Solidão, doce solidão.

É quase errado, eu acho, dizer que a solidão pode ser algo bom. Tudo bem, o “certo” e o “errado” são termos extremamente imprecisos, ainda mais se tratando de um estado de espírito. Mas percebi, depois de um tempo, que, assim como outros sentimentos e sensações, tipo o amor e a alegria, a solidão é algo necessário àquelas pessoas que precisam de paz interior.

Entendam: não me refiro ao momento em que estamos tristes e recorremos apenas ao isolamento para tentar esperar que a melhora chegue do nada. Na minha opinião, isso não funciona. Se há alguém para quem possamos recorrer, então que seja feito, pois ninguém deve se dar ao luxo de sofrer, por qualquer que seja o motivo, sozinho. A tal solidão que falo aqui é aquela que devemos buscar quando sentirmos que precisamos nos sentir bem com nós mesmos, em que precisamos refletir. É aquele instante que nos mostrará realmente o que somos e o que precisamos (ou queremos) ser.

Quando estamos a sós com nós mesmos adquirimos a capacidade de nos ouvir. Conversar consigo mesmo é difícil, sem falar que causa uma má impressão em quem está de fora, nos deixando com uma marca de tristeza, melancolia, depreciação, enfim, todas essas coisas ruins. Mas, na verdade, o que se faz é exatamente o contrário: tentar se buscar dentro de si, pois já não conseguimos nos achar em outro lugar. É fácil perder a si mesmo nas ruas e caminhos alheios aos nossos, nos quais nos metemos, às vezes, sem querer e por pessoas que não fariam a mesma coisa por nós.

Estar consigo mesmo é bom para os pensamentos. De verdade. Já ouvi muita gente falando coisas como “não gosto de pensar na vida porque assim eu fico triste”. Bem, eu já acho que ignorar o que nos deixa triste é a pior forma de deixar de se sentir assim, pois quando esses pensamentos ruins voltarem estaremos indefesos e perdidos, recorrendo (de forma errada) à solidão, achando que esperar passar a “bad” é um bom remédio. É importante pensar na vida, pois senão estaremos apenas cumprindo uma rotina que, muitas vezes, já está sendo seguida no automático. Provavelmente, nesses instantes de pensamento mais aprofundado, iremos encontrar muito mais defeitos em nós mesmos do que qualquer outra coisa, mas isso é bom. Deixa mais claro o que devemos mudar, hábitos a parar e, inclusive, pessoas que precisamos esquecer.

A todo o momento, mesmo sem saber, estamos buscando respostas para perguntas dignas de um livro do Camus como “será que fiz o certo?”, “estou fazendo as escolhas adequadas?”, “qual o meu dever aqui?”, “devo ir para aquele ‘happy hour’ mesmo sabendo que amanhã tem prova na universidade?” e por aí vai. Querendo ou não, somos um poço de existencialismo cada vez mais profundo e, muitas vezes, chato. Claro, refiro-me as pessoas que não se renderam ao comodismo que a vida costuma nos empurrar goela abaixo por meio da rotina incansável e estressante composta de deveres que, infelizmente, não estariam nem nos nossos mais indesejáveis sonhos, mas que acabamos tendo que cumprir.

A solidão é, de certa forma, escapismo; e eu não falo isso como algo ruim. Por sinal, certa vez, sozinho, me indaguei exatamente nesse ponto: “quem disse que escapismo é algo ruim?”. Então, tive um daqueles momentos pseudo-filosóficos em que a gente pensa em tudo e, no fim, mal chega a uma única conclusão. Mas eu cheguei a uma; não precisamente naquele dia, e sim nos que se seguiram, acompanhados desses momentos de pensamento livre e solitário. Essa tal conclusão é essa que digo aqui nesse texto: a solidão pode ser uma salvação para as mentes cheias e beirando a loucura, mas apenas se a loucura não dominar a solidão na qual estamos nos colocando.

E outra coisa: há muito que se fazer sozinho que é mais prazeroso do que com muitas pessoas. Ler aquele livro que dissemos que iriamos começar semana passada, mas não começamos; ouvir música com os fones ligados até o talo; tocar violão (ok, sou suspeito); escrever e por aí vai. Por sinal, o isolamento me trouxe o ótimo costume de escrever cartas, mesmo já tendo formas bem mais práticas e eficientes (e baratas) de se mandar uma mensagem para alguém que não esteja na mesma cidade. Escrever carta é mais legal, fazer o que?

Isolar-se por algumas horas, minutos ou até segundos pode fazer um bem para a alma maior do que qualquer conselho de amigos. E às vezes nem é preciso declarar a partida momentânea para ninguém. Deixar que se note a necessidade de fechar os olhos, ouvidos e os demais sentidos para o mundo todo é difícil, porém (já me repetindo outra vez…) faz um bem enorme, se o “desligar” for feito da forma certa.

Abraços.

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2 comentários sobre “Solidão, doce solidão.

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