Mês: abril 2016

XII Crônica: O vendedor de livros.

Ali na Rua do Passeio, no Centro, há um velhinho que vende livros em uma banca de revistas. Na verdade, não há quase revistas, mas sim vários e vários livros. Dos mais antigos aos lançamentos mais recentes, daqueles livros que dormimos junto de tão bons e aqueles que lemos quase como que por obrigação por ter gastado dinheiro ou ganhado de alguém querido. O velhinho tinha quase tudo ali, e isso era ótimo para todos que gostavam de frequentar o lugar.

 

Um costume interessante do sujeito era, toda vez que vendia um livro, ele recitava uma passagem da obra em questão. Caso não tivesse lido (o que raríssimamente acontecia), buscava uma frase do autor em outro livro dele. Ficava muito feliz quando algum leitor levava mais de um exemplar diferente de algum escritor. Não pelo dinheiro, pois quase todos os livros ali tinham preço de sebo; mas sim porque gostava de conversar.

 

Certa vez, um rapaz apareceu e pediu alguns livros de uma listinha feita à mão, coisa que já chamou atenção do velhinho. Inclinou sua corcunda e botou os óculos gastos e meio rachados para ler o que havia no papel. Logo estava procurando o que o rapaz desejava. Revirou a bagunça que só ele conhecia ali dentro da sua banca, deixando subir a poeira e os ácaros. Depois de uns minutos, voltou com três dos dois que o jovem queria. Entregou-lhe “A Revoada ou O Enterro do Diabo”, de Garcia Márquez, “A Queda”, de Albert Camus, e “Dublinenses”, de Joyce.

 

Entretanto, o rapaz ainda queria um livro que, infelizmente, o velhinho não possuía. Porém, este se lembrou de outro que, em sua opinião, era essencial para qualquer pessoa, principalmente para os que, como ele mesmo dizia, “ainda não precisam se preocupar demais com a morte e os seus males”. Disse para o rapaz aguardar e se pôs a procurar o tal livro. Retirou debaixo de alguns folhetos antigos de Cordel um exemplar empoeirado. Pegou um pano e limpou a capa. Havia uma mancha avermelhada na parte superior, que o velho não tinha notado antes. De qualquer forma, mostrou ao rapaz e disse:

 

– Esse aqui é especial. Pegue, você vai adorar.

 

– O Retrato do Artista Quando Jovem? – indagou o rapaz, enquanto lia em voz alta o título.

 

– Sim! – continuou o idoso, com um sorriso largo no rosto – É maravilhoso, acredite. Li ele há mais de quarenta anos, mas ainda lembro bem de quase tudo nele. E é bom que você o leia ainda jovem, pois a experiência será melhor ainda! Trata-se de uma história quase autobiográfica do autor, indo desde a sua chegada à escola até a idade mais adulta.

 

– Ah, que legal. Parece interessante mesmo.

 

– É surpreendente. Sempre o leio a cada dois anos. Tem um significado especial para mim, e tenho certeza que terá algo de importante nele para você que logo será descoberto!

 

Apreciando a conversa, mas sem muito tempo, o rapaz pagou pelos livros e agradeceu ao vendedor. Porém, antes de ir embora, o velhinho pediu que esperasse e, ainda sorridente, começou a recitar:

 

–  “Tú, ó Fascinação do serafim expulso,

Não te cansaste já dos ardentes caminhos?

Ah! Não me falem mais doa dias encantados..

 

Teu olhar incendiou meu coração humano,

Meu coração te deu até mesmo a vontade..

Não te cansaste já dos ardentes caminhos?”.

 

E após essas palavras, eles se despediram. O velhinho ficou ali até quase dezoito horas. Após esse tempo, fechou a banca e dirigiu-se a uma livraria grande ali perto. Os funcionários já o conheciam, pois ele todo dia estava ali. Pegou um exemplar de “A Gaviota”, de Tchekhov, e depois foi andando pelas rampas, não dando atenção às escadas rolantes, pois pelo caminho que pegava havia mais livros para serem admirados, coisa que ele adorava fazer. Seguiu até o segundo andar, onde gostava de sentar para ler.

 

Chegando ao piso superior, viu uma poltrona livre. Caminhou devagar até ela e se sentou. Havia mais três lugares ocupados perto dele; dois à direita e um do outro lado. Nos três havia jovens, pessoas que pareciam ter menos de vinte e cinco anos, talvez. Todos estavam com fones de ouvido e olhando as telas dos smatphones. Um deles, de repente, parou o que fazia e chamou um funcionário. Perguntou a ele o porquê da internet do local ter parado de funcionar. O funcionário disse que iria solucionar o problema imediatamente.

 

O velhinho então abriu o livro, sentiu o cheiro das páginas novas, e continuou a ler de onde havia parado. Mesmo com o barulho das pessoas sentadas ao redor, falando ao telefone e cantarolando as músicas dos celulares, ele lia tranquilamente.

 

Aos poucos, as pessoas foram indo embora. No fim, apenas ele estava sentado ali, sem tirar os olhos do livro. Até que um funcionário chegou até ele e disse:

 

– Boa noite, seu Inácio. Olha, me desculpe, mas já estamos fechando…

 

– Oh, Deus, não tinha reparado – respondeu Inácio, como que voltando à realidade – Perdão, perdão. Perdi a hora de novo, não?

 

– Não há problema, seu Inácio – continuou o funcionário – O senhor é da casa, lembra? Venha, eu lhe acompanho até a saída.

 

Então os dois foram caminhando, sempre olhando os livros, até a saída da livraria.

Por que somos assim?

Por que nos esquecemos de tudo que realmente importa e damos espaço para tudo que vai passar rapidamente? Doamo-nos para estranhos, para quem não conhecemos, para quem veste uma pele que não é bem a dela, mas que parece tão bonita para nós. E ao fazer isso nos esquecemos do resto; desse enorme resto que sempre pareceu estar ali, e que por isso deve permanecer eternamente. Mas até o resto acaba enquanto estamos distantes dele.

 

Por que brigamos com nós mesmos? Jogamos-nos em um poço fundo de raiva, desprezo e autoflagelação em que não parece ter fim. Soa como se gostássemos, pois a todo instante estamos nos xingando, nos detestando; sentindo nojo do nosso corpo, dos nossos hábitos, sempre querendo ser igual a alguém que, às vezes, nem sequer nos conhece. Ser alguém que não somos e que não nascemos pra ser. Ser algo que não existe senão dentro da nossa mente tão, tão conturbada.

 

Por que temos tanto ódio? Odiamos tanto que nem sempre nos tocamos disso. Odiamos quem não nos entende, ou quem apenas não quer entender. Aqueles que não compartilham nosso deus, nossas fantasias, nosso desejo carnal, nossas ideias sobre a vida em comunidade ou nossos olhares merecem nada senão nosso ódio. E brigamos sempre por isso tudo, mal sabendo que isso não é nada, absolutamente nada.

 

Por que temos vergonha de nos apresentar para o mundo? Vergonha de sermos nós mesmos, com nossos vários defeitos e inúmeras qualidades. Ao invés disso, nos escondemos atrás de máscaras, roupas caras e maquiagens extravagantes. Temos medo de mostrar que por trás da maquiagem há uma espinha de incerteza; que por trás da roupa há uma cicatriz de um corte feito por quem um dia nos apaixonamos; temos receio de tirar a máscara e mostrar que estamos chorando, pois nem sempre quem nos olha irá entender o que nós causa o pranto.

 

Por que precisamos ser aceitos por quem nunca nos aceitaria? Parece ser um desafio, um objetivo maior do que todo o resto. E nesse desafio abdicamos de tanta coisa que quando enfim conseguimos o que buscávamos, vemos que quase nada sobrou atrás de nós. Que nos perdemos do caminho de volta, e que aqueles velhos atalhos e velhos guias já não estão mais nos esperando. E quando descobrimos  que o fim da trilha não era nada senão um desenho mal feito de uma imagem que criamos, a sensação de estar perdido é a maior de todas.

 

Por que não somos sinceros? Por que mentimos tanto a toda instante? Mentimos quando nos perguntam se estamos bem, quando na verdade estamos à beira de cair e não sentir que podemos levantar. Mentimos também quando escondemos os sentimentos e os anseios dentro de velhas caixas de papelão que guardamos dentro de nós, a fim de que ninguém veja o que tem ali. Mentimos ao dizermos a alguém que o amamos, quando, no entanto, o amor nem sequer bateu à porta da nossa alma.

 

Por que nos privamos de sermos felizes? Por que não abraçamos quem amamos por mais tempo, sabendo que no dia seguinte pode não haver mais a quem amar? Deixamo-nos levar pelo comodismo, pela falta de possibilidades, pela garantia de que nada vai dar errado, mas vivendo numa certeza também de que nada vai dar certo de fato. O medo de sofrer é maior do que a vontade de conseguir. É mais fácil esperar se afogar do que nadar contra a maré. É mais fácil se negar ao amor do que arriscar descobrir que era apenas uma paixão. Ou talvez seja mais fácil viver morto do que morrer vivendo.

 

Abraços.

XI Crônica: Praia de Botafogo

Há muitos bares cheios e barulho no final da rua Praia de Botafogo. Mesmo que seja meio de semana, as pessoas não parecem se importar. Saem dos seus empregos por perto e começam a beber com amigos e colegas de trabalho. Há sempre aqueles vendedores de amendoim importunando os clientes, tentando conseguir um dinheiro além da passagem do ônibus para comprar um pouco de comida para os seus filhos, os que tem, e apenas depois para eles mesmos.

 

Mais à frente há o shopping da região, o famoso Praia Shopping. Pequeno, se comparado a quase todos os outros do Rio, mas até certo ponto aconchegante. Nada muito além do que um shopping pode proporcionar. Mas a melhor parte estava do lado de fora, entre as várias pessoas esperando no ponto de ônibus e a entrada do local. Em meio aos vários vendedores de assessórios artesanais havia um grupo musical tocando. Uma mulher de cabelos azulados usando o que parece ser uma mesa de mixagem bem simples, um rapaz na bateria e outro tocando um baixo. O som que eles fazem é diferente, mas chama a atenção de muitas pessoas que estavam de passagem por ali. Algumas deixam trocados para o grupo em um espaço colocado pelos próprios músicos.

 

Seguindo contra os carros há uma pequena venda de livros usados em frente a uma banca de revistas. A cada período de cinco à dez minutos alguém, geralmente apenas uma pessoa, entra na banca e logo sai. Ela apenas comprou um maço cigarros. E todos os demais vão e compram apenas mais e mais cigarros. Enquanto isso, a dona da vendinha de livros, uma senhora que anda devagar e curvada, senta-se ao lado de exemplares de Rubens Fonseca e Cruz e Sousa, esperando, sorridente, pessoas para levar algum. Uma moça para e pega um livro de autoajuda, pergunta quanto custa e desiste, alegando que está caro demais para um livro, e vai embora.

 

Passando um cinema de rua e um colégio particular, quase chegando a uma igreja, há um grupo de moradores de rua que dorme debaixo da ponte. Eles se cobrem com roupas avulsas que encontram pelos lixos ou papelões molhados e fedidos. Está cedo ainda para dormir, mas eles não têm mais o que fazer. Eles apenas estão ali, como se ninguém os percebesse. Entretanto, passou um cachorro relativamente pequeno com uma coleira. Ao chegar em frente ao cinema muitas pessoas param e lhe dão atenção, carinho e elogios, sem que ele, de fato, entenda suas palavras.

 

Na próxima quadra, em uma lanchonete temática de rock, há inúmeros casais jovens usando seus smartphones enquanto estão sentados de frente para o outro. De vez em quando um deles dá uma risada curta e mostra alguma foto, texto, meme, postagem ou comentário em para o outro. Eles riem e voltam para os celulares. Do lado de dentro, há uma banda tocando “Aqualung”, e à sua frente um grupo de senhoras idosas dançando sozinhas, pois seus maridos não aguentam lhes acompanhar. Elas se divertem e cantam alto. Nenhuma delas tem nada em mãos, apenas lenços para enxugar o suor das testas. Ao final, vão ao encontro de seus parceiros e lhes beijam, apaixonadas.

 

Em seguida, passando mais uma rua cheia de bares e antes de chegar à FGV, bem na esquina, do lado de fora de um banco, um casal de moças se beija. Elas permanecem ali, de olhos fechados, por quase dez minutos, sem ouvir as pessoas comentando sobre elas nos bares do outro lado. Uma delas está chorando enquanto a outra tenta afagar as mágoas. Elas sorriem uma para a outra de novo e se abraçam, e não contam o tempo para se largar novamente. Uma delas aperta mais a outra, que ri com a força com que os braços do seu amor lhe seguram.

 

Depois de passar mais duas quadras, chega-se até a última. Na esquina, há uma bonita panificadora. E ao lado dela há um homem. Ele senta no chão, pois não tem onde mais sentar. Fica em cima de alguns jornais velhos, onde deixa suas muletas velhas. Ele não tem nenhuma das pernas e por isso precisa desses apoios. Sentado ali, pedindo dinheiro, ao seu lado tem um amigo, ou apenas companheiro de fome, que aparenta ter pelo menos vinte anos a mais, pois sua expressão é muito velha e triste. Ele lê um dos jornais que o outro homem guarda debaixo de si. Puxa-o para ler melhor e fica lendo em silêncio. Uma das manchetes é a da morte de um jovem filho de um importante juiz morador do Leblon. Lá está escrito: “Até quando viveremos assim?”. E ao lado, notícias sobre o jogo do Flamengo.

 

No fim, há uma praça. A chamada Praça Nicarágua. Moram ali os pombos, que defecam e comem os restos. Um florista trabalha em uma das pontas dela, vendendo flores para os poucos que ainda compram-nas. E na fonte da pequena praça dorme, quase totalmente dentro da água, um homem. Ele dorme tão profundamente que há quem diga, como piada, que ele está morto. Entretanto, mesmo se estiver vivo, para todos os outros, ele é como um morto.