VII Crônica: A menina de vestido azul

Há uma menina de vestido azul que acaba de entrar no ônibus. Ao passar pela catraca, viu logo de cara um lugar vago mais ao fundo, próximo à porta por onde iria sair mais tarde. Sentou-se no banco da janela, colocou os fones de ouvido e aguardou pacientemente o motorista dar partida no veículo. Ela estava indo a uma festa, embora, no fundo, não quisesse. Mas por algum motivo aceitou o convite feito por amigos. Então ela pegou algumas coisas que precisava levar e escolheu aquele velho vestido azul que tanto gostava, e depois saiu de casa.

Entretanto, no meio do caminho, o ônibus passou pela rua Praia de Botafogo, e ela, por algum motivo, resolveu descer logo ali, um pouco antes do seu destino final. Ela ainda poderia ir andando até o local, só seria um pouco mais longe; no fim, isso não importava tanto. Saiu do ônibus, e rapidamente aproveitou um sinal fechado para os carros e atravessou a rua. Depois, ainda teve de passar por outra rua que não possuía sinal, aquela que leva ao Aterro do Flamengo, para finalmente chegar até a praia. Passou sem problemas e já estava perto da areia.

Então ela tirou as sapatilhas cor de cardo e pisou na areia fofa. Havia poucas pessoas ali, como de costume. Ela podia sentir o cheiro forte e ruim daquela água imunda, mas ainda assim ficou lá. Apesar da água daquela praia ser escura de tão suja, a areia era branca e bem macia, e dava uma sensação boa de caminhar por ela. Não gostava tanto da água de nenhuma praia; mas gostava daquele lugar, pois era tranquilo e não dava tanta gente. De fato, não é um lugar para se tomar banho, mas talvez, como a menina mesma pensou, um lugar para relaxar um pouco.

A menina pegou em sua bolsa um lenço longo e grosso, e colocou-o sobre a areia para poder se sentar ali. Desprendeu também o longo cabelo preto da mesma cor dos seus olhos, e se sentiu mais livre. Sentiu um pouco de paz, pois os últimos dias haviam sido de extremo estresse para ela, e tudo indicava que os próximos seriam ainda piores. Ela só queria que aquele domingo de sol e vento fracos fosse diferente.

Mas a mente daquela menina estava pesada. Começou, ao olhar para o céu no horizonte contrastando com o mar, ambos da mesma cor do seu vestido, a lembrar-se de algumas coisas. Variadas coisas, mas todas elas, ela percebeu, lhe davam saudade. E era estranho, pois às vezes as recordações vinham sem aviso prévio, e surgindo em locais estranhos, como no café da manhã, na universidade ou no próprio ônibus. E quase sempre elas a deixavam com um gosto ruim na boca, embora, algumas poucas vezes, as lembranças também lhe trouxessem a velha nostalgia adocicada.

Tinha dentro de si a saudade de ter momentos como aquele, em que poderia estar sozinha consigo mesma. Os dias estavam tão corridos e tudo parecia ser tão mais importante do que qualquer coisa que ela gostasse, e no fim tudo acabava sendo abdicado para que as tais necessidades fossem atendidas. A tal história de se tornar adulto, ela pensou consigo mesma. Parecia, às vezes, que isso de “ser adulto” era apenas um título, pois no fundo as pessoas acabam sendo as mesmas, mas tendo que parecer tudo o que não eram para poder conseguir aquele emprego e garantir o troco a mais no final do mês.

Pensava também na velocidade dos dias. Os ditos dias ruins, aqueles que ela costumava sentir-se só e à beira de um abismo de monotonia e tédio, para não dizer tristeza, sempre duravam uma eternidade, ou pelos menos bem mais do que vinte e quatro horas. Enquanto os dias felizes, em que sentia realmente que podia estar alegre, passavam como um vento rápido que leva as folhas que acabaram de cair de uma árvore. Era assim que ela encarava, mas nem sempre pensava nisso; ou pelo menos tentava não pensar.

No fim, sentiu saudade. Saudade de tantas coisas que nem conseguia enumerar, e de outras mais que nem conseguir lembrar fora desses momentos em que as lembranças voavam pela mente. Saudade de algumas pessoas com quem não falava mais, pois motivos diversos. Saudade de algumas coisas que costumava fazer, quando tinha tempo e com quem fazê-las. Saudade de receber as velhas cartas mal escritas e enviar como resposta outras ainda piores para amigos distantes, ou que moravam a algumas quadras ao lado; costume esse que perdurou até um ano antes. Sentiu uma saudade tão grande e forte, e de várias coisas a mais, que começou a chorar.

Antes de cair em um choro mais forte, uma pequena bola de plástico avermelhada bateu em seu pé. Logo um cachorrinho apareceu correndo para pegar a bolinha. Ele latiu para a menina, mas não parecia agressivo. Abaixou a cabeça e balançou a cauda, como se pedisse carinho. A menina, que sempre gostou de cães, acatou ao pedido do animal, mesmo com o rosto ainda molhado.

Então apareceu o seu dono. Era um senhor de idade, com barba e cabelos brancos e olhos cansados, mas alegres. Ele gritou para o animal:

– Hermes, seu pilantrinha! Não incomode a moça!

– Tudo bem, senhor – disse a menina, limpando os olhos – ele é uma graça.

– Ah, sim, ele é – concordou o velho, batendo nas coxas para chamar seu companheiro – mas faz um estrago danado depois que come ração estragada.

A menina riu, e percebeu que havia parado de chorar. Mas o velho observou que ela havia manchado a pouca maquiagem que tinha e disse:

– Está tudo bem com você?

– Sim, sim, senhor, tudo bem sim – respondeu rapidamente a menina – era só um grão de areia que voou no meu olho mesmo.

– Certo…conheço bem esses grãos de areia voadores – respondeu ironicamente o velho – mas, se não for muito meu atrevimento, diria para que não se preocupasse tanto com eles. Pelo menos, não sempre. Já tive muitos desses grãos voando nos meus olhos por muito tempo, e percebi que eles só me faziam mal, embora eu soubesse que eles eram parte dessa louca estrada que a gente chama de vida. O importante é saber a hora certa de fechar os olhos para que esses malditos, perdão pela palavra, grãos não nos façam esse mal que fizeram a você. Por sinal, tome aqui.

O velho deu-lhe um lenço que tirara do bolso. Era da mesma cor do vestido dela e bem macio. Ela usou-o para limpar o rosto borrado de maquiagem molhada. Agradeceu e devolveu ao velho, mas este recusou e disse:

– Fique com ele! Tenho vários iguais a este em casa. E acho que ele combina com você. Esse vestido azul é muito bonito, por sinal. Lembra-me muito um que minha filha costumava usar quando tinha a sua idade. Ela nunca aceitou um lenço meu quando eu lhe emprestava. Acho que puxou isso de ser cabeça dura da mãe, sabe?

Ambos riram um pouco. A menina agradeceu o simbólico presente daquele senhor que ela nem sabia o nome, mas que também não quis perguntar. Eles se despediram e ela fez um último carinho nas costas do pequeno Hermes. Então o velho se virou e começou a andar de volta para onde estava, e ao seu lado ia o cachorro com a bola na boca.

A menina ficou olhando os dois irem embora. Depois, levantou-se, pegou o seu lenço da areia e guardou na bolsa junto com o novo que acabara de ganhar. Seus olhos já não estavam molhados, e ela já não sentia mais o grão de areia no olho. Tomou o caminho para o lugar para onde havia combinado com seus amigos. Não teve pressa, pois o vento estava mais gostoso agora, e ela adorava sentir o vento bater nos seus longos cabelos pretos, e quando ele balançava seu vestido azul.

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