XVI Crônica: O aeroporto.

Tarsila chegou cedo ao aeroporto Santos Dumont. Não gostava de fazer nada com pressa, então procurou logo o local do check-in. Em seguida, despachou a única mala que trouxe. Foi, então, sentar-se em algum lugar onde não tivesse muita gente. Tirou do bolso um livro pequeno e do outro um lápis, para anotar coisas nas páginas ainda por ler. Mas antes da leitura, viu um avião decolando do lado de fora. Depois viu o mar sob o sol forte. E uma inquietude tomou conta do seu peito.

 

Elza chegou com o filho duas horas antes do voo. Estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. Após todos os procedimentos, foram sentar-se em alguma lanchonete ali. Ambos apreensivos, mas a mulher estava mais. Olhava o seu filho com tristeza, mesmo que também houvesse alegria nela. O rapaz, que tinha completado dezoito há pouco, estava de saída do Rio de Janeiro. Ia estudar em outro estado. Até então, a ficha não tinha caído para a mão. Porém, a última semana foi, a cada dia, de uma dor e crises de choro enormes.

 

Alice dormiu demais e acordou aos pulos. Lavou o rosto, pegou o que faltava, se atrapalhou para trancar o apartamento e saiu depressa. Chamou o primeiro taxi que viu passando pela sua rua e entrou, pedindo para o motorista ser rápido. Sequer retocou a maquiagem ou comeu direito. Seu voo era em quarenta minutos, e ela tinha medo de perde-lo. Estava indo encontrar alguns amigos em São Paulo para depois irem juntos até o interior, passar uma semana. Estava ansiosa, pois não os via fazia meses. E era uma chance ótima de esquecer dos problemas que a rotina lhe trazia.

 

Mônica almoçava sozinha numa lanchonete perto do aeroporto. Tinha uma hora antes de viajar, mas tudo estava pronto. Depois de comer um salgado com um refresco, ficou do lado de fora e acendeu um cigarro. O cheiro sempre ficava na sua jaqueta de couro marrom. Olhava ao redor, vendo as pessoas passando na rua: turistas, idosos, crianças, jovens adultos, cães, mendigos e mais todo tipo de gente. Viu um rapaz moreno de cabelos escuros e barba mais ainda. Também fumava sozinho, observando o movimento. Até que chegou alguém, uma moça, e lhe abraçou. Mônica sentiu um aperto.

 

Olívia estava desde mais cedo em frente à sala de desembarque. Carregava um cartaz brega dizendo “Te amo, meu amor!” com a caligrafia torta que ela tinha. Não se viam há meses, pois moram em cidades diferentes. Só se veem nos meses de férias, quando viajam, às vezes para o Rio de Janeiro, onde Olívia mora, às vezes para Salvador. Era duro manter, mas conseguiam, na medida do possível. Apesar de tudo, dava mais certo do que errado para Olívia. No início pensava em desistir, mas sentia, com o passar dos dias, que valia sempre a pena tentar. E então seu coração acelerou quando viu a porta da sala se abrir.

 

Tarsila lembrou-se, ao olhar para o mar, de quando pescava com o pai nas férias. De como gostava, mesmo sendo ruim naquilo. Pensou nas tardes que ficavam cantando na beira do rio, ela, o irmão, a mãe e o pai. E percebeu como aqueles foram, até então, os seus dias mais felizes. Quando tudo era mais simples e alegre. Chorou ao lembrar que estava indo justamente para o velório do seu pai, atropelado por algum rapaz bêbado. Levantou-se e foi andando, com os olhos cheios, para a sala de embarque.

 

Elza arrumou o cabelo do filho algumas vezes repentinamente. Perguntou se havia esquecido alguma coisa em casa, se não queria voltar para verificar tudo. Mas seu filho disse que ela devia se acalmar, que estava tudo bem. Que aquilo fazia parte mesmo e que logo ele estava de volta para as férias. Elza sorriu, ainda chorando, mas feliz por dentro. Despediu-se com um abraço apertado além da conta e viu seu filho ir.

 

Alice chegou correndo no local, procurando desesperadamente a sala de embarque. Por sorte só tinha bagagem de mão, e por isso fez logo o check in e continuou a procurar. Tropeçou em um rapaz alemão, mas nem deu bola. A pressa era maior. Viu que faltava vinte minutos para voarem quando avistou seu portão. Correu como não corria há tempos, sendo observada por todos ao redor.

 

Mônica tossiu fumaça de tabaco, pois o coração doeu. Viu aquela moça com o rapaz fumante e lembrou-se de um amor seu que acabou recentemente. Era parecido com aquele rapaz. Viveram juntos por dois anos e alguma coisa. Davam certo, gostavam demais um do outro. Conversavam sobre se casar, sobre sair daquela cidade, sobre viajarem pelo mundo (até onde o dinheiro deixar), e sobre como sentiam-se mais felizes um com o outro do que com qualquer outra pessoa. Mas, num dia triste, o amor entre eles morreu. “Coisas da vida”, como ela sempre dizia aos que perguntavam. Apagou o cigarro e foi andando até o aeroporto, enxugando os olhos.

 

Olívia chorou de felicidade quando viu seu amor chegar. Largou o cartaz e lhe abraçou. Ficaram de corpos juntos por tanto tempo que parecia uma hora inteira. Mônica sentia o cheiro daquele cabelo curto e castanho que tanto amava. Sentiu a saudade que lhe consumia ir embora, como se nunca tivesse existido. Sentiu o calor que só aqueles braços podiam lhe proporcionar. Então olharam-se nos olhos, ambos cor de casca de árvore, e se viram em cada reflexo.

 

Tarsila estava entrando no avião quando esbarrou em uma mulher com cheiro de cigarro e jaqueta de couro marrom no corredor da aeronave. Sentou-se em uma poltrona ao lado de um jovem com o cabelo bagunçado, que parecia choroso e sempre olhando pela janela. Então viu uma mulher muito apressada chegando, como se quase tivesse perdido o voo, entrando pela porta da frente.

 

No solo, Elza chorava enquanto via o filho ir embora, mas estava feliz. Logo atrás de si, quando se virou, viu duas moças saindo de mãos dadas após se beijarem. Na mão de uma delas havia um cartaz escrito “Te amo, meu amor!”, já meio amassado.

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