Será que ainda dá tempo?

Será que ainda há tempo para dar “bom dia” a alguém? Ou o dia já não é mais dia e se tornou noite? As horas foram passando enquanto ninguém percebia, e quando se deram conta, já chegava aquele leve frio que a falta do sol traz. Mas por que ninguém viu que o dia acabava depressa e que não daria tempo de dizer “bom dia”? E será que esse “bom dia” seria apenas por educação ou alguém realmente, alguma vez, já quis que o porteiro, o carteiro, a pessoa do elevador, o velhinho que toma sol cedo ou qualquer um tivesse um dia agradável, um dia bom?

Será que ainda dá tempo pra pedir perdão? Perdão pelos pecados cometidos contra os outros e contra si mesmo; pecados diários e esporádicos que nos aparecem. Ou será que mais vale o orgulho e a falsa ideia de que “vai passar”? É mais cômodo esperar que no dia seguinte nada seja lembrado senão em meio às gargalhadas provocadas por essas lembranças? É difícil se desculpar, ou apenas é complicado acreditar que precisamos admitir que, naquele instante, deixamos de ser perfeitos (como pensamos ser) e tivemos a capacidade de errar?

Será que ainda dá tempo de sonhar? Ou sonhos são coisas de crianças? Crianças essas que passam seus dias atoladas de obrigações, pois mais cedo, a cada dia, elas viram adultas. Mais cedo elas aprendem a escolher o que querem ser quando crescerem, mas não conta responder “mais alto!” ou “feliz!” sem risadas de alheios. E elas escolhem, claro, o que serão, aos menos de dezoito anos (quando, sim, ainda são crianças) pelo resto das suas vidas. Escolhem, porém, a profissão, e não exatamente o que serão. “Uma boa pessoa”, se fosse uma profissão, mas que se não desse um bom salário no final do mês, seria, provavelmente, bem pouco procurada.

Será que ainda dá tempo de acreditar? Acreditar numa mentira bem contada ou numa verdade bem doída? Acreditar em si mesmo ou nos outros apenas? Ou será que é mais fácil discordar, brigar, pensar que não vale a pena ouvir e sim falar; crer que a verdade é nossa e não dos outros, e assim os outros não podem fazer parte de nós até que eles sejam iguais a nós, e se esqueçam de quem são. Mas e se os “outros” forem, na mente deles, o que a gente chama de “nós”? O que seremos para eles senão o que nós os taxamos: outros; portanto, errados?

Será que ainda dá tempo de voltar atrás? Corrigir um erro que cometemos mais cedo ou mesmo uma besteira dita há mais de um ano? Ou será que daria muito trabalho e o comodismo não permite? Reviver momentos ruins seria o ideal, ou deve-se deixa-los ir embora, serem levados pelo vento fraco de um fim de tarde melancólico e sozinho? E no fim perceber que já é tarde demais, mas que talvez tenha sido melhor esquecer na hora para, por ironia, não se esquecer nunca mais?

Será que ainda dá tempo de amar? Para ler um conto de amor, ouvir uma música de amor, chamar alguém de “amor”? Dá tempo de se abraçar um filho? Dá tempo para dizer a um amigo o quanto se gosta dele? Dá tempo para cantar uma música (des)afinado para o seu parceiro? Dá tempo para acordar em um domingo qualquer ao lado dele ou dela? Dá tempo de escrever um bilhete piegas para aquela pessoa que nos desperta batimentos cardíacos acelerados? Dá tempo de olhar nos olhos dela sem piscar? Dá tempo de tomar um café lá pelas dezessete horas? Dá tempo de beijar como se não houvesse outra chance? Dá tempo, pelo menos, de acreditar no amor? Será que isso tudo importa mesmo, ou, no fim, seria uma puta besteira? É caro demais? Leva tempo demais? Iria atrapalhar o trabalho? Tirar a atenção dos estudos? Comprometer um projeto? Desgastar a mente? Ou tudo isso junto? Ou é só medo?

Será que ainda dá tempo de viver? Dá, claro que dá. Sempre há tempo. É que, às vezes, agimos como se não desse tempo para nada senão para dizer que “eu queria ter mais tempo”. Acho que, na verdade, o tempo queria mais nos ter.

Abraços.

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2 comentários sobre “Será que ainda dá tempo?

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