Nem sempre somos tão felizes.

Há pessoas que conseguem, sim, ser felizes na maior parte do tempo. Pessoas alto astral, sorridentes, que encontram ânimo pra acordar e pensar “hoje o dia vai ser bom” ou coisas assim. Pessoas que conseguem lidar bem com sentimentos, na medida do possível, além de terem sempre a capacidade de “querer ser feliz” e, com isso, conseguirem. Mas nem todo mundo é assim. Nem todos conseguem direito.

 

Porque felicidade, pra essas últimas pessoas, é uma construção sem planejamento. É quase que uma questão de pura sorte. Seria tão bom, tão mais simples e muito mais gratificante acordar sempre radiante ou, ao menos, querer estar radiante. Mas acontece que, na maior parte do tempo, acordar pode já se tornar por si só um fardo. Não por preguiça ou por noite mal dormida; mas porque dentro do peito a bagunça é tão grande que a cabeça nem o resto do corpo funcionam direito. Então ficar ali deitado parece mais fácil (e, para estas pessoas, realmente é).

 

Ah, seria maravilhoso, imagino, poder ler algo como “se valorize”, “tenha mais positividade”, “não seja pessimista” ou “ter amor próprio é a melhor forma de ser feliz” e conseguir internalizar isso tudo. Mas às vezes esse tipo de coisa parece apenas um conjunto de palavras vazias e meio banais. Não entra na cabeça sempre que é só a gente querer ficar bem que tudo vai melhorar. De fato, talvez o início do processo seja isso: perceber que estamos infelizes e tentar mudar. Mas o “tentar mudar” é mais difícil pra alguns. É difícil mesmo. Simplesmente querer não resolve muita coisa. É como imaginar que um dia as coisas melhoram porque tem de melhorar. As coisas nunca “tendem” a melhorar; são somas de ocasiões, sorte, azar, oportunidades, ajuda, paciência e perseverança. Principalmente para pessoas que não são “felizes por natureza” (se é que isso existe mesmo)

 

Forçar a felicidade pode ser que funcione para algumas pessoas, mas para outras não. Tentar gostar do trabalho chato, tentar gostar de uma pessoa, tentar acreditar que o universo vai nos trazer coisas boas não ajuda. Talvez pela crença de que nada acontece porque tem de acontecer, e sim pelo acaso, as coisas sejam mais simples: nada tem de ser bom ou ruim, não importa o quanto você queira que as coisas sejam boas, por exemplo. As coisas simplesmente são daquela forma, assim como algumas pessoas simplesmente são desse jeito.

 

É claro que se relacionar com pessoas de bem com a vida, sempre bem pra cima, que dão aquele “bom dia” sorridente em plena segunda feira de manhã cedo é mais prazeroso. Eu mesmo convivo com pessoas assim. Acontece que nem todos são dessa forma. Nem todo mundo consegue.

 

Ter um amigo, se apaixonar ou ser pai/filho de alguém que seja mais “triste” ou não tão absurdamente alegre sempre pode ser cansativo. Afinal, pessoas assim tendem a ser bastante sentimentais, e lidar com sentimentos próprios nem sempre é fácil, mas ter de lidar com sentimentos dos outros é sempre mais complicado, acredito. Às vezes a vontade é que a pessoa que gostamos mesmo fique bem, que resista ao baixo astral e que sorria logo, mas nem sempre podemos fazer alguma coisa que não seja ouvir e apoiar (que são coisas extremamente difíceis, mesmo não parecendo).

 

Felicidade, ao meu ver, é algo que se constrói bem devagar. Não se deve ter pressa, porque a felicidade que vem com muita facilidade é, na verdade, frágil. E quando vier a primeira porrada ela se destrói, e depois fica ainda mais difícil de se reconstruir. A felicidade não pode estar em alguém ou alguma coisa, pois não controlamos o tempo que alguém vai ficar conosco ou quanto tempo alguma coisa pode durar. Uma pessoa pode nos abandonar por inúmeras ocasiões: pela morte, pela distância física, pelos problemas de relacionamento e pelo próprio tempo. Assim como objetos também quebram, desgastam e perdem utilidade. A felicidade não pode estar em coisas assim.

 

Talvez o segredo seja aprender a conviver com essas situações chatas. Talvez não, quem sabe? Talvez seja apenas um equilíbrio certo entre a tristeza e a alegria, para que não afundemos na dor nem fiquemos iludidos demais com a euforia. Por isso (pra mim) não é possível estar feliz do nada, porque nada que realmente dura se forma do nada. Nenhuma árvore de nasceu do nada; é preciso tempo e cautela, e um pouco de esperança, mesmo para os mais pessimistas.

 

A vida não é uma certeza, nada que faz parte dela é. Não nascemos para sermos felizes, mas também não nascemos para sermos tristes. Nem a felicidade, e muito menos a tristeza são certezas na vida. Isso não é uma visão pessimista; longe disso. É apenas uma visão de que nada é predestinado e nada tem de ser exatamente como queremos. Aceitar isso pode ser algo bom, ou até mesmo um fardo, mas isso depende de como enxergamos a vida e que sentido damos a ela.

 

Abraços.

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