A saudade faz parte da gente (o que é ótimo).

Hoje acordei seis e meia, mais ou menos, com o sol forte batendo na minha cara. Eu esfrego o rosto, pego os óculos para ver as horas e me culpo por não dormir mais. Então eu olho para o lado e vejo, num sofá-cama que tenho aqui, um cara deitado. Ele ainda dorme, e provavelmente vai dormir até meio dia (e até o fim do dia, se deixar). É um dos meus irmãos, o do meio, desde que a caçula nasceu. Olhando essa cena, voltei uns anos atrás.

 

Voltei para os dias em que a gente dividia o quarto todos os dias. Eu deitava na cama de cima e ele na de baixo. Ficávamos jogando travesseiros e almofadas um no outro enquanto queríamos dormir, só pelo prazer de irritar o irmão. Ficávamos, às vezes, emburrados quando perdíamos para o outro no videogame (eu nunca perdia, só quando deixava ele ganhar). Das manhãs em que ele nunca tomava café, enquanto eu ficava no meu pão com manteiga e café com leite. Das vezes em que descíamos juntos para irmos para a escola.

 

Hoje não vou mais a escola. Nem sempre tomo café com leite de manhã, não jogo mais videogame nem nada disso. Mas nesses dias em que o meu irmão (que enquanto escrevo esse texto ainda está dormindo) esteve aqui, lembrei como é dividir o quarto com alguém. Uma bagunça só, além da discussão para desligar a TV cedo pra dormir e reclamação de que está quente, sabendo que isso não vai adiantar de nada.

 

Mas o que mais me chama a atenção é que ele, nesse momento, representa toda a saudade que eu tenho de casa. E quando eu digo casa me refiro a todos os lugares e pessoas que eu amo que ficaram por Belém quando eu saí de lá. Pais, amigos e família, além de lugares específicos e momentos incríveis. Tudo isso passa por mim só pelo fato de eu estar vivendo esse momento que vivi por dezoito anos da minha vida (quatorze, porque antes esse peste aqui do lado não existia).

 

Não passarei o final do ano com a família nem com a maioria dos velhos amigos. Passarei com um dos mais antigos e eternos amigos (irmão), mais dois irmãos que a vida me deu (e que conheço desde antes do meu irmão de sangue nascer) e outros amigos que conheci aqui no Rio. Não escolhi isso, mas confesso que não fico mal. E nem é por estar no Rio de Janeiro na virada do ano, não. É por estar com as pessoas certas em momentos que nunca podemos dizer se são certos ou não.

 

O ano acaba hoje, e ainda penso, só agora nessa manhã, em tudo que aconteceu. Quase tudo, claro. Volto para o aniversário da minha mãe, em janeiro, depois parto para o Carnaval com algumas das pessoas que mais amo no mundo, aqui no Rio mesmo. Depois, em março, volto para um recesso da universidade, em Belém, e no mês seguinte é aniversário desse cara que ainda dorme aqui do lado e, ao mesmo tempo, retorno às aulas. Vem maio com dia das mães e aniversários de grandes amores. Junho quase cometo seppuku (figuradamente, claro) de tanto estresse e emocional destruído por causas diversas. Julho, no final, até os últimos dias de agosto, o ócio impera quando volto pra minha cidade.

 

Segue setembro, um mês meio triste, eu diria, mas que revejo alguns amores que moram fora, tipo em Sampa e seus interiores, e no mês seguinte passo o Natal Paraense longe do Pará. Novembro faço vinte anos sem saber direito como cheguei até aqui inteiro, e em dezembro as coisas vão caminhando devagar para o seu desfecho. São algumas coisas que eu lembro, em um ano que, talvez mais do que os outros, ficar sozinho foi uma constante. Não que isso seja tão ruim, depois de um tempo.

 

Mas, às vezes, confesso que a saudade fica mais forte. Ela nunca morre, esse é o fato. Ela só dá uma volta, um tempo, tira uma soneca, mas sempre está dentro da gente. Depois desse ano de muitas alegrias e muitas tristezas também, como sempre, espero sentir mais saudades ano que vem. Porque, no fim, saudade significa que temos falta de algo bom dentro da gente, e apenas quem foi feliz em algum momento pode sentir saudade.

 

E, apesar de tudo, eu posso dizer que sou mais saudade do que outra coisa. O que é bom, no fim, não? Meu irmão ainda dorme. Logo mais ele acorda, morrendo de fome. Vamos sair para comer juntos, em algum canto da cidade. Como nos velhos e maravilhosos tempos.

 

Abraços.

 

E um maravilhoso 2017.

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