Mês: maio 2017

XVIII Crônica: Pelo telefone.

– Alô? – disse Jéssica, com voz fraca e desanimada.

– Oi, meu bem. Como tu estás? – respondeu Gabriel, com a voz travando, mas ainda assim alegre em ouvir a dela do outro lado do telefone.

 

Depois de uma pausa de alguns segundos bem longos, ela disse:

 

– Não.

– O que tu estás sentindo agora? – indagou Gustavo.

– Dor…de cabeça, no peito. Tô tonta também, com fome e – uma pausa rápida – com saudade.

– É…eu imagino. Queria estar aí contigo. Queria poder te ajudar mais, sabe? É uma merda isso de não ser capaz de fazer tudo sempre. E eu só começo a achar que isso é ruim agora, depois de te ver desse jeito. Eu quero ir aí hoje, posso?

– Não – disse Jéssica, querendo dizer “sim” – Os médicos não vão deixar. Eles mandaram o Pedro embora agora há pouco. Eles estão me deixando sozinha aqui. Não quero ficar sozinha…

– Amor, calma. Não estão te deixando sozinha. É um procedimento padrão, eu acho. Não concordo, mas infelizmente a gente precisa seguir isso, pelo menos agora. Sei, digo…imagino…que seja terrível a tua situação aí. Acredita em mim quando eu te falo que queria estar toda hora contigo. Porque eu queria.

 

Ela respirou fundo, dando pra ouvir bem o ar passando pelas narinas dela do outro lado da ligação, e disse:

 

– Por que você não vai embora? Eu tô te fazendo sofrer. Você merece algo melhor. Merece alguém saudável, alguém que consiga fazer as coisas direito, não uma louca que nem eu. Vai embora, Gabriel. Vai enquanto dá tempo. Você só vai sofrer comigo.

– Não vou embora nada, Jéssica. Nem adianta repetir isso pra mim várias vezes. Pode falar o que quiser, mas não existe isso de merecer. Eu te quero, só a ti. E não vai ser um contratempo desses que vai me assustar. Ora porra, se eu não te quisesse tanto eu não te escrevia toda hora alguma, mesmo aquelas que tu não leste ainda.

 

Ambos riram um pouco, o que foi bom pra quebrar a tensão. De alguma forma, ele sabia que ela estava sorrindo.

 

– Tá com o violão aí? – ela perguntou a ele, com a voz mais doce, mas ainda um pouco dolorida.

– Tô sim, meu bem. Queres ouvir alguma música?

– Quero. Toca a minha?

– Claro! Só pegar ele aqui.

 

Gabriel largou o telefone por um segundo, levantou rápido da cama, correu pro canto do quarto, retirou o violão da capa e pegou o celular de novo.

 

– Oi. Voltei.

– Oi.

– Posso tocar então?

– Pode.

 

De novo, ele sabia que ela estava sorrindo. Então começou a tocar.

 

Cada nota ali era ela, de alguma forma. Cada sequência, cada escala descendente, toda cadência perfeita, imperfeita, interrompida, de engano, todas as frases, membros de frase, elisões, modulações e fraseados eram ela. Toda ela. E durante a segunda parte, quando o tom ia para outro diferente, distante e maior, ele começou a sentir os olhos pesados, “marejados”, como ela dizia. Então a respiração ficou tensa e os suspiros de melancolia vieram logo sem nenhuma precaução.

 

Ele terminou de tocar com força e sentimento, tendo ela inteira na mente, sua imagem e cheiro. E depois perguntou se ela tinha gostado, se tinha ouvido bem e coisas assim. Ela respondeu:

 

– Você está chorando?

– Só um pouco, relaxa – respondeu a ela – Nada de mais.

– Por que você tá chorando, amor?

– Ah, tu sabes. Saudade dói pra caralho.

 

Ela ficou em silêncio. Agora, ela que começou a chorar. Sem prantos, só a respiração pesada e lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela disse:

 

– Lê pra mim?

– Leio sim, meu bem. O que tu queres? Algum conto? Poema?

– Qualquer coisa. Só tô com saudade de ti ouvir lendo pra mim.

– Tá bom, deixa eu pensar em algo aqui rapidinho.

 

Então ele escolheu um conto que havia escrito sobre eles. Sobre como se conheceram, há exato um mês e cinco dias. Ele leu, interpretando falas dos dois, de momentos que estavam embriagados (quase todo o conto), rindo, chorando, discutindo sobre tantas coisas ali naquelas palavras. Em determinado momento, Jéssica parou-o e disse:

 

– Desculpa, preciso tomar remédios agora. Posso te ligar depois?

– Claro, meu bem. Liga sim. Eu te espero.

 

Desligaram.

 

Minutos depois, ela ligou de novo, e ele retomou o conto.

 

Ao fim, ela, já suspirando de novo, disse sussurrando, como adorava fazer ao telefone:

 

– Eu te amo, Gabriel.

 

E ele, sem mais nada a dizer, apenas respondeu:

 

– Eu te amo, Jéssica. E não, antes que tu digas algo, eu não vou embora. Eu tô contigo, em qualquer situação. A gente vai passar por essa barra. Vamos sim. E a gente ainda vai pra Paraty nas férias, ainda vamos acampar naquela praia lá que eu não me lembro do nome em algum canto de Niterói, ainda vamos fazer guerra de cheddar, tu sujando a minha barba e eu o teu cabelo, vamos beber até rir de qualquer coisa besta, recitar tantas e tantas poesias, cantar desafinados, enfeitar o domingo, discutir Caetano e morrer de rir. Tudo isso juntos. Vamos?

 

– Vamos!

 

E a animação dela deu um pouco de esperança pro coração dele. Aquela esperança que nunca sumiu, mas que se escondeu muito bem naqueles dias tão tristes, tão pesados e tão doloridos para aqueles dois.

 

– Preciso resolver umas coisas aqui com os médicos, tá bom? Eles vão ter que aplicar alguns remédios, e antes eu preciso comer. Posso ligar pra você depois?

–Claro, meu bem – respondeu Gabriel, sorrindo. – Liga a qualquer hora. Tô te esperando. Tá bom?

– Tá bom. – ela respondeu, querendo ficar mais um pouco. – Te amo.

– Também te amo, meu bem.

 

E ela desligou.

 

E ele escreveu.