Mês: dezembro 2015

As pequenas coisas

No último dia do ano a gente acaba pensando em muita coisa. Nessas buscas por tantas questões na minha mente, quase sem querer, eu me lembro de algumas pessoas. Conversas com elas, pra ser mais exato. Pessoas específicas, do tipo de gente que parece uma árvore de raízes fortes, pois sempre ficam depois de uma chuva mais traiçoeira e demorada, enquanto que outros caules mais fracos voam no primeiro empurrão de vento. Enfim, acabei lembrando-me de bons momentos com essas tais pessoas.

 

Algumas delas não tinham nada em comum entre si, exceto pelo carinho que detenho por elas. Na verdade, até que há algo que faça me lembrar delas agora, nesse dia que antecede o início de um novo ano: os bons momentos regados de simplicidade e nostalgia com que eu guardo essas pessoas na mente. Não foram dias extraordinários; nem sequer chegaram a ser dias completos. Às vezes era apenas um instante, um segundo ou dois, um pouquinho mais, em que a felicidade esteve em sua forma mais pura, limpa e verdadeira.

 

Aquele momento em que você acorda, reluta a levantar da cama e depois escuta a voz de alguém querido. Ou quando se chega em casa depois de um dia cheio de infortúnios e sente o cheiro de comida pronta, melhor ainda quando feita por alguém que amamos. Quando abraçamos alguém com um abraço sincero; não aquele falso que damos toda vez que cumprimentamos alguém pela primeira vez, como uma simples cordialidade; mas sim aquele que dura mais do que dez segundos, podendo chegar até a um minuto ou mais. Um sorriso de bom dia, uma saída com amigos de verdade pra tomar uma cerveja, um fim de tarde na praia, um olhar dentro dos olhos de um velho amor (qualquer amor que seja), ou só sentir a lambida do seu animal de estimação que vibra ao te ver chegar em casa.

 

Coisas diferentes, mas mantendo a simplicidade em comum. O simples é melhor, pois é sincero. As coisas que fazemos todos os dias, aquelas já quase feitas no modo automático, são as mais indispensáveis. Coisas que o rico e o pobre fazem, pois não dependem de dinheiro, e sim de um bom coração, ou até boa vontade apenas. Até porque, se alguma coisa que dizemos nos deixar realmente feliz depender de dinheiro para existir, ela pode ser comprada, vendida, enfim, perdida. E felicidade que tem preço é passível de falsificação. No fim, não vale a pena, de jeito nenhum.

 

Em um bar (Pub, se eu quiser ser chato), local onde há mais filósofos por metro quadrado, certa vez, ouvi a frase já batida, mas ainda interessante: “Deus está nas pequenas coisas”. É o tipo de frase que já foi dita e alterada incontáveis vezes, mas que tem um valor enorme, e que o dinheiro não compra. E mais, “Deus” nessa frase é só uma das versões, podendo ser substituída por muitas outras palavras como “amor”, “felicidade”, “alegria”, “saudade”, “esperança” e essas coisas piegas e maravilhosas. E a frase é muito boa pois é verdadeira, como já disse acima. As coisas que realmente fazem a diferença na gente e na vida que temos e compartilhamos estão nos pequenos atos, naqueles que muitas vezes passam despercebidos, mas que notaríamos a falta se deixassem de nos acompanhar no dia-a-dia.

 

E hoje, ao sentar para escrever esse texto, senti essas pequenas coisas me rodearem: sentei na sala da casa de uma das minhas avós, de móveis de madeira bem polida, onde passei grande parte dos meus anos. Onde escrevi cartas para amigos, redações para escola, partituras para estudo próprio; onde li alguns dos poucos livros que já li na vida, onde li os vários HQs que estão no antigo quarto do meu pai, na primeira porta à direita no corredor, onde fiquei várias horas sozinho tocando meu velho violão, e onde, em suma, fiz coisas que me faziam bem e que eram totalmente de graça. E fiquei escrevendo hoje enquanto sentia o cheiro da chuva que caía lá fora e que batia no vidro que separa a sacada do resto do cômodo. Ouvia uma música que adoro enquanto escrevia sem pressa, pelo simples prazer de escrever besteiras e mais besteiras, sem que ninguém me pedisse, sem que ninguém me obrigasse.

 

No fim, são as pequenas coisas, as que realmente importam, que me fizeram escrever o que escrevo hoje, e são elas também que me impulsionam a fazer quase tudo que eu faço todos os dias.

 

Abraços.

 

E feliz Ano Novo também.

Há aqueles dias

Há dias que falta um pedaço da gente
E acabamos achando em outro lugar;
Em algum canto alheio ao olhar
Onde o calor nem mais se sente

Há dias que algo pulsa aqui
Dentro do nosso peito
Passando pelo caminho estreito
De emoções que não senti;

Há aqueles dias que nos estressam,
Pois neles nossos olhos pesam
E não conseguem se segurar

E deixam cair algum pedaço
Nosso, algum leve traço
Desse dia que não quer acabar.

VIII Crônica – O fim de tarde

Saindo de uma casa lotérica qualquer em Copacabana, Oswaldo sente-se menos desconfortável agora. Passa por aquele breve momento de leveza após pagar as contas do mês, sendo uma delas atrasada. Não que isso realmente fosse algo extraordinário, pois é uma prática comum. A questão é que, depois de ter tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na vida dele, aproveitar uma sensação, mesmo que ordinária, que lhe proporciona tranquilidade, torna-se um grande momento.

Ainda tinha de se preocupar com outras várias coisas: o aluguel que iria vencer em dois dias, e que só poderia ser pago diretamente com o proprietário. Um artigo que deveria terminar de escrever para a bendita revista que tanto odiava, mas que lhe rendia alguns trocados. Sem falar no outro texto que se dispôs a produzir em um trabalho como freelancer, e que já deveria ter terminado. Fazer as compras do mês (ou da semana, dependendo do dinheiro), e ligar para a sua mãe, que morava longe, e saber como anda o tratamento do Alzheimer. Tudo isso, e muito mais, lhe incomodava a mente. Por isso, pagar as contas foi um alívio momentâneo. Mas a irritação veio novamente quando viu que estava sem cigarros e teria de ir comprar mais.

Parou em uma banca de revista ali perto, comprou um maço do mais barato que tinha e acendeu ali mesmo. Depois de fumá-lo por inteiro, apagou as últimas brasas num lixo de rua e seguiu para a parada de ônibus. Já eram quase dezessete horas e ele estava cansado. Estava pensando no maldito tema sobre o qual teria de escrever, e lembrou-se, também, de que tinha de arrumar o apartamento, pois a poeira já estava lhe fazendo mal. Queria acender mais um, mas seu ônibus chegara. Deu um “boa tarde” forçado para o motorista e outro para a cobradora, pagou a passagem e se sentou. Apenas queria chegar em casa, só isso, mais nada.

No bairro do Humaitá, Cecília acaba de anotar o que seria um dos últimos pedidos do dia na floricultura. O de sempre: “ah, quero um buquê daqueles bem bonitos, mas não tão caros, ok? Vamos fazer um mês de namoro amanhã, e quero fazer uma surpresa pra ela. Afinal, toda mulher gosta de flores, né?”. Ela apenas concordou e desejou boa tarde e disse que a encomenda poderia ser buscada no lugar por volta das dez horas do dia seguinte. Desligou e voltou aos afazeres da loja.

O movimento estava fraco. Talvez por a hora de fechar estar próxima, e também pelo fato de que, hoje em dia, ninguém mais, pelo menos como antigamente, compra flores. Há presentes mais caros e rentáveis, sem falar que flores são algo “brega”, como ela mesma já ouvira outras vezes. Não concordava com isso, apensar de que nunca mais recebera nenhuma flor de alguém. A última vez foi de sua ex namorada, que também a apelidou de “Flox”, pois essa é a sua flor favorita. Não gostava do apelido por achar feio demais, mas não ligava. Desde que as duas não se viam mais, há quase oito meses, deixou de gostar tanto assim daquele tipo de flor.

Um último cliente entrou na loja e perguntou se ali vendia-se gardênias. Cecília respondeu que sim e mostrou-as ao visitante, que logo fez um pedido. Ela voltou com um punhado de flores para o rapaz. Ele pagou, agradeceu e desejou uma boa tarde a ela. Agradeceu, mas não desejou de volta. Achava muito falso desejar “boa tarde” a alguém sem que realmente quisesse que a pessoa tivesse uma tarde boa. Não que ela tivesse raiva, mas sentia que não estava sendo sincera. Por fim, o horário bateu e ela fechou a loja. Depois, tomou o rumo de casa, a pé.

Em uma livraria em Botafogo, Raul está descendo de uma escada com um exemplar de “A Insustentável Leveza do Ser” para uma cliente. A moça agradeceu e foi direto ao caixa. Logo, entretanto, um outro rapaz chegou e perguntou onde ficava a sessão de livros de autoajuda. Com certo desdém na mente, Raul respondeu, apontando para o final do corredor. Depois, começou a caminhar pelo local, observando se haveria alguma outra pessoa precisando de ajuda.

Ele até que gostava do trabalho, embora de início não tivesse apreciado a ideia de trabalhar com livros. O simples fato de estar numa livraria e não poder levar aquelas várias histórias para casa o deixavam com aquela doce frustração. Na verdade, gostava do lugar pela sua aura de paz. O silêncio e cheiro de café expresso o relaxavam. Embora, ali dentro, fosse talvez uma das pessoas que mais recebessem olhares tortos dos companheiros de trabalho. Mais de uma vez ouviu seus colegas comentando que achavam a simpatia dele muito forçada, e que esse tipo de gente só quer aparecer e conseguir a confiança do chefe.

Ele nunca quis parecer algo que não era. Sempre teve isso de tentar ser simpático com todos, mesmo com quem ele não conhecia ou por quem ele nutria algum ressentimento. Não fazia aquilo para agradar ninguém, e sentia-se triste pelo fato de que demonstrar um caráter amistoso lhe trouxesse estigma negativo. Afinal, se fosse um cara rude, indiferente e frio as pessoas lhe tratariam melhor? Chega a ser paradoxal pensar isso, mas, pensou, no fundo, são poucos os que ainda apreciam simpatia sem motivos. Tudo, ainda pensando consigo mesmo, tem um motivo para as pessoas; elas não conseguem simplesmente fazer uma gentileza sem esperar algo em troca.

Em meio ao engarrafamento típico do Rio de Janeiro, Oswaldo encosta a cabeça na janela do ônibus. Cada vez mais estressado, ele fica divagando sobre várias coisas. Pensa na raiva que sentiu quando o Vasco caiu de novo; no fato de Amós Oz ainda não ter ganhado o prêmio nóbel de literatura e em como aquela nova estagiária da revista era linda, uma pena que tinha namorado. Ficava ouvindo, quase que sem prestar atenção nenhuma, as palavras daquele cara que estava pregando a palavra de Deus no ônibus, citando salmos, ou o que fosse. Só queria chegar logo em casa..

Cecília esperava o sinal abrir. Ao lado de uma banca de revistas, olhou a manchete do jornal que estampava mais um caso de assassinato na Zona Sul. Palavras como “absurdo”, “crime hediondo” e “estado de pânico” ilustravam bem o sentimento que queria se passar ali. Depois, olhou para o outro lado da rua e viu um garoto vendendo balas e pipoca doce no sinal. Ele devia ter uns sete anos, ou menos, e suas roupas pareciam que nunca haviam sido lavadas. O sinal abriu, e ela começou a andar. Pensou, sem saber o porquê, naquela que lhe chamava de nome de flor. Deixou uma lágrima escorrer, mas não parou de andar.

Já meio cansado, e logo depois de pegar uma revista para um senhor de idade, Raul disse que ia sair um instante para fumar um cigarro. Seus colegas nem demonstraram alguma vontade de ir junto, então ele foi sozinho. Lá fora, ele acendeu seu único companheiro e ficou aproveitando a sensação breve de relaxamento. Mesmo que não estivesse próximo do horário do fim do expediente, ele queria ir embora. E pensava já seriamente em largar o emprego e buscar outro, nem que fosse em outra livraria. O ambiente o desgastava, mesmo que não parecesse.

De repente, Raul percebeu que o sol estava se pondo. Mesmo que distante, podia ver, no fim da rua, a praia, e ali dava pra ver, bem de relance, o sol indo embora. Logo ali do lado, passando ao perto do metrô, Cecília parou um instante e reparou nos raios alaranjados que cobriam os prédios ao redor. Logo à sua frente passou um ônibus, e lá estava Oswaldo, que agora havia esquecido de todos os pensamento enquanto reparava que o céu estava da cor de sangue, e as nuvens já pareciam se espalhar ainda mais.

Por um momento, talvez o único real do dia, os três sorriram. Oswaldo pensou em algumas ideias boas para o texto, e logo tirou seu bloquinho de notas do bolso para anotar. Ele se alegrou. Cecília deixou derramar mais uma lágrima, pois lembrava de quando costumava ver o pôr-do-sol com sua antiga amante, mas isso não a entristeceu. Pelo contrário, lhe trouxe boas sensações. Ela se alegrou. Raul sentiu o calor tocar-lhe a pele escura ainda gelada por causa do ar condicionado da livraria. Uma leve sensação de liberdade lhe tocou, e ele quis porque quis sorrir como uma criança, que, essa sim, não tem motivos para ser quem é, apenas é, e nunca espera nada em troca. Ele, mais do que nunca, se alegrou.

Vamos falar de amor, afinal?

Por que falar de amor quase sempre soa tão piegas? É um sentimento tão humano, tão nosso, e tem gente que tem até vergonha de falar sobre ele. Às vezes só quando mencionam a palavra “amor” em alguma conversa qualquer alguém já fica com o pensamento de “lá vem…”. Parece que é igual quando alguém resolve discutir religião, preferência de partidos políticos, se aquele gol que estava realmente impedido ou não, enfim, um assunto polêmico. Embora, com toda a certeza, o amor seja bem mais importante do que qualquer um dos exemplos citados.

 

Mas por que esse problema de falar de amor? É medo de se lembrar de algum momento em que amar trouxe uma dor a mais, e que foi difícil de aguentar? É porque faz lembrar de um amante que se foi, por qualquer motivo que seja, e que deixou um pedaço dele no peito? Porque o último relacionamento foi uma porcaria e agora “o amor não presta”? São quase todos bons argumentos, exceto pelo fato de que, invariavelmente, na maioria dos casos, o amor tem dessas coisas mesmo.

 

É bem verdade que o pessimismo acerca do amor também é matéria prima que alimenta muitas mentes tristes. Mas, em grande parte dos casos, os que falam mal do amor, na verdade, não amaram, apenas se apaixonaram. E há uma grande diferença entre os dois sentimentos, mesmo que possa não parecer. Até o próprio Bukowski se confundiu ao afirmar, em uma entrevista, quando perguntaram a ele qual era a sua definição de amor. A sua resposta foi: “é quando você vê a névoa da manhã, antes do sol nascer; e que depois desaparece. É isso, o amor é uma névoa que desaparece com a primeira luz de realidade.” O Velho Safado falava da paixão, mesmo sem saber.

 

Paixão é um sentimento forte, que prende a gente a alguém. Que nos faz desejar incontrolavelmente aquela pessoa em todos os nossos momentos, que faz dela a pessoa mais perfeita possível, livre de pecados, impurezas, e toda essa ladainha. Apaixonar-se é bem fácil, na verdade. Afinal, nos apaixonamos sempre que há um relacionamento que dura um mês, dois, três, que seja, mas que depois a pessoa vira só mais uma breve lembrança de um período de prazer momentâneo.

 

Amar é outra coisa. Amar alguém é aceitar os defeitos, as qualidades, o fato da pessoa ser melhor do que você em algo que você se considera bom. É quando você pensa na pessoa e o seu dia melhora. É quando se tem vontade de passar um tempo interminável com ela, e prologar o máximo possível a velha despedida. É sorrir ao ouvir o nome dela (ou dele) saindo da boca de qualquer desconhecido na rua. É olhar pela janela do quarto e ter a imagem da pessoa bem clara, mais clara do que a luz do dia, na mente. É quando queremos que um abraço dure bem mais do que conseguimos contar. A paixão é uma cegueira. O amor é quando realmente abrimos os olhos.

 

Mas não me refiro apenas ao amor que sentimos por um parceiro. Esse sentimento é tão grande que ele mesmo se transforma e caminha entre outros tipos de relação. Amamos nossos irmãos, nossos amigos, nossos entes queridos, nossos animais de estimação, nossos instrumentos musicais (eu amo, pelo menos), e outras coisas a mais. Mas não amamos porque devemos amar, pois nem todo filho ama seu pai, mesmo quando “deveria”. Assim como nem todo parceiro ama o seu, e quando isso acontece, a relação logo se esvai, e voa pra longe como a poeira que fica depois de muito tempo que não é limpada uma casa.

 

Há quem diga também que o amor não exista. Ouvi isso certa vez de um professor de química, ainda no ensino médio. Ora, porra, claro que existe! Se não existisse, morreríamos sem poder ouvir “Eu sei que vou te amar”, do Tom, e quão triste seria a vida sem amor (e sem essa música). Se não existisse, não perderíamos nossos preciosos minutos escrevendo declarações sinceras às pessoas que amamos. Se não existisse, não teríamos saudade, pois ela é reflexo direto da falta física de algo que ainda amamos. Se não existisse, nem estaria aqui escrevendo sobre isso.

 

Talvez digam e falem mal do amor pelo fato dele ser tão banalizado. É tão fácil dizer “te amo” sem amar de verdade. São só palavras, e palavras por palavras podemos dizer qualquer uma. O significado que elas possuem vai além daquele que está no dicionário. Dizer que ama alguém sem amar realmente é uma ingenuidade e/ou um pecado tão comum que acabamos confundindo por paixão. Seria mais “correto” dizer “eu sinto paixão por ti”, mas acho que pelo fato da frase ser muito grande, e não soar tão bem, opta-se pela falsa declaração. Que tipo de amor é esse que se diz existir em um dia e morre na mesma noite?

 

Amor não é só uma noite de prazer, é uma vida de alegria. É mais do que o desejo primitivo que ainda guardamos da nossa característica animal; é um sentimento que nos faz humanos acima de tudo, pois só nós amamos de verdade. Só os humanos fazem loucuras por amor sem ligar para as consequências que terão de arcar depois. E só nós, claro, somos capazes de negar algo tão nosso, tão unicamente nosso, a ponto de dizer que “amor não presta, só traz sofrimento!”. Chega a dar dor de cabeça ouvir isso…

 

É verdade que, comparado às paixões, amaremos bem pouco na vida. Mas isso pode ser bom, pois não é preciso de tantos amores. Um só já supre todas as necessidades. Já é autossuficiente. Amor é pra quem tem paciência, para quem está disposto a esperar uma semente crescer para se tornar uma planta, mesmo nas piores condições. Como Dostoievski já afirmou: “O amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de fato, não por um instante, mas até o fim.” Ir contra essas palavras é bem difícil, não?

 

Abraços.

VII Crônica: A menina de vestido azul

Há uma menina de vestido azul que acaba de entrar no ônibus. Ao passar pela catraca, viu logo de cara um lugar vago mais ao fundo, próximo à porta por onde iria sair mais tarde. Sentou-se no banco da janela, colocou os fones de ouvido e aguardou pacientemente o motorista dar partida no veículo. Ela estava indo a uma festa, embora, no fundo, não quisesse. Mas por algum motivo aceitou o convite feito por amigos. Então ela pegou algumas coisas que precisava levar e escolheu aquele velho vestido azul que tanto gostava, e depois saiu de casa.

Entretanto, no meio do caminho, o ônibus passou pela rua Praia de Botafogo, e ela, por algum motivo, resolveu descer logo ali, um pouco antes do seu destino final. Ela ainda poderia ir andando até o local, só seria um pouco mais longe; no fim, isso não importava tanto. Saiu do ônibus, e rapidamente aproveitou um sinal fechado para os carros e atravessou a rua. Depois, ainda teve de passar por outra rua que não possuía sinal, aquela que leva ao Aterro do Flamengo, para finalmente chegar até a praia. Passou sem problemas e já estava perto da areia.

Então ela tirou as sapatilhas cor de cardo e pisou na areia fofa. Havia poucas pessoas ali, como de costume. Ela podia sentir o cheiro forte e ruim daquela água imunda, mas ainda assim ficou lá. Apesar da água daquela praia ser escura de tão suja, a areia era branca e bem macia, e dava uma sensação boa de caminhar por ela. Não gostava tanto da água de nenhuma praia; mas gostava daquele lugar, pois era tranquilo e não dava tanta gente. De fato, não é um lugar para se tomar banho, mas talvez, como a menina mesma pensou, um lugar para relaxar um pouco.

A menina pegou em sua bolsa um lenço longo e grosso, e colocou-o sobre a areia para poder se sentar ali. Desprendeu também o longo cabelo preto da mesma cor dos seus olhos, e se sentiu mais livre. Sentiu um pouco de paz, pois os últimos dias haviam sido de extremo estresse para ela, e tudo indicava que os próximos seriam ainda piores. Ela só queria que aquele domingo de sol e vento fracos fosse diferente.

Mas a mente daquela menina estava pesada. Começou, ao olhar para o céu no horizonte contrastando com o mar, ambos da mesma cor do seu vestido, a lembrar-se de algumas coisas. Variadas coisas, mas todas elas, ela percebeu, lhe davam saudade. E era estranho, pois às vezes as recordações vinham sem aviso prévio, e surgindo em locais estranhos, como no café da manhã, na universidade ou no próprio ônibus. E quase sempre elas a deixavam com um gosto ruim na boca, embora, algumas poucas vezes, as lembranças também lhe trouxessem a velha nostalgia adocicada.

Tinha dentro de si a saudade de ter momentos como aquele, em que poderia estar sozinha consigo mesma. Os dias estavam tão corridos e tudo parecia ser tão mais importante do que qualquer coisa que ela gostasse, e no fim tudo acabava sendo abdicado para que as tais necessidades fossem atendidas. A tal história de se tornar adulto, ela pensou consigo mesma. Parecia, às vezes, que isso de “ser adulto” era apenas um título, pois no fundo as pessoas acabam sendo as mesmas, mas tendo que parecer tudo o que não eram para poder conseguir aquele emprego e garantir o troco a mais no final do mês.

Pensava também na velocidade dos dias. Os ditos dias ruins, aqueles que ela costumava sentir-se só e à beira de um abismo de monotonia e tédio, para não dizer tristeza, sempre duravam uma eternidade, ou pelos menos bem mais do que vinte e quatro horas. Enquanto os dias felizes, em que sentia realmente que podia estar alegre, passavam como um vento rápido que leva as folhas que acabaram de cair de uma árvore. Era assim que ela encarava, mas nem sempre pensava nisso; ou pelo menos tentava não pensar.

No fim, sentiu saudade. Saudade de tantas coisas que nem conseguia enumerar, e de outras mais que nem conseguir lembrar fora desses momentos em que as lembranças voavam pela mente. Saudade de algumas pessoas com quem não falava mais, pois motivos diversos. Saudade de algumas coisas que costumava fazer, quando tinha tempo e com quem fazê-las. Saudade de receber as velhas cartas mal escritas e enviar como resposta outras ainda piores para amigos distantes, ou que moravam a algumas quadras ao lado; costume esse que perdurou até um ano antes. Sentiu uma saudade tão grande e forte, e de várias coisas a mais, que começou a chorar.

Antes de cair em um choro mais forte, uma pequena bola de plástico avermelhada bateu em seu pé. Logo um cachorrinho apareceu correndo para pegar a bolinha. Ele latiu para a menina, mas não parecia agressivo. Abaixou a cabeça e balançou a cauda, como se pedisse carinho. A menina, que sempre gostou de cães, acatou ao pedido do animal, mesmo com o rosto ainda molhado.

Então apareceu o seu dono. Era um senhor de idade, com barba e cabelos brancos e olhos cansados, mas alegres. Ele gritou para o animal:

– Hermes, seu pilantrinha! Não incomode a moça!

– Tudo bem, senhor – disse a menina, limpando os olhos – ele é uma graça.

– Ah, sim, ele é – concordou o velho, batendo nas coxas para chamar seu companheiro – mas faz um estrago danado depois que come ração estragada.

A menina riu, e percebeu que havia parado de chorar. Mas o velho observou que ela havia manchado a pouca maquiagem que tinha e disse:

– Está tudo bem com você?

– Sim, sim, senhor, tudo bem sim – respondeu rapidamente a menina – era só um grão de areia que voou no meu olho mesmo.

– Certo…conheço bem esses grãos de areia voadores – respondeu ironicamente o velho – mas, se não for muito meu atrevimento, diria para que não se preocupasse tanto com eles. Pelo menos, não sempre. Já tive muitos desses grãos voando nos meus olhos por muito tempo, e percebi que eles só me faziam mal, embora eu soubesse que eles eram parte dessa louca estrada que a gente chama de vida. O importante é saber a hora certa de fechar os olhos para que esses malditos, perdão pela palavra, grãos não nos façam esse mal que fizeram a você. Por sinal, tome aqui.

O velho deu-lhe um lenço que tirara do bolso. Era da mesma cor do vestido dela e bem macio. Ela usou-o para limpar o rosto borrado de maquiagem molhada. Agradeceu e devolveu ao velho, mas este recusou e disse:

– Fique com ele! Tenho vários iguais a este em casa. E acho que ele combina com você. Esse vestido azul é muito bonito, por sinal. Lembra-me muito um que minha filha costumava usar quando tinha a sua idade. Ela nunca aceitou um lenço meu quando eu lhe emprestava. Acho que puxou isso de ser cabeça dura da mãe, sabe?

Ambos riram um pouco. A menina agradeceu o simbólico presente daquele senhor que ela nem sabia o nome, mas que também não quis perguntar. Eles se despediram e ela fez um último carinho nas costas do pequeno Hermes. Então o velho se virou e começou a andar de volta para onde estava, e ao seu lado ia o cachorro com a bola na boca.

A menina ficou olhando os dois irem embora. Depois, levantou-se, pegou o seu lenço da areia e guardou na bolsa junto com o novo que acabara de ganhar. Seus olhos já não estavam molhados, e ela já não sentia mais o grão de areia no olho. Tomou o caminho para o lugar para onde havia combinado com seus amigos. Não teve pressa, pois o vento estava mais gostoso agora, e ela adorava sentir o vento bater nos seus longos cabelos pretos, e quando ele balançava seu vestido azul.

A tristeza sempre anda

17/01/2015

A tristeza sempre anda
Junto à felicidade,
Como a mentira na verdade;
Como nas músicas que você canta

A tristeza é uma linha que não se vê
Um equilíbrio de emoções
Que quebra os corações
Daqueles que não sabem perder;

E tristes nós ficamos
Quando vemos que nossos planos
Nem sempre podemos compartilhar

Com quem nós amamos.
Mas esse amor que nós desejamos
Vai aos poucos nos guardar.