VIII Crônica – O fim de tarde

Saindo de uma casa lotérica qualquer em Copacabana, Oswaldo sente-se menos desconfortável agora. Passa por aquele breve momento de leveza após pagar as contas do mês, sendo uma delas atrasada. Não que isso realmente fosse algo extraordinário, pois é uma prática comum. A questão é que, depois de ter tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na vida dele, aproveitar uma sensação, mesmo que ordinária, que lhe proporciona tranquilidade, torna-se um grande momento.

Ainda tinha de se preocupar com outras várias coisas: o aluguel que iria vencer em dois dias, e que só poderia ser pago diretamente com o proprietário. Um artigo que deveria terminar de escrever para a bendita revista que tanto odiava, mas que lhe rendia alguns trocados. Sem falar no outro texto que se dispôs a produzir em um trabalho como freelancer, e que já deveria ter terminado. Fazer as compras do mês (ou da semana, dependendo do dinheiro), e ligar para a sua mãe, que morava longe, e saber como anda o tratamento do Alzheimer. Tudo isso, e muito mais, lhe incomodava a mente. Por isso, pagar as contas foi um alívio momentâneo. Mas a irritação veio novamente quando viu que estava sem cigarros e teria de ir comprar mais.

Parou em uma banca de revista ali perto, comprou um maço do mais barato que tinha e acendeu ali mesmo. Depois de fumá-lo por inteiro, apagou as últimas brasas num lixo de rua e seguiu para a parada de ônibus. Já eram quase dezessete horas e ele estava cansado. Estava pensando no maldito tema sobre o qual teria de escrever, e lembrou-se, também, de que tinha de arrumar o apartamento, pois a poeira já estava lhe fazendo mal. Queria acender mais um, mas seu ônibus chegara. Deu um “boa tarde” forçado para o motorista e outro para a cobradora, pagou a passagem e se sentou. Apenas queria chegar em casa, só isso, mais nada.

No bairro do Humaitá, Cecília acaba de anotar o que seria um dos últimos pedidos do dia na floricultura. O de sempre: “ah, quero um buquê daqueles bem bonitos, mas não tão caros, ok? Vamos fazer um mês de namoro amanhã, e quero fazer uma surpresa pra ela. Afinal, toda mulher gosta de flores, né?”. Ela apenas concordou e desejou boa tarde e disse que a encomenda poderia ser buscada no lugar por volta das dez horas do dia seguinte. Desligou e voltou aos afazeres da loja.

O movimento estava fraco. Talvez por a hora de fechar estar próxima, e também pelo fato de que, hoje em dia, ninguém mais, pelo menos como antigamente, compra flores. Há presentes mais caros e rentáveis, sem falar que flores são algo “brega”, como ela mesma já ouvira outras vezes. Não concordava com isso, apensar de que nunca mais recebera nenhuma flor de alguém. A última vez foi de sua ex namorada, que também a apelidou de “Flox”, pois essa é a sua flor favorita. Não gostava do apelido por achar feio demais, mas não ligava. Desde que as duas não se viam mais, há quase oito meses, deixou de gostar tanto assim daquele tipo de flor.

Um último cliente entrou na loja e perguntou se ali vendia-se gardênias. Cecília respondeu que sim e mostrou-as ao visitante, que logo fez um pedido. Ela voltou com um punhado de flores para o rapaz. Ele pagou, agradeceu e desejou uma boa tarde a ela. Agradeceu, mas não desejou de volta. Achava muito falso desejar “boa tarde” a alguém sem que realmente quisesse que a pessoa tivesse uma tarde boa. Não que ela tivesse raiva, mas sentia que não estava sendo sincera. Por fim, o horário bateu e ela fechou a loja. Depois, tomou o rumo de casa, a pé.

Em uma livraria em Botafogo, Raul está descendo de uma escada com um exemplar de “A Insustentável Leveza do Ser” para uma cliente. A moça agradeceu e foi direto ao caixa. Logo, entretanto, um outro rapaz chegou e perguntou onde ficava a sessão de livros de autoajuda. Com certo desdém na mente, Raul respondeu, apontando para o final do corredor. Depois, começou a caminhar pelo local, observando se haveria alguma outra pessoa precisando de ajuda.

Ele até que gostava do trabalho, embora de início não tivesse apreciado a ideia de trabalhar com livros. O simples fato de estar numa livraria e não poder levar aquelas várias histórias para casa o deixavam com aquela doce frustração. Na verdade, gostava do lugar pela sua aura de paz. O silêncio e cheiro de café expresso o relaxavam. Embora, ali dentro, fosse talvez uma das pessoas que mais recebessem olhares tortos dos companheiros de trabalho. Mais de uma vez ouviu seus colegas comentando que achavam a simpatia dele muito forçada, e que esse tipo de gente só quer aparecer e conseguir a confiança do chefe.

Ele nunca quis parecer algo que não era. Sempre teve isso de tentar ser simpático com todos, mesmo com quem ele não conhecia ou por quem ele nutria algum ressentimento. Não fazia aquilo para agradar ninguém, e sentia-se triste pelo fato de que demonstrar um caráter amistoso lhe trouxesse estigma negativo. Afinal, se fosse um cara rude, indiferente e frio as pessoas lhe tratariam melhor? Chega a ser paradoxal pensar isso, mas, pensou, no fundo, são poucos os que ainda apreciam simpatia sem motivos. Tudo, ainda pensando consigo mesmo, tem um motivo para as pessoas; elas não conseguem simplesmente fazer uma gentileza sem esperar algo em troca.

Em meio ao engarrafamento típico do Rio de Janeiro, Oswaldo encosta a cabeça na janela do ônibus. Cada vez mais estressado, ele fica divagando sobre várias coisas. Pensa na raiva que sentiu quando o Vasco caiu de novo; no fato de Amós Oz ainda não ter ganhado o prêmio nóbel de literatura e em como aquela nova estagiária da revista era linda, uma pena que tinha namorado. Ficava ouvindo, quase que sem prestar atenção nenhuma, as palavras daquele cara que estava pregando a palavra de Deus no ônibus, citando salmos, ou o que fosse. Só queria chegar logo em casa..

Cecília esperava o sinal abrir. Ao lado de uma banca de revistas, olhou a manchete do jornal que estampava mais um caso de assassinato na Zona Sul. Palavras como “absurdo”, “crime hediondo” e “estado de pânico” ilustravam bem o sentimento que queria se passar ali. Depois, olhou para o outro lado da rua e viu um garoto vendendo balas e pipoca doce no sinal. Ele devia ter uns sete anos, ou menos, e suas roupas pareciam que nunca haviam sido lavadas. O sinal abriu, e ela começou a andar. Pensou, sem saber o porquê, naquela que lhe chamava de nome de flor. Deixou uma lágrima escorrer, mas não parou de andar.

Já meio cansado, e logo depois de pegar uma revista para um senhor de idade, Raul disse que ia sair um instante para fumar um cigarro. Seus colegas nem demonstraram alguma vontade de ir junto, então ele foi sozinho. Lá fora, ele acendeu seu único companheiro e ficou aproveitando a sensação breve de relaxamento. Mesmo que não estivesse próximo do horário do fim do expediente, ele queria ir embora. E pensava já seriamente em largar o emprego e buscar outro, nem que fosse em outra livraria. O ambiente o desgastava, mesmo que não parecesse.

De repente, Raul percebeu que o sol estava se pondo. Mesmo que distante, podia ver, no fim da rua, a praia, e ali dava pra ver, bem de relance, o sol indo embora. Logo ali do lado, passando ao perto do metrô, Cecília parou um instante e reparou nos raios alaranjados que cobriam os prédios ao redor. Logo à sua frente passou um ônibus, e lá estava Oswaldo, que agora havia esquecido de todos os pensamento enquanto reparava que o céu estava da cor de sangue, e as nuvens já pareciam se espalhar ainda mais.

Por um momento, talvez o único real do dia, os três sorriram. Oswaldo pensou em algumas ideias boas para o texto, e logo tirou seu bloquinho de notas do bolso para anotar. Ele se alegrou. Cecília deixou derramar mais uma lágrima, pois lembrava de quando costumava ver o pôr-do-sol com sua antiga amante, mas isso não a entristeceu. Pelo contrário, lhe trouxe boas sensações. Ela se alegrou. Raul sentiu o calor tocar-lhe a pele escura ainda gelada por causa do ar condicionado da livraria. Uma leve sensação de liberdade lhe tocou, e ele quis porque quis sorrir como uma criança, que, essa sim, não tem motivos para ser quem é, apenas é, e nunca espera nada em troca. Ele, mais do que nunca, se alegrou.

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