O Natal paraense.

Não são raras as ocasiões em que eu escuto “caraca, você é ‘do’ Belém? Nossa, tá longe de casa, né?” por aqui pelo Rio. A distância é relativa, visto que em três horas de voo eu tô lá. Mas ainda existe bastante esse pensamento que o norte é muito longe do sudeste, ou que o nordeste é muito distante do sul. Coisas assim. Às vezes entendo, mas nunca fico chateado com comentários do tipo. Nem tem motivos para ficar. Até porque, quando eu paro pra pensar, eu vejo como Belém é mesmo muito distante em tanta coisa daqui. Muito diferente, eu digo.

Isso porque Belém é uma “cidade grande do interior”, como eu costumo dizer. Alguns costumes de cidades interioranas ainda imperam ali, e isso faz com que ela tenha uma cara meio diferenciada. E, eu acho, uma mística própria bem peculiar. Começando pelo simples fato (que dá nome a esse texto) de que o paraense, não só o belenense (ou belemense, ambos certos) tem dois natais. Um igual aos demais, onde só se compra presentes e come depois da meia noite, e o outro que realmente importa para nós: o Círio de Nazaré.

Pra quem não sabe, o Círio, na teoria, é uma festa religiosa católica. Mas na prática é bem mais do que isso. É o momento do ano em que o paraense fica mais alegre, que se sente mais em casa. É quando um sentimento quase que nacionalista surge e nós nos sentimos parte daquele lugar mais do que nunca. É uma festa sem tamanho, impressionante tanto para quem vive lá e está acostumado a isso quanto para quem vai pela primeira vez.

Todo outubro, desde o primeiro dia, ou até antes mesmo, a cidade já se prepara. Fica agoniada, ansiosa mesmo. Uma euforia estranha vai entrando nas casas e se embrenhando pelas ruas, desde os bairros mais ricos aos mais humildes. É um tempo em que nas ruas, durante as várias procissões, vê-se médicos, juízes, professores, feirantes e tantos outros profissionais de tantos ramos de trabalho. Mas ali, nas ruas, ninguém é nada disso. São todos paraenses, e apenas isso.

É um tempo que a gente costuma celebrar mais as coisas que realmente importam na vida. Família, amizades, amor, fraternidade, companheirismo e acolhimento. Tudo isso se materializa nos momentos em que come-se as melhores comidas do mundo (naquele momento, ao menos) as com as pessoas que amamos, sem muita cerimônia desnecessária, em clima descontraído, como um grande almoço de domingo. E nesses dias é bom ser um convidado, pois é quase impossível ser um péssimo anfitrião durante o Círio. Mesmo numa casa que não é a sua, você se sente parte daquilo durante aquele dia.

É também um momento incrível de fé para os religiosos. É claro que todo tipo de manifestação, seja solitária ou em cultos e igrejas, é válida e de igual importância. Porém, no Círio troca-se o dízimo e roupas bonitas e ar condicionado de igrejas diversas pelas clássicas blusas brancas simples, que sempre ficam imundas e fedidas de tanto caminhar nas ruas em procissão. Um tempo em que as pessoas vão pras ruas às vezes nem pra seguir junto à imagem da Santa, mas para dar comida a quem está ali, socorrendo quem desmaia de cansaço, ajudando aqueles que estão quase desistindo a terminar sua jornada de fé.

Como uma diáspora, os paraenses vão à Belém nesse tempo. De todos os cantos desse estado que é maior do que muitos países chegam pessoas em busca de agradecimento e festejo. Com fome de comer a comida que fica melhor ainda (se é que é possível) nesse dia. Com vontade de estar junto das pessoas que mais ama ali, recebendo a energia que vem da terra e de tudo que faz parte dela.

Vejo no Facebook que muitas pessoas que estudaram comigo nos anos de colégio mudaram-se também de estado, assim como eu. Seguiram o caminho natural de suas vidas. Nem todos conseguiram estar presentes hoje em Belém. Suas mensagens são sempre cheias de saudosismo e vontade de ver a cidade em festa. O sentimento deles é o meu, e por mais que, em muitos casos, não tenhamos passado de amigos de internet ou que tenhamos trocado um “oi” de vez em quando, estamos conectados, como os paraenses estão hoje.

Tenho muitas lembranças do Círio, todas ótimas. Lembro da imagem da Santa indo entrando na minha escola, de vê-la passar pelas ruas, de combinar com amigos até de se encontrar para ver o momento. Lembro de ver muitos amigos super-hétero-macho-alpha-testosterona que nuca havia chorado na minha frente cair em lágrimas de emoção. Certa vez, há mais tempo do que eu lembro bem, cantei num coral da minha escola enquanto a Santa passava por ela. Se hoje a situação já é complicada no coro da UFRJ, naquela época era uma tristeza. Mas foi bonito, isso foi.

É meu primeiro Círio longe de casa, e a sensação não poderia ser diferente. A saudade fica mais forte, mas a gente segura a barra.    Nessas horas é que percebemos o quanto aquele lugar está enraizado nas nossas vidas, e que o tempo passa depressa, mas ele para quando chega esse dia. Não há tristeza em mim, confesso. Pelo menos não o suficiente pra me deixar mal. A felicidade desse dia, mesmo longe de casa, consegue sobrepor qualquer coisa.

O Natal paraense é o Círio. Um tempo de ficar junto, de estar sempre próximo. Não é dia de se preocupar em gastar com presentes caros, reclamar da vida, ser ranzinza, brigar com os amigos, dar vexame, etc. É tempo de felicidade, para todos que quiserem. Independe da religião, de dinheiro no banco, de cor de pele, de posição política ou se torce pro Remo ou Paysandu (essa só paraense entende mesmo). É um tempo de amor acima de todo o resto. Todo resto mesmo.

Abraços.

Feliz Círio, Belém.

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