Vida líquida

São tantas as coisas hoje que podem ser comparadas, quanto à sua durabilidade, com os queridos smartphones. Como mesmo dizia Bauman em seu livro – o qual, perdão, nunca li de fato – “Amor Líquido” (tomado quase emprestado para o título desse texto): as coisas nos nossos tempos não são feitas para durar. Temo que ele esteja certo. E quando digo que temo, é porque temo de verdade. Afinal, se nada dura tanto quanto supostamente deveria, por que viver essa tal coisa, se como num virar de página de um livro ele some e não volta mais, torando-se apensa história?

 

Vive-se com pressa. Vive-se pensando nas próximas coisas que serão feitas, nas experiências seguintes, no que ainda nem existe, por assim dizer. E essa péssima mania nos deixa cegos para o que está bem aqui na nossa frente; e dessa forma acabamos nem percebendo, ou até esquecendo, que as principais coisas, as que realmente precisamos no momento, estão ao alcance das nossas mãos. Quem dera sempre soubéssemos disso.

 

Talvez seja culpa do tempo. Não temos mais tempo para nada. Não nem coragem, pois o medo de falhar com algo que realmente se quer é maior do que o desejo de que esse “algo” exista. Nossas relações são sustentadas pelo contato diário, pela obrigação de ver a tal pessoa, e isso se prova quando alguém vai embora e a saudade não toma o seu lugar. Quando alguém nos deixa e não sentimos a necessidade de busca-la, nem nos pensamentos nem na vida real.

 

Vivemos solitários com nossos mundos virtuais. Precisamos postar e postar mais fotos para suprir o vazio de gente sólida, criando a falsa ideia de que aquelas cento e poucas curtidas valem mais do que um sincero comentário feito pessoalmente sobre você, e não sobre a foto. E esse vício torna-nos mais tristes, pois não temos coragem de sair dele e encarar nos olhos aquela pessoa que vivemos comentando nas fotos, curtindo suas publicações, acompanhando suas atualizações e até mesmo conversando com ela. Mas sempre no meio falso; no meio digital.

 

As noites são cheias de falsos amores. Encontramos com tantos seres perfeitos aos nossos olhos falhos nas baladas, nos bares e nas festas. Sem pensar, vamos àquela pessoa e lhe amamos, declaramos amor por meio de um beijo sem sabor nenhum e ficamos felizes. Depois, logo depois, como se acabasse de repente esse dito amor, estamos com outro, bem ali do lado, a metros de distância, lhe amando como acabara de amar. E o ciclo continua, e o amor se sufoca, pois ele não tem espaço para crescer, para durar um pouco mais; ou simplesmente existir.

 

Há décadas, as pessoas sentiam mais saudade. Sentiam, pois sabiam que dificilmente poderiam falar novamente com alguém que foi embora de vez. Pelo menos, falar todo dia. Hoje, em contrapartida, é tão fácil falar com qualquer pessoa a qualquer distância, que, talvez por isso, não se sente mais tanta saudade. As pessoas vão esquecendo-se umas das outras, mesmo tendo a capacidade de suportar a saudade. Mas talvez a saudade nem seja tão grande a ponto de nos causar dor o suficiente para buscar uma pessoa que nos deixou. É claro que uma conversa por mensagens de texto nunca substitui um longo abraço em um amigo ou um beijo apaixonado em um amante; mas parece que nem fazemos mais tanta questão de que um abraço dure mais do que cinco segundos e um beijo tenha paixão sincera.

 

As amizades duram tanto quanto um verão. Os amores duram tanto quanto uma madrugada. Os sonhos duram tanto quanto um salário. A saudade dura tanto quanto uma página de jornal. A vontade de olhar nos olhos dura tanto quanto um vídeo em uma rede social. Um coração vale menos do que o conteúdo de uma foto. A confiança vale tanto quanto uma noite de prazer. Os poemas valem tanto quanto palavras-cruzadas.  Nossos desejos duram tanto quanto um velho bolero. Nossos relacionamentos duram tanto quanto uma promoção de eletrônicos. Nossos sentimentos são tão caros quanto uma roupa de bazar.

 

Nossas vidas duram tanto quanto um copo d’água em um dia de calor. E não estamos mais tão dispostos a dividir esse copo com ninguém.

 

Abraços.

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