Fábula IV: O segredo do Rei.

Havia um reino vasto mais ao sul, cercado por florestas belas e de terras férteis. Esse reino tinha um rei, que governava já há muitos anos, mais do que seu pai, rei antes dele, conseguiu. Já tinha idade avançada, mas continuava belo. Era respeitado, temido e admirado. Tinhas filhos tão belos quanto podia sonhar, além de uma esposa que lhe fazia ainda acreditar que havia amor no mundo. Era rico e poderoso, vivia em tempos de paz e sempre estava rodeado pela família. Era tudo muito bom. Mas o rei tinha um segredo.

 

Todas as noites, quando sua rainha dormia, ele levantava e ia devagar até o topo de uma de suas torres. Fazia todo o caminho sozinho e em silêncio. Quando chegava lá em cima, olhava para os céus. Normalmente, a escuridão repleta de estrelas, onde os deuses deveriam estar, lhe trazia conforto. Mas já há tempos, desde que o rei começou a ir até aquele local sozinho, o céu não era mais motivo de alegria ou algo parecido. Na verdade, ele ia ali para chorar. E todas as noites ele chorava lá de cima, para que ninguém o visse.

 

Todos os dias sua vida eram levados normalmente: sorria nos jantares, contava piadas e ria de outras, aplicava leis, ensinava os filhos e amava sua mulher incondicionalmente. E, novamente, todos o admiravam e sentiam até inveja de sua alegria. Mas por dentro era como se houvesse uma lacuna, um buraco escuro e sem preenchimento. Algo onde ele sempre tentava colocar alguma coisa, mas que sempre se consumia e, no fim, só sobrava o vazio. Mas ninguém via nada daquilo. Apenas ele, todo dia e todas as horas.

 

Depois de um tempo, cansado de tudo aquilo, foi ao encontro do sacerdote do castelo. O religioso não via o rei pessoalmente fazia logos dias, e ficou surpreso. Conversaram brevemente e combinaram de se encontrar de noite, quando todos estivessem dormindo, no topo de uma das torres.

 

Passaram-se as horas e o sol foi dormir. Eles estavam ali juntos. O sacerdote então perguntou qual era o motivo daquele encontro. O rei queria responder, mas não conseguia. Era como se seu peito estivesse mais fundo, mais dolorido e que seu coração acelerasse. Ele então começou a chorar, e o seu convidado ficou surpreso. Nunca vira seu rei em prantos. Tentou acalanta-lo, dizendo palavras amigas e reconfortantes. Mas não adiantaram muito.

 

– No fim, não sei dizer o que me deixa assim – começou o rei, soluçante – Mas sinto como se não houvesse nada dentro de mim, como se nada do que eu tenho realmente preenchesse essa ausência. O que está faltando? Você pode me dizer?

 

– Meu senhor – respondeu cautelosamente o sacerdote, com a mão no ombro do rei – Os deuses teriam de ser consultados para que eu pudesse lhe dizer com mais precisão. Porém, temo que haja algo em sua vida que lhe preocupa. Nossa rainha estaria grávida? Algum de seus filhos adoeceu? Há ameaças de fora de nossas terras? Os impostos estão sendo pagos em dia? Algo desse gênero, meu senhor?

 

Depois de uma longa pausa, o rei respirou fundo e disse:

 

– Não. Não é nada disso. Apenas acho que, como eu pensava desde meus tempos mais jovens, estou sozinho. Posso ter tudo isso que você disse, mas ainda me sinto só. Sinto como se nem ao menos soubesse responder tais perguntas sem aperto no peito. Acho que o que me diziam quando era mais novo era verdade: “nós morremos primeiro quando estamos vivos”. Sinto que meu mundo de quando era jovem está morto, e apenas uma parte menos alegre ainda vive, que é essa a qual eu vivo hoje.

 

O sacerdote não esperava por aquilo. Ficou sem palavras, apenas observando os olhos do rei, vidrados no horizonte que eram seus domínios. Pensou em dizer alguma coisa, mas sentiu que não havia nada para ser dito. Então o rei voltou ao choro e às palavras:

 

– Às vezes penso nas minhas escolhas. Fico refletindo se escolher a mulher que amo realmente me fez tão feliz assim; pois sinto que ela não me ama tanto quanto eu a amo, e se eu fiz errado em não aceitar outras pretendestes que claramente me admiravam mais, queriam estar mais comigo. Penso se ter filhos com elas não seria mais alegre, se meus dias não estariam mais completos. E se não estive tão presente na vida de amigos antigos, que estão em sua maioria mortos agora, ou distantes demais para saber se realmente vivem ainda. Não os vejo há tantos anos que nem sei o que fazem, se ainda tem alegria ou apenas sobrevivem.

 

Soluços vieram.

 

– Então penso se escolhi certo ao abandonar tantas coisas no passado. Se meus caminhos escolhidos foram certos, ou se apenas me acostumei a eles de tal forma que não faz mais diferença. Digo tudo isso, meu caro, pois em todos os dias da minha vida, não importa o tempo, havia uma parte de mim que se sentia sozinha. Como se houvesse uma voz dentro da minha mente que repetia “seu destino é a solidão”. E então as dúvidas aparecem aos montes, como corvos em corpos mortos.

 

O sacerdote disse:

 

– O senhor gostaria que eu consultasse os deuses?

 

O rei apenas respondeu, sorrindo e virando-se para o religioso:

 

– Não é necessário. Eles não sabem de nada mesmo. Pode ir, obrigado pela companhia.

 

O sacerdote fez uma reverência e começou a caminhar de volta. Porém, virou-se e viu seu senhor olhando para o céu de novo. Nessa hora, suspirou e disse:

 

– A vida, meu senhor, é por si só triste. O sentido dela é dado por nós, que pode vir de cima ou de dentro de nós mesmos. Talvez o senhor tenha perdido o sentido da sua. Mas isso não quer dizer que ele não possa ser achado novamente. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar. Boa noite, senhor.

 

O rei ouviu isso e depois ouviu os passos indo embora. Então ficou o silêncio. Ele ouvia agora o vento batendo em sua roupa e barba longa. Escutava o coração bater rápido e depois se acalmar. Sentiu o rosto ficando molhado e uma lágrima escorrendo, e depois nada disso. Sentiu o mesmo vazio de antes, mas, de alguma forma, ele parecia um pouco menor. Um pouco menos doído. Um pouco, bem pouco, menos solitário.

 

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