No fim, o que sobra são os bons amigos

“Nos tempos difíceis, o que sobra são os velhos amigos.”. James Joyce escreveu isso no primeiro conto do seu livro “Dublinenses”. É uma frase bonita, tanto pela escolha das palavras mais simples quanto pelo significado tão grande presente nela. E é algo que faz muito sentido mesmo, principalmente quando estamos nesses “tempos difíceis”, que podem ser diversas situações diferentes: não ser aceito no estágio, a mulher recusar o pedido de casamento, a pizza que se pediu veio errada, a breve saída de pessoas das nossas vidas, a saída de fato de alguém da nossa vida, entre outras situações.

 

 

Mas eu trocaria o “velhos” da frase por outra palavra. Talvez por “bons”, como fiz no título, mesmo que seja uma palavra comum e pouco usada com o devido sentido. Acontece que o tempo nem sempre é um bom parâmetro. Nem sempre as pessoas com idade mais avançada são mais sábias (inteligência não é sabedoria); nem sempre as músicas mais antigas são melhores. Nem sempre o tempo cura todas as dores. O tempo nem sempre é o que sempre dizemos que é.

 

 

O que eu quero dizer é que os amigos não têm idade. Tenho sorte de poder guardar comigo pessoas que conheço há dezenove dos meus quase vinte anos de vida. Quando não, ainda grandes amigos que vêm comigo desde os tempos de fralda suja até hoje, e completam quinze anos de estrada juntos. Entretanto, há alguns desses mais velhos que são amigos, apenas. Não necessariamente “bons amigos”. Enquanto que, talvez, algumas das pessoas mais importantes da minha vida eu conheci há apenas quatro anos, o que seria pouco tempo, nesse sentido.

 

 

É que as amizades são muito fáceis de nascerem. Nascem em qualquer lugar, até na internet, às vezes. Mas elas também morrem sem dificuldade se não houver a vontade de fazê-las ficarem. E isso é normal, sim. Provavelmente muitas amizades morrerão assim que se terminar a escola. Outras desaparecerão quando nos casarmos. Algumas deixarão de existir se formos embora da nossa cidade. São coisas da vida. Por outro lado, há até casos mais raros, acho, em que tudo pode acontecer: distância, separação física, brigas, pequenos e grandes traumas, e até escolhas de vida completamente diferentes e tudo mais, e ainda assim a amizade cresce sempre mais e mais.

 

 

Amizades assim são como amores que nunca morrem (Quintana já dizia). E por mais que nem sempre pensemos nisso, amizade é amor. Sim, mesmo entre dois homens héteros pode haver amor. Quem diria, não? É amor, pois a gente não sente a capacidade de fazer mal aos verdadeiros amigos. Não que não haja brigas (já apanhei muito de um grande amigo há uns anos), mas parece que elas sempre serão apenas lembranças, porque, no fundo, são só isso mesmo. Os problemas parecem ir embora quando estamos perto de quem amamos, ou pelo menos conseguimos suportar melhor a dor.

 

 

Afinal, quantas vezes tu já disseste a algum amigo que tu amas ele?

 

 

Já falei isso algumas vezes por aqui, mas tenho muitas fotos ao redor do meu atual quarto. Todas de amigos. Considero minha família um grupo de amigos também. Algumas dessas fotos olho todos os dias, me lembrando das vozes e manias, além da saudade que eu sinto dessas pessoas que estão nas fotografias. Mas há algumas pessoas nessas fotos que eu já nem sinto mais a presença. As coisas foram acontecendo de tal forma que nos esquecemos. Não completamente, mas o suficiente para ser algo meio triste. Tornaram-se lembranças boas, momentos felizes que os sorrisos deles representam. São pedaços do que eu um dia já fui, e não exatamente do que eu sou hoje.

 

 

E não adianta ter internet ou o que for pra facilitar o contato. Temos mais de mil amigos nas redes sociais, sendo que nem um quinto sabe o nosso sobrenome que não aparece no perfil. A gente só fala com quem quer. A internet é como um atalho, e que nos faz segui-lo é a vontade de ouvir a voz (ou ler mensagens) da pessoa que está do outro lado. Nem sempre essa vontade existe mesmo. Às vezes existe, sim, e aparece, mas passa rápido. Outras vezes a vontade continua mesmo depois que nos despedimos de alguém, mesmo tendo passado horas com aquela pessoa. Nesse caso, é alguém que ainda faz parte de nós.

 

 

Os amigos são como músicas. Grande parte das que vamos escutar na vida são meio ruins, tipo essas mais comerciais, que servem para dançar e passar o tempo, mas que muitas vezes nem o nome do compositor ou intérprete sabemos. Músicas que duram dois meses, um verão, alguns dias, coisas assim. Músicas que enjoam, e que depois de enjoar dizemos que é “música velha”. Mas sempre tem aquela música que deixamos de ouvir por muito tempo, guardada ali nos arquivos do computador, e que quando a escutamos de novo a sensação é de que ela estava tocando desde sempre, sem parar. Essas são as “clássicas”, que nunca ficam velhas de fato.

 

 

Algumas pessoas duram menos do que essas músicas de temporada; outras duram tanto quanto uma dessas músicas que amamos sendo repetida várias e várias vezes.

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