Mês: julho 2016

Fábula I: A viagem

Há muito tempo, quando tudo ainda era mais jovem, um rapaz chamado Herik vivia com sua mãe, numa pequena vila próxima de um rio que nascia nas montanhas. Ao chegar até certa idade, o rapaz, sempre curioso, perguntou à sua mãe o que havia depois do vale. Ela, que nunca havia saído da pequena vila, respondeu que não sabia, e que nem podia imaginar. Insatisfeito com as palavras de sua criadora, Herik disse que queria ver depois das montanhas para poder dizer a ela tudo que existia ali.

 

Sua mãe, sorridente, disse-lhe que, se ele quisesse, poderia ir até o topo da montanha que, diziam os mais velhos, um dragão morava, solitário. Talvez ele pudesse lhe ajudar no seu desejo. Animado, mesmo que com um pouco de medo, Herik arrumou as suas poucas coisas e se despediu da mãe. Disse que voltava, mas não disse o dia. Então se despediu dos demais conhecidos e subiu a montanha.

 

Depois de dias subindo íngremes ladeiras e passagens perigosas, Herik chegou onde, diziam, vivia o tal dragão. E era verdade, pois o rapaz o encontrou. Era grande, bonito e um pouco tímido. Sua pele era toda azul, como o céu em tempos de verão. Herik lhe cumprimentou, e a criatura fez o mesmo. Conversaram por horas sem parar, criando um laço de confiança. O monstro disse que seu nome era Ásteth, e Herik disse o dele.

 

Finalmente, o jovem disse que queria ver o que havia além das montanhas. Ásteth ficou surpreso, e disse o que havia lá. Ainda assim, Herik tinha o desejo de ver com seus próprios olhos. Então, comovido pela vontade do rapaz, o dragão disse que ele mesmo iria lhe mostrar. Mandou que subisse em suas costas, largas e duras, mas seguras, e que se preparasse para partir. Ele o fez e depois viu Ásteth levantar-se e abrir as enormes asas para, enfim, levantar voo.

 

Então Herik olhou para baixo e viu tudo pequeno. Muito menor do que parecia quando estava lá embaixo. Era como se todos ali fossem formigas passeando pela grama. Sentia que era uma ave, e que não tinha peso. Sentia medo, mas ao mesmo tempo julgava seguro estar ali com seu novo amigo, que parecia sorrir agora. Planavam sobre o mundo, indo em direção das montanhas mais à frente.

 

Ao passarem do destino, Herik ficou maravilhado, pois havia muito mais coisas do que ele jamais imaginara. Ficou sem palavras, e percebeu que Ásteth estava emocionado, como se visse aquilo pela primeira vez em muito tempo. Perguntou-lhe onde terminava aquela terra. O dragão, feliz, respondeu-lhe com uma pergunta: “vamos descobrir?”. E o rapaz, sentindo o coração vivo, disse que sim. Então os dois voaram, mais rapidamente, sobre aquela outra terra desconhecida.

 

Por dias inteiros voaram, até que Ásteth precisou descansar. Pararam no topo de outra montanha, muito longe de onde iniciaram. Herik não sabia onde estava, mas para onde deveria ir. Para onde seus olhos conseguiam ver. Passaram um dia ali, dormindo e conversando, e saíram para o voo novamente.

 

Durante meses repetiram isso. Em alguns casos, desciam em uma cidade e ficavam por lá. Herik descobria coisas novas a cada parada, como se fossem os anos da sua vida sendo vividos do início. Descobriu novos lugares, novas pessoas e aventuras.

 

Em um lugar, porém, apaixonou-se. Era uma mulher diferente das que viviam na sua vila. Era mais bonita, mais alegre, mais sorridente. Ele amava o sorriso dela, como se só houvesse aquele ali em todo o mundo. Disse isso a Ásteth, que se alegrou pelo amigo. Disse que o amor é o maior dos sentimentos, e que, por isso, também é o mais perigoso. Herik, no entanto, não entendia como algo tão maravilhoso poderia ser perigoso.

 

Certo dia ele disse a ela que a amava, e que queria passar o resto da vida com ela. Ela dizia o mesmo. E eram muito felizes juntos. Porém, Herik precisava continuar sua viagem. Por isso a chamou para ir junto. A moça, porém, disse que não podia. Que sua vida era ali, e que abandonar tudo era errado. Ele não entendia, mas depois compreendeu. Ficou extremamente triste e desolado, mas precisou partir. Ambos se despediram, mesmo se amando. Herik partiu.

 

Tempos depois, Ásteth e Herik pararam em uma cidade bonita e grande entre montanhas de um vale longo. Ficaram por ali por quase um ano, que se lembram. Herik fizera grandiosos amigos, pessoas com as quais podia contar para qualquer coisa. Pessoas que nunca imaginou que iria conhecer. Entretanto, depois de um tempo, viu que precisava partir de novo. Disse isso a alguns amigos e pessoas que gostava muito, e perguntou se não queriam ir junto. Disseram-lhe que não, que não podiam. Que o lugar deles era ali. Alegaram que tinham suas famílias ali, trabalhos e vidas inteiras para viver ali ainda. Novamente, Herik entendeu e partiu triste.

 

Pela terceira vez pararam em um lugar. Agora em um povoado de pescadores e comerciantes navais. Novamente, Herik se apaixonou. Sentiu-se culpado, pois disse a outra pessoa que a amava. Ao indagar Ásteth sobre isso, o dragão respondeu: “o amor não contempla apenas uma pessoa. Às vezes algumas amamos muito, mas não podemos tê-las. Então, depois de um tempo, descobrimos amar outra que, talvez, possamos ter.”.

 

Ainda incrédulo, o rapaz pedia perdão à sua amada em suas orações. Mas no fim o amor existia mesmo, e ele não pôde evitar. E ele e sua amada atual ficaram juntos por muito tempo, o suficiente para não o rapaz não querer nunca mais partir jamais. Viam um no outro a razão pela qual viviam, e isso os fazia viver. Viam um no outro um amor de uma vida inteira.

 

Porém, com o tempo, Herik sentiu-se triste. Não pertencia àquele lugar. Dizia que precisava partir de novo. Sua amada, porém, não podia ir. Herik, mais do que nunca, sentiu-se culpado por amá-la e ainda assim lhe deixar para trás. Insistiu que fosse consigo, mas ela, triste, recusou. Seu lugar era ali. O jovem despediu-se dela e, com o coração despedaçado, voou novamente.

 

Por anos passaram voando, os dois amigos. Em determinado ponto, Herik disse à Ásteth que queria voltar para ver sua mãe. Eles voltaram então. Foi um momento mágico rever a sua criadora, e ainda mais para a mãe que não via o filho havia anos. Passaram por um ano e um pouco mais juntos. Mas Herik estava triste. Via que aquilo não era para ele; que saiu um dia daquele lugar, pois sabia que não poderia viver ali. Disse isso para sua mãe, que entendeu. Que disse que deveria partir e voltar apenas para passar um tempo, e não uma vida.

 

Novamente os dois se despediram. Herik chamou seu amigo para mais uma viagem, dessa vez para mais longe. Ásteth aceitou, feliz em ver o espírito de aventura de volta no amigo. Indagou-lhe para onde queria ir, e o rapaz disse: “Percebi que não importa. Todos os lugares são iguais: possuem amor, tristeza, dor, alegria e, no fim, deixarão saudades.” Ouvindo tais palavras, o dragão sorriu. Disse ao amigo humano “Você finalmente aprendeu, meu caro. Venha, eu sei para onde ir”.

 

Já voando além das montanhas, Herik perguntou para onde estavam indo. Ásteth sorriu e respondeu apenas isso: “Você verá quando chegarmos lá”. Então os dois foram e não voltaram mais para a pequena vila perto da montanha e do rio que nascia dela.

 

*

 

“Fábulas” é a nova categoria aqui do site. Nela postarei textos com teor fantasioso, mas com um fundo extremamente real. Serão, provavelmente, textos maiores, mas ainda com a simplicidade que tento manter sempre em tudo que escrevo e posto por aqui. Espero que gostem dessa nova proposta um pouco mais ousada (eu acho, né).

Abraços.

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