Fábula II: A flor azul.

Joanna morava perto de um rio, junto de sua família e de algumas outras. Certo dia, seu irmão mais novo ficou doente. Nenhum dos curandeiros sabia dizer exatamente o que era, e por isso Joanna temia pela vida do irmão. Uma das mulheres mais velhas da vila disse que sabia de um lugar onde poderiam achar a cura. Lá, neste local, havia uma flor que nascia somente ali e, dizia a velha, pode curar qualquer coisa.

 

Então foi decidido que Joanna iria buscar essa flor. Ela pegou uma canoa da vila e desceu o rio. Passou alguns dias e algumas noites na água cor de grama sob o sol, refletindo a luz com muita intensidade, às vezes. Ficava pensando sempre no irmão, preocupada. Vez ou outra, já depois da sua comida ter acabado, ela pulava na água e trazia alguns peixes. Atracava numa margem e cozinhava alguma coisa.

 

Certa vez, em terra, ouviu um som vindo de dentro da floresta. Era bonito, como uma canção vinda de uma voz bem afinada. Ainda que assustada, esperou para ver o que era. Então surgiu uma moça de cabelos amarelos como fins de tarde. Ela tinha olhos muito azuis, quase brancos ou acinzentados. Ela disse que estava com fome, e perguntou se podia comer com Joanna. Ela respondeu que sim, e ambas sentaram-se juntas para dividir o peixe.

 

Conversaram por horas, até quase o anoitecer. Quando já estava com sono, Joanna disse seu nome e depois perguntou qual era o da moça. Ela sorriu, mas não respondeu. Apenas desejou uma boa noite à Joanna e virou-se de costas. Levantou e começou a cantar. Depois de alguns metros caminhando, alguns vagalumes apareceram. Logo, havia muitos e muitos deles. Então eles cobriram a visão de Joanna, que, quando pôde ver novamente, não via mais a moça de cabelos dourados.

 

Decidiu dormir, coberta pelas luzes dos pequenos animais.

 

Quando acordou, lavou o rosto e continuou a viagem. Seguindo mais abaixo, dobrou em um afluente à esquerda. Então, bem mais à frente, o rio terminou em uma pequena praia. Amarrou a canoa e desceu, depois entrando na mata. Sentiu um cheiro perfumado muito forte, quase que lhe fazendo perder a atenção. Seguiu o cheiro, indo em uma direção contrária à inicial.

 

Então, após uma breve caminhada, chegou até uma pequena clareira. Lá, havia uma casinha sem cercas. Um cachorro todo branco, de porte médio, deitava-se em frente à porta. Joanna se aproximou, e então o cão levantou a cabeça e abriu os olhos. Eles tinham cor azul muito claro, quase brancos. Ele olhava fixamente para ela.

 

A porta se abriu e de dentro saiu uma senhorinha. Parecia ser muito velha, pois se movia bem devagar e sempre com ajuda de uma bengala. Seus cabelos eram da cor da neve. Seus olhos estavam pesados, sempre em direção ao chão. Tocou a cabeça do cachorro, que se levantou, abanando o rabo e respirando com a língua de fora.

 

Ela falou com Joanna, mesmo sem lhe olhar. Desejou-lhe um bom dia e perguntou quem ela era. A moça respondeu às perguntas e disse depois que estava atrás de uma flor que curava tudo. A senhorinha sorriu, e pediu para a moça se aproximar. Ela caminhou na direção do animal e de sua dona, até que parou. Sentiu um vento forte e gelado bater em seus cabelos.

 

A senhorinha, ainda sorrindo, perguntou o motivo da busca. A moça disse-lhe que era por causa de um irmão doente. A velha assentiu com a cabeça. Entrou na casa, bem devagar, e depois saiu com uma flor azul nas mãos. O cheiro que antes Joanna havia sentido, que a levara até ali, estava no ar novamente. Ficou um pouco tonta, mas se manteve de pé. A dona da casa andou até mais próximo da moça, sem tirar os olhos do chão.

 

Ela tocou a mão de Joanna, e depois foi arrastando a sua até o rosto dela. Então disse “olhe pra mim” e a velha abriu bem os olhos. Joanna não soube distinguir a cor dos olhos daquela senhora, mas eram profundos como um lago antigo. Depois a velha perguntou “você ama o seu irmão?”. Ela respondeu que sim, ainda que gaguejando, pois sentia um pouco de medo naquele instante.

 

As duas ficaram ali por minutos, se olhando. A velha então se afastou e andou até o cachorro. De alguma forma ela conseguiu se abaixar até a altura do animal sentado. Chegou perto seu ouvido, e o animal encostou o focinho nele. Então a senhorinha levantou devagar e olhou sorrindo para Joanna. Disse a ela que o seu cão confirmou que, sim, Joanna tinha amor pelo irmão, e que poderia levar a flor.

 

A velha explicou que ela deveria ser amassada e misturada com água do rio, para que o doente pudesse bebê-la. Ela disse à Joanna que um dos nomes da flor era “amor”, mas que ela era chamada dessa forma muito antes de darem este nome ao sentimento. Joanna indagou sem a flor realmente poderia curar qualquer coisa. A velha, parecendo feliz com a pergunta, disse que sim. Que ela cura todas as dores que existem.

 

Muito feliz, Joanna agradeceu imensamente e voltou pela floresta. Quando chegou entre as árvores, olhou para trás e viu a senhorinha ao lado de uma moça com cabelos dourados e olhos, pelo menos de longe, azuis como o céu no verão. Virou-se e continuou a andar. Chegou até o barco e remou com pressa para voltar para casa.

 

No caminho, foi sendo seguida, do início ao fim, por vagalumes, que iluminavam a noite e lhe traziam um pequeno aconchego quando fazia frio.

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