os olhos, ouvidos e os demais sentidos para o mundo todo é difícil, porém (já me repetindo outra vez…) faz um bem enorme, se o “desligar” for feito da forma certa.

Abraços.

IV Crônica: uma paixão de metrô.

Otávio pegou o metrô, como faz quase todos os dias, e esperou para chegar em casa. Teve de esperar em pé por um tempo, devido ao número de pessoas se apertando no pouco espaço que sobrava durante o final das tardes. Tateou os bolsos procurando seus fones de ouvido, mas apenas amaldiçoou a si mesmo por tê-los esquecido em casa. O cheiro de pessoas cansadas já lhe incomodava, e o seu suor vindo da testa já caía sobre as sobrancelhas.

Três estações depois do início da viagem já se podia transitar sem muita dificuldade dentro do local. Otávio avistou um banco livre e rapidamente tratou de garantir seu descanso. Sentou-se e suspirou. Depois olhou os outros passageiros e, sem motivos específicos, concentrou toda a sua atenção em uma mulher. Devia ter a uma idade semelhante a sua, vinte e três anos, e não era a mais bonita que já vira nos metrôs do Rio.

Mesmo assim, ele se viu atraído por ela. Usava o cabelo preso, deixando as mechas escuras caírem sobre as costas. Estava com pouca maquiagem, pois eram perceptíveis as olheiras e algumas leves imperfeições em seu rosto. Segurava em uma das mãos um exemplar de “O amor é um cão dos diabos”, de Bukowski. Vez ou outra ela ajeitava os óculos, que caiam pelo seu nariz até quase sair do rosto.

E Otávio a observou por quase todo trajeto. Houve um instante em que ela encontrou um lugar próximo para se sentar e o fez. Nesse momento ela tirou o olhar das páginas e olhou ao redor. O coração de Otávio acelerou assim que os seus olharem se encontraram e permaneceu em um ritmo fora do comum depois que ela voltou para a leitura. Ele nem percebeu que já estava no meio do caminho até a sua estação, pois a imagem daquela menina lhe deixava hipnotizado.

Ele sabia que aquilo era estranho, e provavelmente algumas pessoas já haviam percebido que ele estava encarando alguém sem parar; alguém que nem sequer falou com ele ou mesmo lhe dirigiu o olhar por mais de alguns segundos. Mas que mal havia naquilo, ele pensou. Continuou com seu ritual “estranho” até determinado momento em que puxou de sua bolsa um bloco de notas. Sacou a caneta do bolso e, mesmo não tendo esse hábito, começou a escrever um bilhete.

Estava difícil, pois a posição não era favorável. Porém, com esforço, vindo de uma vontade estranha de falar com aquela mulher, ele foi escrevendo. De repente, entrou uma mulher que chamou a atenção de muitos homens que ali estavam. Linda em todos os aspectos visuais, ela, inclusive, emanava um perfume diferenciado, algo que ficou entranhado nas mentes e fantasias de vários sujeitos ali. Entretanto, Otávio ainda mantinha sua atenção na moça de óculos.

Então, mesmo sem ter terminado ainda o bilhete, chegara a sua parada. Por sorte, era a mesma da tal mulher que lhe estava deixando com batimentos acelerados. Saiu ligeiramente pela porta mais próxima e avistou-a subindo as escadas muito à frente. Correu, sem se preocupar tanto com o senso do ridículo, para não perde-la de vista. Chegando ao fim dos degraus, olhou ao redor, e não viu mais a moça. Tentou ver se a encontrava fora do metrô, mas mesmo já na saída ele não conseguia ver nenhuma mulher que se parecesse com aquela.

Pensou ter vista a moça em uma esquina mais à frente, mas não sabia se realmente era ela. Mas, àquele ponto, não sabia se isso realmente faria alguma diferença. Será que ela acharia ele um tarado? Será que iria gostar do bilhete? Será que ela seria apenas educada e diria algo como “eu tenho namorado”, mesmo que isso não fosse verdade? No fim, já nem lhe importava mais. A mulher que viu na esquina já não estava mais lá, e ele tomou isso como um sinal de que deveria esquecer toda essa história.

Com a caneta e bilhete em mãos, Otávio, com o coração já ralentando, tomou seu rumo para casa. Passando por um lixo, ele pegou o texto inacabado, amassou-o e depositou no local. Não sentia raiva, apenas um estranho desapontamento. Ainda pensava se seria realmente capaz de falar com a tal moça, ou se apenas seria tudo uma situação recorrente e ideal criada pela sua mente, já cansada e, agora, meio abalada, para tentar lhe pregar uma peça. Por fim, apertou o passo e, sem mais tantas emoções, traçou seu caminho até o lar.