Nenhuma grande perda a gente supera fácil.

Não adianta seguir fórmulas. Não adianta buscar por respostas. Não há muito o que se fazer na maioria das vezes que algo que a gente gosta não faz mais parte de nós. E esse algo pode ser tanta coisa que mal sabemos, às vezes, por onde começar. Mas é fato que, em todos os casos, só uma coisa é verdadeira: se o sentimento de perda for real, então a dor é tão real quanto, e apenas (infelizmente apenas) o tempo faz a dor passar um pouco.

 

Acontece que somos acumuladores de sentimentos. Somos seres que nos relacionamos porque precisamos ou porque, ocasionalmente, aconteceu. Podemos conhecer tantas pessoas todos os dias sem querer: na escola, na fila do supermercado, caminhando na praia, numa festa, em uma viagem, num show, na academia. Passamos, esbarramos, nos encontramos e damos bom dia pra muitas pessoas sempre. Às vezes, por sorte ou acaso (que são, nesse ponto, a mesma coisa), acabamos conhecendo alguém especial pra gente.

 

Pode ser um novo amigo, um novo companheiro de caminhadas ou uma pessoa por quem nos apaixonamos naquele instante. As relações se formam sem aviso e crescem como árvores alegres. Quando percebemos já estamos cheios de flores, folhas e frutos dessas plantas, infestando nosso corpo e nos tornando uma verdadeira floresta de sentimentos bons. Os ruins, em geral, conseguimos podar bem, nos afastando daquilo que não queremos por perto de nós.

 

O problema é quando existe algo que nos faz mal, mas não queremos deixar ir. No caso, quando se faz necessária uma despedida, por assim dizer.

 

Casos como quando é hora de dizer “até logo”, sendo que essa pequena despedida não tem data para um reencontro. Cortar uma dessas árvores que, muitas vezes, já têm raízes fortes e profundas na gente dói muito. Dói como se estivéssemos mesmo cortando uma parte de nós, como um braço, uma perna ou uma parte do coração. E a dor de cortar um sentimento é enorme, que dificilmente se compara a algo físico, pois algumas feridas no corpo cicatrizam com remédios; mas essas da alma nenhum remédio conserta de verdade.

 

Os sentimentos entranham na gente. Fazem na gente sua casa, seu refúgio e seu recanto de paz. Mas às vezes a vida os obriga a saírem de dentro de nós. Então, de repente, sem nenhum maldito aviso ou carta de despacho, eles vão embora.

 

Você já não encontra com o mesmo amigo no futebol de domingo, mas sim outra pessoa, alguém com quem você não tem mais a mesma intimidade e a mesma parceria. Você já não tem mais que sair de manhã pra passear com seu cachorro, porque ele já estava velhinho demais quando partiu. Você não vê mais o seu amor do outro lado da cama, pois ele foi embora faz algumas semanas, após brigas e desgastes, e sobraram fotos de vocês pelo quarto e nas mídias do celular. Você não pode mais mandar mensagens para alguém porque, pelo bem de ambos, é melhor assim. É uma forma dos dois ficarem bem, mesmo isso parecendo irracional.

 

Às vezes é preciso ir embora querendo ficar. E isso é uma das maiores idiotices e, ao mesmo tempo, verdades que existem na vida.

 

Vamos perdendo tantas coisas durante nossos dias que às vezes desistir parece ser mais fácil. Pra quê plantar novos sentimentos se logo eles morrem e ficamos tristes? É o que muita gente pensa. Muita gente mesmo. Mas não plantar nada é pior. Viver num campo sem árvores, num jardim vazio, é bem pior mesmo. Por isso estamos sempre nos recompondo, mesmo não querendo. Vamos encontrando novos amigos, novas rotinas e novos amores, plantando novamente em novos espaços. Mas nunca nos espaços deixados por quem perdemos.

 

Isso porque é impossível substituir alguém que realmente amamos algum dia, seja a pessoa que for. Não se cura a dor de um amor com outro, pois nenhum amor é igual. São pessoas distintas, momentos e sentimentos diferentes. Nós nos acostumamos a falta, a ausência e a breve solidão. Com o tempo a ferida cicatriza, depois de tanto latejar, e então fica a marca ali no nosso corpo, como uma tatuagem que deu errado. Somos, no fim, um retalho de coisas de deram certo e coisas que deram errado, e nunca apenas um dos dois. Carregamos conosco um amor que acabou, um que espera pra nascer e um que já nasceu.

 

E não é fácil, nem nunca vai ser, se acostumar a alguma grande perda. Leva tempo. Depende de quanto espaço a pessoa tinha dentro de nós, mas isso a gente não controla. Porque tem gente que entra dizendo que vai ficar só um minuto e fica uma vida toda, mesmo depois de ir embora. Diz que só quer um fio de cabelo pra morar, mas mora num pedaço bem maior. Se acostumar a viver, pagar as contas, estudar, comer, rir e continuar a se levantar da cama todos os dias sem aquilo que estava aqui dentro, ocupando esse enorme espaço é muito, muito difícil.

 

Então não adianta se culpar por perder. Nem sempre temos culpa, e menos vezes ainda teremos chance de tentar reparar o que aconteceu. O que se pode fazer é aceitar que as coisas aconteceram e que, apesar de tudo, estamos vivos. E que, com o tempo, a ferida não dói mais tanto, e a cicatriz se torna uma marca como qualquer outra, sem sentir nada ali ou incomodar mais.

 

Abraços.

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