XV Crônica: A faxineira da escola.

Inês estava no horário de almoço quando saiu para dar uma volta. A senhora estava já há dias com dores nas costas, resultado do esforço para limpar a sujeira que as crianças deixavam na escola onde trabalhava. Não reclamava das dores para ninguém, porque “ninguém quer saber”, como dizia. Apesar desse pensamento, nunca deixava de sorrir. Pelo menos, perto dos outros. Sozinha, era bem mais realista consigo mesma.

 

 

Convidaram-na para almoçar, mas preferiu uma pequena caminhada pelos arredores. Há tempos perdeu o hábito de comer no horário certo, então pulava o almoço em algumas horas. Parou em uma pracinha ali perto e sentou-se em um banco. Tirou do seu bolso direito um maço de cigarros quase no fim. Acendeu um e guardou o resto. Então, retirou do outro bolso um pequeno envelope.

 

 

Dentro havia uma foto três por quatro, já bem amarelada, e um bilhete. Ambos remetiam ao seu filho, falecido há alguns anos. Quando perguntavam à dona Inês se ela morava com sua família, ela sempre respondia que “não, não tenho mais família”. Na verdade, ela tinha sim; mas o único que ela realmente amava era seu filho. Moraram juntos por quase vinte e três anos, um ano antes dele ser assassinado no pé do morro onde moravam. Ele foi confundido com um traficante procurado. “Eram muito parecidos”, diziam os policiais. De fato, eram: pretos de cabelo raspado.

 

 

Mesmo que não se sensibilizasse com mais tanta coisa, dona Inês sempre chorava um pouco ao ver a foto. Depois guardou e continuou com seu cigarro. Algumas pessoas passavam por ela, quase sempre a olhando com reprovação. A maioria com pressa, sem tempo para sentar-se e descansar, mesmo na hora do almoço. Mas todos tinham alguns segundos para criticar a senhorinha. Ela já não se importava. Não se importava com muita coisa.

 

 

Ficava olhando as poucas crianças dali correndo de um lado para o outro, sendo perseguidas pelas babás. Depois observava os carros passando depressa, menos quando paravam num engarrafamento. Havia também as várias pessoas correndo sempre, com salgados e refrescos em mãos, dizendo que era seu almoço. Tantos mendigos também, a maioria moças novas com crianças. Estrangeiros em grupos sendo guiados por um profissional de turismo, mostrando partes belas do Centro, para que pensassem que o Rio era todo bonito.

 

 

Enquanto observava tudo isso, seu olhar se mantinha parado. Sem expressão, sem fascinação. Via aquilo quase todos os dias, a mesma coisa. Perdeu, com o tempo, a necessidade de se importar com as coisas. “Ninguém se importa comigo mesmo” ela pensava sempre. Porém, nunca era grossa ou coisa do gênero, e tratava muito bem as crianças da escola, sendo que algumas lhe chamavam de “tia Inês”. Mas, assim como todo o resto, era uma rotina que não mais lhe agradava.

 

 

Viu um senhor se sentando mais à frente, do outro lado da pequena praça. Lembrava bastante seu irmão, o único homem (fora o filho) que amou, como ela costumava dizer. Foi quem ajudou nos primeiros anos com o filho. O pai, que nem Inês lembra direito quem era, foi embora assim que soube que seria pai. Seu filho chamava o tio de “pai” às vezes, e não havia problema nisso. Porém, o tal “pai” não esteve ali para sempre. Um câncer descoberto muito tempo depois do ideal, e a falta de dinheiro para um bom tratamento o levaram embora. Ficou em paz, mas tirou uma parte da paz de Inês.

 

 

O cigarro acabou. Ela acendeu outro logo em seguida.

 

 

Já tinha acabado a hora do almoço, então ela voltou. Ficou pensando no que sempre pensava, e tudo se remetia à sua solidão diária. Era algo que já havia se acostumado, mas que nunca se tornava, de fato, fácil. Enxugou uma lágrima e entrou na escola.

 

 

Porém, ao abrir a porta da sala dos funcionários, tomou um susto. Todos os seus parceiros de trabalho, assim como alguns professores e poucos alunos estavam ali, ao redor de um bolo simples, em cima de uma mesinha. Era pelo aniversário dela que foi dois dias antes, num sábado, mas que não houve festa.

 

 

Inês nem tentou enxugar o choro. Não queria, na verdade. Fazia um tempo em que não se sentia assim. Desse jeito estranho que nem lembrava como era. Desse jeito meio viva.

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