Mês: março 2017

Se um escritor se apaixonar por você.

O fato é que se um escritor (a) se apaixonar por você eu lhe desejo sorte. Não por ser algo ruim ou bom, porque isso é relativo sempre. Mas porque, na maior parte das vezes, você vai precisar de sorte com ele (a). Isso porque o escritor(a) é uma pessoa estranha, antes de tudo.

 

É uma pessoa que está sempre te observando, captando todos os seus detalhes e manias, suas roupas favoritas, seus costumes tipo: jogar o cabelo pro lado quando está feliz ou roer as unhas demais. Ele (a) vai até “jogar na sua cara” o fato de saber de cor as suas manias, chegando ao ponto de adivinhar sua reação de forma bem inusitada e estranha. É alguém que gosta de gravar as coisas que fazem parte de você, porque assim ele (a) verá, quando outras pessoas fizerem o mesmo, você: mesmo que vocês possam estar longe um do outro. É a forma que ele (a) encontra para te ter na mente sempre que a saudade bater ou quando quiser se inspirar.

 

Você vai perceber que ele (a) pode ser bem esquecido de algumas coisas. Vai acabar se esquecendo das chaves, de levar dinheiro pra sair, dos compromissos que tinha marcado há três semanas e por aí vai. Mas você também vai perceber que ele (a) não vai se esquecer do seu filme favorito, do que você gosta de comer quando está de mal humor, da cor favorita com que você pinta as unhas, dos seus sonhos de viagem e das suas músicas favoritas. Vai citar o seu autor de livros favorito, mesmo que ele (a) sequer tenha lido um livro dele, só porque ele (a) sempre se lembra de ti. Vai ter certeza de que quando você quer ficar só, na verdade, você precisa dele. E ele irá. Vai saber de coisas que você mesmo não saberia, e vai te contar essas coisas sempre nos escritos dele.

 

Em geral, são seres bem sensíveis, por isso pode esperar declarações melosas e até meio bobas. Acostuma-se a receber poemas pelo celular, textos em pequenos pedaços de papel amassados e até cartas pelo correio (às vezes até com mais de uma página). É capaz de, numa saída de vocês, ele (a) puxar o celular ou um bloquinho de notas e escrever na hora um poema pra você. Ele (a) vai te comparar às coisas mais cafonas, mas bonitas até, que sempre vêm à mente: vai dizer que seus olhos brilham como estrelas, que seu sorriso é um caminho para quem anda perdido e que seu abraço é um poço de calor num inverno que nunca termina. Coisas do gênero. Vai colocar textos dentro dos seus livros, e ainda por cima escrever textos nas páginas dos livros. Vai te enviar várias coisas assim, a ponto de você se irritar ou ficar sem paciência para lê-los. Mas mal você sabe é que ele (a) tem muitos outros guardados e que nunca te manda.

 

Ele (a) dirá, sempre que possível, que te ama. Mas nem sempre vai ser com um simples “te amo”. Vai acabar inventando outras formas pra isso. Vai fazer isso te colocando nos textos dele, em todos um pouco. Nos contos, um dos personagens vai ter seu costume de bater muitas fotos, outro terá a cor do teu cabelo, um terceiro vai ter teu nome, assim como um quarto vai ter teu sobrenome. Talvez ele coloque teus medos em um, mas também encha outros com teu sorriso, teu jeito de andar e o perfume que ele (a) tanto adora em ti. Vai colocar um personagem usando a roupa com que ele (a) acha que você fica mais bonita (o). Vai esconder coisas que se referem a ti em tudo que ele escrever, porque você já faz parte de tudo isso que ele (a) escreve. Mas, além de tudo isso, ele (a) vai se render também ao simples (e sempre verdadeiro) “eu te amo”.

 

Ele (a) nem sempre te dirá o que sente, pois às vezes nem ele (a) mesmo (a) sabe bem explicar. Mas depois, assim que tudo passar, ele (a) vai escrever sobre isso. Vai pôr seus sentimentos ali, nus como um manequim sem roupas ou acessórios, e talvez você, assim, o entenda. Mas mesmo que não saiba dizer o que sente, ele (a) saberá dizer o que você sente. Vai notar, melhor do que a maioria, que o seu tom de voz mudou, que a sua maquiagem não está completa, que o seu olhar está perdido e que o seu suspiro está mais pesado. Vai sentir, mesmo de longe, que o seu coração está triste só pelo jeito que você diz “oi”. Ele (a) vai saber que não está tudo bem, e fará de tudo para que você sorria de novo, por odiar te ver assim e, claro, porque o seu sorriso é a maior inspiração para ele (a).

 

E é assim que o (a) escrito (a) vai te ver: como inspiração. Como a fonte inesgotável de sentimentos que ele (a) pega, como tinta, e joga no papel, onde vai desenhar tudo o que ele sente e pensa sobre você com as mais diversas palavras e expressões, que às vezes ninguém entende. Nem mesmo você às vezes entenderá. Mas saiba que é real, tudo aquilo.

 

Mas mesmo que você não se apaixone por ele (a), ou que o amor termine, ele (a) não vai te esquecer. A vida de vocês vai continuar, como sempre continua, mas ele (a) vai sempre guardar um parágrafo carinhoso no texto dentro dele sobre você. É como uma homenagem dele a tudo que você representou: toda a inspiração, todas as novidades e todas as palavras não ditas pela voz, mas pelas letras. Sempre terá um pedaço de você dentro dele.

 

O escritor é um mentiroso, sempre. Não há exceções. Ele (a) mentirá sobre tudo e sobre todos, até quando ele puder, e até mesmo quando não puder. Mas se um (a) escritor (a) se apaixonar de verdade por você, ele nunca vai mentir uma palavra sequer sobre você. Mesmo que ele tente, ele não vai conseguir.

 

Abraços.

Anúncios

Nem sempre somos tão felizes.

Há pessoas que conseguem, sim, ser felizes na maior parte do tempo. Pessoas alto astral, sorridentes, que encontram ânimo pra acordar e pensar “hoje o dia vai ser bom” ou coisas assim. Pessoas que conseguem lidar bem com sentimentos, na medida do possível, além de terem sempre a capacidade de “querer ser feliz” e, com isso, conseguirem. Mas nem todo mundo é assim. Nem todos conseguem direito.

 

Porque felicidade, pra essas últimas pessoas, é uma construção sem planejamento. É quase que uma questão de pura sorte. Seria tão bom, tão mais simples e muito mais gratificante acordar sempre radiante ou, ao menos, querer estar radiante. Mas acontece que, na maior parte do tempo, acordar pode já se tornar por si só um fardo. Não por preguiça ou por noite mal dormida; mas porque dentro do peito a bagunça é tão grande que a cabeça nem o resto do corpo funcionam direito. Então ficar ali deitado parece mais fácil (e, para estas pessoas, realmente é).

 

Ah, seria maravilhoso, imagino, poder ler algo como “se valorize”, “tenha mais positividade”, “não seja pessimista” ou “ter amor próprio é a melhor forma de ser feliz” e conseguir internalizar isso tudo. Mas às vezes esse tipo de coisa parece apenas um conjunto de palavras vazias e meio banais. Não entra na cabeça sempre que é só a gente querer ficar bem que tudo vai melhorar. De fato, talvez o início do processo seja isso: perceber que estamos infelizes e tentar mudar. Mas o “tentar mudar” é mais difícil pra alguns. É difícil mesmo. Simplesmente querer não resolve muita coisa. É como imaginar que um dia as coisas melhoram porque tem de melhorar. As coisas nunca “tendem” a melhorar; são somas de ocasiões, sorte, azar, oportunidades, ajuda, paciência e perseverança. Principalmente para pessoas que não são “felizes por natureza” (se é que isso existe mesmo)

 

Forçar a felicidade pode ser que funcione para algumas pessoas, mas para outras não. Tentar gostar do trabalho chato, tentar gostar de uma pessoa, tentar acreditar que o universo vai nos trazer coisas boas não ajuda. Talvez pela crença de que nada acontece porque tem de acontecer, e sim pelo acaso, as coisas sejam mais simples: nada tem de ser bom ou ruim, não importa o quanto você queira que as coisas sejam boas, por exemplo. As coisas simplesmente são daquela forma, assim como algumas pessoas simplesmente são desse jeito.

 

É claro que se relacionar com pessoas de bem com a vida, sempre bem pra cima, que dão aquele “bom dia” sorridente em plena segunda feira de manhã cedo é mais prazeroso. Eu mesmo convivo com pessoas assim. Acontece que nem todos são dessa forma. Nem todo mundo consegue.

 

Ter um amigo, se apaixonar ou ser pai/filho de alguém que seja mais “triste” ou não tão absurdamente alegre sempre pode ser cansativo. Afinal, pessoas assim tendem a ser bastante sentimentais, e lidar com sentimentos próprios nem sempre é fácil, mas ter de lidar com sentimentos dos outros é sempre mais complicado, acredito. Às vezes a vontade é que a pessoa que gostamos mesmo fique bem, que resista ao baixo astral e que sorria logo, mas nem sempre podemos fazer alguma coisa que não seja ouvir e apoiar (que são coisas extremamente difíceis, mesmo não parecendo).

 

Felicidade, ao meu ver, é algo que se constrói bem devagar. Não se deve ter pressa, porque a felicidade que vem com muita facilidade é, na verdade, frágil. E quando vier a primeira porrada ela se destrói, e depois fica ainda mais difícil de se reconstruir. A felicidade não pode estar em alguém ou alguma coisa, pois não controlamos o tempo que alguém vai ficar conosco ou quanto tempo alguma coisa pode durar. Uma pessoa pode nos abandonar por inúmeras ocasiões: pela morte, pela distância física, pelos problemas de relacionamento e pelo próprio tempo. Assim como objetos também quebram, desgastam e perdem utilidade. A felicidade não pode estar em coisas assim.

 

Talvez o segredo seja aprender a conviver com essas situações chatas. Talvez não, quem sabe? Talvez seja apenas um equilíbrio certo entre a tristeza e a alegria, para que não afundemos na dor nem fiquemos iludidos demais com a euforia. Por isso (pra mim) não é possível estar feliz do nada, porque nada que realmente dura se forma do nada. Nenhuma árvore de nasceu do nada; é preciso tempo e cautela, e um pouco de esperança, mesmo para os mais pessimistas.

 

A vida não é uma certeza, nada que faz parte dela é. Não nascemos para sermos felizes, mas também não nascemos para sermos tristes. Nem a felicidade, e muito menos a tristeza são certezas na vida. Isso não é uma visão pessimista; longe disso. É apenas uma visão de que nada é predestinado e nada tem de ser exatamente como queremos. Aceitar isso pode ser algo bom, ou até mesmo um fardo, mas isso depende de como enxergamos a vida e que sentido damos a ela.

 

Abraços.

Nenhuma grande perda a gente supera fácil.

Não adianta seguir fórmulas. Não adianta buscar por respostas. Não há muito o que se fazer na maioria das vezes que algo que a gente gosta não faz mais parte de nós. E esse algo pode ser tanta coisa que mal sabemos, às vezes, por onde começar. Mas é fato que, em todos os casos, só uma coisa é verdadeira: se o sentimento de perda for real, então a dor é tão real quanto, e apenas (infelizmente apenas) o tempo faz a dor passar um pouco.

 

Acontece que somos acumuladores de sentimentos. Somos seres que nos relacionamos porque precisamos ou porque, ocasionalmente, aconteceu. Podemos conhecer tantas pessoas todos os dias sem querer: na escola, na fila do supermercado, caminhando na praia, numa festa, em uma viagem, num show, na academia. Passamos, esbarramos, nos encontramos e damos bom dia pra muitas pessoas sempre. Às vezes, por sorte ou acaso (que são, nesse ponto, a mesma coisa), acabamos conhecendo alguém especial pra gente.

 

Pode ser um novo amigo, um novo companheiro de caminhadas ou uma pessoa por quem nos apaixonamos naquele instante. As relações se formam sem aviso e crescem como árvores alegres. Quando percebemos já estamos cheios de flores, folhas e frutos dessas plantas, infestando nosso corpo e nos tornando uma verdadeira floresta de sentimentos bons. Os ruins, em geral, conseguimos podar bem, nos afastando daquilo que não queremos por perto de nós.

 

O problema é quando existe algo que nos faz mal, mas não queremos deixar ir. No caso, quando se faz necessária uma despedida, por assim dizer.

 

Casos como quando é hora de dizer “até logo”, sendo que essa pequena despedida não tem data para um reencontro. Cortar uma dessas árvores que, muitas vezes, já têm raízes fortes e profundas na gente dói muito. Dói como se estivéssemos mesmo cortando uma parte de nós, como um braço, uma perna ou uma parte do coração. E a dor de cortar um sentimento é enorme, que dificilmente se compara a algo físico, pois algumas feridas no corpo cicatrizam com remédios; mas essas da alma nenhum remédio conserta de verdade.

 

Os sentimentos entranham na gente. Fazem na gente sua casa, seu refúgio e seu recanto de paz. Mas às vezes a vida os obriga a saírem de dentro de nós. Então, de repente, sem nenhum maldito aviso ou carta de despacho, eles vão embora.

 

Você já não encontra com o mesmo amigo no futebol de domingo, mas sim outra pessoa, alguém com quem você não tem mais a mesma intimidade e a mesma parceria. Você já não tem mais que sair de manhã pra passear com seu cachorro, porque ele já estava velhinho demais quando partiu. Você não vê mais o seu amor do outro lado da cama, pois ele foi embora faz algumas semanas, após brigas e desgastes, e sobraram fotos de vocês pelo quarto e nas mídias do celular. Você não pode mais mandar mensagens para alguém porque, pelo bem de ambos, é melhor assim. É uma forma dos dois ficarem bem, mesmo isso parecendo irracional.

 

Às vezes é preciso ir embora querendo ficar. E isso é uma das maiores idiotices e, ao mesmo tempo, verdades que existem na vida.

 

Vamos perdendo tantas coisas durante nossos dias que às vezes desistir parece ser mais fácil. Pra quê plantar novos sentimentos se logo eles morrem e ficamos tristes? É o que muita gente pensa. Muita gente mesmo. Mas não plantar nada é pior. Viver num campo sem árvores, num jardim vazio, é bem pior mesmo. Por isso estamos sempre nos recompondo, mesmo não querendo. Vamos encontrando novos amigos, novas rotinas e novos amores, plantando novamente em novos espaços. Mas nunca nos espaços deixados por quem perdemos.

 

Isso porque é impossível substituir alguém que realmente amamos algum dia, seja a pessoa que for. Não se cura a dor de um amor com outro, pois nenhum amor é igual. São pessoas distintas, momentos e sentimentos diferentes. Nós nos acostumamos a falta, a ausência e a breve solidão. Com o tempo a ferida cicatriza, depois de tanto latejar, e então fica a marca ali no nosso corpo, como uma tatuagem que deu errado. Somos, no fim, um retalho de coisas de deram certo e coisas que deram errado, e nunca apenas um dos dois. Carregamos conosco um amor que acabou, um que espera pra nascer e um que já nasceu.

 

E não é fácil, nem nunca vai ser, se acostumar a alguma grande perda. Leva tempo. Depende de quanto espaço a pessoa tinha dentro de nós, mas isso a gente não controla. Porque tem gente que entra dizendo que vai ficar só um minuto e fica uma vida toda, mesmo depois de ir embora. Diz que só quer um fio de cabelo pra morar, mas mora num pedaço bem maior. Se acostumar a viver, pagar as contas, estudar, comer, rir e continuar a se levantar da cama todos os dias sem aquilo que estava aqui dentro, ocupando esse enorme espaço é muito, muito difícil.

 

Então não adianta se culpar por perder. Nem sempre temos culpa, e menos vezes ainda teremos chance de tentar reparar o que aconteceu. O que se pode fazer é aceitar que as coisas aconteceram e que, apesar de tudo, estamos vivos. E que, com o tempo, a ferida não dói mais tanto, e a cicatriz se torna uma marca como qualquer outra, sem sentir nada ali ou incomodar mais.

 

Abraços.