V Crônica: O velho da janela.

Da janela de seu pequeno, porém arrumado, apartamento em Copacabana, Januário observa a rua. São quase dezesseis horas, ou seja, já há mais de três que ele, um senhor de quase setenta anos, almoçou. Agora é o momento em que ele para, acende seu cigarro, acompanhado de um café preto sem açúcar, tenta se colocar em paz consigo mesmo. Todos os dias ele fica quase duas horas sentado ali, vendo o movimento das pessoas e dos carros enquanto sente a sua já cansada respiração lhe adentrar e depois abandonar o corpo.

Vive sozinho há quase uma década e meia naquele aconchegante lugar que chama de casa. Bem verdade, porém, que esse estado solitário em que se encontra foi praticamente fora imposto sobre si sem que fosse, de fato, sua vontade. Não gostava de pensar sobre isso, pois sempre sem enchia de uma nostalgia que não apreciava sentir. Era raro para ele voltar às lembranças por vontade própria, pois já lhe era suficientemente incômodo as recordações involuntárias.

Januário costumava escrever, mas infelizmente acabou perdendo esse hábito com o tempo. Durante anos se manteve conectado aos velhos amigos que estavam distantes por meio de rabiscos em papéis velhos e sob uma caligrafia que nunca fora das melhores. Entretanto, as correspondências foram se esvaindo com o passar dos verões, e por motivos diversos. “Alguns amigos nos deixam no decorrer da nossa existência. Os companheiros de guerra morrem, e os de bebida, em sua maioria, nos esquecem. Faz parte da vida, eu suponho.” ele escrevera certa vez a um antigo amigo que estava naquele momento nos seus últimos instantes de vida. Januário soube que ele morrera dias depois.

Atualmente ele já fala pouco com a família. Do que restou, no caso. Os filhos, três ao todo, se foram para suas vidas em locais distantes, com amores que eles mesmos escolheram. Tinha apenas um neto, filho de sua filha mais velha, mas que via menos do que já tivera a oportunidade de conversar com o mesmo. Tinha muito amor pelo Pequeno, como ele o chamava; entretanto, apenas a vontade e o carinho que possuía não eram suficientes para trazer aquela criança maravilhosa para perto de si.

Um cigarro se acabou, mas ele logo trata de acender outro. O gosto do tabaco é ruim, e sempre foi; porém, ele já nem sentia mais tanto a diferença. No fundo, ainda mantinha o costume, pois era uma forma que ele sempre tivera de estar tranquilo consigo mesmo. Muito embora tenha começado com amigos e dividido grandiosos momentos na sua mocidade e até os tempos mais recentes acompanhados de uma fumaça carregada de nicotina. Tinha aquele falso discurso moralista de que fumar fazia mal a saúde e por isso não recomendava a ninguém. No fim, se alguém lhe pedia, ele jamais recusava. Uma pena que ninguém nunca mais lhe pediu nada, nem sequer um pequeno trago.

Assim que termina o café, sai da janela e adentra o recinto. Troca de roupa, coloca suas sandálias e se propõe a sair de casa. Ao chegar à porta, porém, fica receoso. A mão chega a tremer só de encostar na maçaneta, então ele muda de ideia e resolve se manter em casa. Senta-se no sofá, liga a televisão e permanece prostrado ali mesmo. Não é por medo, e sim por remorso. Há tanto que não tem mais o costume de caminhar, sair sem motivos, ou simplesmente espairecer, que Januário prefere ficar recluso no seu pequeno mundinho solitário.

Sem se entreter com o que a programação daquele canal aberto nojento lhe proporciona, ele desliga o televisor. Ao desliga-lo, lembra que na noite anterior estava lendo um livro e que agora seria uma boa hora para continuar. Caminho até o seu quarto e logo vai em direção da estante de livros. Ao lado do tal livro estava um exemplar de “Dublinenses”, de Joyce. Logo sentiu uma pontada no coração ao vê-lo, pois se lembrou da sua esposa.

Deixou de lado o livro que ia ler e tirou da estante a obra do irlandês. Folheando aqueles vários contos que davam vida à suas memórias, ele parou em uma parte que lhe era bem conhecida. Um trecho que usou em uma das suas primeiras cartas de amor, justamente endereçada para aquela que viria a ser a mãe de seus filhos e seu último e mais duradouro amor. Leu em voz alta: “Por que razão as palavras me parecem tão tristes e frias? Será porque não existe palavra bastante suave para ser teu nome?” e em seguida chorou. Estava agora a lembrar de tantas coisas que já não queria, que lhe faziam mais mal do que bem, e que lhe levavam de volta a uma época que era feliz, mas que não tinha mais esperanças de viver momentos parecidos; e isso o entristecia.

Perdeu então a vontade de ler. Deixou ali mesmo ambos os livros e retirou-se do quarto. Voltou à janela e acendeu mais um cigarro. Sua mente não lhe deixava em paz. Tossiu uma vez, depois outra, mas não abandonou o fumo. Sentia-se mais sozinho agora, mais apreensivo e mais sem motivos para nada. Seus olhos já não estavam mais tão carregados, porém ardiam, e ele não conseguia fecha-los.

De repente, o interfone tocou. Era o porteiro, dizendo que havia uma encomenda para ele. Januário perguntou se ele podia subir com ela, como geralmente fazia. O porteiro disse que sim e logo subiu. Tocou a campainha, a porta abriu, eles se cumprimentaram e a correspondência foi entregue. Era uma carta de uma amiga que não via havia anos e para quem não escrevia há tempos também. Uma amiga que sentia a falta, assim como de outros, pois se lembrava daqueles anos de felicidade que não deixavam sua memória por nada. Nunca mais ouviu nada dela, nem sabia onde vivia, e agora ela estava li, nas suas mãos frias e cansadas.

Sentou-se junto à janela novamente, abriu o envelope avermelhado e leu a carta. A cada linha ele sentia mais aperto dentro de si, e conseguia ouvir a voz dela em todas as sílabas ali redigidas. No final, ela escreveu:

“Tente não sumir para sempre, certo? Ainda há alguns anos pela frente antes de morrer. Não seja apressado, seu ‘velho safado’.
Com amor,
Aquela ‘menina’ (ainda lembra-se desse apelido, não?)”.

Outra vez, Januário chorou. Entretanto, dessa vez, o choro foi mais doce. Guardou a carta com cuidado no envelope. Arrumou um papel qualquer, uma caneta e uma cadeira. Sentou-se e começou a redigir uma resposta. Deixou vacilar um sorriso adocicado quando uma gota escorreu do seu olho, atravessou o rosto enrugado, tocou a boca e depois caiu sobre o papel.

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