IX Crônica: Os bons senhores

Em um bar qualquer em Botafogo, desses de esquina, um grupo de amigos se reúne, quase todos os dias, por volta das dezessete horas. Um deles, Altair, operário que trabalha numa obra nas redondezas, chegou primeiro, como de costume. A passada apressada sempre fora algo seu, rendendo apelidos há muito esquecidos e perdidos em algum lugar dos velhos tempos. Puxou a primeira cadeira daquela velha mesa onde sentam, e aguardou a chegada do resto.

 

Logo outros dois, Salomão e Marcos, já estavam ali. Com a sua chegada, foi pedida e primeira cerveja. Quando chegou, brindaram e beberam com gosto, como se fosse a última de suas vidas.

 

– Ah, melhor coisa do mundo, olha! – disse Marcos, que era atendente em uma loja de materiais de construção duas quadras dali.

– Não duvido que seja – concordou Salomão, judeu nascido na Turquia, há muito vivendo no Brasil – e, que D’eus me perdoe, melhor aproveitar em vida, porque não devemos ter isso no paraíso!

– Ah, meu amigo – entrou na conversa Altair, depois de abaixar seu copo – duvido que todos nós vamos nos encontrar por lá. Vocês dois já têm muito pecado nas costas.

– Olha quem fala! – respondeu Marcos, rindo.

 

Logo viram que a primeira cerveja já havia terminado. Decidiram por pedir logo outra, pois o último do grupo, Batista, ainda estava por chegar. A segunda rodada estava na mesa, e os três não esperaram para brindar novamente e degustar a bebida à base de cevada.

 

– Olha, vou lhes dizer uma coisa – começou Salomão, respirando após um longo gole – se essa crise continuar desse jeito, vou ter que fechar o negócio na Tijuca, e ficar só por aqui mesmo por Botafogo. As pessoas não sabem guardar dinheiro! Claro, eu não estou nos meus melhores dias também, mas não fico também esbanjando o que eu não tenho como esses brasileiros. Ah, não dá pra entender, viu?

– Ah, para de reclamá e toma mais um copo aqui – disse Marcos enquanto já enchia o copo do amigo.

– Espere, porra! – respondeu o turco – Meu copo ainda está pela metade.

– Pra mim tá meio vazio. Toma, toma logo!

 

E o copo foi enchido. Salomão não gostava dessas atitudes de Marcos, mas nunca disse nada sobre o assunto. Apenas deixou que ele completasse e esperou uns minutos para tomar novamente. Enquanto esperava, Altair perguntou aos amigos:

 

– Digam-me: como anda a patroa de vocês?

– Ah, rapaz, olha, vou te falar, viu? – disse Marcos, fazendo caretas e gesticulando – Essa mulher já tá me deixando puto até demais. Fica em cima de mim toda hora, dizendo que eu tenho que cuidar mais de mim mesmo, que minha saúde tá indo de mau a pior, e toda essa merda. Olha, vou falar pra vocês, viu? Se ela não fosse tão…

 

Nessa hora o celular de Marcos tocou. Parou de falar e atendeu à ligação.

 

– Oi, querida. Eu vou bem. Tomando umas aqui com os rapazes. Há! Há! Há! Sua safada. Sim, sim, mais tarde lá na Lapa. Claro, porra! Eu disse que ia e vou, oras! Sou um homem honrado! Sim, sim, entendi, às vinte horas? Certo, certo…vinte e uma. Ok, querida. Até lá. Outro pra você. – desligou e guardou o telefone. Voltou para a conversa com os amigos – Desculpem, rapazes. Onde eu estava mesmo?

– Era a Jorgina? – perguntou Salomão, com a expressão cínica.

– Que nada! Essa aí já foi embora faz tempo. Arranjou um negão aí e se fez com ele. Nem faz tanta falta. Essa no telefone é a Gabriela. Ah, rapaz, essa sim! Qualquer dia, se ela me deixar também, passo o número pra vocês! Mas onde eu estava? Ah, sim! A patroa. Pois é, rapaz, a Carminha vai indo bem, mas ô mulher difícil, viu! Vou dizer uma coisa pra vocês…

– Bem, a minha – disse Salomão – também vai bem. Mas não tinha como estar melhor, sabem? Fica em casa, no conforto, o dia todo, cuidando do nosso querido lar e da nossa querida filha. É um orgulho, sabem? Um orgulho mesmo.

– E ela nunca falou nada sobre querer trabalhar e tudo mais? – perguntou Marcos. – Tá na moda agora essa frescura de ficar falando que lugar de mulher não é em casa, que tem que trabalhar também e essas merdas todas.

– Nem me fale! Certa vez ela comentou algo sobre isso. Logo me impus e perguntei o que ela tinha na cabeça. Será que ela está infeliz? Como, eu lhes pergunto! Dou tudo que ela precisa, e ela nem tem que trabalhar pra isso. Em suma, fui o homem da casa, sabem? E assim que deve ser. Depois ela ficou no lugar dela, e mais nenhuma palavra foi dita.

 

Nesse momento, os três viram Batista saindo de um taxi e caminhando na direção deles. Ainda estava com o paletó e a maleta na mão direita. Cumprimentou todos, pediu um copo ao garçom e sentou-se. Logo já estava tomando junto deles. Respirou aliviado, como se tivesse acabado de sair de uma corrida ou algo parecido.

 

– Que cansaço é esse, doutor? – perguntou Altair.

– Ah, meu querido, sabe como é a vida de advogado, né? – disse orgulhoso Batista, com um sorriso no canto da boca.

– Na verdade, não sei não.

– Bem, que seja. Estou cheio de processos para fazer. Tem um que anda me tirando a noção das horas. Vejam, lembram do garoto morto num acidente há dois dias?

– Aquele que foi atropelado por o filho daquele empresário lá? – perguntou Marcos.

– Sim, mas perceba, foi um acidente. – continuou Batista.

– Mas ele não estava embriagado ou algo assim? – indagou Salomão.

– Ah, o rapaz bebeu só um pouquinho. Coisa de jovens, eles extrapolam de vez em quando.

– Calma, é aquele que apareceu ontem nos jornais? – falou Altair, antes de tomar um gole. – Pela foto ele tinha uns vinte e cinco anos, por aí.

– Ok, ele tinha vinte e seis! – exclamou Batista – querem me deixar terminar? Bem, esse rapaz estava levemente, bem de leve mesmo, sob efeito de álcool, mas era pouco mesmo, viram? Ele, por acidente, sem intenção nenhuma, atropelou um garoto, um pretinho da vida, de uns dez ou onze anos, sei lá, que estava voltando pra casa de madrugada depois de um dia de trabalho, se é que vender doces no sinal é trabalho, não? Aí o pai dele, do rapaz, me chamou para livrar ele desse mal entendido todo. E, olha, está me tirando o sono, mas vale a pena. É grana alta.

– Ah, sim! – disse Marcos, chamando o garçom e pedindo outra garrafa. – Bem, boa sorte pra você então, viu?

 

A cerveja chegou e eles encheram de novo seus copos. Brindaram e beberam com gosto, quase que degustando aquela bebida. Em seguida, um dos garçons ligou a televisão, e estava passando um jornal local. Apareceu a notícia de um protesto de grupos LGBT em São Paulo tomando grande parte da Avenida Paulista. Salomão exclamou:

 

– Por D’eus, onde vamos parar? Tanta coisa pra se protestar e as pessoas dão atenção a isso?

– Não é? – disse Batista – Percebam, não tenho nada contra, mas porra, há coisas mais importantes, sabe? E outra: esse papo de homofobia é tudo balela. E eles ainda tiram sarro quando falamos em heterofobia. Onde estão os direitos iguais aí? Ah, faça-me um favor…

– Olha, eu já não sô tão paciente como você, doutor – disse Marcos, enchendo seu copo e depois o de Altair – Esses viado tudo aí só querem chamar atenção, sabia? É tudo indeciso. Fico mais puto com essas mulheres que ficam com esse papo de “mulher não se nasce, se vira”; já ouviram essa?

– Se torna. – corrigiu Altair.

– Que se foda, mesma coisa! – gritou Marcos. – Ah, cacete. Se isso fosse verdade, Deus não tinha criado a gente assim, sabe? Enfim, quero ver esse povo todo ter filho um dia. Quer dizer, não dá, né?

 

Todos os quatro riram juntos. Ao fim da risada, tomaram seus copos e encheram novamente. O copo de Batista ficou pela metade, pois a cerveja já havia acabado. Pediram outra, que logo veio. Então Marcos encheu o resto do que faltava para o amigo advogado e enfim brindaram. Agora na televisão estava passando uma notícia de um caso de estupro na favela da Rocinha. O ato aconteceu após uma festa, baile funk, mais precisamente. Mostraram que o suspeito foi preso, e tratava-se do padrasto da vítima. Esta, por sua vez, tinha treze anos, e estava na festa com amigos.

 

– Meu Deus, que horror… – disse Altair, fazendo o sinal da cruz.

– Nem me fale! – gritou Salomão – Esse tipo de gente nem merece ir para o inferno. Merecem algo bem pior! Se eu pego um desses olhando para a minha filha..

– Mas olha, vocês viram as fotos dela na festa? – disse Batista. – Daquele jeito também, digo, vestida daquele jeito, não era de se esperar que alguma tragédia assim acontecesse.

– Exatamente, doutor! – exclamou Marcos.

– E vocês sabem o que é isso? – continuou Salomão. – Má criação. Nunca em uma casa digna uma menina se vestiria dessa forma. Perguntem se eu deixo a minha filha sair pra essas festas da vida vestida assim? Nunca! Onde já se viu? Não sou desse tipo aí que fica deixando minha filha se mostrando pra qualquer um. Esse não sou eu!

– E você está certo, meu amigo – disse Batista, tomando um gole – Essas meninas de hoje em dia estão cada vez piores, viu? Vocês nem imaginam a quantidade de rapazes, garotos, como o que cometeu aquele acidente infeliz, que estão sofrendo processos por “assedio”. Uma besteira, mas me dá dinheiro no fim das contas.

 

Todos riram e tomaram mais um demorado gole. Depois, Marcos, que sentava virado para a rua, cutucou Batista, que estava ao seu lado esquerdo, e depois chamou os outros dois amigos. Apontou para o outro lado da rua, pois na esquina, esperando o sinal abrir, uma moça com roupas de academia havia parado. Estava suada e levemente ofegante, com o rosto sério e focado na sua frente. O sinal abriu e ela atravessou de cabeça baixa. Chegou do outro lado e dobrou à direita, passando bem na frente do grupo.

 

No momento em que ela passou, todos os quatro viraram seus rostos à medida que ela ia avançando. Marcos entoou alto:

 

– Santa mãe de Deus! Assim meu coração não aguenta!

 

Ela abaixou a cabeça e apertou o passo. Os amigos riram e tomaram mais um gole.

 

– Ai se a minha mulher fosse assim… – lamentou Batista.

– Não queira isso, meu amigo – disse Salomão – viu as roupas dela? Esta aí não lhe seria uma boa esposa.

– Mas aposto que ela é muito boa em outra coisa, não? – disse Marcos, meio rindo.

 

Após o comentário, riram alto e continuaram bebendo até terminarem aquela garrafa. Quando acabou, Marcos disse:

 

– Amigos, já está quase na minha hora. Tenho um compromisso antes de voltar pra casa – ele piscou. – Topam uma última?

– Se você insiste tanto… – disse Batista.

– Acho que não há problema, hein, Altair? – perguntou Salomão.

– É, peçam a velha saidera. – disse Altair.

– Por isso eu amo vocês, seus filhos da puta lindos! – exclamou Marcos, levantando a mão: – Ei, negão, manda mais uma para os bons senhores aqui!

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