XII Crônica: O vendedor de livros.

Ali na Rua do Passeio, no Centro, há um velhinho que vende livros em uma banca de revistas. Na verdade, não há quase revistas, mas sim vários e vários livros. Dos mais antigos aos lançamentos mais recentes, daqueles livros que dormimos junto de tão bons e aqueles que lemos quase como que por obrigação por ter gastado dinheiro ou ganhado de alguém querido. O velhinho tinha quase tudo ali, e isso era ótimo para todos que gostavam de frequentar o lugar.

 

Um costume interessante do sujeito era, toda vez que vendia um livro, ele recitava uma passagem da obra em questão. Caso não tivesse lido (o que raríssimamente acontecia), buscava uma frase do autor em outro livro dele. Ficava muito feliz quando algum leitor levava mais de um exemplar diferente de algum escritor. Não pelo dinheiro, pois quase todos os livros ali tinham preço de sebo; mas sim porque gostava de conversar.

 

Certa vez, um rapaz apareceu e pediu alguns livros de uma listinha feita à mão, coisa que já chamou atenção do velhinho. Inclinou sua corcunda e botou os óculos gastos e meio rachados para ler o que havia no papel. Logo estava procurando o que o rapaz desejava. Revirou a bagunça que só ele conhecia ali dentro da sua banca, deixando subir a poeira e os ácaros. Depois de uns minutos, voltou com três dos dois que o jovem queria. Entregou-lhe “A Revoada ou O Enterro do Diabo”, de Garcia Márquez, “A Queda”, de Albert Camus, e “Dublinenses”, de Joyce.

 

Entretanto, o rapaz ainda queria um livro que, infelizmente, o velhinho não possuía. Porém, este se lembrou de outro que, em sua opinião, era essencial para qualquer pessoa, principalmente para os que, como ele mesmo dizia, “ainda não precisam se preocupar demais com a morte e os seus males”. Disse para o rapaz aguardar e se pôs a procurar o tal livro. Retirou debaixo de alguns folhetos antigos de Cordel um exemplar empoeirado. Pegou um pano e limpou a capa. Havia uma mancha avermelhada na parte superior, que o velho não tinha notado antes. De qualquer forma, mostrou ao rapaz e disse:

 

– Esse aqui é especial. Pegue, você vai adorar.

 

– O Retrato do Artista Quando Jovem? – indagou o rapaz, enquanto lia em voz alta o título.

 

– Sim! – continuou o idoso, com um sorriso largo no rosto – É maravilhoso, acredite. Li ele há mais de quarenta anos, mas ainda lembro bem de quase tudo nele. E é bom que você o leia ainda jovem, pois a experiência será melhor ainda! Trata-se de uma história quase autobiográfica do autor, indo desde a sua chegada à escola até a idade mais adulta.

 

– Ah, que legal. Parece interessante mesmo.

 

– É surpreendente. Sempre o leio a cada dois anos. Tem um significado especial para mim, e tenho certeza que terá algo de importante nele para você que logo será descoberto!

 

Apreciando a conversa, mas sem muito tempo, o rapaz pagou pelos livros e agradeceu ao vendedor. Porém, antes de ir embora, o velhinho pediu que esperasse e, ainda sorridente, começou a recitar:

 

–  “Tú, ó Fascinação do serafim expulso,

Não te cansaste já dos ardentes caminhos?

Ah! Não me falem mais doa dias encantados..

 

Teu olhar incendiou meu coração humano,

Meu coração te deu até mesmo a vontade..

Não te cansaste já dos ardentes caminhos?”.

 

E após essas palavras, eles se despediram. O velhinho ficou ali até quase dezoito horas. Após esse tempo, fechou a banca e dirigiu-se a uma livraria grande ali perto. Os funcionários já o conheciam, pois ele todo dia estava ali. Pegou um exemplar de “A Gaviota”, de Tchekhov, e depois foi andando pelas rampas, não dando atenção às escadas rolantes, pois pelo caminho que pegava havia mais livros para serem admirados, coisa que ele adorava fazer. Seguiu até o segundo andar, onde gostava de sentar para ler.

 

Chegando ao piso superior, viu uma poltrona livre. Caminhou devagar até ela e se sentou. Havia mais três lugares ocupados perto dele; dois à direita e um do outro lado. Nos três havia jovens, pessoas que pareciam ter menos de vinte e cinco anos, talvez. Todos estavam com fones de ouvido e olhando as telas dos smatphones. Um deles, de repente, parou o que fazia e chamou um funcionário. Perguntou a ele o porquê da internet do local ter parado de funcionar. O funcionário disse que iria solucionar o problema imediatamente.

 

O velhinho então abriu o livro, sentiu o cheiro das páginas novas, e continuou a ler de onde havia parado. Mesmo com o barulho das pessoas sentadas ao redor, falando ao telefone e cantarolando as músicas dos celulares, ele lia tranquilamente.

 

Aos poucos, as pessoas foram indo embora. No fim, apenas ele estava sentado ali, sem tirar os olhos do livro. Até que um funcionário chegou até ele e disse:

 

– Boa noite, seu Inácio. Olha, me desculpe, mas já estamos fechando…

 

– Oh, Deus, não tinha reparado – respondeu Inácio, como que voltando à realidade – Perdão, perdão. Perdi a hora de novo, não?

 

– Não há problema, seu Inácio – continuou o funcionário – O senhor é da casa, lembra? Venha, eu lhe acompanho até a saída.

 

Então os dois foram caminhando, sempre olhando os livros, até a saída da livraria.

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