Uma música com teu nome

Teve um dia em que escrevi uma música. De primeira não era nada de mais. Uns acordes bem colocados, um ou outro meio incomum, uma melodia bonitinha e um final previsível, mas ainda assim bonito. Mas então olhei melhor para ela, e por um instante parecia perfeita. Parecia algo que eu jamais conseguiria compor; algo que estava muito além de mim. Porém, lá estava, na minha frente.

 

Então olhei mais atentamente. Vi que a melodia parecia conversar comigo. Parecia que havia alguém ali dentro, declamando um poema só pra mim. Nem soava mais, na minha mente, como uma música mesmo; estava mais para um poeta preso entre uma dor que só ele sentia, mas que queria, de qualquer forma, me dizer o que se passava dentro do seu peito. E ele falava por meio de cada nota ali, indo das mais curtas, durando apenas frações de tempo, às mais longas, preenchendo quase um compasso inteiro.

 

Percebi, também, que a música tinha alguns momentos diferentes. No meio, quase que sem muito preparo, ela mudava de tom. Não de tonalidade, mas de aspecto mesmo; como se ali se tornasse outra música. Como se a antiga fosse embora e uma nova nascesse. Soava mais sombria, mais tensa, com notas mais conflitantes, caminhos em que a melodia não parecia ir a lugar nenhum, apenas repetindo o mesmo tema, a mesma frase, sem se decidir aonde repousar.

 

Mas aí notei o razão disso. Reparei que tudo aquilo caminhava, sim, para uma resolução. Era como se tudo tivesse um motivo, o porquê verdadeiro daquilo. Parecia que as sombras que os acordes dissonantes e notas estranhas culminaram num final harmonioso. Um final que eu não esperava, mas que, de alguma forma, pareceu fazer sentido pra mim, mesmo que, talvez, não fizesse para todos que a escutassem.

 

No fim, fui tocá-la. Mas mesmo reproduzindo no violão o que estava escrito na partitura, não fui eu quem tocou a música. Ela que estava me tocando o tempo todo, nas suas pausas, nos contratempos, nas notas prolongas e, acima de tudo, no momento em que eu a escrevia. Não fazia sentido pra mim. Não havia planejado aquilo. Não era pra sair tão bom, pois eu nem sequer queria isso. Parecia que qualquer elemento a mais deixaria aquela música mais perfeita. Mesmo se eu errasse, ela ainda seria maravilhosa. E até uma nota desafinada ficaria bem na sua harmonia.

 

Então vi que a música tinha o teu nome. E assim tudo que parecia inexplicável fez sentido.

 

Abraços.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s