IV Crônica: uma paixão de metrô.

Otávio pegou o metrô, como faz quase todos os dias, e esperou para chegar em casa. Teve de esperar em pé por um tempo, devido ao número de pessoas se apertando no pouco espaço que sobrava durante o final das tardes. Tateou os bolsos procurando seus fones de ouvido, mas apenas amaldiçoou a si mesmo por tê-los esquecido em casa. O cheiro de pessoas cansadas já lhe incomodava, e o seu suor vindo da testa já caía sobre as sobrancelhas.

Três estações depois do início da viagem já se podia transitar sem muita dificuldade dentro do local. Otávio avistou um banco livre e rapidamente tratou de garantir seu descanso. Sentou-se e suspirou. Depois olhou os outros passageiros e, sem motivos específicos, concentrou toda a sua atenção em uma mulher. Devia ter a uma idade semelhante a sua, vinte e três anos, e não era a mais bonita que já vira nos metrôs do Rio.

Mesmo assim, ele se viu atraído por ela. Usava o cabelo preso, deixando as mechas escuras caírem sobre as costas. Estava com pouca maquiagem, pois eram perceptíveis as olheiras e algumas leves imperfeições em seu rosto. Segurava em uma das mãos um exemplar de “O amor é um cão dos diabos”, de Bukowski. Vez ou outra ela ajeitava os óculos, que caiam pelo seu nariz até quase sair do rosto.

E Otávio a observou por quase todo trajeto. Houve um instante em que ela encontrou um lugar próximo para se sentar e o fez. Nesse momento ela tirou o olhar das páginas e olhou ao redor. O coração de Otávio acelerou assim que os seus olharem se encontraram e permaneceu em um ritmo fora do comum depois que ela voltou para a leitura. Ele nem percebeu que já estava no meio do caminho até a sua estação, pois a imagem daquela menina lhe deixava hipnotizado.

Ele sabia que aquilo era estranho, e provavelmente algumas pessoas já haviam percebido que ele estava encarando alguém sem parar; alguém que nem sequer falou com ele ou mesmo lhe dirigiu o olhar por mais de alguns segundos. Mas que mal havia naquilo, ele pensou. Continuou com seu ritual “estranho” até determinado momento em que puxou de sua bolsa um bloco de notas. Sacou a caneta do bolso e, mesmo não tendo esse hábito, começou a escrever um bilhete.

Estava difícil, pois a posição não era favorável. Porém, com esforço, vindo de uma vontade estranha de falar com aquela mulher, ele foi escrevendo. De repente, entrou uma mulher que chamou a atenção de muitos homens que ali estavam. Linda em todos os aspectos visuais, ela, inclusive, emanava um perfume diferenciado, algo que ficou entranhado nas mentes e fantasias de vários sujeitos ali. Entretanto, Otávio ainda mantinha sua atenção na moça de óculos.

Então, mesmo sem ter terminado ainda o bilhete, chegara a sua parada. Por sorte, era a mesma da tal mulher que lhe estava deixando com batimentos acelerados. Saiu ligeiramente pela porta mais próxima e avistou-a subindo as escadas muito à frente. Correu, sem se preocupar tanto com o senso do ridículo, para não perde-la de vista. Chegando ao fim dos degraus, olhou ao redor, e não viu mais a moça. Tentou ver se a encontrava fora do metrô, mas mesmo já na saída ele não conseguia ver nenhuma mulher que se parecesse com aquela.

Pensou ter vista a moça em uma esquina mais à frente, mas não sabia se realmente era ela. Mas, àquele ponto, não sabia se isso realmente faria alguma diferença. Será que ela acharia ele um tarado? Será que iria gostar do bilhete? Será que ela seria apenas educada e diria algo como “eu tenho namorado”, mesmo que isso não fosse verdade? No fim, já nem lhe importava mais. A mulher que viu na esquina já não estava mais lá, e ele tomou isso como um sinal de que deveria esquecer toda essa história.

Com a caneta e bilhete em mãos, Otávio, com o coração já ralentando, tomou seu rumo para casa. Passando por um lixo, ele pegou o texto inacabado, amassou-o e depositou no local. Não sentia raiva, apenas um estranho desapontamento. Ainda pensava se seria realmente capaz de falar com a tal moça, ou se apenas seria tudo uma situação recorrente e ideal criada pela sua mente, já cansada e, agora, meio abalada, para tentar lhe pregar uma peça. Por fim, apertou o passo e, sem mais tantas emoções, traçou seu caminho até o lar.

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3 comentários sobre “IV Crônica: uma paixão de metrô.

  1. Gabbal. Já fui uma vez o cara do ônibus ( sem metrô em Belém ). Triste decepção, se é q existe decepção alegre. Um recado p o Otavio : para de escrever bilhete e vai na moral junto da ” de óculos “. O máximo q pode ocorre é um chega pra lá.

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