Vamos falar de amor, afinal?

Por que falar de amor quase sempre soa tão piegas? É um sentimento tão humano, tão nosso, e tem gente que tem até vergonha de falar sobre ele. Às vezes só quando mencionam a palavra “amor” em alguma conversa qualquer alguém já fica com o pensamento de “lá vem…”. Parece que é igual quando alguém resolve discutir religião, preferência de partidos políticos, se aquele gol que estava realmente impedido ou não, enfim, um assunto polêmico. Embora, com toda a certeza, o amor seja bem mais importante do que qualquer um dos exemplos citados.

 

Mas por que esse problema de falar de amor? É medo de se lembrar de algum momento em que amar trouxe uma dor a mais, e que foi difícil de aguentar? É porque faz lembrar de um amante que se foi, por qualquer motivo que seja, e que deixou um pedaço dele no peito? Porque o último relacionamento foi uma porcaria e agora “o amor não presta”? São quase todos bons argumentos, exceto pelo fato de que, invariavelmente, na maioria dos casos, o amor tem dessas coisas mesmo.

 

É bem verdade que o pessimismo acerca do amor também é matéria prima que alimenta muitas mentes tristes. Mas, em grande parte dos casos, os que falam mal do amor, na verdade, não amaram, apenas se apaixonaram. E há uma grande diferença entre os dois sentimentos, mesmo que possa não parecer. Até o próprio Bukowski se confundiu ao afirmar, em uma entrevista, quando perguntaram a ele qual era a sua definição de amor. A sua resposta foi: “é quando você vê a névoa da manhã, antes do sol nascer; e que depois desaparece. É isso, o amor é uma névoa que desaparece com a primeira luz de realidade.” O Velho Safado falava da paixão, mesmo sem saber.

 

Paixão é um sentimento forte, que prende a gente a alguém. Que nos faz desejar incontrolavelmente aquela pessoa em todos os nossos momentos, que faz dela a pessoa mais perfeita possível, livre de pecados, impurezas, e toda essa ladainha. Apaixonar-se é bem fácil, na verdade. Afinal, nos apaixonamos sempre que há um relacionamento que dura um mês, dois, três, que seja, mas que depois a pessoa vira só mais uma breve lembrança de um período de prazer momentâneo.

 

Amar é outra coisa. Amar alguém é aceitar os defeitos, as qualidades, o fato da pessoa ser melhor do que você em algo que você se considera bom. É quando você pensa na pessoa e o seu dia melhora. É quando se tem vontade de passar um tempo interminável com ela, e prologar o máximo possível a velha despedida. É sorrir ao ouvir o nome dela (ou dele) saindo da boca de qualquer desconhecido na rua. É olhar pela janela do quarto e ter a imagem da pessoa bem clara, mais clara do que a luz do dia, na mente. É quando queremos que um abraço dure bem mais do que conseguimos contar. A paixão é uma cegueira. O amor é quando realmente abrimos os olhos.

 

Mas não me refiro apenas ao amor que sentimos por um parceiro. Esse sentimento é tão grande que ele mesmo se transforma e caminha entre outros tipos de relação. Amamos nossos irmãos, nossos amigos, nossos entes queridos, nossos animais de estimação, nossos instrumentos musicais (eu amo, pelo menos), e outras coisas a mais. Mas não amamos porque devemos amar, pois nem todo filho ama seu pai, mesmo quando “deveria”. Assim como nem todo parceiro ama o seu, e quando isso acontece, a relação logo se esvai, e voa pra longe como a poeira que fica depois de muito tempo que não é limpada uma casa.

 

Há quem diga também que o amor não exista. Ouvi isso certa vez de um professor de química, ainda no ensino médio. Ora, porra, claro que existe! Se não existisse, morreríamos sem poder ouvir “Eu sei que vou te amar”, do Tom, e quão triste seria a vida sem amor (e sem essa música). Se não existisse, não perderíamos nossos preciosos minutos escrevendo declarações sinceras às pessoas que amamos. Se não existisse, não teríamos saudade, pois ela é reflexo direto da falta física de algo que ainda amamos. Se não existisse, nem estaria aqui escrevendo sobre isso.

 

Talvez digam e falem mal do amor pelo fato dele ser tão banalizado. É tão fácil dizer “te amo” sem amar de verdade. São só palavras, e palavras por palavras podemos dizer qualquer uma. O significado que elas possuem vai além daquele que está no dicionário. Dizer que ama alguém sem amar realmente é uma ingenuidade e/ou um pecado tão comum que acabamos confundindo por paixão. Seria mais “correto” dizer “eu sinto paixão por ti”, mas acho que pelo fato da frase ser muito grande, e não soar tão bem, opta-se pela falsa declaração. Que tipo de amor é esse que se diz existir em um dia e morre na mesma noite?

 

Amor não é só uma noite de prazer, é uma vida de alegria. É mais do que o desejo primitivo que ainda guardamos da nossa característica animal; é um sentimento que nos faz humanos acima de tudo, pois só nós amamos de verdade. Só os humanos fazem loucuras por amor sem ligar para as consequências que terão de arcar depois. E só nós, claro, somos capazes de negar algo tão nosso, tão unicamente nosso, a ponto de dizer que “amor não presta, só traz sofrimento!”. Chega a dar dor de cabeça ouvir isso…

 

É verdade que, comparado às paixões, amaremos bem pouco na vida. Mas isso pode ser bom, pois não é preciso de tantos amores. Um só já supre todas as necessidades. Já é autossuficiente. Amor é pra quem tem paciência, para quem está disposto a esperar uma semente crescer para se tornar uma planta, mesmo nas piores condições. Como Dostoievski já afirmou: “O amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de fato, não por um instante, mas até o fim.” Ir contra essas palavras é bem difícil, não?

 

Abraços.

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