Por que somos assim?

Por que nos esquecemos de tudo que realmente importa e damos espaço para tudo que vai passar rapidamente? Doamo-nos para estranhos, para quem não conhecemos, para quem veste uma pele que não é bem a dela, mas que parece tão bonita para nós. E ao fazer isso nos esquecemos do resto; desse enorme resto que sempre pareceu estar ali, e que por isso deve permanecer eternamente. Mas até o resto acaba enquanto estamos distantes dele.

 

Por que brigamos com nós mesmos? Jogamos-nos em um poço fundo de raiva, desprezo e autoflagelação em que não parece ter fim. Soa como se gostássemos, pois a todo instante estamos nos xingando, nos detestando; sentindo nojo do nosso corpo, dos nossos hábitos, sempre querendo ser igual a alguém que, às vezes, nem sequer nos conhece. Ser alguém que não somos e que não nascemos pra ser. Ser algo que não existe senão dentro da nossa mente tão, tão conturbada.

 

Por que temos tanto ódio? Odiamos tanto que nem sempre nos tocamos disso. Odiamos quem não nos entende, ou quem apenas não quer entender. Aqueles que não compartilham nosso deus, nossas fantasias, nosso desejo carnal, nossas ideias sobre a vida em comunidade ou nossos olhares merecem nada senão nosso ódio. E brigamos sempre por isso tudo, mal sabendo que isso não é nada, absolutamente nada.

 

Por que temos vergonha de nos apresentar para o mundo? Vergonha de sermos nós mesmos, com nossos vários defeitos e inúmeras qualidades. Ao invés disso, nos escondemos atrás de máscaras, roupas caras e maquiagens extravagantes. Temos medo de mostrar que por trás da maquiagem há uma espinha de incerteza; que por trás da roupa há uma cicatriz de um corte feito por quem um dia nos apaixonamos; temos receio de tirar a máscara e mostrar que estamos chorando, pois nem sempre quem nos olha irá entender o que nós causa o pranto.

 

Por que precisamos ser aceitos por quem nunca nos aceitaria? Parece ser um desafio, um objetivo maior do que todo o resto. E nesse desafio abdicamos de tanta coisa que quando enfim conseguimos o que buscávamos, vemos que quase nada sobrou atrás de nós. Que nos perdemos do caminho de volta, e que aqueles velhos atalhos e velhos guias já não estão mais nos esperando. E quando descobrimos  que o fim da trilha não era nada senão um desenho mal feito de uma imagem que criamos, a sensação de estar perdido é a maior de todas.

 

Por que não somos sinceros? Por que mentimos tanto a toda instante? Mentimos quando nos perguntam se estamos bem, quando na verdade estamos à beira de cair e não sentir que podemos levantar. Mentimos também quando escondemos os sentimentos e os anseios dentro de velhas caixas de papelão que guardamos dentro de nós, a fim de que ninguém veja o que tem ali. Mentimos ao dizermos a alguém que o amamos, quando, no entanto, o amor nem sequer bateu à porta da nossa alma.

 

Por que nos privamos de sermos felizes? Por que não abraçamos quem amamos por mais tempo, sabendo que no dia seguinte pode não haver mais a quem amar? Deixamo-nos levar pelo comodismo, pela falta de possibilidades, pela garantia de que nada vai dar errado, mas vivendo numa certeza também de que nada vai dar certo de fato. O medo de sofrer é maior do que a vontade de conseguir. É mais fácil esperar se afogar do que nadar contra a maré. É mais fácil se negar ao amor do que arriscar descobrir que era apenas uma paixão. Ou talvez seja mais fácil viver morto do que morrer vivendo.

 

Abraços.

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