XI Crônica: Praia de Botafogo

Há muitos bares cheios e barulho no final da rua Praia de Botafogo. Mesmo que seja meio de semana, as pessoas não parecem se importar. Saem dos seus empregos por perto e começam a beber com amigos e colegas de trabalho. Há sempre aqueles vendedores de amendoim importunando os clientes, tentando conseguir um dinheiro além da passagem do ônibus para comprar um pouco de comida para os seus filhos, os que tem, e apenas depois para eles mesmos.

 

Mais à frente há o shopping da região, o famoso Praia Shopping. Pequeno, se comparado a quase todos os outros do Rio, mas até certo ponto aconchegante. Nada muito além do que um shopping pode proporcionar. Mas a melhor parte estava do lado de fora, entre as várias pessoas esperando no ponto de ônibus e a entrada do local. Em meio aos vários vendedores de assessórios artesanais havia um grupo musical tocando. Uma mulher de cabelos azulados usando o que parece ser uma mesa de mixagem bem simples, um rapaz na bateria e outro tocando um baixo. O som que eles fazem é diferente, mas chama a atenção de muitas pessoas que estavam de passagem por ali. Algumas deixam trocados para o grupo em um espaço colocado pelos próprios músicos.

 

Seguindo contra os carros há uma pequena venda de livros usados em frente a uma banca de revistas. A cada período de cinco à dez minutos alguém, geralmente apenas uma pessoa, entra na banca e logo sai. Ela apenas comprou um maço cigarros. E todos os demais vão e compram apenas mais e mais cigarros. Enquanto isso, a dona da vendinha de livros, uma senhora que anda devagar e curvada, senta-se ao lado de exemplares de Rubens Fonseca e Cruz e Sousa, esperando, sorridente, pessoas para levar algum. Uma moça para e pega um livro de autoajuda, pergunta quanto custa e desiste, alegando que está caro demais para um livro, e vai embora.

 

Passando um cinema de rua e um colégio particular, quase chegando a uma igreja, há um grupo de moradores de rua que dorme debaixo da ponte. Eles se cobrem com roupas avulsas que encontram pelos lixos ou papelões molhados e fedidos. Está cedo ainda para dormir, mas eles não têm mais o que fazer. Eles apenas estão ali, como se ninguém os percebesse. Entretanto, passou um cachorro relativamente pequeno com uma coleira. Ao chegar em frente ao cinema muitas pessoas param e lhe dão atenção, carinho e elogios, sem que ele, de fato, entenda suas palavras.

 

Na próxima quadra, em uma lanchonete temática de rock, há inúmeros casais jovens usando seus smartphones enquanto estão sentados de frente para o outro. De vez em quando um deles dá uma risada curta e mostra alguma foto, texto, meme, postagem ou comentário em para o outro. Eles riem e voltam para os celulares. Do lado de dentro, há uma banda tocando “Aqualung”, e à sua frente um grupo de senhoras idosas dançando sozinhas, pois seus maridos não aguentam lhes acompanhar. Elas se divertem e cantam alto. Nenhuma delas tem nada em mãos, apenas lenços para enxugar o suor das testas. Ao final, vão ao encontro de seus parceiros e lhes beijam, apaixonadas.

 

Em seguida, passando mais uma rua cheia de bares e antes de chegar à FGV, bem na esquina, do lado de fora de um banco, um casal de moças se beija. Elas permanecem ali, de olhos fechados, por quase dez minutos, sem ouvir as pessoas comentando sobre elas nos bares do outro lado. Uma delas está chorando enquanto a outra tenta afagar as mágoas. Elas sorriem uma para a outra de novo e se abraçam, e não contam o tempo para se largar novamente. Uma delas aperta mais a outra, que ri com a força com que os braços do seu amor lhe seguram.

 

Depois de passar mais duas quadras, chega-se até a última. Na esquina, há uma bonita panificadora. E ao lado dela há um homem. Ele senta no chão, pois não tem onde mais sentar. Fica em cima de alguns jornais velhos, onde deixa suas muletas velhas. Ele não tem nenhuma das pernas e por isso precisa desses apoios. Sentado ali, pedindo dinheiro, ao seu lado tem um amigo, ou apenas companheiro de fome, que aparenta ter pelo menos vinte anos a mais, pois sua expressão é muito velha e triste. Ele lê um dos jornais que o outro homem guarda debaixo de si. Puxa-o para ler melhor e fica lendo em silêncio. Uma das manchetes é a da morte de um jovem filho de um importante juiz morador do Leblon. Lá está escrito: “Até quando viveremos assim?”. E ao lado, notícias sobre o jogo do Flamengo.

 

No fim, há uma praça. A chamada Praça Nicarágua. Moram ali os pombos, que defecam e comem os restos. Um florista trabalha em uma das pontas dela, vendendo flores para os poucos que ainda compram-nas. E na fonte da pequena praça dorme, quase totalmente dentro da água, um homem. Ele dorme tão profundamente que há quem diga, como piada, que ele está morto. Entretanto, mesmo se estiver vivo, para todos os outros, ele é como um morto.

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