Mês: março 2016

Saudade, apenas saudade

 

Saudade é como um vento que sempre bate de novo, naquele mesmo lugar onde o sentimos pela primeira vez. E toda vez ele traz de novo aqueles nomes que pareciam ter se esquecido; nomes esses das coisas e pessoas que ainda fazem parte da gente. O nome daquele lugar onde se dançou valsa pela primeira vez com uma grande amiga, em que se viu pela primeira vez um show de música, onde o gosto da comida daquele restaurante ainda permanece na boca; no lugar onde se beijou pela primeira vez, e onde se decepcionou por amor também. O lugar onde houve uma despedida doída, ou onde se reencontrou uma pessoa querida.

 

A saudade é como um barco, assim já dizia Chico Buarque. Ele navega devagar por um mar antigo que sempre se vomita quando a ansiedade não cabe no corpo. E nesse mar há águas que, nem sempre, são as mesmas. Às vezes são mais salgadas, outras nem tanto. Algumas vezes podem ser mais geladas, ou quentes, e terem uma violência em suas ondas, ou até mesmo a calmaria de uma lagoazinha. Mas essas águas sempre jorram no rosto e lavam as lágrimas que salgam os olhos. Jorram respingos de nostalgia e imagens do passado que persistem em nossas mentes.

 

A saudade é uma carta que se envia e espera sempre retornar. Mas nem sempre ela retorna, pois, às vezes, nem todas as cartas são lidas. Às vezes, não eram cartas para serem enviadas, pois nem sempre o passado vai lê-las. Muitas vezes, deve-se esquecer daquele endereço, daquela pessoa, daquela lembrança, pois tudo isso apenas se torna, no fim, lembranças. Porém, algumas cartas voltam; e nem sempre em forma de cartas. Às vezes, em forma de palavras soltas, abraços soltos e sorrisos soltos valem bem mais.

 

A saudade é uma notícia antiga que vive sendo relida. Uma mensagem velha que sempre vem à mente. Coisas do passado que sempre estão rondando a mente, procurando uma forma de existirem, não desaparecerem, nem se esquecerem. É como quando se acorda e aquela pessoa logo aparece quando os olhos se abrem, e permanece ali durante todo o dia, em qualquer coisa que se possa fazer.

 

A saudade é uma mesa de bar cheia de velhos amigos. E, no fim, todos eles vão embora, um a um, deixando-nos e rumando para seus lares. Porém, num outro dia, eles reaparecem, e as velhas histórias e velhas bebidas novamente fazem parte da noite, afastando alguns demônios irritantes que aparecem nos momentos de solidão. Invariavelmente, muitas cadeiras ficarão vazias, pois nem todo mundo estará sempre disposto. Entretanto, os bons companheiros, os que gostam da companhia mais do que da cerveja, os que não bebem tanto, ou os que sequer bebem, estarão ali, deixando o sabor da bebida melhor ainda.

 

A saudade tem o nome de um velho amor. Tem o nome dos velhos amigos. Tem o nome dos velhos lugares. Tem o nome dos velhos costumes. Tem o nome de tudo que ficou pra trás. Muitas vezes, essas coisas ficam tão para trás que, mesmo quando se tenta olhar, nada se vê senão sombras e figuras mal acabadas, como fotos sem foco ou sonhos sem importância. Porém, há sempre os nomes que quase fazem parte do nosso. E falar novamente esses nomes, e escutar os seus donos falarem novamente também, faz com que se perceba que, muitas vezes, a saudade que pensa se sentir não chega perto do tamanho real daquela que realmente se sente.

 

A saudade é um abraço que, se dependesse de nós, nunca acabaria.

 

Abraços.

Quando se escreve para alguém

“Em geral, acho que a gente sempre escreve para alguém. Quando estou escrevendo, sempre tenho a consciência de que aquele amigo irá gostar disso, ou aquele outro amigo vai gostar daquele parágrafo ou capítulo, sempre pensando em pessoas específicas. No fim, todos os livros são escritos para amigos”. Garcia Marquez disse isso certa vez a um jornalista, mas ele poderia ter dito apenas o último período e, ainda assim, teria dito mais do que a maioria de nós, pessoas mortais.

 

Ontem, recebi uma carta de uma amiga. Não é um fato incomum, visto que tenho o costume de escrever e trocar cartas com algumas pessoas. Na verdade, escrevo pra várias, mas no fim, só duas tem saco de me responder mesmo. De qualquer forma, ainda é algo maravilhoso. É como ir ao cinema e ver o seu filme favorito, aquele que já foi visto dezenas de vezes, e sentir aquela sensação maravilhosa de sempre. Ou como ouvir música favorita e sentir que ela toma conta do seu corpo por inteiro. Receber uma carta significa, acima de tudo, que a pessoa gosta de ti. O resto vem depois.

 

É uma sensação diferente escrever para alguém. Somos mais sinceros quando escrevemos para alguém, invariavelmente. Quando escrevo só pra mim, e incluo o presente texto nesse quesito, percebo que nada precisa sair tão bom. Afinal, não sou exigente demais. Mas quando as palavras que eu vou juntando têm um destinatário, a coisa muda de figura. Tudo, cada linha e vírgula, ou até mesmo a caligrafia, precisa estar sair perfeito. Mas o que é esse perfeito? Pra mim, nesse caso, o perfeito é quando consigo colocar a alma ali nas palavras, pra que quando a pessoa ler, ela consiga me sentir por perto.

 

Tenho esse costume de escrever pra pessoas há tempos. No meu último ano de colégio, por exemplo, havia um jogo em que eu pedia para alguém escolher uma palavra qualquer. A partir dessa palavra, que também seria o título, eu escreveria um texto. Ao termina-lo, daria a pessoa, como uma espécie de presente. Não sei se todas elas ainda têm os textos, pois essas coisas se perdem mesmo, assim como o contato e a vontade de estar sempre por perto. Faz parte. Hoje em dia, não escrevo mais tanto para as mesmas pessoas. Porém, a sensação que eu tinha ao terminar aqueles textos permanece e se mostra toda vez que termino uma carta, ou algo parecido.

 

Claro que também já escrevi (muito) para pessoas que me apaixonei, mesmo que nenhuma, de fato, tenha dado certo ou, como já ouvi certas vezes, não tenham valido o papel usado ou a tinta gasta. Coisas da vida, não? Mas a sensação de escrever para as pessoas que amamos, e não só nos apaixonamos, é diferenciada. Porque, sem dúvidas, quando a gente escreve, nossos sentimentos estão todos ali, mesmo quando não queremos. E amor é bem mais interessante, em todos os sentidos, do que uma paixão, pelo simples fato de que a segunda acaba tão facilmente quando começou, enquanto a primeira, se realmente o for, não acaba.

 

Em alguns casos, é comum, para mim, ver a pessoa para quem estou escrevendo dentro do texto. Ela aparece em cada palavra, espaço, ponto, citação, e por aí vai. É como se essa pessoa estivesse aqui perto, sentada numa cadeira ao lado da minha, observando enquanto eu escrevo pra ela. Às vezes, dá pra ouvi-la repetindo as palavras que escrevo. E isso se torna tão presente que, de tanto me sentir bem redigindo para uma pessoa, certa vez comecei a escrever um texto de aniversário e, deixando-me envolver, percebi que havia chegado até quatro páginas.  Parei na quinta mesmo. Olhei para o texto e percebi que tudo ali era exatamente a pessoa, como se, mais uma vez, ela estivesse aqui do lado.

 

Graças aos amigos eu comecei a escrever aqui no blog. Muitos ficavam me enchendo o saco para que eu postasse em algum lugar as coisas que eu só tinha nos velhos cadernos. Se não fosse por eles este projeto nem teria saído da cabeça. Na verdade, se não fosse pelos velhos e bons amigos, eu nem sequer teria começado a escrever. Afinal, quem além dos amigos de verdade suporta ler bobagens de adolescente (comecei em 2012, se a memória ainda estiver em dia)?

 

No fim, como dizia Gabo, tudo que escrevemos é para os amigos. Muitos deles, os que leem o blog, já se viram aqui em alguns textos. E mesmo os que não leem também estão aqui, em algumas frases. E, ainda, uma parcela nem sequer sabe a quantidade de coisas que escrevo e já escrevi para eles. De fato, sem eles, muitos textos nem estariam aqui, e em nenhum outro lugar.

 

Abraços. Aos amigos (e ao resto também).