XIV Crônica: Várias saudades

Bárbara assistia a uma aula da disciplina de “Penal” em sua universidade. Não gostava nada do assunto, mas isso é normal em qualquer curso, pensava sempre. Sentava-se no meio, quase no fim da sala. Era seu terceiro semestre e ainda não sabia se era isso que queria fazer pelo resto da vida. Ficava olhando pela janela, vendo uma parte da praça ali ao lado, que ficava de frente para uma lanchonete. Seu campus era feio e isolado do resto da Universidade, e odiava isso. Sentia-se muito só por isso. Então seu celular vibrou. Era uma mensagem.

 

Raul estava no final do aquecimento para seu treino de boxe. Os braços já estavam bem suados e prontos para mais. O treinador mandou que corressem um pouco ao redor do tatame. Após algumas voltas, deviam colocar as luvas. Josué percebeu que esquecera as suas no seu armário. Pediu desculpas e correi para buscar. Ao abrir com a chave a porta de metal, deixou cair algo. Abaixou-se e apanhou com a mão. Era uma foto.

 

Umberto limpava as mãos depois de subir alguns metros de pedras em uma trilha. Respirava compassadamente para buscar mais fôlego. Ainda faltava alguns metros acima para chegar ao topo. Adorava fazer aquela trilha. Fizera já inúmeras vezes, sempre acompanhado de alguns amigos. Já há algum tempo, porém, se acostumou a fazê-la sozinho. Já com a energia de volta, e com a agilidade que o corpo de atleta tinha, subiu rapidamente, mas de forma segura. Chegou ao topo e se sentou. Ouviu um som estranho, mas bonito. Era um pássaro.

 

Nícolas se preparava para entrar no palco e iniciar seu recital. Afinara pelo menos duas vezes seu violoncelo, além de alongar os dedos. Cantava a melodia da primeira peça em sua mente para fixar. Estava acostumado a tocar em público há um tempo, mas sempre sentia certa angústia. Coisa leve, pensava. Enfim caminhou até o meio do palco e recebeu aplausos. Agradeceu formalmente, sentou-se e se concentrou. Antes, porém, viu alguém na plateia, bem nas primeiras fileiras. Era uma mulher.

 

Amanda estava na fila do supermercado, esperando pacientemente sua vez. Comprava poucas coisas, o suficiente para ela. Ouvia música de um lado do fone de ouvido, pois o outro estava pendurado sobre o ombro. Via muitas pessoas se movimentando, pegando carrinhos, chamando filhos, que corriam de um lado para o outro, funcionários limpando o chão e outras coisas normais. Os olhos cansados da moça viram, ao fundo, uma pessoa carregando alguns pacotes de leite e indo sozinha, bem devagar, para o caixa. Era uma senhorinha.

 

Bárbara então viu que era de sua ex. Haviam terminado há pouco, quando ela se mudou do Rio para o interior de São Paulo. Sentiu o peito apertar com força.

 

Raul viu que era uma foto sua com um velho amigo de treino. Fora alvo de bala perdida no morro onde morava. Levava para casa uma quentinha para sua esposa. Havia raiva em Raul, mas também outra coisa. Mais forte.

 

Umberto reparou que o pássaro tinha cor azul. Lembrou-se de imediato do famoso poema de Bukowski. Mas antes pensou na pessoa que lhe mostrara o texto. Uma velha amiga, que gostava de escalar com ele. A vida os separou. Ela foi transferida para outro país. Ele ficou.

 

Nícolas viu que os olhos da mulher eram da mesma cor exata de um antigo amor em tempos de faculdade. Ela era melhor do que ele em tudo, como artista e como pessoa. Ele a amava como nunca amou antes. O câncer a levou.

 

Amanda lembrou-se de sua avó, quem lhe criou de fato. Seus pais nunca foram presentes, e até hoje não se gostam. A velha mulher, que perdera o marido durante a Ditadura, lhe mostrou que a vida pode ser menos dura se nós formos mais abertos ao amor. O tempo a levou para um lugar melhor, meses atrás.

 

A estudante saiu da sala para chorar no banheiro. O lutador ficou sozinho por mais tempo no vestiário, com a cabeça abaixada. O atleta recitava o poema em sua mente, com os olhos pesados. O músico começou a tocar, mais melancolicamente do que nunca. A moça chorou, observando aquela senhora indo embora. A fila andou mais devagar.

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