A cidade mística

Existe um lugar escondido, onde os maus corações não conseguem chegar. E mesmo alguns dos que moram lá, muitas vezes nem sabem onde estão. Olham de um lado para o outro e nada, nada senão os seus problemas, dos seus vícios ruins e da sua chatice extrema. Nesse lugar não se vê com os olhos, mas com o que está além deles. E esse é o grande problema: há muitos corações cegos num lugar tão belo.

 

Esse lugar fica entre alguns rios que muitas vezes são chamados de mares, pois de rio apenas o nome poético eles têm. Neles vivem criaturas estranhas e mitológicas, como um animal que lembra um golfinho, mas que na verdade é um homem que se transforma em tal, e só sai de noite, quando sai, para seduzir moças bonitas e carentes com seu charme vulgar, porém galante. Além dele existe uma cobra, aquela enorme, gigante, filha de uma índia, que tanto medo causa quanto aquele rapaz que anda pra frente, parece que anda pra trás, e seu assovio faz qualquer pessoa se perder no meio da mata.

 

Terra que possui um sabor diferente, que não se vê em nenhum outro lugar. Onde o cheiro de peixes se embrenha a medida que o povo fica a cantar, naquele espaço bonito que vamos ver o peso se carregar. E depois andamos um pouco mais, antes que a chuva caia, pois se ela cair, mesmo que dure pouco, já nos banhou por um ano ou mais. Mas quando ela cai, às vezes, o sol continua, trazendo o calor que nem o diabo suporta, mas também a beleza do namoro entre essa enorme estrela e o pranto o céu.

 

Nesse pedaço de terra há pessoas que falam de forma estranha. Não possuem vírgula; em vez disso, usam o nome da “mulher do cavalo” para isso – e para todo o resto das coisas, praticamente. Povo que te chama para a sua casa e te trata como rei, mesmo que às vezes sejas um estranho para ela. Onde vários lugares se encontram, onde uma cidade vive junto de outra, em que uma delas, chamada carinhosamente de “Velha” abriga pessoas de tantas histórias diferentes, de tantos lugares onde ainda se valoriza coisas quase que raras nos tempos de hoje, como a família, a amizade, a camaradagem e o amor.

 

Ah, e ali existe uma das provas de que não estamos sozinhos no universo. Há algo que se come, ou se toma, e que possui uma cor negra como a noite cheia de nuvens. Algo doce e ao mesmo tempo amargo, que fora de lá é bem maculado, misturado a ingredientes nada convencionas e nada puros – com respeito à palavra –, deixando o sabor distante do que os deuses quiseram. Algo que nasce no topo do mundo, ou das árvores, e que pegamos com carinho, depois levamos para casa, onde ele passará levemente pela nossa boca, chegando ao estômago e depois até a alma.

 

Lugar onde os cheiros são carregados de magia, onde a chuva cura as doenças do espírito, onde o céu é mais bonito, onde as mangas se jogam, onde o Natal é mais cedo, onde a música e a dança ainda pertencem bastante ao seu povo, onde, aqueles que a amam, chamam de “meu bem”. Um lugar que sofre, sofre muito, que a cada dia sofre mais. Um lugar cansado de ser chamado de “feio”, de “podre” e de “fim do mundo”, por culpa não sua, mas de quem não lhe ama, de quem diz que lhe comanda, mas apenas lhe corrompe e lhe tortura, fazendo seu choro alagar as suas ruas e suas curvas.

 

Um lugar para chamar de lar. Um lugar que nenhuma poesia descreve bem, nem onde um amor de verdade não termine bem. Um que não cabe na dor, mas cabe numa poesia. Um lugar imaginário, um lugar de sonho, de magia, de extrema magia. Um lugar belo, apesar de tudo. Um lugar chamado saudade. Um lugar chamado Belém.

 

Abraços, Belém. Feliz 400 anos, meu bem.

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2 comentários sobre “A cidade mística

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