Mês: maio 2016

XIII Crônica: Um bom rapaz.

Enrico Augusto acordou tarde naquela segunda feira de maio. Sentia dor de cabeça e tontura, além de certo enjoo. Aguentou até onde podia e depois vomitou dentro do vaso do seu banheiro. Ainda estava com a roupa do dia anterior e cheirando a álcool. Tirou-a e jogou num canto qualquer. Colocou o chuveiro no modo “inverno” e tomou seu banho de água morna. Ficou alguns minutos depois em frente ao espelho ajeitando o cabelo. Pegou um dos vários desodorantes espalhados perto da pia e usou, deixando ali mesmo depois.

 

Pegou seu relógio que usara ontem e viu que horas ele marcava. O rolex apontou quase dez horas. Ele tinha aula às nove na universidade, mas julgou muito tarde para ir pegar a aula das onze. “Eu pago essa porra mesmo”, pensou enquanto caminhava pelo quarto, catando alguma roupa. Pegou uma bermuda e uma blusa. Viu que o cômodo estava totalmente bagunçado. Retirou-se e começou a descer as escadas rumo à cozinha.

 

No corredor encontrou a empregada doméstica.

 

– Ô, Juçara, arruma lá o quarto rapidinho, pode ser? – falou ele.

 

A moça apenas assentiu, já segurando uma pilha de roupas em suas mãos. Deu passagem para ele e seguiu para seu destino.

 

Enrico Augusto chegou à cozinha e viu sua mesa posta. Pegou o celular e começou a comer com ele na mão. Viu o seu aplicativo de mensagens e havia muitas. Foi direto para um grupo de amigos da universidade e amigos deles. Mandaram um vídeo de uma garota lá. Devia ter a idade dele, uns dezenove anos. O vídeo mostrava ela deitada no chão de algum local agitado, como um apartamento em festa. Usava saia curta, mas sua blusa estava abaixada, mostrando seus peitos. E depois mostrava um rapaz, também de idade parecida, apalpando-os. Ao fundo, risadas. O câmera trocou de lugar com um outro jovem para poder “tirar uma casquinha”, como ele mesmo afirmou.

 

Enrico Augusto comentou no grupo:

 

– Caralho, manos, pensa numa mina que se fodeu! – e depois risadas digitais.

 

Um dos amigos dele comentou que ela parecia estar drogada, que não reagia a nada. Enrico disse, confirmando a fala de um outro no grupo:

 

– Ah, mano, ela deve ter enchido a cara, tá ligado? Não sabe beber, fica em casa! E, porra, lembra do ditado lá? “Cu de bêbado não tem dono”!

 

Eles riram bastante no grupo e depois Enrico foi olhar o Facebook. Marcações de festas que estavam por vir, um ou outro pedido de amizade, comentários genéricos em fotos suas. Começou a olhar o feed e viu uma imagem compartilhada por uma garota que estudou com ele na escola. Era sobre uma passeata que iria ocorrer naquele dia mesmo, no Centro, perto da Cinelândia. O principal tema, segundo a postagem, era “igualdade de gênero”. Ele zombou e disse consigo mesmo:

 

– Bando de feminazi.

 

Terminou brevemente seu café e logo se aprontou para ir à academia. Pegou algumas coisas no quarto, como seu relógio novo, que o pai trouxe da Suíça, e seus tênis Nike. Catou as chaves do seu carro e saiu. Entrou no veículo, deu partida e foi para a academia. Três quadras depois, duas antes da academia, viu um casal de homens andando de mãos dadas na rua. Pensou consigo mesmo “aberrações”. Depois, já na frente do local, mas ainda no carro, viu um vídeo que enviaram no mesmo grupo de antes. Era de duas garotas se beijando e dançando sensualmente numa festa qualquer. Enrico comentou:

 

– Nossa, comia as duas ao mesmo tempo!

 

Depois entrou para fazer seus exercícios. Antes do primeiro aparelho, viu uma mensagem da sua namorada dizendo “amor, precisamos conversar…” e deu de ombros. Fez suas séries e já sentia os músculos inchados. Pegou o celular, forçou os braços, e tirou uma foto sua em frente ao espelho no aplicativo Snapchat. Como legenda colocou “aos trabalhos” e enviou para seus contatos femininos.

 

Encontrou um amigo seu ali malhando. Começaram a conversar sobre qualquer coisa. Até que viram um conhecido seu malhando ao fundo. Fazia agachamentos e por isso os dois riam entre si. “Acho que o macho dele que pediu, hein?” disse o amigo de Enrico. Riram ainda mais. Pela TV que estava ali perto deles, viram uma notícia sobre um caso de violência com cunho homofóbico. Enrico começou a falar:

 

– Olha, vou te contar uma coisa, agora tudo é isso! Toda hora tem notícia de porrada em gay. E as outras notícias? Não são importantes?

 

Seu amigo concordou e disse:

 

– É, mano, tudo é frescura hoje em dia também. Tipo, não tenho nada contra gay, tá ligado? Cada um faz o que quiser com seu cu. Agora, essa merda de fazer eles parecerem coitadinhos, vítimas e tudo mais, porra, que saco.

 

– Não é mesmo? – continuou Enrico – Te juro, mano, dá raiva disso. Como se só eles sofressem, saca? Parece que esses putos são mais importantes que a gente, que merecem proteção e respeito. Porra, e a gente não?

 

Depois de algumas horas eles saíram da academia. Disse ao amigo que lhe daria uma carona até sua casa. Na rua, passaram pelo Centro, e a tal passeata que Enrico Augusto vira mais cedo já havia começado. Em sua maioria composta de mulheres, mas também havia alguns poucos homens. Grande parte, senão todos, segurando cartazes com temas do tipo “pró igualdade de gênero”, “menos preconceito” e “mais diálogo”. Enrico Augusto disse ao amigo:

 

– Sabe o que é isso aí? Falta de rôla!

 

– É, mano! – disse o amigo, rindo alto dentro do carro – Mas sabe, bem que eu podia ajudar elas com isso, né? Só pelo tamanho aqui do rapaz – e apontou para a região entre as pernas.

 

Riram novamente até um pouco antes da casa do amigo de Enrico Augusto. Despediram-se e o rapaz com o carro foi embora. Estava vendo as fotos que as amigas de rede social haviam lhe enviado como resposta à sua foto na academia quando a namorada ligou. Atendeu, mesmo à contra gosto, com uma mão ao volante e a outra segurando o celular. Ela falou “amor, hoje vou ao aniversário do Victor, ok?”. Ele respondeu:

 

– Quem é esse?

 

– Ah, é aquele amigo que comentei com você. – ela respondeu – Nós nos conhecemos há muito, desde os tempos de escola. Ele está morando fora do Rio, e veio passar uns dias aqui.

 

– Não lembro desse cara, não. Enfim, que horas eu passo pra te pegar?

 

– Amor, não precisa…

 

– Eu não vou te deixar até tarde num lugar onde só deve ter homem, Cláudia! Onde já se viu? Meia noite, certo?

 

– Enrico, de verdade, estaremos entre amigos só.

 

– Cláudia, já te falei que homem não tem amiga. A única amiga de um homem é a namorada dele, e ponto. O resto é só pra pegar. Então já combinamos, ok? Meia noite passo pra te buscar. Manda o endereço por mensagem depois. Preciso ir, tô no trânsito agora.

 

– Tudo bem, amor…beijo.

 

– Beijo, amorzão.

 

Eles desligaram. Enrico Augusto então voltou a olhar as fotos das amigas pelo Snapchat.

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Uma música com teu nome

Teve um dia em que escrevi uma música. De primeira não era nada de mais. Uns acordes bem colocados, um ou outro meio incomum, uma melodia bonitinha e um final previsível, mas ainda assim bonito. Mas então olhei melhor para ela, e por um instante parecia perfeita. Parecia algo que eu jamais conseguiria compor; algo que estava muito além de mim. Porém, lá estava, na minha frente.

 

Então olhei mais atentamente. Vi que a melodia parecia conversar comigo. Parecia que havia alguém ali dentro, declamando um poema só pra mim. Nem soava mais, na minha mente, como uma música mesmo; estava mais para um poeta preso entre uma dor que só ele sentia, mas que queria, de qualquer forma, me dizer o que se passava dentro do seu peito. E ele falava por meio de cada nota ali, indo das mais curtas, durando apenas frações de tempo, às mais longas, preenchendo quase um compasso inteiro.

 

Percebi, também, que a música tinha alguns momentos diferentes. No meio, quase que sem muito preparo, ela mudava de tom. Não de tonalidade, mas de aspecto mesmo; como se ali se tornasse outra música. Como se a antiga fosse embora e uma nova nascesse. Soava mais sombria, mais tensa, com notas mais conflitantes, caminhos em que a melodia não parecia ir a lugar nenhum, apenas repetindo o mesmo tema, a mesma frase, sem se decidir aonde repousar.

 

Mas aí notei o razão disso. Reparei que tudo aquilo caminhava, sim, para uma resolução. Era como se tudo tivesse um motivo, o porquê verdadeiro daquilo. Parecia que as sombras que os acordes dissonantes e notas estranhas culminaram num final harmonioso. Um final que eu não esperava, mas que, de alguma forma, pareceu fazer sentido pra mim, mesmo que, talvez, não fizesse para todos que a escutassem.

 

No fim, fui tocá-la. Mas mesmo reproduzindo no violão o que estava escrito na partitura, não fui eu quem tocou a música. Ela que estava me tocando o tempo todo, nas suas pausas, nos contratempos, nas notas prolongas e, acima de tudo, no momento em que eu a escrevia. Não fazia sentido pra mim. Não havia planejado aquilo. Não era pra sair tão bom, pois eu nem sequer queria isso. Parecia que qualquer elemento a mais deixaria aquela música mais perfeita. Mesmo se eu errasse, ela ainda seria maravilhosa. E até uma nota desafinada ficaria bem na sua harmonia.

 

Então vi que a música tinha o teu nome. E assim tudo que parecia inexplicável fez sentido.

 

Abraços.

Relacionamentos terríveis

Talvez o maior dos problemas dos relacionamentos de hoje seja a falta de empatia. Sim, a falta de um olhar sincero entre o casal. A falta de uma coisa extremamente simples e fundamental, quase que imprescindível para qualquer tipo de relação, seja de amigos ou casal mesmo. Ena última parece às vezes não há uma vontade além daquela vinda da necessidade física de um abraço, de um beijo, de sexo e tudo mais. E quando um relacionamento depende apenas do contato físico assim ele é totalmente passível de acabar.

 

E falta isso: algo além. Falta uma parceria entre os dois; falta aquela paciência que apenas os parceiros mesmo têm um com o outro. Às vezes a impressão que dá é a de que eles estão ali por conveniência, por necessidade emocional. Parece que ficar solteiro é uma dor tão grande que vale mais a pena se submeter a uma relação sem sentimento, em que o casal é mais feliz nas redes sociais do que juntos, por status social ou mesmo pela falsa ideia de felicidade. E, de novo, isso jamais dura se o único sustento for alto tão frágil.

 

Uma relação em que um dos dois não consiga sentir parte, só uma parte da dor do outro é pobre e falível. E a dor pode ser variada: dor de brigar com a mãe ou pai por algum motivo, dor de uma nota ruim numa prova, dor de uma ressaca, dor de estar doente ou até a dor de saudade. Não conseguir dedicar um pouco de atenção, nem de meia hora que seja, para essas dores só mostra que a maior dor é a de aguentar uma junção entre duas em que apenas uma se esforça. Em que apenas um dos dois sente algo pelo outro.

 

O fato é que muitos desses casais não são amigos. E não digo melhores amigos, mas amigos o suficiente para serem sinceros um com o outro, para discutir pacificamente, para encarar os problemas como duas pessoas que se gostam, e não apenas que estão juntas por conveniência. Talvez isso aconteça porque é mais fácil: é muito fácil dizer “eu te amo” no início da relação e alguns dias depois já estar dando em cima daquela pessoa que estuda com a gente na universidade, aquela do trabalho, aquela que sempre aparece no elevador e por aí vai. É muito fácil dizer e não sentir; mas os amigos sentem, os amigos se preocupam um com o outro de verdade, e por isso quando há um pingo de amizade, de parceria mesmo, não há nem metade dos problemas que normalmente existem.

 

Não vale a pena chorar por quem não choraria conosco. Nem mesmo por alguém que não se esforçaria para limpar nossos olhos e dizer “não chora, eu tô aqui contigo”. As paixões vão facilmente embora, pois elas vêm rápidas e sem aviso algum. Um olhar define uma paixão. E um desvio de olhar mostra o fim dela. Às vezes é duro admitir, mas é necessário. É preciso entender que a paixão acabou, pois alguém amava, e o outro apenas era o que era amado. Que alguém carregava o peso de amar, enquanto o outro era apenas carregado.

 

Se não há nada além do físico numa relação, então não existe relação de fato. Existe uma troca de carências e de tristezas. E muitas vezes é melhor sair triste de uma paixão do que viver infeliz em um falso amor.

 

Abraços.

 

Escrito junto de Bruna Macêdo.