Mês: setembro 2016

XVII Crônica: O escritor de aluguel.

Até bem tarde da noite, quase que de manhã, Rogério costumava trabalhar. Preferia esse horário, pois o silêncio o deixava mais produtivo. Como trabalhava em casa podia se dar ao luxo de escolher um determinado expediente. Embora tivesse essa liberdade, ele não deixava de honrar seus compromissos estabelecidos com os clientes. Trabalhava como ghostwriter, uma espécie de escritor de aluguel.

 

Tendo aparente jeito com as letras, além de uma capacidade boa de se manter organizado, resolveu entrar para o ramo, inicialmente, para conseguir um dinheiro extra para ajudar nas despesas. Porém, logo viu que o retorno estava sendo melhor do que o esperado, então acabou por reservar muito mais do seu esforço pessoal nessa atividade. No início, demorava para receber pedidos. Com o tempo, já abria seu email já sabendo que pelo menos uma pessoa tinha lhe contratado. Geralmente, era mais de uma.

 

Foi então que recebeu de uma moça um novo pedido. Ela queria uma carta para seu parceiro, que estava passando uma temporada longe do Rio de Janeiro. Até então, nada diferente do que costumava receber de pedidos. Então, como fazia geralmente, Rogério pediu algumas informações sobre o casal. Mas a resposta demorou para vir. Esperou um dia inteiro. Até que a moça finalmente respondeu.

 

Ela contou um pouco mais do que ele havia pedido. Na verdade, expôs, praticamente, toda a história do casal. Rogério ficou surpreso, pois normalmente, por motivos de segurança, as pessoas não diziam mais do que o necessário (que ele mesmo já exemplificava, por meio de perguntas pré-estabelecidas). Mas, de qualquer forma, ele começou a ler o email dela.

 

Viu que os dois haviam se conhecido ainda na escola, muito embora tenham começado o relacionamento bem depois, já quando ela estava no segundo ano de faculdade e ele no cursinho. Não tinham tanto em comum, mas compartilhavam o suficiente para gostarem da companhia um do outro. Ela era um ano mais velha, porém bem mais baixa do que ele. Torcia pelo Fluminense, enquanto ele era Flamengo. Seu primeiro “encontro” oficial foi em um Fla-Flu, com vitória do time dela. Depois do clássico, saíram para um bar perto da casa dela, onde ficaram conversando por tantas horas que o dono teve de pedir para que fosse embora.

 

Os tempos foram passando, e encontros fora dos estádios ficaram mais frequentes. Foram se tornando cada vez mais próximos, principalmente depois que ele conseguiu entrar na universidade. Festejaram juntos, mas não brigaram juntos tanto assim (como a moça brincou no email, fazendo referência à música do Legião). Logo se viram morando juntos, dividindo tudo, inclusive, claro, a mesma cama. Suas vidas, gradativamente, tornavam-se um do outro, quase que formando uma só.

 

E Rogério foi lendo o imenso email dela. Leu com o coração apertado. Ficava, a cada parágrafo, maravilhado com a relação tão pura e bonita dos dois. Raramente via isso nos seus clientes (talvez pelo fato de não se exporem tanto, pensou), e por isso lia com atenção redobrada, prendendo-se aos detalhes. Confessou a si mesmo que gostava daquilo, mas sentia, ao mesmo tempo e com vergonha, inveja de ambos.

 

Até que, em certo ponto da história, ela contava que juntos eles passaram um feriado prolongado em Cabo Frio, quando ele, que tocava violão (como todo mundo hoje em dia, pensou Rogério, que também arranhava o instrumento), tocou pra ela uma música. Era uma dos Beatles, que tinha o nome dela mesma, “Michelle”.

 

Foi então que Rogério parou.

 

Seu coração bateu acelerado e depois pareceu desistir de continuar trabalhando. Isso porque, há pouco, havia terminado um relacionamento de pouco mais de quatro anos com uma moça que tinha também o nome de uma música também dos Beatles: “Anna”. Lembrou-se de quando tocou essa música e cantou para ela, todo desafinado, na praia de Ipanema, num final de tarde. Então as memórias dela, daqueles vários e vários meses, se instauraram dentro da sua cabeça, voltando de algum lugar onde ele mesmo havia guardado.

 

Já estava, em seguida, imerso nas lembranças. Via tudo que havia passado com Anna naqueles dois. Cada uma das pequenas coisas e costumes neles ele conseguia, de uma forma ou de outra, fazer um paralelo consigo mesmo. Pensou em todo tempo que estiveram juntos, de como foram os melhores anos da sua vida, de como ele mudara tanto e em tão pouco tempo, muito por causa dela. De como tinham planos, ideias do que fazer no futuro, se mudar para uma cidade que não tivesse praia, adotar um cachorro, escrever uma história em quadrinhos (ela desenhava muito bem) e, acima de tudo, viver juntos.

 

Mas as coisas nem sempre acontecem como se planeja. E eles terminaram, por vários motivos, separados. Ele já nem sabia tanto dela, onde estava, o que fazia da vida, se tinha arrumado alguém, se não, se ainda fazia planos. Se estava bem.

 

Desconcentrado, tentou, com muito custo, voltar ao trabalho. Conseguiu, enfim, depois de horas em frente ao computador, sentindo uma vontade enorme de procurar por ela, de alguma forma. Mas a vontade passou, ou pelo menos se escondeu. E ele, depois, terminou de ler o texto da sua contratante (chamada Michelle, enfim) e começou a escrever a carta. Porém,  escreveu, no fundo, pensando em Anna, em tudo aquilo que ela significava para ele e que ainda significa.

 

Quando enviou o texto final para Michelle, ela recebeu e, segundo o email de resposta dela, chorou do início ao fim. Afirmou que Rogério tinha conseguido captar as coisas de uma forma tão completa e perfeita. Que ela estava maravilhada com o talento dele e com a sua capacidade de escrever. Mandou, no final, a seguinte frase: “você fez um casal, especialmente uma mulher, muitíssimo feliz! Obrigada!”.

 

Rogério demorou para responder. Deu sua conta bancária, para que ela fizesse o pagamento. Desejou boa sorte para ela, porque “sorte é sempre bom de se ter. Nunca se sabe, não?”. Enviou o email com a conta e a resposta. Naquele dia em diante, por algum tempo, Rogério não escreveu nada. Apenas pedidos de clientes. Mas nada “realmente importante”, como ele dizia. Apenas textos e cartas de outras pessoas, para outras pessoas.

 

Tomou duas pílulas de um remédio para dormir e foi se deitar. Demorou algumas horas, mas conseguiu dormir.

Você está feliz consigo mesmo?

Isso não é uma pergunta tirada de algum livro de autoajuda, nem o texto tem essa função. É apenas uma forma de começar esse tema: você realmente está se sentindo feliz consigo mesmo? Realmente acredita que tudo que está fazendo, independente da sua idade ou do que faz da vida, te deixa feliz? Não acha, talvez, que algo esteja faltando, mas mesmo assim não saberia dizer (caso a resposta seja “sim”) o que é esse “algo” que falta? É bem capaz que se você estiver lendo isso não esteja tão feliz assim.

 

Às vezes se você passar pela sua timeline do Facebook, se você tiver um, verá muitas postagens pessimistas e meio tristes. Trechos de poemas tristonhos, montagens com fotos de casais em preto e branco junto de frases (muitas vezes em inglês) falando sobre separação, gifs de momentos solitários e sombrios e cortes de filmes e séries (tipo de “How I Met Your Mother”) com cenas bem pra baixo. Enfim: conteúdo triste.

 

É bem capaz de que tudo isso seja apenas vários “amigos” de Facebook querendo usar a tristeza como autopromoção (sim, isso existe mesmo), querendo demonstrar ser uma pessoa pra baixo e sombria. Ou até porque eles gostam dessas coisas e pronto, sem nada a ver com sentimento de tristeza. Mas também é possível que essas mesmas pessoas estejam sofrendo de verdade. Postar, compartilhar e escrever coisas tristes pode ser a forma que elas encontraram de lidar com os problemas. E não existe isso de sofrer menos ou mais, porque o que pode ser a dor de uma perda de um parente pra uma pessoa, para outra, pode ser a não aprovação em alguma prova ou entrevista de emprego. As pessoas sentem as mesmas coisas de forma diferente, e ninguém pode dizer quem está errado ou certo nisso.

 

Então, volto a indagar: você está feliz? Olhando em volta, para o seu ciclo de amizades, para seus familiares, para o seu dinheiro, seu curso, seu trabalho, por aí vai, e pensando nessa pergunta que faço novamente, qual seria sua resposta? Às vezes não é fácil dizer que não está feliz, mesmo tendo “tudo” para ser: dinheiro a mais na conta bancária, um parceiro bonito, notas boas na escola/universidade, muitos amigos que gostam de você, etc. Mesmo com tudo isso, é bem possível estar triste.

 

Isso porque a tristeza é algo natural, assim como a felicidade. E às vezes, assim como o sentimento inverso, sentir-se triste não tem tanta explicação aparente. Alguns dias você acorda sem saber de onde vem aquela dor no peito e aquela vontade chata de não sair da cama (não tô falando de preguiça ou sono) e ficar no ócio. Às vezes você acorda super alegre, esbanjando sorrisos e boas energias; outras vezes não. E ambas são naturais.

 

Já parou para pensar se vale mesmo a pena acordar todos os dias e ir estudar Direito Penal se você queria mesmo era estar na faculdade de Letras? Já se indagou se você gosta mesmo de estar com o seu parceiro, mesmo que ele possa te levar nos locais mais caros da cidade, mas não saber nem que você cortou o cabelo ou elogiar sua roupa sem motivos? Algum vez já reparou se os seus amigos pelos quais você tem tanto carinho e preocupação perguntaram se você está bem, mesmo vendo que as suas postagens na internet ou ausência de saídas denotem claramente que não? Já pensou que você pode estar fazendo tudo errado para si mesmo, mas que tem medo de ter de recomeçar, seja temendo não conseguir se reerguer ou por comentários de terceiros?

 

Você tem o direito de se sentir triste, realmente tem. Mesmo com coisas que muitas pessoas achem banais. Pode se sentir triste por não ter o corpo que queria ou por não conseguir cantar como seu artista favorito. Pode se sentir pra baixo por ter um amor não correspondido ou por não ter vencido a final do campeonato de futebol da escola. Pode se sentir mal tirando uma nota boa, mas abaixo do esperado ou até se você brigar com alguma pessoa importante para você. Ninguém deveria se sentir triste nunca, mas às vezes é inevitável, e não há vergonha nisso.

 

“Ah, isso é frescura! Já passei por coisa muito pior!”, alguns podem comentar. Uma pena que eles passaram por coisas “piores”, e que bom que eles, supostamente, superaram isso. Mas pessoas assim erram ao classificarem os outros como fracos só porque eles mesmos “sofreram mais”. Como eu disso lá em cima, nós todos sentimos de forma diferente. Tem gente que não sofre com o que você sofre, e vice versa: alguns superam término de relacionamentos mais duradouros do que os seus mais rapidamente, ou não se abalam com xingamentos e tão pouco se importam tanto com o peso ou uma barriga não chapada. Não importa, elas não tem de sofrer o mesmo que você para a sua tristeza fazer sentido.

 

Da mesma forma, tem muitas pessoas que não ficam tão felizes quanto você por, de repente, receber um presente inesperado, um “bom dia” em plena segunda, um convite para almoçar em um lugar não tão pomposo, um sorriso de uma criança desconhecida na rua, a euforia do seu cachorro ao ver que você voltou para casa ou até mesmo quando te mandam uma mensagem despretensiosa sobre um poema de um escritor que você nunca ouviu falar dizendo “olha, lembrei de você”.

 

Sentimos diferente tudo, em absoluto.

 

Não fique constrangido por se sentir infeliz. Isso é normal. Talvez o que seja importante é ver o que pode ser o motivo (se houver algum; pode não haver mesmo) desse mal estar, e tentar cortá-lo. Muitas vezes, isso é fato, você terá de fazê-lo sozinho, pois nem todo mundo tem paciência e empatia o suficiente para se permitir ajudar. Alguns, querendo ou não, se limitam ao “você vai melhorar”, “vai passar logo” e “não fica assim”, mas é porque eles não têm tanto a dizer mesmo. Não é culpa deles. Não se ater apenas a essas pessoas em momentos de tristeza é que conta muito. Tentar estar junto de pessoas que, pelo menos, tentem entender ou sentir o que você sente é que ajuda muito no controle da tristeza. Mas, muitas vezes, buscar a paz sozinho pode ser ainda mais eficiente, mesmo que não pareça.

 

A tristeza vem sem avisar, assim como a felicidade. E ambas podem ser controladas, para que não cheguem a um ponto de saturação. Mas se a mágoa, a melancolia e o pessimismo estiverem maiores do que o normal, faça como Neil Gaiman disse certa vez: “A vida às vezes é dura. As coisas dão errado, na vida e no amor e nos negócios e nas amizades e na saúde e em todos os outros modos que a vida pode dar errado. E quando as coisas ficam difíceis, isso é o que vocês devem fazer: façam boa arte.”.

 

Desenhem, escrevam, dancem, toquem algum instrumento, cantem, mesmo não sabendo fazer nada disso. Apenas façam arte, a que for; transformar as coisas ruins em coisas boas é uma excelente forma de acabar com esses problemas, mesmo que seja por apenas um dia. E, se no dia seguinte a tristeza estiver de volta, façam de novo arte. Não precisa ser bom. Apenas bom pra vocês mesmos.

 

Abraços e boa sorte.

Um ano de “caboquice”

Hoje cedo, entre uma aula e outra, acabei olhando o Facebook e vi que uma amiga havia me marcado numa publicação. Era desse dia, nove de setembro, só que um ano atrás. E lembrei que foi nessa data, em 2015, que criei o blog. Numa quinta feira (eu acho), depois de pensar bastante, relutando se iria realmente criar o site onde hoje escrevo com certa frequência, acabei dando início a esse passatempo que tanto amo.

 

 

A demora se deu à minha chatice ou falta de vontade mesmo. Já bem antes daquele momento eu começava a escrever, sem nunca mostrar pra muita gente. Com o passar do tempo se tornou uma rotina praticamente diária, e percebei que seria aquela quantidade pra mais. E então, após insistente apoio de amigos próximos e família (direta ou, principalmente, indiretamente) criei O Caboco. Fico feliz de olhar para os textos antigos e perceber que muita coisa melhorou. Já não tenho mais tantos erros gramaticais e de edição. O que é bom.

 

 

Por outro lado, o que me deixa mais alegre é ver que o meu jeito pode ter mudado um pouco, mas ainda consigo conservar a simplicidade que eu tanto busco aqui. Porque, ao meu ver, claro, não adianta ficar usando mesóclise e essas coisas mais complicadas se, no fundo, as pessoas não entendem o que eu quero dizer. Ora, o simples acaba sendo bem mais tranquilo nesse caso do que um monte de palavra complicada tirada dos cafundós de algum dicionário ou construções de frase cheias de termos desnecessários. Em resumo: simples é mais legal (pra mim).

 

 

Graças ao blog, fui chamado por um primo pra fazer parte do blog dele, o Entrelinhas (muito bom, por sinal). Infelizmente está parado hoje em dia, mas fazer parte dele foi uma experiência bem legal. Espero que a gente volte a escrever ali logo. Além disso, tomei coragem também de começar a escrever no site da Obvious (link pra minha página no final desse texto), o qual eu adoro há tempos. E, tanto lá quando aqui, ter a experiência de muita gente compartilhar algo que eu escrevi sem sequer me conhecerem e vice versa. Pra mim é algo incrível que alguém do Rio Grande do Sul, por exemplo, tenha lido algo meu e compartilhado (o que significa que a pessoa gostou, né).

 

 

Em agosto, de férias em Belém, uma conhecida de amigos meus veio falar comigo dizendo que adorava meus textos, que lia todos, que se identificava pra caramba e tudo mais. E eu nunca tinha visto a cara dela. Hoje, na universidade, já querendo voltar pra casa, um outro aluno, que entrou comigo em 2015, já bem mais velho (uns cinquenta e poucos anos), mas que nunca tínhamos tido muito contato, veio comigo dizendo “você que é o Gabriel Maués?”. E ele disse que se emocionou com algo que eu escrevi (sobre amor), e então começou a falar de quando era moleque, que gostava de tomar umas com alguns amigos e (como todo bêbado) falar de sentimentos e coisas do gênero. Que adorava fazer isso e que o texto lhe fez lembrar dessa época.

 

 

Porra, isso é muito foda.

 

 

Saber que alguém lê o que eu escrevo e que isso lhe faz bem, seja fazendo com que se lembre de coisas boas, que se identifique com uma situação ruim e saiba que não está sozinho, ou mesmo dando coragem para algumas pessoas começarem a escrever é incrível. Isso de “dar coragem” já aconteceu com três amigos que criaram seus próprios blogs e, diga-se de passagem, que têm textos mais interessantes do que os daqui. Saber que eu ajudo, da forma que for, só com as palavras que estão aqui é muito gratificante. Muito mesmo.

 

 

No fim, agradeço aos que ajudaram nisso daqui. Aos amigos de Belém, principalmente aos que estiveram do meu lado no último (e complicado) ano de escola, sempre lendo entre aulas algo que eu escrevia; a alguns poucos amigos novos do Rio, que dizem carinhosa e suspeitosamente que eu escrevo bem e que adoram o que leem por aqui; à família, que apoia, mesmo longe, todas as besteiras que eu faço, além das coisas boas. E, claro, às pessoas que leem o blog, compartilham, comentam, curtem e falam dele por aí (esses em menor número), pois eles que sustentam isso.

 

 

Não escrevo isso pra ganhar dinheiro ou algo do tipo, porque se fosse o caso eu tava bem ferrado. Escrevo por uma necessidade quase biológica. Porque é necessário mesmo. E pretendo continuar nesse caminho até os dedos pararem de se mexer. Então eu peço pra alguém escrever o que eu dito. Ai de quem tiver essa tarefa ingrata…

 

 

Obrigado, povo. Vocês são os caras (e “as caras”).

 

 

Abraços apertados.

 

 

Links:

 

 

https://entrelinhas.org/

 

http://obviousmag.org/o_caboco/