X Crônica: “Sem outra dor senão…”

Era segunda feira e Natália já estava pronta para sair rumo ao trabalho. Acordava sempre às quatro, antes do sol se levantar, pois gostava de ler, e a madrugada era o momento mais silencioso para se concentrar. Leu algumas páginas do livro que ganhara de um velho amigo, agora distante, há quase um ano. Viu a dedicatória que dizia “esse livro sempre me lembrou de ti, pois ele fala de lembranças dos tempos de infância, e tu, com certeza, é uma das que eu mais gosto. Um beijo enorme, e boa sorte nessa nova vida!”. Não gostava de lê-la, pois sempre se emocionava, mas acabou lendo de qualquer forma. Depois, vendo as horas no relógio, tomou seu café se açúcar, acrescentou um pouco mais de base, pegou um casaco qualquer e saiu.

 

Era quase seis horas e o sol ia nascendo aos poucos. Natália caminhou até a esquina, dobrou à direita e depois seguiu reto a caminho do metrô. Entretanto, duas quadras adiante, havia quatro homens andando no sentido contrário ao seu. Ela não podia mudar de rota, pois poderia se atrasar, então continuou pelo caminho que estava. Respirou fundo e seguiu.

 

Andava sem ir tão depressa, para não despertar nenhuma atenção indesejada. Entretanto, sua vontade era de correr e passar como aquele vento frio da manhã. Abaixou a cabeça levemente assim que se aproximou do grupo. Pareciam levemente embriagados, pois um cheiro forte de suor e álcool passou pelas narinas de Natália quando seu braço esquerdo esbarrou no homem mais ao lado. Ela se envergonhou e pediu desculpas. Sem olhar para trás, ela ouviu uma voz arrastada dizer:

 

– Relaxa, gostosa.

 

Apertou o passo, quase que correndo, totalmente envergonhada. Logo já estava na entrada do metrô. Foi para a plataforma e lá esperou o trem passar. Por sorte ele não demorou tanto, pois já queria chegar ao trabalho. Embora, de fato, não gostasse dele, no momento, pensou, estar lá fazendo alguma coisa, distraindo a mente, faria com que esquecesse o incidente que ocorrera minutos antes.

 

Como de costume, havia muitas pessoas já lá dentro e muitas outras ainda entrando. Não havia lugar livre. Pensou em sentar-se no banco reservado para prioridades, mas acabou deixando para alguém que realmente precisasse. Porém, um garoto, com uns dezoito anos, talvez, logo se sentou ali. Então ela ficou de pé, mas isso não a incomodava, pois eram apenas três estações até onde iria descer. Iria passar rápido, ela pensou.

 

Já na penúltima parada, o vagão ficou bem cheio. Com uma das mãos ela segurava-se em um apoio acima da sua cabeça, e com a outra protegia a bolsa rente ao corpo. Faltavam apenas alguns segundos até chegar ao seu destino. De repente, sentiu algo pressionar suas costas. Moveu o corpo para frente, mesmo quase não tendo espaço para isso. Entretanto, ainda estava sentindo algo ali atrás. Na região das coxas havia algo que lhe encostava, pressionando. E, gradativamente, à medida que a pessoa de trás movia-se de um para o outro, mas sem sair do lugar, a pressão aumentava, como se algo estivesse crescendo ali. Não ousou olhar para ver quem era, mas conseguia sentir a respiração e o cheiro de suor forte. A respiração já estava descompassada, e apenas retornou a um momento de alívio quando chegou à sua estação.

 

Quase que correndo, ela saiu do metrô, após subir alguns andares, e começou a caminhar até o trabalho. Ao passar por uma passarela, para poder chegar até o fim da rua e então atravessar, ouviu algumas vozes dizendo coisas como “meu coração não aguenta desse jeito!”, “e essa abundância toda aí, amor?”, “rapaz, se eu pudesse trocar minha mulher por uma dessa aí…”. Fingia, como sempre, não ter escutado nada e seguiu em frente. Já era rotina aquilo, sempre que passava por ali, mas nem sempre a gente se acostuma bem a uma rotina.

 

Atravessou a porta de entrada do edifício no qual trabalhava e seguiu para o elevador. Deu bom dia para as faxineiras, os seguranças e as moças da recepção. No elevador, havia um homem que não conhecia. Devia ser de outra empresa do prédio. A música que tocava bem fraca ali foi interrompida quando o elevador parou em um andar. Era o do homem. A porta se abriu e ele foi saindo. Porém, parou à frente da porta, e virou-se para Natália. Enquanto a porta ia fechando ela o viu balbuciar algo que ela entendeu como “gostosa” e depois ele piscou. Fechada a porta, o elevador parou depois apenas no andar dela.

 

Finalmente, sentou-se à sua mesa e começou a organizá-la para trabalhar. Sem muita demora, porém, Everaldo e Ramon, dois colegas de trabalho, pararam perto dela, se apoiando na parte superior da divisória. Sorriam para ela, com aqueles dentes brancos e perfeitos e totalmente artificiais. Everaldo disse primeiro:

 

– E aí, Nat, como vai? Parece cansada, o que houve? A noite ontem foi pesada? – falou isso e cutucou Ramo, dando uma piscada para ele.

 

Ela pensou em falar algo, mas logo o outro homem falou:

 

– É, rapaz, aposto que foi o negão – eles riram – Esse cara não deve deixar ela descansar nunca, hein?

Ambos ficaram mais alguns segundos ali até que Geraldo, outro funcionário dali, e de quem eles falavam, apareceu.

 

– Só falar que ele aparece! – comentou Ramon – Vamo, cara, vamo deixar os dois discutirem o jantar de hoje.

– Cuidado aí, negão! – disse Everaldo à Geraldo, enquanto este chegava devagar – Ela já tá cansada cedo, deixa ela trabalhar um pouco, viu? Ela tá precisando!

 

Os dois saíram e deixaram Natália e Geraldo a sós. Ele observou que o rosto da mulher estava inchado, e de seus olhos escorriam lágrimas.

 

– O que foi, Natália? – ele perguntou a ela, dando a volta na divisória e adentrando seu espaço – Foi algo que eles disseram?

 

– Não, tudo bem, não foi nada – ela disse, enxugando os olhos – Acho que é TPM, sabe?

 

– Você disse isso semana passada. E o seu ciclo ainda está longe de recomeçar, até onde eu me lembro.

 

Era disse após uma breve risada:

 

– Esqueci que você sabe bastante de mim, né? Mas tá tudo bem, de verdade. Acho só que é o cansaço mental ou algo parecido. Trabalhar vai me ajudar a esquecer isso. Tá bom? Não se preocupa, não.

 

– Tudo bem… – ele respondeu com a voz baixa e desconfiada – Me chame se precisar de algo. E, Natália, tente não ligar para o que eles dizem, tudo bem?

 

– Sim, sim, entendi. Vai lá, tô tirando teu tempo.

 

Geraldo saiu dali e foi buscar um café. No caminho, Natália conseguiu ouvir alguns colegas falando com Geraldo coisas como “aí, negão!”, “porra, esse negão não para um segundo, hein?!”, “deixa ela um segundo, negão, tá muito cedo ainda!”. Essas coisas deixavam Natália muito mal. Geraldo era o único amigo, ou pelo menos era isso que ela o considerava, ali na empresa. Temia que ele fosse algo além disso; que estivesse apenas se aproveitando dos seus problemas emocionais ou algo assim. Não gostava de pensar nisso, mas era inevitável.

 

De repente, adentrou a sala principal um rapaz novo, que havia entrado há pouco na empresa. Seu sorriso ia de uma orelha a outra, pois acabara de ser promovido pelo chefe. Recebia tapinhas nas costas dos colegas, elogios e comentários como “hoje a breja é por conta do promovido aqui!”. Por dentro, Natália queria estar contente pelo colega, embora ele jamais tenha falado direito com ela. Mas ela sabia que aquilo não era muito justo. Ela trabalhava ali praticamente desde que saiu da universidade, e isso já tinha quase quatro anos, e ela nunca recebera mais do que uma promoção pequena. Já o rapaz, que mais parecia um estagiário, nem fizera dois anos e já estava ganhando bem mais do que ela. Infelizmente não era o único, pois daqueles que estavam ao seu redor, um ou dois apenas não ganhavam mais do que Natália, e todos, sem exceção, entraram muito depois dela.

 

Abaixou a cabeça e continuou trabalhando. Até que ouviu alguém do grupo ali comentar:

 

– Teve de dar pro chefão, cara?

E o rapaz disse, estufando o peito:

– Que porra nenhuma! Tenho cara de mulher, por acaso?

Irromperam em gargalhadas e foram se dirigindo para seus cubículos.

 

Após algumas horas, deu o horário de almoço. Natália desceu e ficou em frente ao prédio, sozinha. Acendeu um cigarro e, chorando, começou a tragar. Havia um homem sentado no chão com um violão, e que cantava uma música que ela adorava. Ficou ali apreciando aquele senhor meio desafinado, só não tanto quanto o instrumento, entoar aqueles versos lindos da música “Fora de Hora”, do Chico e Dori Caymmi. Chorou ainda mais, e com mais aperto, na hora que chegaram os versos:

 

“Sem outra dor senão,

A dor de ser mulher…”

 

Depois, tragou até terminar o cigarro, apagou e o despejou no lugar ideal. Voltou, ainda chorando um pouco, para o trabalho. Ainda pôde ouvir o senhor cantar os versos finais da música:

 

“Estar à sua mão

Quando você vier…”.

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