Mês: agosto 2016

Fábula II: A flor azul.

Joanna morava perto de um rio, junto de sua família e de algumas outras. Certo dia, seu irmão mais novo ficou doente. Nenhum dos curandeiros sabia dizer exatamente o que era, e por isso Joanna temia pela vida do irmão. Uma das mulheres mais velhas da vila disse que sabia de um lugar onde poderiam achar a cura. Lá, neste local, havia uma flor que nascia somente ali e, dizia a velha, pode curar qualquer coisa.

 

Então foi decidido que Joanna iria buscar essa flor. Ela pegou uma canoa da vila e desceu o rio. Passou alguns dias e algumas noites na água cor de grama sob o sol, refletindo a luz com muita intensidade, às vezes. Ficava pensando sempre no irmão, preocupada. Vez ou outra, já depois da sua comida ter acabado, ela pulava na água e trazia alguns peixes. Atracava numa margem e cozinhava alguma coisa.

 

Certa vez, em terra, ouviu um som vindo de dentro da floresta. Era bonito, como uma canção vinda de uma voz bem afinada. Ainda que assustada, esperou para ver o que era. Então surgiu uma moça de cabelos amarelos como fins de tarde. Ela tinha olhos muito azuis, quase brancos ou acinzentados. Ela disse que estava com fome, e perguntou se podia comer com Joanna. Ela respondeu que sim, e ambas sentaram-se juntas para dividir o peixe.

 

Conversaram por horas, até quase o anoitecer. Quando já estava com sono, Joanna disse seu nome e depois perguntou qual era o da moça. Ela sorriu, mas não respondeu. Apenas desejou uma boa noite à Joanna e virou-se de costas. Levantou e começou a cantar. Depois de alguns metros caminhando, alguns vagalumes apareceram. Logo, havia muitos e muitos deles. Então eles cobriram a visão de Joanna, que, quando pôde ver novamente, não via mais a moça de cabelos dourados.

 

Decidiu dormir, coberta pelas luzes dos pequenos animais.

 

Quando acordou, lavou o rosto e continuou a viagem. Seguindo mais abaixo, dobrou em um afluente à esquerda. Então, bem mais à frente, o rio terminou em uma pequena praia. Amarrou a canoa e desceu, depois entrando na mata. Sentiu um cheiro perfumado muito forte, quase que lhe fazendo perder a atenção. Seguiu o cheiro, indo em uma direção contrária à inicial.

 

Então, após uma breve caminhada, chegou até uma pequena clareira. Lá, havia uma casinha sem cercas. Um cachorro todo branco, de porte médio, deitava-se em frente à porta. Joanna se aproximou, e então o cão levantou a cabeça e abriu os olhos. Eles tinham cor azul muito claro, quase brancos. Ele olhava fixamente para ela.

 

A porta se abriu e de dentro saiu uma senhorinha. Parecia ser muito velha, pois se movia bem devagar e sempre com ajuda de uma bengala. Seus cabelos eram da cor da neve. Seus olhos estavam pesados, sempre em direção ao chão. Tocou a cabeça do cachorro, que se levantou, abanando o rabo e respirando com a língua de fora.

 

Ela falou com Joanna, mesmo sem lhe olhar. Desejou-lhe um bom dia e perguntou quem ela era. A moça respondeu às perguntas e disse depois que estava atrás de uma flor que curava tudo. A senhorinha sorriu, e pediu para a moça se aproximar. Ela caminhou na direção do animal e de sua dona, até que parou. Sentiu um vento forte e gelado bater em seus cabelos.

 

A senhorinha, ainda sorrindo, perguntou o motivo da busca. A moça disse-lhe que era por causa de um irmão doente. A velha assentiu com a cabeça. Entrou na casa, bem devagar, e depois saiu com uma flor azul nas mãos. O cheiro que antes Joanna havia sentido, que a levara até ali, estava no ar novamente. Ficou um pouco tonta, mas se manteve de pé. A dona da casa andou até mais próximo da moça, sem tirar os olhos do chão.

 

Ela tocou a mão de Joanna, e depois foi arrastando a sua até o rosto dela. Então disse “olhe pra mim” e a velha abriu bem os olhos. Joanna não soube distinguir a cor dos olhos daquela senhora, mas eram profundos como um lago antigo. Depois a velha perguntou “você ama o seu irmão?”. Ela respondeu que sim, ainda que gaguejando, pois sentia um pouco de medo naquele instante.

 

As duas ficaram ali por minutos, se olhando. A velha então se afastou e andou até o cachorro. De alguma forma ela conseguiu se abaixar até a altura do animal sentado. Chegou perto seu ouvido, e o animal encostou o focinho nele. Então a senhorinha levantou devagar e olhou sorrindo para Joanna. Disse a ela que o seu cão confirmou que, sim, Joanna tinha amor pelo irmão, e que poderia levar a flor.

 

A velha explicou que ela deveria ser amassada e misturada com água do rio, para que o doente pudesse bebê-la. Ela disse à Joanna que um dos nomes da flor era “amor”, mas que ela era chamada dessa forma muito antes de darem este nome ao sentimento. Joanna indagou sem a flor realmente poderia curar qualquer coisa. A velha, parecendo feliz com a pergunta, disse que sim. Que ela cura todas as dores que existem.

 

Muito feliz, Joanna agradeceu imensamente e voltou pela floresta. Quando chegou entre as árvores, olhou para trás e viu a senhorinha ao lado de uma moça com cabelos dourados e olhos, pelo menos de longe, azuis como o céu no verão. Virou-se e continuou a andar. Chegou até o barco e remou com pressa para voltar para casa.

 

No caminho, foi sendo seguida, do início ao fim, por vagalumes, que iluminavam a noite e lhe traziam um pequeno aconchego quando fazia frio.

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XVI Crônica: O aeroporto.

Tarsila chegou cedo ao aeroporto Santos Dumont. Não gostava de fazer nada com pressa, então procurou logo o local do check-in. Em seguida, despachou a única mala que trouxe. Foi, então, sentar-se em algum lugar onde não tivesse muita gente. Tirou do bolso um livro pequeno e do outro um lápis, para anotar coisas nas páginas ainda por ler. Mas antes da leitura, viu um avião decolando do lado de fora. Depois viu o mar sob o sol forte. E uma inquietude tomou conta do seu peito.

 

Elza chegou com o filho duas horas antes do voo. Estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. Após todos os procedimentos, foram sentar-se em alguma lanchonete ali. Ambos apreensivos, mas a mulher estava mais. Olhava o seu filho com tristeza, mesmo que também houvesse alegria nela. O rapaz, que tinha completado dezoito há pouco, estava de saída do Rio de Janeiro. Ia estudar em outro estado. Até então, a ficha não tinha caído para a mão. Porém, a última semana foi, a cada dia, de uma dor e crises de choro enormes.

 

Alice dormiu demais e acordou aos pulos. Lavou o rosto, pegou o que faltava, se atrapalhou para trancar o apartamento e saiu depressa. Chamou o primeiro taxi que viu passando pela sua rua e entrou, pedindo para o motorista ser rápido. Sequer retocou a maquiagem ou comeu direito. Seu voo era em quarenta minutos, e ela tinha medo de perde-lo. Estava indo encontrar alguns amigos em São Paulo para depois irem juntos até o interior, passar uma semana. Estava ansiosa, pois não os via fazia meses. E era uma chance ótima de esquecer dos problemas que a rotina lhe trazia.

 

Mônica almoçava sozinha numa lanchonete perto do aeroporto. Tinha uma hora antes de viajar, mas tudo estava pronto. Depois de comer um salgado com um refresco, ficou do lado de fora e acendeu um cigarro. O cheiro sempre ficava na sua jaqueta de couro marrom. Olhava ao redor, vendo as pessoas passando na rua: turistas, idosos, crianças, jovens adultos, cães, mendigos e mais todo tipo de gente. Viu um rapaz moreno de cabelos escuros e barba mais ainda. Também fumava sozinho, observando o movimento. Até que chegou alguém, uma moça, e lhe abraçou. Mônica sentiu um aperto.

 

Olívia estava desde mais cedo em frente à sala de desembarque. Carregava um cartaz brega dizendo “Te amo, meu amor!” com a caligrafia torta que ela tinha. Não se viam há meses, pois moram em cidades diferentes. Só se veem nos meses de férias, quando viajam, às vezes para o Rio de Janeiro, onde Olívia mora, às vezes para Salvador. Era duro manter, mas conseguiam, na medida do possível. Apesar de tudo, dava mais certo do que errado para Olívia. No início pensava em desistir, mas sentia, com o passar dos dias, que valia sempre a pena tentar. E então seu coração acelerou quando viu a porta da sala se abrir.

 

Tarsila lembrou-se, ao olhar para o mar, de quando pescava com o pai nas férias. De como gostava, mesmo sendo ruim naquilo. Pensou nas tardes que ficavam cantando na beira do rio, ela, o irmão, a mãe e o pai. E percebeu como aqueles foram, até então, os seus dias mais felizes. Quando tudo era mais simples e alegre. Chorou ao lembrar que estava indo justamente para o velório do seu pai, atropelado por algum rapaz bêbado. Levantou-se e foi andando, com os olhos cheios, para a sala de embarque.

 

Elza arrumou o cabelo do filho algumas vezes repentinamente. Perguntou se havia esquecido alguma coisa em casa, se não queria voltar para verificar tudo. Mas seu filho disse que ela devia se acalmar, que estava tudo bem. Que aquilo fazia parte mesmo e que logo ele estava de volta para as férias. Elza sorriu, ainda chorando, mas feliz por dentro. Despediu-se com um abraço apertado além da conta e viu seu filho ir.

 

Alice chegou correndo no local, procurando desesperadamente a sala de embarque. Por sorte só tinha bagagem de mão, e por isso fez logo o check in e continuou a procurar. Tropeçou em um rapaz alemão, mas nem deu bola. A pressa era maior. Viu que faltava vinte minutos para voarem quando avistou seu portão. Correu como não corria há tempos, sendo observada por todos ao redor.

 

Mônica tossiu fumaça de tabaco, pois o coração doeu. Viu aquela moça com o rapaz fumante e lembrou-se de um amor seu que acabou recentemente. Era parecido com aquele rapaz. Viveram juntos por dois anos e alguma coisa. Davam certo, gostavam demais um do outro. Conversavam sobre se casar, sobre sair daquela cidade, sobre viajarem pelo mundo (até onde o dinheiro deixar), e sobre como sentiam-se mais felizes um com o outro do que com qualquer outra pessoa. Mas, num dia triste, o amor entre eles morreu. “Coisas da vida”, como ela sempre dizia aos que perguntavam. Apagou o cigarro e foi andando até o aeroporto, enxugando os olhos.

 

Olívia chorou de felicidade quando viu seu amor chegar. Largou o cartaz e lhe abraçou. Ficaram de corpos juntos por tanto tempo que parecia uma hora inteira. Mônica sentia o cheiro daquele cabelo curto e castanho que tanto amava. Sentiu a saudade que lhe consumia ir embora, como se nunca tivesse existido. Sentiu o calor que só aqueles braços podiam lhe proporcionar. Então olharam-se nos olhos, ambos cor de casca de árvore, e se viram em cada reflexo.

 

Tarsila estava entrando no avião quando esbarrou em uma mulher com cheiro de cigarro e jaqueta de couro marrom no corredor da aeronave. Sentou-se em uma poltrona ao lado de um jovem com o cabelo bagunçado, que parecia choroso e sempre olhando pela janela. Então viu uma mulher muito apressada chegando, como se quase tivesse perdido o voo, entrando pela porta da frente.

 

No solo, Elza chorava enquanto via o filho ir embora, mas estava feliz. Logo atrás de si, quando se virou, viu duas moças saindo de mãos dadas após se beijarem. Na mão de uma delas havia um cartaz escrito “Te amo, meu amor!”, já meio amassado.