O que a chuva traz

Cai então essa chuva aqui no Rio de Janeiro. Uma chuva que deixa o dia frio, ou pelo menos diferente do forte calor do verão carioca. Incomum, talvez, mas bem agradável. E essa chuva cai para todos, sem preconceito e sem restrições. Ela cai no centro, nos moleques que pedem dinheiro no sinal e nos artistas de rua. Cai nas senhoras com compras nas mãos e nos guardadores de carros. Cai nas pessoas que dormem na rua, em qualquer canto, e nas que estão amando, abraçadas e se beijando.

 

Ela é poética. A mais poética das manifestações da natureza. E ela traz lembranças. Traz o sabor frio e único que lembra pessoas distantes, e faz pensar, também, em como estariam agora. Será que chove lá também? Será que chove forte? Será que elas estão se protegendo bem da chuva? Ou será que estão aproveitando ela pra se refrescar, molhar um pouco os cabelos e a alma? Será que junto da chuva tem sol? Ou será que está tudo nublado, deixando o ar mais melancólico e calmo? Talvez nem esteja chovendo lá.

 

E ela cai devagar agora, mas logo volta a ficar grossa. Oscila entre a garoa e o “toró”, como nós mesmo oscilamos entre a tristeza e a alegria. Assim como a gente, ela é indecisa. Ora quer gente na rua, amenizando sua força; ora quer que todos voltem para as suas casas, despejando gotas agressivas e aos montes. E, novamente, somos assim: ora queremos estar com outras pessoas, rodeados de amigos ou apenas boas companhias. Porém, há dias que não queremos nada disso; queremos apenas nós mesmos, nossos defeitos e qualidades, amores e medos, nada mais.

 

Enquanto escrevo, tenho um café ao lado para me esquentar. Ele me ajuda a pensar nas palavras que a chuva joga pela minha janela dentro do quarto. Vou catando uma de cada vez, e assim que as pego, às vezes, mais imagens me aparecem na mente. Imagens do passado recente, mas bem nostálgico, portanto, bom. De vez em quando deixo cair alguma delas no chão, e logo me abaixo para pegar. Algumas poucas tentam se esconder embaixo da cama, mas eu não deixo. Então bebo o café e começo a montar a poesia que a chuva me dá. Uma poesia fraca, maleável, que facilmente vai embora. Porém, bem sincera, sincera até demais.

 

O café vai ficando frio. Ele vai acabando. Mas a chuva não, a chuva continua ali fora, sem hora pra terminar. E nem as lembranças vão embora. Vejo pessoas, lugares, sorrisos, momentos bons e ruins, mas geralmente os bons prevalecem. A chuva traz tantas coisas. Traz o frio, a água, a nostalgia, a poesia, a calma, o aconchego, a melancolia, o silêncio, a solidão e a reflexão. Talvez, na verdade, a chuva traga só uma coisa, mas essa coisa traz todo o resto, pra todos nós. A chuva traz, afinal, a saudade.

 

O café acabou agora. Mas a chuva não. Nem a saudade.

 

Abraços.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s