Mês: novembro 2016

Fábula III: No fim da floresta.

Certo dia, um homem saiu de sua casa transtornado e infeliz de uma forma que nunca imaginara. Dentro de si havia algo que não lhe deixava viver como antes. Algo que sempre lhe puxava para baixo, lhe deixando cansado, triste, amargurado e, muitas vezes, com medo. Tonto e sem muito senso de direção, buscou a mulher mais velha da sua vila, na esperança de encontrar alguma resposta ou alguma cura.

 

As pessoas, à medida que ele caminhava para a anciã, olhavam para ele, sussurrando, dizendo que era um homem ruim, que era castigo divino, que a sua maldição era ser infeliz mesmo. Ele sabia que falavam dele, mas tentava ignorar. Porém, dentro de si, aquelas palavras doíam muito, machucando como se estivessem colocando facas na sua barriga. Até mesmo os que não falavam nada lhe pareciam desconfiados, e ele imaginava o que pensavam dele. Isso o fazia sentir mais medo e, então, buscar o isolamento sempre que podia.

 

Chegou até a cabana da velha. Entrou e ela estava ali. Era cega e não conseguia mais andar, passando os dias aconselhando os mais novos e cuidando da saúde do seu povo. O homem pediu ajuda. Contou o que sentia, dos medos, das tristezas e de como parecia que seus dias haviam entrado em uma escuridão sem precedentes. A mulher respirou fundo. Conversaram por mais algum tempo até que ela lhe disse para ir até a floresta que havia ali próximo. Ela lhe disse:

 

– Siga pela trilha até seu fim. Quando ela mudar de direção, permaneça. E encontre a cura.

 

Ele agradeceu e partiu. Do lado de fora, as vozes das pessoas continuavam falando, mas agora ecoavam na sua mente de forma violenta. Sentia dores na cabeça e tontura, e acabou vomitando depois dos primeiros passos. Sentiu vergonha por isso. Levantou e foi correndo para a floresta.

 

Encontrou a tal trilha logo no início. Seguiu as palavras da anciã e percorreu o caminho sem sair do rumo. Já estava escurecendo, pois naquela época do ano a noite chegava mais cedo. Sentiu frio, mas não se importou. Continuava por ali. Queria a todo custo encontrar a cura para sua maldição, ou o que fosse aquilo. E ficava pensando: o que será que há no fim? Uma planta? Uma fruta? Um espírito? Um mago? Em determinado ponto indagou a si mesmo, com raiva, por que não perguntou para a velha o que havia no final.

 

– Idiota, por que não perguntou? – disse em voz alta.

 

Recorrentemente ouvia vozes dentro de si. Pareciam surgir do nada, mas às vezes também pareciam reais. Como se viessem de trás das árvores ou dos buracos onde os animais faziam suas tocas. Em determinado ponto, confuso e sem saber muito o que fazer, correu. Correu depressa e apressadamente, ainda que sentisse que sua energia não estava mais dentro de si. Sentia as sombras ao redor lhe perseguindo, indo de árvore em árvore. “Demônios! Espíritos ruins! Me deixem!” ele pensava, gritando dentro da sua mente.

 

A fadiga tomou conta de si e tropeçou, batendo seu rosto no chão. Quando se levantou, já não estava mais na floresta. Olhou para trás e viu a trilha fazendo uma curva bem onde ele caiu, desviando-se do caminho e continuando reto. Olhou pra frente e viu um caminho de terra de pequeno que logo terminava em um precipício. Andou devagar até a beirada e olhou para baixo. Como estava escuro, não dava para ver o fim da queda; porém, era alta, muito alta.

 

Com falta de ar, o homem afastou-se da queda e se sentou no chão. Começou a pensar e a ouvir as tais vozes. Ouviu a voz da mulher, levada embora por alguma doença há pouco tempo. Do seu filho, que foi lutar à mando do senhor daqueles terras, e que morreu sem saber onde o corpo foi deixado. Pensou nas coisas que ambos deixaram para trás, das lembranças que nunca saiam da cabeça transtornada daquele homem.

 

Em determinado momento, sentiu o corpo pesar demais. Sair do chão estava mais difícil. Respirar exigia esforço, assim como manter a mente focada. Sentia os braços, as pernas, o pescoço, tudo tremendo, como se sentisse frio; um frio que vinha de dentro dele mesmo. Não se aguentou e começou a chorar, sem saber o porquê. Então pensou se o “fim” que a velha disse não estava à sua frente: o precipício. O fim de tudo, inclusive das dores. Pensou muito, muito mesmo, e decidiu que talvez só aquilo lhe servisse.

 

Levantou, com muito esforço, e caminhou devagar. Sentiu o vento gelado que vinha da queda e olhou para as montanhas que pareciam rodear as matas à frente. Ouvia o som de folhas se batendo, além das constantes vozes. Não sentia que havia mais motivos para viver, e que aquele era o caminho mais rápido para reencontrar as únicas pessoas que lhe traziam amor. Respirou fundo e pensou em cair.

 

Mas o medo foi maior. Ele se jogou para trás, caindo de costas no chão. Sentiu raiva por ter medo, por preferir sofrer sempre a terminar com toda a dor. Nesse instante, um pequeno pássaro azulado apareceu. Era do tamanho de uma mão, e parecia brilhar de leve com a fraca luz que refletia da lua. Ele olhou para o homem, que reparou sua presença, e disse:

 

– Está perdido?

 

O homem, cordialmente, respondeu:

 

– É uma pergunta difícil de responder, pequeno. Mas o meu caminho parece ter terminado bem aqui.

 

– Mas aqui não há nada senão uma queda muito grande. Você sabe voar?

 

– Não, pequenino. – respondeu o homem, com a voz mais amena.

 

– Então se você cair dali vai se machucar. Você não quer se machucar, certo?

 

Percebendo a inocência nas palavras da pequena ave, mas ainda sentindo culpa dentro de si, o homem chorou de novo. Só depois recuperou o fôlego e disse:

 

– Você não entenderia. É algo que me atormenta, aos meus sonhos, meus dias, todo instante é como se estivesse morrendo devagar, como se, no fundo, eu estivesse morto.

 

– Mas você está vivo, certo? – perguntou o pássaro.

 

– Sim… – e a resposta pareceu limpar a voz dele, como se estivesse entalada na garganta – …eu estou vivo, sim.

 

– Então, conte-me mais do seu sofrimento. Mas vamos sair daqui, está frio. Se seguirmos pela trilha acharemos um lugar mais quente. Venha!

 

O homem se levantou e seguiu o pequeno pássaro enquanto ele voava entre os galhos baixos. Passaram horas conversando, sobre os mais complexos ou simples assuntos. Sem jamais sair daquela trilha. A noite passou depressa, mais do que o normal, e logo os raios do dia passavam entre as folhas das árvores. Então, a trilha terminou bem onde ela havia começado.

 

– Como isso é possível? – perguntou o homem ao amigo voador.

 

– Não sei – respondeu sinceramente o pássaro – às vezes as coisas não se explicam mesmo. Mas, em todo caso, sempre que vier à floresta, fique na trilha. Caso saia, pode me chamar, tudo bem?

 

– Certo, lembrarei disso. Muito obrigado!

 

– Ah, e não se esqueça: só se jogue de um lugar muito alto se você souber voar. Senão você cai, e não vai poder aproveitar o voo.

 

Então se separaram. O homem não ouvia mais vozes no momento. O corpo já não reclamava. O dia parecia ter mais cor e, acima de tudo, ele lembrou-se de que estava vivo.

Anúncios