Mês: novembro 2015

A saudade é como correr sem chão

A saudade é como correr sem chão
E cair num poço sem fim;
É ter que esperar pelo fim
De uma triste canção;

A saudade é como o vento
Que leva as folhas embora;
É como ter apenas o “agora”
Mesmo quando eu tento

Lembrar sempre do que passou,
Mas que também do que permanece
Nos meus pensamentos, e aquece
Os dias em que o sol me deixou;

Saudade é como um sonho ruim
Que nós sonhamos acordados
Esperando alguém, parados,
Para aparecer enfim;

Saudade é um poema sincero
Escrito com amor
Em letras feitas de dor
Que secam mesmo quando não quero.

*

OBS: depois de pensar bastante, resolvi inaugurar outra categoria aqui do blog: “versos e derivados”. Confesso que tava bastante receoso, mas acabei cedendo a minha própria vontade. Aqui irei postar poemas meus, desde os mais antigos aos recém escritos. Nenhum deles é muito bom, mas talvez sejam, de tudo que eu escrevo, as coisas que mais têm valor pra mim (por isso não tava querendo postar). No fim, acabei decidindo que devia postar. Vamos ver no que dá.

OBS II: só lembrando as palavras de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.”. Então, digo logo, não acreditem em tudo que eu escrever aqui (não tô me chamando de poeta, mas se a carapuça servir..).

Abraços.

Hoje eu acordei com ela

Hoje acordei e ela estava do meu lado. Eu queria levantar, mas ela disse “fica mais um pouco”, e eu fiquei. Mas não tardei muito e logo estava de pé. Esfreguei os olhos e observei através da janela do meu quarto. O sol ainda nem tinha aparecido direito, mas ela já estava ali comigo, me acompanhando. Eu nada disse a ela, nem sequer lhe dei atenção, pois não a queria li de fato.

Troquei de roupa e saí para fazer compras. Nas ruas, ela estava me seguindo, sempre bem perto, quase que servindo de guardiã. De vez em quando ela falava alguma coisa, mas eu tentava não escutar. Ignorava o quanto desse, mas sempre passava alguma palavrinha canalha. Não deixei que isso, porém, me prendesse.

Voltei e fiquei em casa por alguns minutos. Ela havia sumido, mas depois a achei de novo deitada na minha cama. Eu disse a mim mesmo “não, vou sair mais uma vez” e fui caminhar. Tomei o rumo da praia, que estava até bem cheia, coisa que raramente acontece, mesmo em um domingo. Atravessei a rua e toquei a areia, mas não antes de tirar as sandálias para poder sentir aquele calor reconfortante na sola dos pés. Então comecei a andar. Estava sozinho. Até que ela apareceu de novo.

Tentei ignora-la, mas o sol forte me fazia fechar os olhos e assim eu a ouvia melhor. Toda vez que eu fecho os olhos eu a escuto mais. Cada passo parecia mais pesado, pois ela me pressionava levemente. Virei os olhos para uma partida de futebol que acontecia ali e fiquei assistindo. Ela sumiu, pois eu não lhe estava dando atenção. Mas de súbito retornou, me abraçando forte e me fazendo perder de leve o equilíbrio.

Resolvi tomar o rumo de casa novamente. E em todo o caminho ela estava ali comigo, não me deixando sozinho. Já no meu quarto, permaneci ali durante quase todo o resto do dia. Sai um minuto para fazer um café e depois retornei aos meus deveres. Sentei na minha cadeira, mas ela também estava sentada lá, e isso me deixou incomodado e desconfortável. Deitei-me depois do almoço e sonhei, mas não lembro exatamente sobre o que. Acordei e ela estava ali, bem do lado, esperando eu voltar dos meus sonhos.

Depois de um tempo, não aguentei e resolvi escrever, pra ver se aliviava um pouco. Mas por mais que eu tentasse, ela não desaparecia. Ela parece gostar de mim, mas eu, por mais importante que a presença dela possa parecer pra mim, a odeio. Eu a mando para os infernos sempre que me lembro, mas ela apenas sorri e se vai, voltando depois de alguns minutos. E assim vivemos juntos, eu e ela. Já faz tempo, mas não sei se algum dia vou me acostumar a sua presença aqui, pois sei que ela nunca vai me deixar.

Hoje eu acordei com a saudade, e hoje ela não me deixou.

 

Abraços.

O que é ser músico?

Ser músico é, antes de qualquer outra coisa, um caminho tortuoso. É, desde cedo, aprender a lidar com o preconceito. É saber que muitas pessoas vão te olhar e pensar que você não é algo que se chame de profissional, pois “músico é profissão?”. É ser menosprezado por pessoas que dizem que a música, por ser uma arte, é puro entretenimento e, portanto, dispensável. É ouvir que “a nota pra passar em música é um quarto de tal curso”. É ser chamado de vagabundo e preguiçoso, pois “não escolheu um curso difícil de entrar na universidade”. É saber que dificilmente você ganhará muito, mesmo trabalhando igual um condenado (pois é, músico trabalha, quem diria!).

Porém, ser músico também é ver e sentir a música, e não apenas ouvi-la. É nunca estar satisfeito consigo mesmo, achando que é preciso estudar mais. É ficar horas praticando a mesma escala, os mesmos acordes e as mesmas cadências. É se dedicar ao máximo mesmo que os outros digam que “está bom”, pois o “bom” não é o suficiente. É sentir dores de tanto tocar um instrumento ou de tanto cantar, e mesmo assim continuar tocando/cantando. É ouvir uma música de outra forma, tentando prestar atenção em todos os pequenos detalhes que, naturalmente, muitas pessoas jamais perceberiam.

Ser músico é optar pela solidão em momentos de festa ou reunião. É preferir estar a sós com seu instrumento em uma noite de silêncio a muitas coisas. É se apaixonar pelo seu instrumento, tomando ele como uma pessoa de fato, mas sabendo que ele nunca vai te abandonar, nem te julgar e, muito menos, te deixar na mão. É sorrir enquanto toca, é sentir um alívio ao conseguir afinar aquela corda. É procurar sempre a melhor forma de se fazer uma música, ficando horas e horas em apenas uma nota.

Ser músico é ser viciado em música. É querer ouvir toda hora, sem parar. É gostar de falar de música, desde a teoria às obras. É querer estar em um lugar onde tem música. É escolher um lugar para sair à noite não pela comida, pela bebida ou pelo próprio lugar em si, e sim pela música que toca lá. É parar na rua para ouvir um músico tocando pedindo dinheiro (e sofrer por dentro por ver uma cena como essa, tão frequente). É procurar erro enquanto os outros tocam (violonistas principalmente). É, às vezes, prestar mais atenção na trilha sonora de um filme do que nele próprio. É ler uma partitura como se lê um poema. É seguir um caminho de “estranho”, de alguém anormal. É chegar o mais perto possível de entender o que é a música, mesmo sabendo que nunca alguém conseguirá entende-la perfeitamente.

Ser músico é, acima de tudo, amar a música mais do que a si mesmo. É ter na música um refúgio, um abrigo, um amigo e um amor. É saber que sua maior glória não virá do dinheiro, nem da fama, nem do reconhecimento, pois muitas vezes eles não virão; é saber que você conseguiu tocar alguma pessoa com a sua música. É saber que nunca estará totalmente sozinho, pois todos podem te abandonar, afinal, as pessoas se esquecem, se separam, se abandonam e se despedem. A música não. A música nunca abandona. Mesmo que a gente tente, ela sempre vai estar ali pra nós.

Feliz dia do músico, povo.

 

Abraços.

VI Crônica: Na parada do ônibus

Há um homem que se senta no banco da parada de ônibus, em algum lugar de Botafogo. Ele segura rente ao corpo e sobre as pernas uma mochila bem gasta. Quase que encolhido no local ele aguarda a passagem de um determinado ônibus. A pele negra com algumas rugas e os cabelos ralos quase que dizem a sua idade, ou pelo menos mostram que não é mais tão jovem, ou, até, que era um indivíduo desgastado pelos anos e trabalhos árduos. Ele já está lá há bastante tempo, mesmo que não saiba dizer, nem imaginar, quanto especificamente.

Aparece, então, um senhor de boina e camisa social cor de anil abotoada até o pescoço. Segurava em uma das mãos um exemplar do jornal O Globo que estampava uma imagem de um jovem morto com alguns policiais ao lado, e em outras partes da capa havia imagens de uma mulher de biquíni e de um jogador do Flamengo. O senhor, que devia ter algo em torno de sessenta anos, talvez um pouco mais, sentou-se ao lado do homem com a mochila. Estampou em sua frente o jornal e começou a ler. Não demorou muito e soltou um comentário acerca de alguma matéria:

– Mas que coisa, rapaz! Mataram mais um na Glória na base da faca! Onde já se viu?

– Pois é, que horrível. – respondeu o homem, mesmo sem muita vontade.

– Olha aqui, foi um desses favelados de novo! – continuou o senhor de boina, mostrando a imagem do suposto assassino em questão. – Eles fazem o que bem entendem naquele lixo que chamam de casa e pensam que podem fazer o mesmo com cidadãos de bem, hã? Absurdo!

O homem não esboçava ainda nenhuma vontade de conversar. Porém, o insistente senhor de blusa social prosseguiu:

– Olha só, vou te contar uma coisa, tá demorando pra esse prefeito mandar mais ‘polícia’ pr’aqueles lados, viu? Tem que mandar matar tudo antes que eles desçam pras nossas áreas. Chegaram já na Zona Sul, começando pela Glória. Imagina quando chegarem mais pra baixo! Isso é coisa pra lá pra onde eles moram, lá eles que se matem, mas quererem vir assassinar um cidadão de bem já é a gota d’água, viu? Espero que algum dia ainda construam um muro ou que limpem aquelas ditas comunidades que são um formigueiro de vagabundo e ladrão!

O velho avistou um ônibus escrito “Ipanema” e se levantou. Acenou para o motorista, que parou um pouco mais à frente. Antes de ir embora, disse um cordial “boa tarde, companheiro!” e se foi. O homem continuou ali esperando.

De repente sentam-se ao seu lado duas pessoas. Um casal, homem e mulher, para ser mais exato. Eles sorriam e pareciam felizes enquanto trocavam carícias. Um abraço, as mãos dadas, um toque leve no pescoço e depois se arrastando até o cabelo e, frequentemente, um beijo sincero. De canto de olho o homem os observava, e sentia uma mistura de admiração e inveja. Voltou o olhar para frente e começou e divagar. Vieram lembranças de rostos, pessoas, músicas, sensações, lugares e tantas outras coisas de uma só vez.

Fora acordado desse seu breve sonho por uma pergunta vinda do rapaz ao lado:

– Moço, por acaso você sabe qual desses vai para o Leblon?

– Qualquer um desses, praticamente. – respondeu secamente o homem, tentando não manter contato visual além do necessário.

– Ah, bom… – continuou o rapaz, meio envergonhado com a forma com que sua pergunta foi respondida – …obrigado.

Mesmo percebendo a falta de jeito, o homem não se esforçou a querer pedir desculpas. Sentia-se cansado, e aqueles dois, cheios de vida e alegrias transbordando, quase que jogando isso na sua cara, até chegando a ofendê-lo de certa forma, o deixavam com menos paciência ainda.

No fim, acabou fazendo uma boa ação e indicou aos dois que o ônibus que passava naquele instante era o que os levaria até seu destino. Eles foram rapidamente em direção ao veículo, se despediram respeitosamente dele com um “boa tarde” clichê e se foram. Ele, no fundo, se sentiu aliviado ao estar sozinho novamente na parada.

Aproveitou a breve solidão e puxou de seu bolso um maço de cigarro amassado com apenas um restando. Colocou-o na boca e tateou os bolsos em busca dos seus fósforos. Pegou, acendeu e tragou, aliviando brevemente seu estresse. Quando tinha acabado de guardar a caixinha no bolso, ele ouviu uma voz feminina dizer:

– Com licença, mas o senhor teria fogo?

Era uma moça nova, com mais ou menos, aparentemente, uns vinte a vinte e cinco anos. Ela ainda estava de pé quando fez o pedido, e sentou-se logo em seguida ao lado do homem. Seu sorriso era bonito e simples, encantador sem grandes detalhes, e acabou amolecendo o coração do homem. Ele entregou a caixa para a moça que puxou do bolso um maço ainda cheio, retirou o cigarro e logo o acendeu. Devolveu ao homem os fósforos e agradeceu, sorrindo no final.

Ficaram um breve instante em silêncio até que a moça, que lia um livro de bolso, disse ao homem:

– O senhor gosta de poesia?

– Não sou bem um homem letrado. – ele respondeu, tentando não parecer grosso.

– Ah, mas o senhor gosta de música, certo? – ela continuou.

– Sim, gosto sim. Gosto bastante.

– Pois então! Música é poesia, mas com um acompanhamento de sons. É quase a mesma coisa, pelo menos no sentido de nos dar prazer em ler, ou ouvir, as palavras.

– É, não tinha pensado por esse lado.

Ambos sorriram e tragaram novamente seus cigarros. O homem estava apreciando a sua companhia, então não evitava mais o contato visual como antes.

– Pra onde você vai? – ele perguntou à moça.

– Estou indo visitar a minha namorada em Copacabana. – respondeu ao homem com a boca cheia de fumaça – Ela veio passar uns dias por aqui e já não nos vemos há uns meses. Digo, pessoalmente, sabe?

– Sim, sei.

– E o senhor? Vai para onde?

– Ah, na verdade eu estou esperando alguém. Não vou pra lugar nenhum, não. Não sozinho, quero dizer.

– Entendi. Ah, que bom. E essa tal pessoa gosta de poesia? – ela perguntou num tom leve de brincadeira.

– Bem, de poesia eu não sei, mas que ela adora música e dançar um samba, isso eu garanto!

Ambos riram e se alegraram brevemente. O ônibus da moça vinha pela rua e ela o chamou. Quando ele ia parando, ela olhou para o homem, sorriu novamente e disse:

– Tchau, tchau. Bom conversar com o senhor!

– Vai com Deus, moça. – ele respondeu, também sorrindo.

Então ela foi embora também.

Ele ficou sozinho de novo, mas agora com o coração menos pesado. O seu cigarro estava acabando, e com ele a paciência pra aguentar aquela espera toda. Quando terminou ele jogou no chão, pisou e girou o pé em cima dele. Suspirou e começou a divagar mais uma vez.

Até que um ônibus para e de dentro desce uma mulher com uma mochila nas costas e uma bolsa grande nos braços. Ela vê o homem, que estava de cabeça baixa e olhos fechados, e exclama:

– Amor! Tô aqui!

Sem tempo de raciocinar, o homem levantou a cabeça e, vendo a mulher na sua frente, correu e lhe abraçou forte, deixando a sua mochila e a bolsa dela caírem no chão. Ficaram abraçados por minutos, apertando cada vez mais os corpos um no outro. Lágrimas corriam dos olhos do homem, que soluçava enquanto tentava falar:

– Saudade de você! Não fica longe assim de novo! Não aguento, não!

Ela riu e ele ainda chorava, mas agora menos.

– Ô, meu nêgo! Fica assim não! Fica não que agora eu tô aqui! – ela disse, ainda o abraçando forte.

Pegaram as coisas no chão, ele também carregando a mochila que estava com ela, e foram caminhando, de mãos dadas, rua abaixo. O homem, mais do que em qualquer outro momento do dia, estampava no rosto um sorriso besta e bem largo, enquanto o sabor salgado das lágrimas lhe tocavam a boca. E toda vez que ele a olhava tinha ainda mais vontade de sorrir.

Será que ainda dá tempo?

Será que ainda há tempo para dar “bom dia” a alguém? Ou o dia já não é mais dia e se tornou noite? As horas foram passando enquanto ninguém percebia, e quando se deram conta, já chegava aquele leve frio que a falta do sol traz. Mas por que ninguém viu que o dia acabava depressa e que não daria tempo de dizer “bom dia”? E será que esse “bom dia” seria apenas por educação ou alguém realmente, alguma vez, já quis que o porteiro, o carteiro, a pessoa do elevador, o velhinho que toma sol cedo ou qualquer um tivesse um dia agradável, um dia bom?

Será que ainda dá tempo pra pedir perdão? Perdão pelos pecados cometidos contra os outros e contra si mesmo; pecados diários e esporádicos que nos aparecem. Ou será que mais vale o orgulho e a falsa ideia de que “vai passar”? É mais cômodo esperar que no dia seguinte nada seja lembrado senão em meio às gargalhadas provocadas por essas lembranças? É difícil se desculpar, ou apenas é complicado acreditar que precisamos admitir que, naquele instante, deixamos de ser perfeitos (como pensamos ser) e tivemos a capacidade de errar?

Será que ainda dá tempo de sonhar? Ou sonhos são coisas de crianças? Crianças essas que passam seus dias atoladas de obrigações, pois mais cedo, a cada dia, elas viram adultas. Mais cedo elas aprendem a escolher o que querem ser quando crescerem, mas não conta responder “mais alto!” ou “feliz!” sem risadas de alheios. E elas escolhem, claro, o que serão, aos menos de dezoito anos (quando, sim, ainda são crianças) pelo resto das suas vidas. Escolhem, porém, a profissão, e não exatamente o que serão. “Uma boa pessoa”, se fosse uma profissão, mas que se não desse um bom salário no final do mês, seria, provavelmente, bem pouco procurada.

Será que ainda dá tempo de acreditar? Acreditar numa mentira bem contada ou numa verdade bem doída? Acreditar em si mesmo ou nos outros apenas? Ou será que é mais fácil discordar, brigar, pensar que não vale a pena ouvir e sim falar; crer que a verdade é nossa e não dos outros, e assim os outros não podem fazer parte de nós até que eles sejam iguais a nós, e se esqueçam de quem são. Mas e se os “outros” forem, na mente deles, o que a gente chama de “nós”? O que seremos para eles senão o que nós os taxamos: outros; portanto, errados?

Será que ainda dá tempo de voltar atrás? Corrigir um erro que cometemos mais cedo ou mesmo uma besteira dita há mais de um ano? Ou será que daria muito trabalho e o comodismo não permite? Reviver momentos ruins seria o ideal, ou deve-se deixa-los ir embora, serem levados pelo vento fraco de um fim de tarde melancólico e sozinho? E no fim perceber que já é tarde demais, mas que talvez tenha sido melhor esquecer na hora para, por ironia, não se esquecer nunca mais?

Será que ainda dá tempo de amar? Para ler um conto de amor, ouvir uma música de amor, chamar alguém de “amor”? Dá tempo de se abraçar um filho? Dá tempo para dizer a um amigo o quanto se gosta dele? Dá tempo para cantar uma música (des)afinado para o seu parceiro? Dá tempo para acordar em um domingo qualquer ao lado dele ou dela? Dá tempo de escrever um bilhete piegas para aquela pessoa que nos desperta batimentos cardíacos acelerados? Dá tempo de olhar nos olhos dela sem piscar? Dá tempo de tomar um café lá pelas dezessete horas? Dá tempo de beijar como se não houvesse outra chance? Dá tempo, pelo menos, de acreditar no amor? Será que isso tudo importa mesmo, ou, no fim, seria uma puta besteira? É caro demais? Leva tempo demais? Iria atrapalhar o trabalho? Tirar a atenção dos estudos? Comprometer um projeto? Desgastar a mente? Ou tudo isso junto? Ou é só medo?

Será que ainda dá tempo de viver? Dá, claro que dá. Sempre há tempo. É que, às vezes, agimos como se não desse tempo para nada senão para dizer que “eu queria ter mais tempo”. Acho que, na verdade, o tempo queria mais nos ter.

Abraços.