VI Crônica: Na parada do ônibus

Há um homem que se senta no banco da parada de ônibus, em algum lugar de Botafogo. Ele segura rente ao corpo e sobre as pernas uma mochila bem gasta. Quase que encolhido no local ele aguarda a passagem de um determinado ônibus. A pele negra com algumas rugas e os cabelos ralos quase que dizem a sua idade, ou pelo menos mostram que não é mais tão jovem, ou, até, que era um indivíduo desgastado pelos anos e trabalhos árduos. Ele já está lá há bastante tempo, mesmo que não saiba dizer, nem imaginar, quanto especificamente.

Aparece, então, um senhor de boina e camisa social cor de anil abotoada até o pescoço. Segurava em uma das mãos um exemplar do jornal O Globo que estampava uma imagem de um jovem morto com alguns policiais ao lado, e em outras partes da capa havia imagens de uma mulher de biquíni e de um jogador do Flamengo. O senhor, que devia ter algo em torno de sessenta anos, talvez um pouco mais, sentou-se ao lado do homem com a mochila. Estampou em sua frente o jornal e começou a ler. Não demorou muito e soltou um comentário acerca de alguma matéria:

– Mas que coisa, rapaz! Mataram mais um na Glória na base da faca! Onde já se viu?

– Pois é, que horrível. – respondeu o homem, mesmo sem muita vontade.

– Olha aqui, foi um desses favelados de novo! – continuou o senhor de boina, mostrando a imagem do suposto assassino em questão. – Eles fazem o que bem entendem naquele lixo que chamam de casa e pensam que podem fazer o mesmo com cidadãos de bem, hã? Absurdo!

O homem não esboçava ainda nenhuma vontade de conversar. Porém, o insistente senhor de blusa social prosseguiu:

– Olha só, vou te contar uma coisa, tá demorando pra esse prefeito mandar mais ‘polícia’ pr’aqueles lados, viu? Tem que mandar matar tudo antes que eles desçam pras nossas áreas. Chegaram já na Zona Sul, começando pela Glória. Imagina quando chegarem mais pra baixo! Isso é coisa pra lá pra onde eles moram, lá eles que se matem, mas quererem vir assassinar um cidadão de bem já é a gota d’água, viu? Espero que algum dia ainda construam um muro ou que limpem aquelas ditas comunidades que são um formigueiro de vagabundo e ladrão!

O velho avistou um ônibus escrito “Ipanema” e se levantou. Acenou para o motorista, que parou um pouco mais à frente. Antes de ir embora, disse um cordial “boa tarde, companheiro!” e se foi. O homem continuou ali esperando.

De repente sentam-se ao seu lado duas pessoas. Um casal, homem e mulher, para ser mais exato. Eles sorriam e pareciam felizes enquanto trocavam carícias. Um abraço, as mãos dadas, um toque leve no pescoço e depois se arrastando até o cabelo e, frequentemente, um beijo sincero. De canto de olho o homem os observava, e sentia uma mistura de admiração e inveja. Voltou o olhar para frente e começou e divagar. Vieram lembranças de rostos, pessoas, músicas, sensações, lugares e tantas outras coisas de uma só vez.

Fora acordado desse seu breve sonho por uma pergunta vinda do rapaz ao lado:

– Moço, por acaso você sabe qual desses vai para o Leblon?

– Qualquer um desses, praticamente. – respondeu secamente o homem, tentando não manter contato visual além do necessário.

– Ah, bom… – continuou o rapaz, meio envergonhado com a forma com que sua pergunta foi respondida – …obrigado.

Mesmo percebendo a falta de jeito, o homem não se esforçou a querer pedir desculpas. Sentia-se cansado, e aqueles dois, cheios de vida e alegrias transbordando, quase que jogando isso na sua cara, até chegando a ofendê-lo de certa forma, o deixavam com menos paciência ainda.

No fim, acabou fazendo uma boa ação e indicou aos dois que o ônibus que passava naquele instante era o que os levaria até seu destino. Eles foram rapidamente em direção ao veículo, se despediram respeitosamente dele com um “boa tarde” clichê e se foram. Ele, no fundo, se sentiu aliviado ao estar sozinho novamente na parada.

Aproveitou a breve solidão e puxou de seu bolso um maço de cigarro amassado com apenas um restando. Colocou-o na boca e tateou os bolsos em busca dos seus fósforos. Pegou, acendeu e tragou, aliviando brevemente seu estresse. Quando tinha acabado de guardar a caixinha no bolso, ele ouviu uma voz feminina dizer:

– Com licença, mas o senhor teria fogo?

Era uma moça nova, com mais ou menos, aparentemente, uns vinte a vinte e cinco anos. Ela ainda estava de pé quando fez o pedido, e sentou-se logo em seguida ao lado do homem. Seu sorriso era bonito e simples, encantador sem grandes detalhes, e acabou amolecendo o coração do homem. Ele entregou a caixa para a moça que puxou do bolso um maço ainda cheio, retirou o cigarro e logo o acendeu. Devolveu ao homem os fósforos e agradeceu, sorrindo no final.

Ficaram um breve instante em silêncio até que a moça, que lia um livro de bolso, disse ao homem:

– O senhor gosta de poesia?

– Não sou bem um homem letrado. – ele respondeu, tentando não parecer grosso.

– Ah, mas o senhor gosta de música, certo? – ela continuou.

– Sim, gosto sim. Gosto bastante.

– Pois então! Música é poesia, mas com um acompanhamento de sons. É quase a mesma coisa, pelo menos no sentido de nos dar prazer em ler, ou ouvir, as palavras.

– É, não tinha pensado por esse lado.

Ambos sorriram e tragaram novamente seus cigarros. O homem estava apreciando a sua companhia, então não evitava mais o contato visual como antes.

– Pra onde você vai? – ele perguntou à moça.

– Estou indo visitar a minha namorada em Copacabana. – respondeu ao homem com a boca cheia de fumaça – Ela veio passar uns dias por aqui e já não nos vemos há uns meses. Digo, pessoalmente, sabe?

– Sim, sei.

– E o senhor? Vai para onde?

– Ah, na verdade eu estou esperando alguém. Não vou pra lugar nenhum, não. Não sozinho, quero dizer.

– Entendi. Ah, que bom. E essa tal pessoa gosta de poesia? – ela perguntou num tom leve de brincadeira.

– Bem, de poesia eu não sei, mas que ela adora música e dançar um samba, isso eu garanto!

Ambos riram e se alegraram brevemente. O ônibus da moça vinha pela rua e ela o chamou. Quando ele ia parando, ela olhou para o homem, sorriu novamente e disse:

– Tchau, tchau. Bom conversar com o senhor!

– Vai com Deus, moça. – ele respondeu, também sorrindo.

Então ela foi embora também.

Ele ficou sozinho de novo, mas agora com o coração menos pesado. O seu cigarro estava acabando, e com ele a paciência pra aguentar aquela espera toda. Quando terminou ele jogou no chão, pisou e girou o pé em cima dele. Suspirou e começou a divagar mais uma vez.

Até que um ônibus para e de dentro desce uma mulher com uma mochila nas costas e uma bolsa grande nos braços. Ela vê o homem, que estava de cabeça baixa e olhos fechados, e exclama:

– Amor! Tô aqui!

Sem tempo de raciocinar, o homem levantou a cabeça e, vendo a mulher na sua frente, correu e lhe abraçou forte, deixando a sua mochila e a bolsa dela caírem no chão. Ficaram abraçados por minutos, apertando cada vez mais os corpos um no outro. Lágrimas corriam dos olhos do homem, que soluçava enquanto tentava falar:

– Saudade de você! Não fica longe assim de novo! Não aguento, não!

Ela riu e ele ainda chorava, mas agora menos.

– Ô, meu nêgo! Fica assim não! Fica não que agora eu tô aqui! – ela disse, ainda o abraçando forte.

Pegaram as coisas no chão, ele também carregando a mochila que estava com ela, e foram caminhando, de mãos dadas, rua abaixo. O homem, mais do que em qualquer outro momento do dia, estampava no rosto um sorriso besta e bem largo, enquanto o sabor salgado das lágrimas lhe tocavam a boca. E toda vez que ele a olhava tinha ainda mais vontade de sorrir.

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