XVII Crônica: O escritor de aluguel.

Até bem tarde da noite, quase que de manhã, Rogério costumava trabalhar. Preferia esse horário, pois o silêncio o deixava mais produtivo. Como trabalhava em casa podia se dar ao luxo de escolher um determinado expediente. Embora tivesse essa liberdade, ele não deixava de honrar seus compromissos estabelecidos com os clientes. Trabalhava como ghostwriter, uma espécie de escritor de aluguel.

 

Tendo aparente jeito com as letras, além de uma capacidade boa de se manter organizado, resolveu entrar para o ramo, inicialmente, para conseguir um dinheiro extra para ajudar nas despesas. Porém, logo viu que o retorno estava sendo melhor do que o esperado, então acabou por reservar muito mais do seu esforço pessoal nessa atividade. No início, demorava para receber pedidos. Com o tempo, já abria seu email já sabendo que pelo menos uma pessoa tinha lhe contratado. Geralmente, era mais de uma.

 

Foi então que recebeu de uma moça um novo pedido. Ela queria uma carta para seu parceiro, que estava passando uma temporada longe do Rio de Janeiro. Até então, nada diferente do que costumava receber de pedidos. Então, como fazia geralmente, Rogério pediu algumas informações sobre o casal. Mas a resposta demorou para vir. Esperou um dia inteiro. Até que a moça finalmente respondeu.

 

Ela contou um pouco mais do que ele havia pedido. Na verdade, expôs, praticamente, toda a história do casal. Rogério ficou surpreso, pois normalmente, por motivos de segurança, as pessoas não diziam mais do que o necessário (que ele mesmo já exemplificava, por meio de perguntas pré-estabelecidas). Mas, de qualquer forma, ele começou a ler o email dela.

 

Viu que os dois haviam se conhecido ainda na escola, muito embora tenham começado o relacionamento bem depois, já quando ela estava no segundo ano de faculdade e ele no cursinho. Não tinham tanto em comum, mas compartilhavam o suficiente para gostarem da companhia um do outro. Ela era um ano mais velha, porém bem mais baixa do que ele. Torcia pelo Fluminense, enquanto ele era Flamengo. Seu primeiro “encontro” oficial foi em um Fla-Flu, com vitória do time dela. Depois do clássico, saíram para um bar perto da casa dela, onde ficaram conversando por tantas horas que o dono teve de pedir para que fosse embora.

 

Os tempos foram passando, e encontros fora dos estádios ficaram mais frequentes. Foram se tornando cada vez mais próximos, principalmente depois que ele conseguiu entrar na universidade. Festejaram juntos, mas não brigaram juntos tanto assim (como a moça brincou no email, fazendo referência à música do Legião). Logo se viram morando juntos, dividindo tudo, inclusive, claro, a mesma cama. Suas vidas, gradativamente, tornavam-se um do outro, quase que formando uma só.

 

E Rogério foi lendo o imenso email dela. Leu com o coração apertado. Ficava, a cada parágrafo, maravilhado com a relação tão pura e bonita dos dois. Raramente via isso nos seus clientes (talvez pelo fato de não se exporem tanto, pensou), e por isso lia com atenção redobrada, prendendo-se aos detalhes. Confessou a si mesmo que gostava daquilo, mas sentia, ao mesmo tempo e com vergonha, inveja de ambos.

 

Até que, em certo ponto da história, ela contava que juntos eles passaram um feriado prolongado em Cabo Frio, quando ele, que tocava violão (como todo mundo hoje em dia, pensou Rogério, que também arranhava o instrumento), tocou pra ela uma música. Era uma dos Beatles, que tinha o nome dela mesma, “Michelle”.

 

Foi então que Rogério parou.

 

Seu coração bateu acelerado e depois pareceu desistir de continuar trabalhando. Isso porque, há pouco, havia terminado um relacionamento de pouco mais de quatro anos com uma moça que tinha também o nome de uma música também dos Beatles: “Anna”. Lembrou-se de quando tocou essa música e cantou para ela, todo desafinado, na praia de Ipanema, num final de tarde. Então as memórias dela, daqueles vários e vários meses, se instauraram dentro da sua cabeça, voltando de algum lugar onde ele mesmo havia guardado.

 

Já estava, em seguida, imerso nas lembranças. Via tudo que havia passado com Anna naqueles dois. Cada uma das pequenas coisas e costumes neles ele conseguia, de uma forma ou de outra, fazer um paralelo consigo mesmo. Pensou em todo tempo que estiveram juntos, de como foram os melhores anos da sua vida, de como ele mudara tanto e em tão pouco tempo, muito por causa dela. De como tinham planos, ideias do que fazer no futuro, se mudar para uma cidade que não tivesse praia, adotar um cachorro, escrever uma história em quadrinhos (ela desenhava muito bem) e, acima de tudo, viver juntos.

 

Mas as coisas nem sempre acontecem como se planeja. E eles terminaram, por vários motivos, separados. Ele já nem sabia tanto dela, onde estava, o que fazia da vida, se tinha arrumado alguém, se não, se ainda fazia planos. Se estava bem.

 

Desconcentrado, tentou, com muito custo, voltar ao trabalho. Conseguiu, enfim, depois de horas em frente ao computador, sentindo uma vontade enorme de procurar por ela, de alguma forma. Mas a vontade passou, ou pelo menos se escondeu. E ele, depois, terminou de ler o texto da sua contratante (chamada Michelle, enfim) e começou a escrever a carta. Porém,  escreveu, no fundo, pensando em Anna, em tudo aquilo que ela significava para ele e que ainda significa.

 

Quando enviou o texto final para Michelle, ela recebeu e, segundo o email de resposta dela, chorou do início ao fim. Afirmou que Rogério tinha conseguido captar as coisas de uma forma tão completa e perfeita. Que ela estava maravilhada com o talento dele e com a sua capacidade de escrever. Mandou, no final, a seguinte frase: “você fez um casal, especialmente uma mulher, muitíssimo feliz! Obrigada!”.

 

Rogério demorou para responder. Deu sua conta bancária, para que ela fizesse o pagamento. Desejou boa sorte para ela, porque “sorte é sempre bom de se ter. Nunca se sabe, não?”. Enviou o email com a conta e a resposta. Naquele dia em diante, por algum tempo, Rogério não escreveu nada. Apenas pedidos de clientes. Mas nada “realmente importante”, como ele dizia. Apenas textos e cartas de outras pessoas, para outras pessoas.

 

Tomou duas pílulas de um remédio para dormir e foi se deitar. Demorou algumas horas, mas conseguiu dormir.

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