Questão de sorte.

Infelizmente, algumas coisas não dependem tanto da gente. Não escolhemos uma série de situações e sentimentos que fazem parte dos nossos dias. Às vezes não acordamos dispostos e só queremos estar na cama mesmo dormindo. Outros dias parecemos nos estressar demais com coisas tão pequenas, como a água quente do chuveiro não funcionar ou o cobrador do ônibus não ter troco. E às vezes nos apaixonamos por alguém que não tem nada a ver conosco, parecendo ser um “erro” até, mas que vira algo real. E nenhuma dessas coisas tem de fato explicação.

 

Ser feliz, no fundo, é uma questão de sorte. A vida é um completo acaso, em que podemos ter tudo o que queremos e, ainda assim, estarmos tristes e desanimados, ao passo que mesmo com contas pendentes e aluguel atrasado no fim do mês podemos ter disposição pra ir à praia e sorrir. Encontramos motivos aleatórios pra felicidade, mas às vezes nem os mais óbvios são capazes de nos trazer alegria. É possível que isso nos cause dúvidas; perguntas diversas dos motivos pelos quais a felicidade parece faltar no nosso dia.

 

De novo, acredito que a resposta é porque a felicidade é uma questão de sorte. Ser feliz depende de tanta coisa que nem sempre vem de nós mesmos. É uma questão de sorte escolher uma carreira em que você, apesar de todos os problemas vindos dela ou das consequências dela (salários baixos, pressão social, preconceito, etc), vai se sentir disposto, sempre, a acordar cedo (ou no horário que for) para trabalhar. É claro que nem sempre se tem vontade de trabalhar, mas a questão é fazer disso uma parte de si, e não uma tortura. É uma questão de sorte se achar nesse caso.

 

Também requer sorte ter uma capacidade de aguentar o mundo ao seu redor. Há tanta dor por aí, em cada metro que percorremos, que fica difícil sorrir sempre. Ver as desgraças alheias, que muitas vezes nem tem a ver conosco, nos pegam de jeito; nos deixam pensativos, reflexivos e, em alguns casos, desacreditados. É claro que uma hora ficamos até mesmo anestesiados com tantas coisas ruins acontecendo, mas ainda assim requer sorte para não nos deixarmos levar, por exemplo, ao ver uma mulher pedindo dinheiro segurando um bebê no colo sentada na rua.

 

É preciso ter sorte para amar. Talvez mais do que a maioria das outras situações. É necessário, pois não adianta a quantidade de amor que há numa pessoa, a enorme vontade de estar com outra, a dedicação, a preocupação e o companheirismo se, do outro lado, a outra pessoa simplesmente não sente o mesmo. E isso é mais do que uma simples “reciprocidade é o mais importante”, “é preciso haver sacrifício dos dois lados” e essas frases feitas. Amor, o mais simples e ao mesmo tempo grandioso tipo, não sobrevive se não existir nos dois lados. Simplesmente não existe mesmo. Pode ser muita coisa, mas amor não deve ser.

 

É difícil encontrar alguém que possa compartilhar esse sentimento nos instantes menos propensos. Amar sem maquiagem, sem dinheiro, sem alegria gratuita o dia todo, sem a saúde lá em cima, sem corpo tão bonito, sem todas essas coisas. É difícil. É questão de muita sorte sentir o mesmo amor que se está dando vindo de quem o recebe. É muito complicado achar alguém que você possa amar cego: sem ver o rosto, sem ver a beleza física, sem ver os olhos, sem ver nada disso; vendo apenas as coisas que fazem dessa pessoa algo além de um corpo. É questão de muitíssima sorte.

 

Com toda a certeza a felicidade, assim como a maioria das coisas subjetivas (e que requerem sorte), é muito relativa. Podemos ser felizes com pouco ou com muito. Podemos nos alegrar com coisas bem simples ou apenas com grandes atos e gestos. Tem gente que ama receber um presente de aniversário, mas outros apenas por lerem uma mensagem de algum conhecido que lembrou-se dele nesse dia já vale muito. Não há nada de errado em sentir-se feliz por motivos distintos, claro que não. Mas, por mais variadas que sejam as opções, no fundo, saber o que nos alegra e ainda por cima conseguir ter essas coisas é, em maior ou menor grau, questão de sorte.

 

Nem todos tem tanta sorte. Infelizmente. É capaz de muitos de nós vivermos com azar a maior parte da vida. Pode ser que sim, pode ser que não; é puro acaso. Mas ao mesmo tempo em que pode haver azar, a sorte pode aparecer sem nenhum aviso prévio. E de repente estaremos contentes, de bem com nós mesmos, dispostos a seguir em frente, tendo dentro de nós amor e recebendo o mesmo de fora. Mas isso, acima de tudo, de esforço e dedicação, requer sorte.

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