Mês: outubro 2016

O amor é uma rosa num campo árido.

O amor é como essa flor, essa rosa, que tem qualquer cor, e que nasce num campo árido. Surge ali, em meio a tudo que pode ser ruim muito antes de ser algo bom. Cercada de terras inférteis, onde a vida parece não ter onde ficar; rodeada de solidão, cinza ou até de cor da terra seca e dura. Sem nenhuma sombra, sem nenhum ponto para descansar. O amor, da mesma forma que essa rosa, nasce ali, num lugar que ele não teria condições.

 

Isso acontece porque ele é desse jeito mesmo: todo estranho e sem muitas regras. Ele não pede normas, embora, muitas vezes, seja exigente. Demonstra querer atenção e singularidade, e ainda busca exclusividade do seu amante. Isso se mostra na saudade que se sente quando se passa segundos após um “boa noite” ao telefone ou um “te vejo amanhã?” quando se despedem após um passeio. Precisa haver vontade de crescer, assim como essa rosa, que mesmo rodeada de tudo que não tem vida, cisma em não se entregar ao ato de murchar.

 

Da mesma forma que a flor colorida, o amor parece necessitar de paciência. Nenhuma planta cresce tão depressa quanto se gostaria. Isso de forma natural, pois é muito fácil criar algum fator externo que nos fará chegar a qualquer objetivo. No entanto, isso, às vezes, torna a flor defeituosa, cheia de manias, crescendo antes do seu tempo e sendo passível de não dar certo. O amor, por sua vez, é assim: ele demora, pondera, insiste em ir devagar para não perder nada no caminho. Se fosse tão apressado, cresceria em um ritmo que nem ele acompanharia, e passa despercebido por tudo o que importa. Torna-se um amor apressado, que da mesma forma que nasce na correria, morre na extrema velocidade.

 

O amor, em várias vezes, nos machuca. As rosas têm acúleos (“espinhos”), que nos ferem e furam se formos rápidos e desatentos demais. Se apenas olharmos para suas pétalas brilhantes e sentir o seu perfume, e não termos a noção de que o nosso toque pode causar cortes, então estamos fadados a nos mutilar sempre. E no amor é assim: é preciso estar atento, pois, às vezes, o tal amor que costumamos chamar dessa forma, na verdade, é apenas a beleza que notamos de primeira. É só o cheiro agradável que inalamos de olhos fechados.

 

Apenas depois, tardiamente, percebemos que há mais além da aparência de antes; há uma pessoa ali que dentro de si tem muitos espinhos e coisas que podem machucar, mesmo que contra a sua vontade. Nem sempre vale a pena se jogar em pessoas que mais podem nos ferir do que fazer bem. Mas, isso é fato, alguns apenas machucam porque sofrem demais por dentro, e essas são as que mais precisam de ajuda; precisam de um amor que faça os espinhos pararem de crescer, e que a dor seja passageira, quase sem se sentir.

 

Temos o costume de buscar coisas na natureza e deixa-las em nossas casas. Animais, plantas, pedras, coisas para somar ao nosso lar. Fazemos isso com o amor também, pois colocamos ele nos nossos dias. Sem nos darmos conta, ele se torna tão presente quanto o latido do nosso cachorro, quanto as saídas para leva-lo para passear ou quanto as idas rotineiras ao veterinário. E passamos a ver o amor em tudo isso que fazemos, associando tudo a ele, em absoluto. Lemos seu nome em jornais, vemos alguém usando uma roupa que ele gosta, escutamos uma música que nos lembra dele, sentimos o seu cheiro por em alguns lugares e por aí vai. Vira parte da nossa rotina.

 

Por ser algo que se assemelha a natureza, ele é livre. Na verdade, é aí que ele se diferencia: o amor não se prende em uma gaiola ou numa coleira. Ele gosta de estar solto, pois nasceu para isso. Não se pode reprimi-lo nem obriga-lo a fazer nada que ele não queira. Essa liberdade existe nele desde sempre, e assim ele viverá, pois sem ela o amor não sobrevive.

 

E, da mesma forma que qualquer coisa viva, o amor também morre. Infelizmente, mais do que o resto, isso não se controla. Assim como a rosa, que mesmo forte por ter nascido num lugar nada favorável, precisa ser regada, podada levemente, cuidada e amada. Caso contrário, ela desmanchará em si mesma, perdendo toda a força que a sustenta. O amor não sobrevive por si só, necessitando de vontade para mantê-lo vivo, pulsante e belo. É preciso estar atento sempre, pois muito facilmente um descuido nosso fará com que ele parta mais cedo. Muitas vezes ele morrerá, inevitavelmente.

 

Pode ser que uma chuva muito forte caia e tire as raízes que sustentavam o amor, jogando-o para longe da gente. Pode ser que uma praga passe, destruindo suas pétalas e o seu cheiro, afastando-lhe de nós. Pode acontecer, também, dele sentir que precisa ir embora, que não é no nosso jardim que ele deve ficar. Nem sempre o amor nasce onde devia, e por isso mais sofre do que promove felicidade. Às vezes a vida nos mostra isso aos poucos, que nem todo amor, por mais bonito, sincero, verdadeiro e forte que seja, nasceu para ser nosso. Acontece, e entender que isso faz parte pode ser difícil, mas se realmente ama-se um amor, é preciso entender que ele não nasceu para ser nosso, e sim de outro jardim. Esse é o maior ato que se pode fazer por uma rosa.

 

No fim, quando ele morre, sobra uma planta que precisa voltar para a terra. E assim nós fazemos com o tal sentimento: guardamos o que sobrou, com ou sem remorsos, no jardim que fica dentro do nosso peito. Porém, mesmo que não pareça, o terreno ainda que árido, é fértil o suficiente para que outras flores nasçam ali, dando mais vida ao canteiro. Algumas pessoas, no decorrer da vida, terão muitas flores enterradas ali; outras talvez tenham apenas um ou duas. Mas o amor não se mede em quantidade. Uma única rosa, às vezes, vale muito mais do que um buquê inteiro de flores despejadas no nosso próprio jardim.

 

Abraços.

Um dia você se acostuma.

Um dia você se acostuma com a ideia de crescer. De ficar mais velho e talvez mais alto; de ganhar mais responsabilidades, ter de trabalhar ainda jovem para ajudar em casa ou estudar para ganhar dinheiro. Você se acostuma com as cobranças que vêm sobre você e sobre o que você faz. Contas, problemas hormonais, tensões no trabalho, na escola, na faculdade ou mesmo fora desses lugares todos. Você deseja, às vezes, esquecer que quis ser adulto quando era criança, afirmando, hoje, que “era feliz e nem sabia”, mas só por causa dos seus problemas mesmo. Pode parecer que não, mas um dia você se acostuma.

 

Um dia você se acostuma a se sentir cansado. Sentir as dores na coluna, nas pernas, de cabeça e no corpo em geral. Sente a rotina pesar sobre você, lhe obrigando a ir até locais que você não quer. A pegar dois ônibus, às vezes lotados, para ir até algum compromisso, sendo que ainda nem dormiu direito na noite passada. Você sente raiva ou desespero, até mesmo apreensão, por não conseguir finalizar um trabalho, projeto, artigo ou qualquer coisa assim, e sente esses sentimentos te consumirem, te deixando quase louco. Sente um cansaço estranho ao levantar da cama e ao deitar-se nela também. Mesmo que não pareça, um dia você vai se acostumar.

 

Um dia você se acostuma a errar. Você vai errar ao escolher um curso numa universidade qualquer porque seus pais quiseram. Vai errar ao deixar de lado alguns costumes que te faziam feliz só porque diziam que eram coisas inúteis, como desenhar e tocar algum instrumento. Vai errar ao tomar um caminho perigoso pra casa de noite e acabar sendo assaltado. Vai cometer o erro nas relações pessoais. Decepcionar seus pais, frustrar alguns amigos próximos, brigar com o seu cachorro, errar ao pensar que amou alguém. Vai errar várias vezes, achando que acertou. Depois, talvez, perceba os erros.  É difícil, mas um dia você se acostuma.

 

Um dia você se acostuma a perder. Você vai perder brinquedos antigos, livros que amava e jogos de videogame. Vai perder hábitos que adorava, manias que te incomodavam e alguns medos passados. Um dia talvez você perca algum amigo importante, algum primo que você brincava muito ou algum tio que lhe ensinou a nadar. É possível que você perca o amor da sua vida (às vezes sem saber que é o amor da sua vida). Talvez você perca tempo esperando por algo que não deve acontecer, como um título de um time de futebol, uma promoção no trabalho, uma carta que enviou faz tempo ou a confiança de alguém. Você pode perder o respeito de alguma pessoa, o carinho de um irmão ou as fotos velhas de um melhor amigo. Você pode perder coisas demais, mas um dia você se acostuma.

 

Um dia você se acostuma a mudar. Você muda de apartamento, daquela velha rua da infância. Você muda de escola, de ares e de amizades. Muda de CDs favoritos, de livros que gostava e de roupas que comprava. Você muda de cidade, de vida, de opiniões e de modos de ver e encarar as mesmas pessoas de antes. Você muda de parceiro, de formas de se comunicar; muda de país, de visual e de sotaque até. Você muda sua forma de falar, de ler, de desenhar, de se relacionar e de amar. Você muda de opinião sobre o valor de um abraço demorado e sobre filmes nacionais. Você muda a forma como olha nos olhos de alguém. Por mais estranho que seja, um dia você se acostuma.

 

Um dia você se acostuma a ter saudade. Você vai ter saudade de uma casa que morou, de um amigo que se separou e de um bicho de estimação que morreu. Vai ter saudade de jogar dadinho após futebol, falar besteiras com velhos amigos num bar e de ir às partidas do campeonato aos domingos. Saudades de almoçar com velhos conhecidos, contar as mesmas histórias de sempre e virar noites cantando Beatles (se você gostar de Beatles). Você vai sentir saudades dos caminhos que fazia para sua escola, para a casa dos amigos, para os bares, para os shows e para a casa de parentes. Vai sentir saudade de algumas vozes e sorrisos que não falam nem sorriem mais, e de outros que não o fazem mais de onde você possa ver. Um dia, apesar de não parecer, você se acostuma.

 

Um dia você se acostuma a ficar um pouco sozinho. Você se acostuma a ir ao supermercado e voltar com as compras sozinho. Você se acostuma a voltar da universidade sozinho; a andar sozinho por aí, descobrindo cantos da cidade que antes que você desconhecia. Você se acostuma a fazer escolhas certas e, principalmente, erradas sozinho. Você se acostuma a ir à livrarias sozinho, a ir à praia sozinho e ver filmes no cinema só. Você se acostuma a aproveitar muito bem seu tempo sozinho, mas, às vezes, a não conseguir aproveitar direito. Você então se acostuma a acordar, viajar, morar e até viver  uma parte grande dos seus dias sozinho. Você se acostuma.

 

Um dia você se acostuma a tudo isso. Esse dia pode não ser hoje, amanhã, semana que vem nem nesse ano. Pode ser que demore ou não. Mas um dia, com certeza, você se acostuma.

 

Abraços.

O Natal paraense.

Não são raras as ocasiões em que eu escuto “caraca, você é ‘do’ Belém? Nossa, tá longe de casa, né?” por aqui pelo Rio. A distância é relativa, visto que em três horas de voo eu tô lá. Mas ainda existe bastante esse pensamento que o norte é muito longe do sudeste, ou que o nordeste é muito distante do sul. Coisas assim. Às vezes entendo, mas nunca fico chateado com comentários do tipo. Nem tem motivos para ficar. Até porque, quando eu paro pra pensar, eu vejo como Belém é mesmo muito distante em tanta coisa daqui. Muito diferente, eu digo.

Isso porque Belém é uma “cidade grande do interior”, como eu costumo dizer. Alguns costumes de cidades interioranas ainda imperam ali, e isso faz com que ela tenha uma cara meio diferenciada. E, eu acho, uma mística própria bem peculiar. Começando pelo simples fato (que dá nome a esse texto) de que o paraense, não só o belenense (ou belemense, ambos certos) tem dois natais. Um igual aos demais, onde só se compra presentes e come depois da meia noite, e o outro que realmente importa para nós: o Círio de Nazaré.

Pra quem não sabe, o Círio, na teoria, é uma festa religiosa católica. Mas na prática é bem mais do que isso. É o momento do ano em que o paraense fica mais alegre, que se sente mais em casa. É quando um sentimento quase que nacionalista surge e nós nos sentimos parte daquele lugar mais do que nunca. É uma festa sem tamanho, impressionante tanto para quem vive lá e está acostumado a isso quanto para quem vai pela primeira vez.

Todo outubro, desde o primeiro dia, ou até antes mesmo, a cidade já se prepara. Fica agoniada, ansiosa mesmo. Uma euforia estranha vai entrando nas casas e se embrenhando pelas ruas, desde os bairros mais ricos aos mais humildes. É um tempo em que nas ruas, durante as várias procissões, vê-se médicos, juízes, professores, feirantes e tantos outros profissionais de tantos ramos de trabalho. Mas ali, nas ruas, ninguém é nada disso. São todos paraenses, e apenas isso.

É um tempo que a gente costuma celebrar mais as coisas que realmente importam na vida. Família, amizades, amor, fraternidade, companheirismo e acolhimento. Tudo isso se materializa nos momentos em que come-se as melhores comidas do mundo (naquele momento, ao menos) as com as pessoas que amamos, sem muita cerimônia desnecessária, em clima descontraído, como um grande almoço de domingo. E nesses dias é bom ser um convidado, pois é quase impossível ser um péssimo anfitrião durante o Círio. Mesmo numa casa que não é a sua, você se sente parte daquilo durante aquele dia.

É também um momento incrível de fé para os religiosos. É claro que todo tipo de manifestação, seja solitária ou em cultos e igrejas, é válida e de igual importância. Porém, no Círio troca-se o dízimo e roupas bonitas e ar condicionado de igrejas diversas pelas clássicas blusas brancas simples, que sempre ficam imundas e fedidas de tanto caminhar nas ruas em procissão. Um tempo em que as pessoas vão pras ruas às vezes nem pra seguir junto à imagem da Santa, mas para dar comida a quem está ali, socorrendo quem desmaia de cansaço, ajudando aqueles que estão quase desistindo a terminar sua jornada de fé.

Como uma diáspora, os paraenses vão à Belém nesse tempo. De todos os cantos desse estado que é maior do que muitos países chegam pessoas em busca de agradecimento e festejo. Com fome de comer a comida que fica melhor ainda (se é que é possível) nesse dia. Com vontade de estar junto das pessoas que mais ama ali, recebendo a energia que vem da terra e de tudo que faz parte dela.

Vejo no Facebook que muitas pessoas que estudaram comigo nos anos de colégio mudaram-se também de estado, assim como eu. Seguiram o caminho natural de suas vidas. Nem todos conseguiram estar presentes hoje em Belém. Suas mensagens são sempre cheias de saudosismo e vontade de ver a cidade em festa. O sentimento deles é o meu, e por mais que, em muitos casos, não tenhamos passado de amigos de internet ou que tenhamos trocado um “oi” de vez em quando, estamos conectados, como os paraenses estão hoje.

Tenho muitas lembranças do Círio, todas ótimas. Lembro da imagem da Santa indo entrando na minha escola, de vê-la passar pelas ruas, de combinar com amigos até de se encontrar para ver o momento. Lembro de ver muitos amigos super-hétero-macho-alpha-testosterona que nuca havia chorado na minha frente cair em lágrimas de emoção. Certa vez, há mais tempo do que eu lembro bem, cantei num coral da minha escola enquanto a Santa passava por ela. Se hoje a situação já é complicada no coro da UFRJ, naquela época era uma tristeza. Mas foi bonito, isso foi.

É meu primeiro Círio longe de casa, e a sensação não poderia ser diferente. A saudade fica mais forte, mas a gente segura a barra.    Nessas horas é que percebemos o quanto aquele lugar está enraizado nas nossas vidas, e que o tempo passa depressa, mas ele para quando chega esse dia. Não há tristeza em mim, confesso. Pelo menos não o suficiente pra me deixar mal. A felicidade desse dia, mesmo longe de casa, consegue sobrepor qualquer coisa.

O Natal paraense é o Círio. Um tempo de ficar junto, de estar sempre próximo. Não é dia de se preocupar em gastar com presentes caros, reclamar da vida, ser ranzinza, brigar com os amigos, dar vexame, etc. É tempo de felicidade, para todos que quiserem. Independe da religião, de dinheiro no banco, de cor de pele, de posição política ou se torce pro Remo ou Paysandu (essa só paraense entende mesmo). É um tempo de amor acima de todo o resto. Todo resto mesmo.

Abraços.

Feliz Círio, Belém.

Mulher, você é linda.

Você é linda, mulher, quando prende o cabelo ou quando o solta; e também quando não tem cabelos longos, ou nenhum cabelo. Quando usa aquele vestido longo ou saia ou shorts curtos. Você é linda quando prefere usar muita maquiagem ou maquiagem nenhuma; quando tem estrias, celulite ou até uma espinha no rosto. É linda quando não cabe numa calça trinta e seis, porque ninguém é obrigado a caber numa roupa. É linda também quando é acima ou abaixo do peso, porque, às vezes, isso realmente não depende de você. E mesmo se depender, você ainda é linda.

 

Você é linda, mulher, quando quer beber, sair sozinha e se ver livre. Quando escolhe não casar, ou quando quer casar; quando prefere um bar, um boteco, ou quando gosta mais de ir dançar no sertanejo. É linda quando fala muito palavrão, ou pouco, ou até nenhum; quando não é “mocinha”, mas também quando gosta de ser. É linda mesmo sem saber cozinhar, limpar a casa, lavar a louça e ser uma boa esposa. Afinal, o homem não nasceu para ser um bom marido, então por que você tem que ser uma boa esposa (ou qualquer coisa assim)? Você não nasceu para fazer nada disso, e muito menos para ser esposa. Você escolhe, é claro.

 

Você é linda quando pinta o cabelo de azul, ou verde ou até mesmo de branco. Também é linda quando prefere ele natural, sem tinta. Você é linda quando gosta de videogames, futebol, rock, filmes do Tarantino e de HQs. Mas também é se não gosta de nada disso; se prefere jogos de cartas, falar de moda, de assistir vôlei, ouvir Jorge e Matheus ou Maria Bethânia, ver filmes só de vez em quando e gostar mais de livros em geral. Você é linda se prefere dançar funk a ouvir Chico Buarque, se gosta de ver filmes do Godard ou nem conhece essa pessoa.

 

Você, mulher, é linda se tem o corpo tatuado e piercings no rosto todo, e também é se não gosta tanto da ideia. Você é linda se não se preocupa em se depilar tanto, mas também é quando pratica isso regularmente. É linda mesmo que não consiga usar salto alto, que não use brincos e joias, não vá à missa todos os domingos e prefira cachorros a crianças. Você é linda se faz crossfit quase todos os dias, mas é igualmente linda se se sente melhor vendo séries e comendo pizza na sexta à noite.

 

Você é linda mesmo com as olheiras que você tem por causa da noite que virou estudando. Também quando abdica de tudo para estudar para uma prova, ou até se não quer se dedicar tanto. É linda se for inteligente, racional, exemplar, querida e popular no meio de trabalho/estudo. Mas também é se for mais reservada, na sua, quieta, tímida, não tão destacada intelectualmente quanto “deveria ser” e sentir as energias do universo ao seu redor.  Você é linda se acredita em signos ou acha que as pessoas fazem besteira naturalmente, sem precisar dos astros.

 

Você é linda se conseguiu sair de um relacionamento abusivo. Mas também é se ainda não conseguiu, pois isso não deve ser fácil. Você é linda se tem bunda pequena, peitos pequenos ou quase não tem peito. Também é linda se só tem um lado do peito. Se o seu cabelo é longo e sedoso, se é crespo e durinho, ou se ele começou a cair muito cedo. Você é linda se quiser ser virgem até o casamento, mas também é quando transa no primeiro encontro. Quando vai pra balada e pega geral, mais do que seus amigos homens, ou quando prefere só ir pra dançar.

 

Você é linda, mulher, se você gosta de mulher. Se gosta só de homens, ou de homens e mulheres. Você é linda, mulher, se nasceu homem. Se até hoje você é homem, mas ainda é mulher. Você é linda se não usa sutiã, se quer ser solteira sempre, se não quer ter filhos, mas depois muda de ideia e decide que quer.

 

Você é linda se, quando era pequena, seu vizinho, “amigo”, padrasto, pai ou qualquer homem abusava de você. Você não é a culpada. Você é linda se tem traumas disso até hoje, mesmo que tenha que escutar que a sua “saia curta pode ser a culpada”, que “você é que estava pedindo”, “o que você fazia sozinha àquela hora da noite?” ou “eu não te estupro porque você não merece”. De novo, mulher: a culpa não é nem nunca será sua.

 

Você é linda mesmo quando apanha do marido agressivo, quando sofre violência verbal no trabalho, quando precisa ouvir comentários machistas de algum professor, quando te rebaixam por ser mulher ou quando dizem que você tem culpa de quererem te estuprar. Você é linda quando aguenta firme e forte tudo isso, mas também é quando desaba em choro pelo peso todo nas costas. Você é linda quando precisa criar os filhos sozinha, pois o cara que te engravidou foi embora. Você é linda quando precisa estudar e trabalhar ao mesmo tempo, tendo crises de ansiedade e depois depressão, precisando tomar remédios controlados. Você é linda quando faz tudo isso e ainda te chamam de fraca.

 

Você é linda mesmo que olhe no espelho todos os dias e não aceite isso; que não veja beleza em si mesma, que se odeie, que se corte, que se mutile, que queira a sua própria morte. As pessoas não entendem porque não são você; mas a maioria não quer nem tentar entender. E deve ser difícil não se querer, ter vontade de ser outra pessoa, pelo fato de não se aceitar. Mas eu repito, mulher: você é linda demais. Mesmo que sempre encontrem algum motivo para te rebaixar, só por ser mulher.

 

Não sinta vergonha de ser mulher. Você é linda demais pra isso.

 

Abraços.