As pequenas coisas

No último dia do ano a gente acaba pensando em muita coisa. Nessas buscas por tantas questões na minha mente, quase sem querer, eu me lembro de algumas pessoas. Conversas com elas, pra ser mais exato. Pessoas específicas, do tipo de gente que parece uma árvore de raízes fortes, pois sempre ficam depois de uma chuva mais traiçoeira e demorada, enquanto que outros caules mais fracos voam no primeiro empurrão de vento. Enfim, acabei lembrando-me de bons momentos com essas tais pessoas.

 

Algumas delas não tinham nada em comum entre si, exceto pelo carinho que detenho por elas. Na verdade, até que há algo que faça me lembrar delas agora, nesse dia que antecede o início de um novo ano: os bons momentos regados de simplicidade e nostalgia com que eu guardo essas pessoas na mente. Não foram dias extraordinários; nem sequer chegaram a ser dias completos. Às vezes era apenas um instante, um segundo ou dois, um pouquinho mais, em que a felicidade esteve em sua forma mais pura, limpa e verdadeira.

 

Aquele momento em que você acorda, reluta a levantar da cama e depois escuta a voz de alguém querido. Ou quando se chega em casa depois de um dia cheio de infortúnios e sente o cheiro de comida pronta, melhor ainda quando feita por alguém que amamos. Quando abraçamos alguém com um abraço sincero; não aquele falso que damos toda vez que cumprimentamos alguém pela primeira vez, como uma simples cordialidade; mas sim aquele que dura mais do que dez segundos, podendo chegar até a um minuto ou mais. Um sorriso de bom dia, uma saída com amigos de verdade pra tomar uma cerveja, um fim de tarde na praia, um olhar dentro dos olhos de um velho amor (qualquer amor que seja), ou só sentir a lambida do seu animal de estimação que vibra ao te ver chegar em casa.

 

Coisas diferentes, mas mantendo a simplicidade em comum. O simples é melhor, pois é sincero. As coisas que fazemos todos os dias, aquelas já quase feitas no modo automático, são as mais indispensáveis. Coisas que o rico e o pobre fazem, pois não dependem de dinheiro, e sim de um bom coração, ou até boa vontade apenas. Até porque, se alguma coisa que dizemos nos deixar realmente feliz depender de dinheiro para existir, ela pode ser comprada, vendida, enfim, perdida. E felicidade que tem preço é passível de falsificação. No fim, não vale a pena, de jeito nenhum.

 

Em um bar (Pub, se eu quiser ser chato), local onde há mais filósofos por metro quadrado, certa vez, ouvi a frase já batida, mas ainda interessante: “Deus está nas pequenas coisas”. É o tipo de frase que já foi dita e alterada incontáveis vezes, mas que tem um valor enorme, e que o dinheiro não compra. E mais, “Deus” nessa frase é só uma das versões, podendo ser substituída por muitas outras palavras como “amor”, “felicidade”, “alegria”, “saudade”, “esperança” e essas coisas piegas e maravilhosas. E a frase é muito boa pois é verdadeira, como já disse acima. As coisas que realmente fazem a diferença na gente e na vida que temos e compartilhamos estão nos pequenos atos, naqueles que muitas vezes passam despercebidos, mas que notaríamos a falta se deixassem de nos acompanhar no dia-a-dia.

 

E hoje, ao sentar para escrever esse texto, senti essas pequenas coisas me rodearem: sentei na sala da casa de uma das minhas avós, de móveis de madeira bem polida, onde passei grande parte dos meus anos. Onde escrevi cartas para amigos, redações para escola, partituras para estudo próprio; onde li alguns dos poucos livros que já li na vida, onde li os vários HQs que estão no antigo quarto do meu pai, na primeira porta à direita no corredor, onde fiquei várias horas sozinho tocando meu velho violão, e onde, em suma, fiz coisas que me faziam bem e que eram totalmente de graça. E fiquei escrevendo hoje enquanto sentia o cheiro da chuva que caía lá fora e que batia no vidro que separa a sacada do resto do cômodo. Ouvia uma música que adoro enquanto escrevia sem pressa, pelo simples prazer de escrever besteiras e mais besteiras, sem que ninguém me pedisse, sem que ninguém me obrigasse.

 

No fim, são as pequenas coisas, as que realmente importam, que me fizeram escrever o que escrevo hoje, e são elas também que me impulsionam a fazer quase tudo que eu faço todos os dias.

 

Abraços.

 

E feliz Ano Novo também.

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Um comentário sobre “As pequenas coisas

  1. É meu caboco.
    O quadro foi descrito com perfeição, o ambiente retratado com fidelidade e as palavras colocadas adequadamente corretas.
    Nutrir admiração pelas palavras é refletir sobre as mesmas, querer te entender e admirar pelo que dizes e fazes.
    Orgulho de fazer parte do teu mundo.
    Zé.

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