Mês: janeiro 2016

Vida líquida

São tantas as coisas hoje que podem ser comparadas, quanto à sua durabilidade, com os queridos smartphones. Como mesmo dizia Bauman em seu livro – o qual, perdão, nunca li de fato – “Amor Líquido” (tomado quase emprestado para o título desse texto): as coisas nos nossos tempos não são feitas para durar. Temo que ele esteja certo. E quando digo que temo, é porque temo de verdade. Afinal, se nada dura tanto quanto supostamente deveria, por que viver essa tal coisa, se como num virar de página de um livro ele some e não volta mais, torando-se apensa história?

 

Vive-se com pressa. Vive-se pensando nas próximas coisas que serão feitas, nas experiências seguintes, no que ainda nem existe, por assim dizer. E essa péssima mania nos deixa cegos para o que está bem aqui na nossa frente; e dessa forma acabamos nem percebendo, ou até esquecendo, que as principais coisas, as que realmente precisamos no momento, estão ao alcance das nossas mãos. Quem dera sempre soubéssemos disso.

 

Talvez seja culpa do tempo. Não temos mais tempo para nada. Não nem coragem, pois o medo de falhar com algo que realmente se quer é maior do que o desejo de que esse “algo” exista. Nossas relações são sustentadas pelo contato diário, pela obrigação de ver a tal pessoa, e isso se prova quando alguém vai embora e a saudade não toma o seu lugar. Quando alguém nos deixa e não sentimos a necessidade de busca-la, nem nos pensamentos nem na vida real.

 

Vivemos solitários com nossos mundos virtuais. Precisamos postar e postar mais fotos para suprir o vazio de gente sólida, criando a falsa ideia de que aquelas cento e poucas curtidas valem mais do que um sincero comentário feito pessoalmente sobre você, e não sobre a foto. E esse vício torna-nos mais tristes, pois não temos coragem de sair dele e encarar nos olhos aquela pessoa que vivemos comentando nas fotos, curtindo suas publicações, acompanhando suas atualizações e até mesmo conversando com ela. Mas sempre no meio falso; no meio digital.

 

As noites são cheias de falsos amores. Encontramos com tantos seres perfeitos aos nossos olhos falhos nas baladas, nos bares e nas festas. Sem pensar, vamos àquela pessoa e lhe amamos, declaramos amor por meio de um beijo sem sabor nenhum e ficamos felizes. Depois, logo depois, como se acabasse de repente esse dito amor, estamos com outro, bem ali do lado, a metros de distância, lhe amando como acabara de amar. E o ciclo continua, e o amor se sufoca, pois ele não tem espaço para crescer, para durar um pouco mais; ou simplesmente existir.

 

Há décadas, as pessoas sentiam mais saudade. Sentiam, pois sabiam que dificilmente poderiam falar novamente com alguém que foi embora de vez. Pelo menos, falar todo dia. Hoje, em contrapartida, é tão fácil falar com qualquer pessoa a qualquer distância, que, talvez por isso, não se sente mais tanta saudade. As pessoas vão esquecendo-se umas das outras, mesmo tendo a capacidade de suportar a saudade. Mas talvez a saudade nem seja tão grande a ponto de nos causar dor o suficiente para buscar uma pessoa que nos deixou. É claro que uma conversa por mensagens de texto nunca substitui um longo abraço em um amigo ou um beijo apaixonado em um amante; mas parece que nem fazemos mais tanta questão de que um abraço dure mais do que cinco segundos e um beijo tenha paixão sincera.

 

As amizades duram tanto quanto um verão. Os amores duram tanto quanto uma madrugada. Os sonhos duram tanto quanto um salário. A saudade dura tanto quanto uma página de jornal. A vontade de olhar nos olhos dura tanto quanto um vídeo em uma rede social. Um coração vale menos do que o conteúdo de uma foto. A confiança vale tanto quanto uma noite de prazer. Os poemas valem tanto quanto palavras-cruzadas.  Nossos desejos duram tanto quanto um velho bolero. Nossos relacionamentos duram tanto quanto uma promoção de eletrônicos. Nossos sentimentos são tão caros quanto uma roupa de bazar.

 

Nossas vidas duram tanto quanto um copo d’água em um dia de calor. E não estamos mais tão dispostos a dividir esse copo com ninguém.

 

Abraços.

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O que a chuva traz

Cai então essa chuva aqui no Rio de Janeiro. Uma chuva que deixa o dia frio, ou pelo menos diferente do forte calor do verão carioca. Incomum, talvez, mas bem agradável. E essa chuva cai para todos, sem preconceito e sem restrições. Ela cai no centro, nos moleques que pedem dinheiro no sinal e nos artistas de rua. Cai nas senhoras com compras nas mãos e nos guardadores de carros. Cai nas pessoas que dormem na rua, em qualquer canto, e nas que estão amando, abraçadas e se beijando.

 

Ela é poética. A mais poética das manifestações da natureza. E ela traz lembranças. Traz o sabor frio e único que lembra pessoas distantes, e faz pensar, também, em como estariam agora. Será que chove lá também? Será que chove forte? Será que elas estão se protegendo bem da chuva? Ou será que estão aproveitando ela pra se refrescar, molhar um pouco os cabelos e a alma? Será que junto da chuva tem sol? Ou será que está tudo nublado, deixando o ar mais melancólico e calmo? Talvez nem esteja chovendo lá.

 

E ela cai devagar agora, mas logo volta a ficar grossa. Oscila entre a garoa e o “toró”, como nós mesmo oscilamos entre a tristeza e a alegria. Assim como a gente, ela é indecisa. Ora quer gente na rua, amenizando sua força; ora quer que todos voltem para as suas casas, despejando gotas agressivas e aos montes. E, novamente, somos assim: ora queremos estar com outras pessoas, rodeados de amigos ou apenas boas companhias. Porém, há dias que não queremos nada disso; queremos apenas nós mesmos, nossos defeitos e qualidades, amores e medos, nada mais.

 

Enquanto escrevo, tenho um café ao lado para me esquentar. Ele me ajuda a pensar nas palavras que a chuva joga pela minha janela dentro do quarto. Vou catando uma de cada vez, e assim que as pego, às vezes, mais imagens me aparecem na mente. Imagens do passado recente, mas bem nostálgico, portanto, bom. De vez em quando deixo cair alguma delas no chão, e logo me abaixo para pegar. Algumas poucas tentam se esconder embaixo da cama, mas eu não deixo. Então bebo o café e começo a montar a poesia que a chuva me dá. Uma poesia fraca, maleável, que facilmente vai embora. Porém, bem sincera, sincera até demais.

 

O café vai ficando frio. Ele vai acabando. Mas a chuva não, a chuva continua ali fora, sem hora pra terminar. E nem as lembranças vão embora. Vejo pessoas, lugares, sorrisos, momentos bons e ruins, mas geralmente os bons prevalecem. A chuva traz tantas coisas. Traz o frio, a água, a nostalgia, a poesia, a calma, o aconchego, a melancolia, o silêncio, a solidão e a reflexão. Talvez, na verdade, a chuva traga só uma coisa, mas essa coisa traz todo o resto, pra todos nós. A chuva traz, afinal, a saudade.

 

O café acabou agora. Mas a chuva não. Nem a saudade.

 

Abraços.

Se amar fosse fácil

Se amar fosse fácil assim
Eu amava todo mundo
E me jogaria fundo
Do início ao fim;

Mas pena que não é
Nem nunca vai ser;
Amor é coisa pra se crescer
Até o topo saindo do pé

E aos poucos morrendo,
Mas voltando depois
Quando os olhos brilham entre dois
Amantes que estavam se esquecendo;

Mas não se esquecem, não
Pois o amor é isso:
Um tiro forte, certeiro e preciso
Que se finca eternamente no coração;

E mesmo que o tempo passe devagar,
E a semana dure um ano,
O amor não tem engano
Pois o tempo voa pra quem quer amar

Nunca sofri por ser homem

Nunca sofri por ser homem. Nunca fui obrigado a esconder uma feiura, uma imperfeição, uma marca no rosto com maquiagem, por medo dos comentários alheios. Nunca tive de trocar uma roupa que eu queria tanto usar, pois era tão linda, por acharem que eu ficaria vulgar nela, porque ninguém se importa como eu me visto. Nunca fui alvo de comentário maldosos, nem taxado de coisas por usar alguma roupa, algum acessório ou simplesmente ser do meu jeito.

 

Nunca fui ensinado a cuidar da casa. Nunca ouvi dizerem que eu deveria me valorizar, que deveria preservar meu corpo para um casamento. Alias, nunca disseram que eu deveria me preparar para casar. Nunca me disseram que eu era “homem pra pegar” ou “homem pra casar”. Nunca me proibiram de curtir a vida de solteiro, de pegar muitas pessoas, de namorar, de beber, tomar um porre, fazer merdas assim, pois eu tenho essa liberdade. Nunca fui proibido de dormir fora de casa, nem de sair de madrugada. Nunca disseram que eu não podia fazer alguma coisa porque era “coisa de homem”.

 

Nunca me disseram que eu deveria perder peso. Nunca tive de me preocupar com a aparência. Nunca houve pressão sob o meu corpo. Nunca quiseram colocar regras de como eu deveria lidar com o meu próprio corpo. Nunca tive de deixar de usar alguma roupa por medo de que alguém na rua me assediasse sexualmente. Nunca tive medo disso. Nunca tive medo de passar por uma obra, na frente de um grupo de pedreiros ou algo assim, achando que ouviria coisas como “gostosa!”, “ô, lá em casa essa aí..”. Nunca fui taxado de “fácil” ou de “rodada”, ou de “puta”, por ter pegado várias pessoas numa mesma noite.

 

Nunca fui ridicularizado por lutar por igualdade de gênero. Eu nunca tive que lutar por igualdade de gênero. Nunca precisei. Nunca chorei por ser humilhado pelo meu parceiro. Nunca disseram que eu dava para meus amigos homens. Nunca tive problema de ter amigos do outro sexo. Nunca tive que ouvir de alguém que o meu lugar era na cozinha, cuidando do meu filho, limpando a casa, fazendo comida, e por aí vai. Nunca fui repreendido por querer fazer alguma coisa de homem (e nem de mulher).

 

Nunca tive medo de ser estuprado. Nunca tive medo de apanhar. Nunca tive de cobrir um olho roxo. Nunca precisei que criassem uma lei pra me proteger. Nunca disseram que eu tinha uma boa posição no trabalho porque tinha dormido com o meu chefe. Nunca levei uma dura por levantar a voz querendo dar minha opinião. Nunca me disseram que dirijo mal só por ser de algum sexo específico. Nunca me usaram como símbolo sexual pra vender produtos como cervejas. Nunca tive de esperar um vagão mais vazio no metrô por medo de que me apalpassem. Nunca me reprimiram por transar na primeira noite com uma nova pessoa.

 

Nunca sofri por ser homem. Não sei, nem nunca vou saber o que é sofrer por ser mulher.

A cidade mística

Existe um lugar escondido, onde os maus corações não conseguem chegar. E mesmo alguns dos que moram lá, muitas vezes nem sabem onde estão. Olham de um lado para o outro e nada, nada senão os seus problemas, dos seus vícios ruins e da sua chatice extrema. Nesse lugar não se vê com os olhos, mas com o que está além deles. E esse é o grande problema: há muitos corações cegos num lugar tão belo.

 

Esse lugar fica entre alguns rios que muitas vezes são chamados de mares, pois de rio apenas o nome poético eles têm. Neles vivem criaturas estranhas e mitológicas, como um animal que lembra um golfinho, mas que na verdade é um homem que se transforma em tal, e só sai de noite, quando sai, para seduzir moças bonitas e carentes com seu charme vulgar, porém galante. Além dele existe uma cobra, aquela enorme, gigante, filha de uma índia, que tanto medo causa quanto aquele rapaz que anda pra frente, parece que anda pra trás, e seu assovio faz qualquer pessoa se perder no meio da mata.

 

Terra que possui um sabor diferente, que não se vê em nenhum outro lugar. Onde o cheiro de peixes se embrenha a medida que o povo fica a cantar, naquele espaço bonito que vamos ver o peso se carregar. E depois andamos um pouco mais, antes que a chuva caia, pois se ela cair, mesmo que dure pouco, já nos banhou por um ano ou mais. Mas quando ela cai, às vezes, o sol continua, trazendo o calor que nem o diabo suporta, mas também a beleza do namoro entre essa enorme estrela e o pranto o céu.

 

Nesse pedaço de terra há pessoas que falam de forma estranha. Não possuem vírgula; em vez disso, usam o nome da “mulher do cavalo” para isso – e para todo o resto das coisas, praticamente. Povo que te chama para a sua casa e te trata como rei, mesmo que às vezes sejas um estranho para ela. Onde vários lugares se encontram, onde uma cidade vive junto de outra, em que uma delas, chamada carinhosamente de “Velha” abriga pessoas de tantas histórias diferentes, de tantos lugares onde ainda se valoriza coisas quase que raras nos tempos de hoje, como a família, a amizade, a camaradagem e o amor.

 

Ah, e ali existe uma das provas de que não estamos sozinhos no universo. Há algo que se come, ou se toma, e que possui uma cor negra como a noite cheia de nuvens. Algo doce e ao mesmo tempo amargo, que fora de lá é bem maculado, misturado a ingredientes nada convencionas e nada puros – com respeito à palavra –, deixando o sabor distante do que os deuses quiseram. Algo que nasce no topo do mundo, ou das árvores, e que pegamos com carinho, depois levamos para casa, onde ele passará levemente pela nossa boca, chegando ao estômago e depois até a alma.

 

Lugar onde os cheiros são carregados de magia, onde a chuva cura as doenças do espírito, onde o céu é mais bonito, onde as mangas se jogam, onde o Natal é mais cedo, onde a música e a dança ainda pertencem bastante ao seu povo, onde, aqueles que a amam, chamam de “meu bem”. Um lugar que sofre, sofre muito, que a cada dia sofre mais. Um lugar cansado de ser chamado de “feio”, de “podre” e de “fim do mundo”, por culpa não sua, mas de quem não lhe ama, de quem diz que lhe comanda, mas apenas lhe corrompe e lhe tortura, fazendo seu choro alagar as suas ruas e suas curvas.

 

Um lugar para chamar de lar. Um lugar que nenhuma poesia descreve bem, nem onde um amor de verdade não termine bem. Um que não cabe na dor, mas cabe numa poesia. Um lugar imaginário, um lugar de sonho, de magia, de extrema magia. Um lugar belo, apesar de tudo. Um lugar chamado saudade. Um lugar chamado Belém.

 

Abraços, Belém. Feliz 400 anos, meu bem.

IX Crônica: Os bons senhores

Em um bar qualquer em Botafogo, desses de esquina, um grupo de amigos se reúne, quase todos os dias, por volta das dezessete horas. Um deles, Altair, operário que trabalha numa obra nas redondezas, chegou primeiro, como de costume. A passada apressada sempre fora algo seu, rendendo apelidos há muito esquecidos e perdidos em algum lugar dos velhos tempos. Puxou a primeira cadeira daquela velha mesa onde sentam, e aguardou a chegada do resto.

 

Logo outros dois, Salomão e Marcos, já estavam ali. Com a sua chegada, foi pedida e primeira cerveja. Quando chegou, brindaram e beberam com gosto, como se fosse a última de suas vidas.

 

– Ah, melhor coisa do mundo, olha! – disse Marcos, que era atendente em uma loja de materiais de construção duas quadras dali.

– Não duvido que seja – concordou Salomão, judeu nascido na Turquia, há muito vivendo no Brasil – e, que D’eus me perdoe, melhor aproveitar em vida, porque não devemos ter isso no paraíso!

– Ah, meu amigo – entrou na conversa Altair, depois de abaixar seu copo – duvido que todos nós vamos nos encontrar por lá. Vocês dois já têm muito pecado nas costas.

– Olha quem fala! – respondeu Marcos, rindo.

 

Logo viram que a primeira cerveja já havia terminado. Decidiram por pedir logo outra, pois o último do grupo, Batista, ainda estava por chegar. A segunda rodada estava na mesa, e os três não esperaram para brindar novamente e degustar a bebida à base de cevada.

 

– Olha, vou lhes dizer uma coisa – começou Salomão, respirando após um longo gole – se essa crise continuar desse jeito, vou ter que fechar o negócio na Tijuca, e ficar só por aqui mesmo por Botafogo. As pessoas não sabem guardar dinheiro! Claro, eu não estou nos meus melhores dias também, mas não fico também esbanjando o que eu não tenho como esses brasileiros. Ah, não dá pra entender, viu?

– Ah, para de reclamá e toma mais um copo aqui – disse Marcos enquanto já enchia o copo do amigo.

– Espere, porra! – respondeu o turco – Meu copo ainda está pela metade.

– Pra mim tá meio vazio. Toma, toma logo!

 

E o copo foi enchido. Salomão não gostava dessas atitudes de Marcos, mas nunca disse nada sobre o assunto. Apenas deixou que ele completasse e esperou uns minutos para tomar novamente. Enquanto esperava, Altair perguntou aos amigos:

 

– Digam-me: como anda a patroa de vocês?

– Ah, rapaz, olha, vou te falar, viu? – disse Marcos, fazendo caretas e gesticulando – Essa mulher já tá me deixando puto até demais. Fica em cima de mim toda hora, dizendo que eu tenho que cuidar mais de mim mesmo, que minha saúde tá indo de mau a pior, e toda essa merda. Olha, vou falar pra vocês, viu? Se ela não fosse tão…

 

Nessa hora o celular de Marcos tocou. Parou de falar e atendeu à ligação.

 

– Oi, querida. Eu vou bem. Tomando umas aqui com os rapazes. Há! Há! Há! Sua safada. Sim, sim, mais tarde lá na Lapa. Claro, porra! Eu disse que ia e vou, oras! Sou um homem honrado! Sim, sim, entendi, às vinte horas? Certo, certo…vinte e uma. Ok, querida. Até lá. Outro pra você. – desligou e guardou o telefone. Voltou para a conversa com os amigos – Desculpem, rapazes. Onde eu estava mesmo?

– Era a Jorgina? – perguntou Salomão, com a expressão cínica.

– Que nada! Essa aí já foi embora faz tempo. Arranjou um negão aí e se fez com ele. Nem faz tanta falta. Essa no telefone é a Gabriela. Ah, rapaz, essa sim! Qualquer dia, se ela me deixar também, passo o número pra vocês! Mas onde eu estava? Ah, sim! A patroa. Pois é, rapaz, a Carminha vai indo bem, mas ô mulher difícil, viu! Vou dizer uma coisa pra vocês…

– Bem, a minha – disse Salomão – também vai bem. Mas não tinha como estar melhor, sabem? Fica em casa, no conforto, o dia todo, cuidando do nosso querido lar e da nossa querida filha. É um orgulho, sabem? Um orgulho mesmo.

– E ela nunca falou nada sobre querer trabalhar e tudo mais? – perguntou Marcos. – Tá na moda agora essa frescura de ficar falando que lugar de mulher não é em casa, que tem que trabalhar também e essas merdas todas.

– Nem me fale! Certa vez ela comentou algo sobre isso. Logo me impus e perguntei o que ela tinha na cabeça. Será que ela está infeliz? Como, eu lhes pergunto! Dou tudo que ela precisa, e ela nem tem que trabalhar pra isso. Em suma, fui o homem da casa, sabem? E assim que deve ser. Depois ela ficou no lugar dela, e mais nenhuma palavra foi dita.

 

Nesse momento, os três viram Batista saindo de um taxi e caminhando na direção deles. Ainda estava com o paletó e a maleta na mão direita. Cumprimentou todos, pediu um copo ao garçom e sentou-se. Logo já estava tomando junto deles. Respirou aliviado, como se tivesse acabado de sair de uma corrida ou algo parecido.

 

– Que cansaço é esse, doutor? – perguntou Altair.

– Ah, meu querido, sabe como é a vida de advogado, né? – disse orgulhoso Batista, com um sorriso no canto da boca.

– Na verdade, não sei não.

– Bem, que seja. Estou cheio de processos para fazer. Tem um que anda me tirando a noção das horas. Vejam, lembram do garoto morto num acidente há dois dias?

– Aquele que foi atropelado por o filho daquele empresário lá? – perguntou Marcos.

– Sim, mas perceba, foi um acidente. – continuou Batista.

– Mas ele não estava embriagado ou algo assim? – indagou Salomão.

– Ah, o rapaz bebeu só um pouquinho. Coisa de jovens, eles extrapolam de vez em quando.

– Calma, é aquele que apareceu ontem nos jornais? – falou Altair, antes de tomar um gole. – Pela foto ele tinha uns vinte e cinco anos, por aí.

– Ok, ele tinha vinte e seis! – exclamou Batista – querem me deixar terminar? Bem, esse rapaz estava levemente, bem de leve mesmo, sob efeito de álcool, mas era pouco mesmo, viram? Ele, por acidente, sem intenção nenhuma, atropelou um garoto, um pretinho da vida, de uns dez ou onze anos, sei lá, que estava voltando pra casa de madrugada depois de um dia de trabalho, se é que vender doces no sinal é trabalho, não? Aí o pai dele, do rapaz, me chamou para livrar ele desse mal entendido todo. E, olha, está me tirando o sono, mas vale a pena. É grana alta.

– Ah, sim! – disse Marcos, chamando o garçom e pedindo outra garrafa. – Bem, boa sorte pra você então, viu?

 

A cerveja chegou e eles encheram de novo seus copos. Brindaram e beberam com gosto, quase que degustando aquela bebida. Em seguida, um dos garçons ligou a televisão, e estava passando um jornal local. Apareceu a notícia de um protesto de grupos LGBT em São Paulo tomando grande parte da Avenida Paulista. Salomão exclamou:

 

– Por D’eus, onde vamos parar? Tanta coisa pra se protestar e as pessoas dão atenção a isso?

– Não é? – disse Batista – Percebam, não tenho nada contra, mas porra, há coisas mais importantes, sabe? E outra: esse papo de homofobia é tudo balela. E eles ainda tiram sarro quando falamos em heterofobia. Onde estão os direitos iguais aí? Ah, faça-me um favor…

– Olha, eu já não sô tão paciente como você, doutor – disse Marcos, enchendo seu copo e depois o de Altair – Esses viado tudo aí só querem chamar atenção, sabia? É tudo indeciso. Fico mais puto com essas mulheres que ficam com esse papo de “mulher não se nasce, se vira”; já ouviram essa?

– Se torna. – corrigiu Altair.

– Que se foda, mesma coisa! – gritou Marcos. – Ah, cacete. Se isso fosse verdade, Deus não tinha criado a gente assim, sabe? Enfim, quero ver esse povo todo ter filho um dia. Quer dizer, não dá, né?

 

Todos os quatro riram juntos. Ao fim da risada, tomaram seus copos e encheram novamente. O copo de Batista ficou pela metade, pois a cerveja já havia acabado. Pediram outra, que logo veio. Então Marcos encheu o resto do que faltava para o amigo advogado e enfim brindaram. Agora na televisão estava passando uma notícia de um caso de estupro na favela da Rocinha. O ato aconteceu após uma festa, baile funk, mais precisamente. Mostraram que o suspeito foi preso, e tratava-se do padrasto da vítima. Esta, por sua vez, tinha treze anos, e estava na festa com amigos.

 

– Meu Deus, que horror… – disse Altair, fazendo o sinal da cruz.

– Nem me fale! – gritou Salomão – Esse tipo de gente nem merece ir para o inferno. Merecem algo bem pior! Se eu pego um desses olhando para a minha filha..

– Mas olha, vocês viram as fotos dela na festa? – disse Batista. – Daquele jeito também, digo, vestida daquele jeito, não era de se esperar que alguma tragédia assim acontecesse.

– Exatamente, doutor! – exclamou Marcos.

– E vocês sabem o que é isso? – continuou Salomão. – Má criação. Nunca em uma casa digna uma menina se vestiria dessa forma. Perguntem se eu deixo a minha filha sair pra essas festas da vida vestida assim? Nunca! Onde já se viu? Não sou desse tipo aí que fica deixando minha filha se mostrando pra qualquer um. Esse não sou eu!

– E você está certo, meu amigo – disse Batista, tomando um gole – Essas meninas de hoje em dia estão cada vez piores, viu? Vocês nem imaginam a quantidade de rapazes, garotos, como o que cometeu aquele acidente infeliz, que estão sofrendo processos por “assedio”. Uma besteira, mas me dá dinheiro no fim das contas.

 

Todos riram e tomaram mais um demorado gole. Depois, Marcos, que sentava virado para a rua, cutucou Batista, que estava ao seu lado esquerdo, e depois chamou os outros dois amigos. Apontou para o outro lado da rua, pois na esquina, esperando o sinal abrir, uma moça com roupas de academia havia parado. Estava suada e levemente ofegante, com o rosto sério e focado na sua frente. O sinal abriu e ela atravessou de cabeça baixa. Chegou do outro lado e dobrou à direita, passando bem na frente do grupo.

 

No momento em que ela passou, todos os quatro viraram seus rostos à medida que ela ia avançando. Marcos entoou alto:

 

– Santa mãe de Deus! Assim meu coração não aguenta!

 

Ela abaixou a cabeça e apertou o passo. Os amigos riram e tomaram mais um gole.

 

– Ai se a minha mulher fosse assim… – lamentou Batista.

– Não queira isso, meu amigo – disse Salomão – viu as roupas dela? Esta aí não lhe seria uma boa esposa.

– Mas aposto que ela é muito boa em outra coisa, não? – disse Marcos, meio rindo.

 

Após o comentário, riram alto e continuaram bebendo até terminarem aquela garrafa. Quando acabou, Marcos disse:

 

– Amigos, já está quase na minha hora. Tenho um compromisso antes de voltar pra casa – ele piscou. – Topam uma última?

– Se você insiste tanto… – disse Batista.

– Acho que não há problema, hein, Altair? – perguntou Salomão.

– É, peçam a velha saidera. – disse Altair.

– Por isso eu amo vocês, seus filhos da puta lindos! – exclamou Marcos, levantando a mão: – Ei, negão, manda mais uma para os bons senhores aqui!