O amor é uma rosa num campo árido.

O amor é como essa flor, essa rosa, que tem qualquer cor, e que nasce num campo árido. Surge ali, em meio a tudo que pode ser ruim muito antes de ser algo bom. Cercada de terras inférteis, onde a vida parece não ter onde ficar; rodeada de solidão, cinza ou até de cor da terra seca e dura. Sem nenhuma sombra, sem nenhum ponto para descansar. O amor, da mesma forma que essa rosa, nasce ali, num lugar que ele não teria condições.

 

Isso acontece porque ele é desse jeito mesmo: todo estranho e sem muitas regras. Ele não pede normas, embora, muitas vezes, seja exigente. Demonstra querer atenção e singularidade, e ainda busca exclusividade do seu amante. Isso se mostra na saudade que se sente quando se passa segundos após um “boa noite” ao telefone ou um “te vejo amanhã?” quando se despedem após um passeio. Precisa haver vontade de crescer, assim como essa rosa, que mesmo rodeada de tudo que não tem vida, cisma em não se entregar ao ato de murchar.

 

Da mesma forma que a flor colorida, o amor parece necessitar de paciência. Nenhuma planta cresce tão depressa quanto se gostaria. Isso de forma natural, pois é muito fácil criar algum fator externo que nos fará chegar a qualquer objetivo. No entanto, isso, às vezes, torna a flor defeituosa, cheia de manias, crescendo antes do seu tempo e sendo passível de não dar certo. O amor, por sua vez, é assim: ele demora, pondera, insiste em ir devagar para não perder nada no caminho. Se fosse tão apressado, cresceria em um ritmo que nem ele acompanharia, e passa despercebido por tudo o que importa. Torna-se um amor apressado, que da mesma forma que nasce na correria, morre na extrema velocidade.

 

O amor, em várias vezes, nos machuca. As rosas têm acúleos (“espinhos”), que nos ferem e furam se formos rápidos e desatentos demais. Se apenas olharmos para suas pétalas brilhantes e sentir o seu perfume, e não termos a noção de que o nosso toque pode causar cortes, então estamos fadados a nos mutilar sempre. E no amor é assim: é preciso estar atento, pois, às vezes, o tal amor que costumamos chamar dessa forma, na verdade, é apenas a beleza que notamos de primeira. É só o cheiro agradável que inalamos de olhos fechados.

 

Apenas depois, tardiamente, percebemos que há mais além da aparência de antes; há uma pessoa ali que dentro de si tem muitos espinhos e coisas que podem machucar, mesmo que contra a sua vontade. Nem sempre vale a pena se jogar em pessoas que mais podem nos ferir do que fazer bem. Mas, isso é fato, alguns apenas machucam porque sofrem demais por dentro, e essas são as que mais precisam de ajuda; precisam de um amor que faça os espinhos pararem de crescer, e que a dor seja passageira, quase sem se sentir.

 

Temos o costume de buscar coisas na natureza e deixa-las em nossas casas. Animais, plantas, pedras, coisas para somar ao nosso lar. Fazemos isso com o amor também, pois colocamos ele nos nossos dias. Sem nos darmos conta, ele se torna tão presente quanto o latido do nosso cachorro, quanto as saídas para leva-lo para passear ou quanto as idas rotineiras ao veterinário. E passamos a ver o amor em tudo isso que fazemos, associando tudo a ele, em absoluto. Lemos seu nome em jornais, vemos alguém usando uma roupa que ele gosta, escutamos uma música que nos lembra dele, sentimos o seu cheiro por em alguns lugares e por aí vai. Vira parte da nossa rotina.

 

Por ser algo que se assemelha a natureza, ele é livre. Na verdade, é aí que ele se diferencia: o amor não se prende em uma gaiola ou numa coleira. Ele gosta de estar solto, pois nasceu para isso. Não se pode reprimi-lo nem obriga-lo a fazer nada que ele não queira. Essa liberdade existe nele desde sempre, e assim ele viverá, pois sem ela o amor não sobrevive.

 

E, da mesma forma que qualquer coisa viva, o amor também morre. Infelizmente, mais do que o resto, isso não se controla. Assim como a rosa, que mesmo forte por ter nascido num lugar nada favorável, precisa ser regada, podada levemente, cuidada e amada. Caso contrário, ela desmanchará em si mesma, perdendo toda a força que a sustenta. O amor não sobrevive por si só, necessitando de vontade para mantê-lo vivo, pulsante e belo. É preciso estar atento sempre, pois muito facilmente um descuido nosso fará com que ele parta mais cedo. Muitas vezes ele morrerá, inevitavelmente.

 

Pode ser que uma chuva muito forte caia e tire as raízes que sustentavam o amor, jogando-o para longe da gente. Pode ser que uma praga passe, destruindo suas pétalas e o seu cheiro, afastando-lhe de nós. Pode acontecer, também, dele sentir que precisa ir embora, que não é no nosso jardim que ele deve ficar. Nem sempre o amor nasce onde devia, e por isso mais sofre do que promove felicidade. Às vezes a vida nos mostra isso aos poucos, que nem todo amor, por mais bonito, sincero, verdadeiro e forte que seja, nasceu para ser nosso. Acontece, e entender que isso faz parte pode ser difícil, mas se realmente ama-se um amor, é preciso entender que ele não nasceu para ser nosso, e sim de outro jardim. Esse é o maior ato que se pode fazer por uma rosa.

 

No fim, quando ele morre, sobra uma planta que precisa voltar para a terra. E assim nós fazemos com o tal sentimento: guardamos o que sobrou, com ou sem remorsos, no jardim que fica dentro do nosso peito. Porém, mesmo que não pareça, o terreno ainda que árido, é fértil o suficiente para que outras flores nasçam ali, dando mais vida ao canteiro. Algumas pessoas, no decorrer da vida, terão muitas flores enterradas ali; outras talvez tenham apenas um ou duas. Mas o amor não se mede em quantidade. Uma única rosa, às vezes, vale muito mais do que um buquê inteiro de flores despejadas no nosso próprio jardim.

 

Abraços.

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