Quando perdemos um pouco da gente.

Hoje (03/12/2016) faz uma semana que um tio morreu. Naquele mesmo intervalo de sete dias, mais ou menos, morreu Fidel Castro e o mais amado time de futebol do Brasil no momento (junto de jornalistas e comissão técnica), a Chapecoense. Foram situações distintas: o líder cubano padeceu pela idade avançada, a equipe de Santa Catarina foi levada por um acidente de avião e o meu tio por inúmeras doenças e complicações que adquiriu no decorrer dos seus anos. É difícil falar da vida, mas penso que é muito mais complicado (e em momentos assim eu tenho mais certeza ainda disso) falar da morte.

 

“Pessoas morrem todos os dias”, eu leio no Facebook. De fato, isso é bem verdade. Nesse instante deve haver alguém, em alguma parte do mundo, morrendo por algum motivo. Pessoas morrem de fome, pela violência, pela doença, pelo tempo e por tantas outras coisas. A morte faz parte do ciclo biológico de tudo que tem coragem e disposição para viver. E digo isso pois estar vivo nem sempre é algo fácil, estando num mundo onde as pessoas se abandonam e se trocam por qualquer coisa que possa ser comprada, percebendo, no fim, a solidão em que suas mortes vão acontecer.

 

E é meio sobre isso que eu, nesses dias de luto, fiquei pensando por algumas horas. Sobre como a morte nos machuca tanto não pelo ato em si, mas pelo que ela representa. Quando alguém se vai definitivamente sobra a saudade, e dela deriva tudo: nostalgia, mágoa, ressentimento, tristeza e desilusão. A questão é que, apesar de ser algo normal, a gente nunca se prepara totalmente para a morte. Não existe isso. Não existe, pois a morte não nos avisa quando vai bater à porta para nos chamar.

 

Se soubéssemos não deixaríamos para a amanhã todas as coisas que podemos fazer hoje e que são importantes não apenas para nós, mas para quem nos ama. Por exemplo, hoje, você já disse a alguém que lhe ama? Quero dizer, de verdade, e não apenas o convencional “te amo” que se diz quase como “bom dia”, da boca pra fora. Já disse para um amigo, um namorado, mãe ou pai, para seu cachorro, para seu tio que o ama? Não? Talvez seja bom dizer, pois a gente nunca sabe o que acontece depois de acordar no dia seguinte. Se acordarmos.

 

Estamos tão concentrados em coisas banais que nos esquecemos de que, um dia, tudo termina. Acumulamos status, dinheiro, fama, bens materiais que nada valem, no fim das contas. Tudo isso vale bem menos do que um abraço sincero de alguém que sempre está ao seu lado, embora, muitas vezes, não mereçamos nada desse carinho. Não se dá valor para o que é de graça, essa é a triste verdade. A morte não aceita cartão de crédito nem nada disso. Não pechincha, e por isso temos a sensação de impotência perante ela.

 

Quando alguém que admiramos se vai, junto da pessoa vai algo de nós. Como disse Eliana Brum em um artigo seu: “Uma versão de nós morre sempre que morre alguém que amamos e que nos ama, porque essa pessoa leva com ela o seu olhar sobre nós, que é único. Uma parte de nós também morre quando não podemos mais compartilhar a mesma época com quem fez do nosso mundo o que ele é.” Penso exatamente como ela diz. Somos feitos de pessoas que viveram conosco ou que, de alguma forma, nos afetaram por estarem vivas. Por isso sofremos tanto quando alguém querido se vai, pois com ele vai uma parte de nós também.

 

Nesse caso em que me levou a escrever o texto, foi uma parte muito bonita da minha infância (a fase, sem clichê nem forçar a barra, em que eu fui mais feliz). Frequentava muito a casa dele, geralmente pra almoçar e brincar com o filho mais novo, um primo que cresceu comigo. Tenho ótimas lembranças e nenhuma ruim. Não estava por perto quando ele começou a piorar, nem acompanhei suas constantes idas ao hospital. Pra mim, não era nada tão sério. Até semana passada. Então eu percebi, quando recebi a notícia diretamente do meu avô, irmão mais velho dele, enquanto estudava violão, o quão sério era aquilo.

 

Não perdi totalmente algo de mim, pois ainda guardo muito bem e com muito cuidado as memórias e momentos passados que estive com ele. Da próxima vez que for à Belém, visitar a família, infelizmente não o verei. Só esse ano, dois dos meus tios mais queridos foram embora muito, muito antes da hora. Não vai dar pra ver eles, isso eu sei. Porém, ainda os vejo nas fotos e saudades que os dois deixaram para nós. Odeio isso de despedidas, mas confesso que nesses dois casos queria ter dito um “até mais tarde” pra eles.

 

A vida acaba muito rápido e num momento que a gente não espera. Provavelmente não teríamos feito tudo que queríamos, todos nossos planos e tudo mais se, por algum motivo, a gente deixasse essa vida amanhã. Mas, penso, mais importante do que nossas conquistas pessoais, é o motivo pelo qual seremos lembrados por aqueles que nos amam. E, com certeza, a gente sente muito mais falta de um abraço de alguém querido do que nossa beleza física, grana, status e todas essas coisas que acabam muito fácil.

 

Abraços.

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