Mês: junho 2016

XV Crônica: A faxineira da escola.

Inês estava no horário de almoço quando saiu para dar uma volta. A senhora estava já há dias com dores nas costas, resultado do esforço para limpar a sujeira que as crianças deixavam na escola onde trabalhava. Não reclamava das dores para ninguém, porque “ninguém quer saber”, como dizia. Apesar desse pensamento, nunca deixava de sorrir. Pelo menos, perto dos outros. Sozinha, era bem mais realista consigo mesma.

 

 

Convidaram-na para almoçar, mas preferiu uma pequena caminhada pelos arredores. Há tempos perdeu o hábito de comer no horário certo, então pulava o almoço em algumas horas. Parou em uma pracinha ali perto e sentou-se em um banco. Tirou do seu bolso direito um maço de cigarros quase no fim. Acendeu um e guardou o resto. Então, retirou do outro bolso um pequeno envelope.

 

 

Dentro havia uma foto três por quatro, já bem amarelada, e um bilhete. Ambos remetiam ao seu filho, falecido há alguns anos. Quando perguntavam à dona Inês se ela morava com sua família, ela sempre respondia que “não, não tenho mais família”. Na verdade, ela tinha sim; mas o único que ela realmente amava era seu filho. Moraram juntos por quase vinte e três anos, um ano antes dele ser assassinado no pé do morro onde moravam. Ele foi confundido com um traficante procurado. “Eram muito parecidos”, diziam os policiais. De fato, eram: pretos de cabelo raspado.

 

 

Mesmo que não se sensibilizasse com mais tanta coisa, dona Inês sempre chorava um pouco ao ver a foto. Depois guardou e continuou com seu cigarro. Algumas pessoas passavam por ela, quase sempre a olhando com reprovação. A maioria com pressa, sem tempo para sentar-se e descansar, mesmo na hora do almoço. Mas todos tinham alguns segundos para criticar a senhorinha. Ela já não se importava. Não se importava com muita coisa.

 

 

Ficava olhando as poucas crianças dali correndo de um lado para o outro, sendo perseguidas pelas babás. Depois observava os carros passando depressa, menos quando paravam num engarrafamento. Havia também as várias pessoas correndo sempre, com salgados e refrescos em mãos, dizendo que era seu almoço. Tantos mendigos também, a maioria moças novas com crianças. Estrangeiros em grupos sendo guiados por um profissional de turismo, mostrando partes belas do Centro, para que pensassem que o Rio era todo bonito.

 

 

Enquanto observava tudo isso, seu olhar se mantinha parado. Sem expressão, sem fascinação. Via aquilo quase todos os dias, a mesma coisa. Perdeu, com o tempo, a necessidade de se importar com as coisas. “Ninguém se importa comigo mesmo” ela pensava sempre. Porém, nunca era grossa ou coisa do gênero, e tratava muito bem as crianças da escola, sendo que algumas lhe chamavam de “tia Inês”. Mas, assim como todo o resto, era uma rotina que não mais lhe agradava.

 

 

Viu um senhor se sentando mais à frente, do outro lado da pequena praça. Lembrava bastante seu irmão, o único homem (fora o filho) que amou, como ela costumava dizer. Foi quem ajudou nos primeiros anos com o filho. O pai, que nem Inês lembra direito quem era, foi embora assim que soube que seria pai. Seu filho chamava o tio de “pai” às vezes, e não havia problema nisso. Porém, o tal “pai” não esteve ali para sempre. Um câncer descoberto muito tempo depois do ideal, e a falta de dinheiro para um bom tratamento o levaram embora. Ficou em paz, mas tirou uma parte da paz de Inês.

 

 

O cigarro acabou. Ela acendeu outro logo em seguida.

 

 

Já tinha acabado a hora do almoço, então ela voltou. Ficou pensando no que sempre pensava, e tudo se remetia à sua solidão diária. Era algo que já havia se acostumado, mas que nunca se tornava, de fato, fácil. Enxugou uma lágrima e entrou na escola.

 

 

Porém, ao abrir a porta da sala dos funcionários, tomou um susto. Todos os seus parceiros de trabalho, assim como alguns professores e poucos alunos estavam ali, ao redor de um bolo simples, em cima de uma mesinha. Era pelo aniversário dela que foi dois dias antes, num sábado, mas que não houve festa.

 

 

Inês nem tentou enxugar o choro. Não queria, na verdade. Fazia um tempo em que não se sentia assim. Desse jeito estranho que nem lembrava como era. Desse jeito meio viva.

No fim, o que sobra são os bons amigos

“Nos tempos difíceis, o que sobra são os velhos amigos.”. James Joyce escreveu isso no primeiro conto do seu livro “Dublinenses”. É uma frase bonita, tanto pela escolha das palavras mais simples quanto pelo significado tão grande presente nela. E é algo que faz muito sentido mesmo, principalmente quando estamos nesses “tempos difíceis”, que podem ser diversas situações diferentes: não ser aceito no estágio, a mulher recusar o pedido de casamento, a pizza que se pediu veio errada, a breve saída de pessoas das nossas vidas, a saída de fato de alguém da nossa vida, entre outras situações.

 

 

Mas eu trocaria o “velhos” da frase por outra palavra. Talvez por “bons”, como fiz no título, mesmo que seja uma palavra comum e pouco usada com o devido sentido. Acontece que o tempo nem sempre é um bom parâmetro. Nem sempre as pessoas com idade mais avançada são mais sábias (inteligência não é sabedoria); nem sempre as músicas mais antigas são melhores. Nem sempre o tempo cura todas as dores. O tempo nem sempre é o que sempre dizemos que é.

 

 

O que eu quero dizer é que os amigos não têm idade. Tenho sorte de poder guardar comigo pessoas que conheço há dezenove dos meus quase vinte anos de vida. Quando não, ainda grandes amigos que vêm comigo desde os tempos de fralda suja até hoje, e completam quinze anos de estrada juntos. Entretanto, há alguns desses mais velhos que são amigos, apenas. Não necessariamente “bons amigos”. Enquanto que, talvez, algumas das pessoas mais importantes da minha vida eu conheci há apenas quatro anos, o que seria pouco tempo, nesse sentido.

 

 

É que as amizades são muito fáceis de nascerem. Nascem em qualquer lugar, até na internet, às vezes. Mas elas também morrem sem dificuldade se não houver a vontade de fazê-las ficarem. E isso é normal, sim. Provavelmente muitas amizades morrerão assim que se terminar a escola. Outras desaparecerão quando nos casarmos. Algumas deixarão de existir se formos embora da nossa cidade. São coisas da vida. Por outro lado, há até casos mais raros, acho, em que tudo pode acontecer: distância, separação física, brigas, pequenos e grandes traumas, e até escolhas de vida completamente diferentes e tudo mais, e ainda assim a amizade cresce sempre mais e mais.

 

 

Amizades assim são como amores que nunca morrem (Quintana já dizia). E por mais que nem sempre pensemos nisso, amizade é amor. Sim, mesmo entre dois homens héteros pode haver amor. Quem diria, não? É amor, pois a gente não sente a capacidade de fazer mal aos verdadeiros amigos. Não que não haja brigas (já apanhei muito de um grande amigo há uns anos), mas parece que elas sempre serão apenas lembranças, porque, no fundo, são só isso mesmo. Os problemas parecem ir embora quando estamos perto de quem amamos, ou pelo menos conseguimos suportar melhor a dor.

 

 

Afinal, quantas vezes tu já disseste a algum amigo que tu amas ele?

 

 

Já falei isso algumas vezes por aqui, mas tenho muitas fotos ao redor do meu atual quarto. Todas de amigos. Considero minha família um grupo de amigos também. Algumas dessas fotos olho todos os dias, me lembrando das vozes e manias, além da saudade que eu sinto dessas pessoas que estão nas fotografias. Mas há algumas pessoas nessas fotos que eu já nem sinto mais a presença. As coisas foram acontecendo de tal forma que nos esquecemos. Não completamente, mas o suficiente para ser algo meio triste. Tornaram-se lembranças boas, momentos felizes que os sorrisos deles representam. São pedaços do que eu um dia já fui, e não exatamente do que eu sou hoje.

 

 

E não adianta ter internet ou o que for pra facilitar o contato. Temos mais de mil amigos nas redes sociais, sendo que nem um quinto sabe o nosso sobrenome que não aparece no perfil. A gente só fala com quem quer. A internet é como um atalho, e que nos faz segui-lo é a vontade de ouvir a voz (ou ler mensagens) da pessoa que está do outro lado. Nem sempre essa vontade existe mesmo. Às vezes existe, sim, e aparece, mas passa rápido. Outras vezes a vontade continua mesmo depois que nos despedimos de alguém, mesmo tendo passado horas com aquela pessoa. Nesse caso, é alguém que ainda faz parte de nós.

 

 

Os amigos são como músicas. Grande parte das que vamos escutar na vida são meio ruins, tipo essas mais comerciais, que servem para dançar e passar o tempo, mas que muitas vezes nem o nome do compositor ou intérprete sabemos. Músicas que duram dois meses, um verão, alguns dias, coisas assim. Músicas que enjoam, e que depois de enjoar dizemos que é “música velha”. Mas sempre tem aquela música que deixamos de ouvir por muito tempo, guardada ali nos arquivos do computador, e que quando a escutamos de novo a sensação é de que ela estava tocando desde sempre, sem parar. Essas são as “clássicas”, que nunca ficam velhas de fato.

 

 

Algumas pessoas duram menos do que essas músicas de temporada; outras duram tanto quanto uma dessas músicas que amamos sendo repetida várias e várias vezes.

Às vezes é preciso aceitar

Pode parecer simples, mas não é. Pode parecer fácil, mas realmente não é. Nem sempre. Nem sempre é tão simples aceitar alguma coisa, seja boa ou ruim, porque a gente não está, na maioria das vezes, pronto pra isso. Pensamos estar, mas no fundo jamais estaremos totalmente preparados para o que não sabemos que pode acontecer. As surpresas sempre nos surpreendem. E isso é verdade, por mais estranha que essa frase possa parecer.

 

 

Um casal nunca está preparado para ter um filho, por exemplo. Eles podem ler sobre o assunto, ouvir conselhos dos seus pais, observar os costumes de outros pais da mesma idade mais ou menos, até mesmo rezar para mais de um orixá. No fundo, nada disso adianta tanto. Não adianta, pois ninguém sabe o que vai acontecer antes que aquilo aconteça. Mesmo o mais seguro choraria fácil ao ver um filho nos braços, todo enrugado, com “cara de joelho” e chorando, sentindo a vida pela primeira vez.

 

 

Esse despreparo é natural, mas ainda continuamos a nos culpar por isso. É comum se sentir envergonhado por não ter conseguido atingir algum objetivo que outra pessoa conseguiu, mesmo que ambos tivessem chances muito parecidas. Situações banais como uma nota ruim em uma prova, não ser escolhido pelo time de futebol na pelada, não ter o corpo de modelo que uma outra amiga tem, até coisas mais sérias, tipo uma promoção no trabalho que não veio, uma pessoa que se foi ou um amor que não foi correspondido fazem parte. Tudo isso faz parte.

 

 

Não estamos preparados para nada. Por esse motivo é tão fácil de cair e tão complicado de se levantar.

 

 

O que falta, talvez, é a certeza disso. De que é preciso aceitar o fato de que nem sempre se é tão durão pra tudo. E que muitas vezes nada do que possamos fazer vai mudar determinada situação. Não se pode viver em um momento, por mais bonito que ele seja (nascimento de um filho), ou por maior que seja a dor que ele cause (a morte de alguém importante). Não se deve parar no tempo, porque o tempo não para pela gente. Por mais que possamos estar dispostos a esperar por algo, esse “algo” nem sempre vai aparecer. Aceitar isso é necessário.

 

 

É preciso aceitar que nem sempre iremos vencer. Que nem sempre chegaremos a tempo. Que nem todas as vezes teremos ao nosso lado alguém em quem confiar. Que nem sempre um projeto no trabalho será aprovado. Que nem sempre nosso cachorro vai vir nos buscar na porta de casa. Que nem sempre se acerta o curso que foi escolhido quando acabou a escola. Nem sempre os mesmos amigos duram tanto depois que acaba a escola. Que uma hora a festa acaba, e ninguém vai nos dar carona pra casa. Que nem todos os dias serão ensolarados. Que nem sempre um amor dura tanto quanto se espera. Que não são em todos os momentos que as pessoas queridas estarão por perto. Que, às vezes, por pior que isso possa soar, estaremos sozinhos, apenas com nós mesmos.

 

 

E, novamente, não há vergonha ou algo de errado em passar por tudo isso. Ruim é insistir quando é melhor parar. É como um livro que estamos lendo, mas odiando mais a cada página. Toma nosso tempo enquanto poderíamos estar acompanhando outra história. É preciso largar a obra, mesmo que pela metade, e buscar alguma outra para mergulhar. Alguns desses livros têm capas ótimas, mas enredos tristes e ruins demais. Esses são, às vezes, os mais difíceis de colocar de volta na prateleira. Mas são feitos, no fim, apenas para isso mesmo. E aceitar esse fato é difícil. Mas, no fim, apesar dos apesares, é sempre melhor.

 

 

Abraços.

XIV Crônica: Várias saudades

Bárbara assistia a uma aula da disciplina de “Penal” em sua universidade. Não gostava nada do assunto, mas isso é normal em qualquer curso, pensava sempre. Sentava-se no meio, quase no fim da sala. Era seu terceiro semestre e ainda não sabia se era isso que queria fazer pelo resto da vida. Ficava olhando pela janela, vendo uma parte da praça ali ao lado, que ficava de frente para uma lanchonete. Seu campus era feio e isolado do resto da Universidade, e odiava isso. Sentia-se muito só por isso. Então seu celular vibrou. Era uma mensagem.

 

Raul estava no final do aquecimento para seu treino de boxe. Os braços já estavam bem suados e prontos para mais. O treinador mandou que corressem um pouco ao redor do tatame. Após algumas voltas, deviam colocar as luvas. Josué percebeu que esquecera as suas no seu armário. Pediu desculpas e correi para buscar. Ao abrir com a chave a porta de metal, deixou cair algo. Abaixou-se e apanhou com a mão. Era uma foto.

 

Umberto limpava as mãos depois de subir alguns metros de pedras em uma trilha. Respirava compassadamente para buscar mais fôlego. Ainda faltava alguns metros acima para chegar ao topo. Adorava fazer aquela trilha. Fizera já inúmeras vezes, sempre acompanhado de alguns amigos. Já há algum tempo, porém, se acostumou a fazê-la sozinho. Já com a energia de volta, e com a agilidade que o corpo de atleta tinha, subiu rapidamente, mas de forma segura. Chegou ao topo e se sentou. Ouviu um som estranho, mas bonito. Era um pássaro.

 

Nícolas se preparava para entrar no palco e iniciar seu recital. Afinara pelo menos duas vezes seu violoncelo, além de alongar os dedos. Cantava a melodia da primeira peça em sua mente para fixar. Estava acostumado a tocar em público há um tempo, mas sempre sentia certa angústia. Coisa leve, pensava. Enfim caminhou até o meio do palco e recebeu aplausos. Agradeceu formalmente, sentou-se e se concentrou. Antes, porém, viu alguém na plateia, bem nas primeiras fileiras. Era uma mulher.

 

Amanda estava na fila do supermercado, esperando pacientemente sua vez. Comprava poucas coisas, o suficiente para ela. Ouvia música de um lado do fone de ouvido, pois o outro estava pendurado sobre o ombro. Via muitas pessoas se movimentando, pegando carrinhos, chamando filhos, que corriam de um lado para o outro, funcionários limpando o chão e outras coisas normais. Os olhos cansados da moça viram, ao fundo, uma pessoa carregando alguns pacotes de leite e indo sozinha, bem devagar, para o caixa. Era uma senhorinha.

 

Bárbara então viu que era de sua ex. Haviam terminado há pouco, quando ela se mudou do Rio para o interior de São Paulo. Sentiu o peito apertar com força.

 

Raul viu que era uma foto sua com um velho amigo de treino. Fora alvo de bala perdida no morro onde morava. Levava para casa uma quentinha para sua esposa. Havia raiva em Raul, mas também outra coisa. Mais forte.

 

Umberto reparou que o pássaro tinha cor azul. Lembrou-se de imediato do famoso poema de Bukowski. Mas antes pensou na pessoa que lhe mostrara o texto. Uma velha amiga, que gostava de escalar com ele. A vida os separou. Ela foi transferida para outro país. Ele ficou.

 

Nícolas viu que os olhos da mulher eram da mesma cor exata de um antigo amor em tempos de faculdade. Ela era melhor do que ele em tudo, como artista e como pessoa. Ele a amava como nunca amou antes. O câncer a levou.

 

Amanda lembrou-se de sua avó, quem lhe criou de fato. Seus pais nunca foram presentes, e até hoje não se gostam. A velha mulher, que perdera o marido durante a Ditadura, lhe mostrou que a vida pode ser menos dura se nós formos mais abertos ao amor. O tempo a levou para um lugar melhor, meses atrás.

 

A estudante saiu da sala para chorar no banheiro. O lutador ficou sozinho por mais tempo no vestiário, com a cabeça abaixada. O atleta recitava o poema em sua mente, com os olhos pesados. O músico começou a tocar, mais melancolicamente do que nunca. A moça chorou, observando aquela senhora indo embora. A fila andou mais devagar.

Por quem você é assim?

Por quem você troca de roupa várias vezes antes de sair? Testa todas, mas nenhuma parece que vai agradar. Veste uma cor mais escura, mas pensa se talvez a mais clara não seria melhor; mas será que iria combinar? Será que ele vai notar? E quem é que te faz comprar maquiagem e perfumes mais caros para se embelezar toda? Quem te dá paciência de ficar todo esse tempo em frente ao espelho pra acertar uma sombra, um lápis ou o tamanho dos cílios?

 

Por quem você acorda mais cedo, pra ver se dormiu direito? E espera responder às mensagens mais antigas, mesmo sabendo que ela pode não ter se lembrado? Por quem o silêncio seria uma opção melhor, desde que estivesse junto dela? Com quem é que você estaria, mesmo sem dizer nada, sem fazer nada, só pelo prazer da sua companhia? É aquela por quem você trocaria uma saída pra farra ou esbórnia pra aguentar uma ressaca apenas de saudade?

 

Por quem você muda de hábitos e de velhos costumes? Quem te faz perder o orgulho de ter razão, só para que ele não fique chateado? Quem te faz achar que você precisa perder peso? Por quem você suporta as dores de um parto pra ter o sorriso no seu rosto? Quem é que chega atrasado, mas te deixa sem palavras só com aquele jeito desajeitado? Que tiras teus argumentos e opiniões, e te faz querer só escutar aquela voz mais rouca e grave?

 

Por quem você discute com amigos sobre machismo e outros assuntos? Quem te faz querer ser alguém melhor, “tomar jeito” ou até só ser mais educado? Quem te faz perder aquele futebol de domingo ou aquela estreia de filme na sexta? É quem te faz parecer bobo na frente dos amigos, além de deixar sem palavras quando eles comentam sobre isso? Quem te faz pagar aquela academia que você tanto odeia só para parecer menos feio?

 

Por quem você sonha acordada? Quem te faz usar o melhor batom pra não ser notada? Quem é que te faz aturar uma sogra chata? Ou piadas de mau gosto sobre outras mal amadas? Por quem você toma cachaça pra se esquecer da briga da noite passada?

 

Por quem você compra uma blusa social nova? Quem te faz cortar o cabelo a cada mês? Quem te faz querer não ir pra uma festa e pegar todas que vierem à frente? Quem te faz acreditar que paixão é algo bobo, e que você é um bobo por estar assim?

 

Por quem você se esquece dos compromissos para lembrar dele? Quem te faz reparar mais num vestido? Quem você pensa sempre que ouve certa música? Quem você gostaria de escrever uma carta boba? Por quem você finge acreditar em signos? Por quem você finge que gosta de beber? Por quem você sente saudade mesmo sem saber? Quem é que te faz acreditar numa verdade que, na verdade, não é?

 

Por quem você faz tudo isso? E o mais importante: vale mesmo a pena?

 

Abraços.